NATAL PRESS

Voltamos ao tempo da escravidão. O governo acaba de firmar acordo, com interveniência da Organização Panamericana de Saúde (OPAS) e Cuba, no sentido de serem enviados para cá 4.000 supostos médicos cubanos. O Brasil pagará dez mil reais por cada um deles. Vai entregar o dinheiro à OPAS que, por sua vez, o entregará à Cuba. Esta pagará aos supostos médicos uma importância não estabelecida no acordo. Lá, informa-se, eles ganham vinte dólares por mês. Ficarão em locais pré-determinados, e dele não se podem mover. Pelo menos é o que se escuta na TV e se lê nos jornais. Portanto, voltamos ao tempo da escravidão e, pior, terceirizada. Duas coisas que os nossos sindicatos de trabalhadores, com razão, vêm combatendo há muito. Vamos ver o que dirão os defensores dos direitos humanos. E o Ministério Público.

O outro aspecto incrível desse acordo é que esses médicos não farão exames de revalidação. Passarão, segundo parece, por uma rápida análise em algumas universidades, onde se pretende ensinar português, e irão diretamente para o trabalho. Ninguém sabe de sua capacidade profissional, que atendimento prestarão, e se realmente contribuirão para a saúde do povo. E como se entenderão com esse povo. Uma coisa é certa. Só virão para cá os apadrinhados do regime, com toda a feitura para agirem como prosélitos do sistema, pois os dissidentes não terão qualquer chance de aqui aportarem. E não se podem rebelar, pois suas famílias continuam em Cuba.

Podem pagar um preço alto.

Este governo do PT, apoiado por quase todos os partidos, obviamente comprados com cargos e benesses, está de mal a pior, totalmente perdido. Para onde se olha, o descalabro. A economia em frangalhos. Basta olhar o preço do dólar e a queda da Bolsa, da produção industrial, das contas externas, do desemprego que começa a aumentar e da inflação que ressurge. Insatisfação nas ruas. Saúde, educação, mobilidade urbana, corrupção, desmandos e malfeitos abundam. As soluções são engodos, como os desses supostos médicos.

Aparecem protestos das entidades médicas. É de supor que agirão com mais firmeza, e usarão os meios legais ao seu dispor para buscar o cancelamento desse acordo espúrio. E é de se acreditar que contarão com o respaldo da Justiça, que não pode se coadunar com tamanho despautério. É esperar para ver.

A tirania de que se falará aqui não é a política, embora esta deva ser sempre combatida e a ela estarmos atentos. É só olhar ao nosso redor, e a vemos se instalando fortemente em vários países vizinhos.

A tirania da qual vamos falar é a da que usa uma pseudo proteção à nossa saúde e à nossa segurança como argumento. Com essa justificativa, os governos de todo o planeta, e o nosso segue o modelo, vêem tomando medidas coercitivas que tolhem cada dia mais nossa liberdade individual. Nossa liberdade de escolha. E o argumento é o de nossa proteção.

Não é difícil encontrar exemplos. Basta olhar para as medidas anti-fumo mais recentes para se identificar o problema. Não que seja contra essas medidas, mas sim ao seu exagero. Deixei de fumar há quase quarentas anos. Naquele tempo, praticamente não havia medidas coercitivas contra o fumo. Era este livre e permitido em todos os lugares. As carteiras de cigarro não traziam essas mensagens e imagens fantasmagóricas comuns atualmente. Resolvi parar e pronto. Claro, há pessoas que não conseguem abandonar o vicio. Mas, para estas, existem vários tratamentos.
Não que defenda o cigarro. Acho intolerável, talvez até por ser ex-fumante, o cheiro e a fumaça de cigarro. Sou favorável a proibição de cigarros em ambientes fechados. Mas essa restrição ao fumo está atingindo limites que começam a invadir a liberdade individual das pessoas. A última lei promulgada em São Paulo vai às raias do exagero, quando proíbe o fumo até mesmo em áreas de lazer de condomínios. Invasão de privacidade. Parou na porta dos apartamentos.

Mas esse é um exemplo apenas. No transito, temos outra área onde o exagero é patente. Sob o argumento de preservar nossa vida, exigem comportamentos que se podem considerar excessivos. O uso obrigatório de extintor de incêndio nos carros, até onde sei apenas existente no Brasil, e de uma utilidade duvidosa, é um exemplo. Quando há um incêndio num automóvel, a primeira reação é abrir a porta e sair correndo. Poucos têm a presença de espírito e a tranqüilidade para buscar o extintor e utilizá-lo, quase sempre sem maior sucesso. Lembra o kit de primeiro socorros que nos foi exigido, e que de tão ridículo foi rapidamente suspenso.

O uso do capacete pelos motociclistas podem, acredito, evitar algumas mortes. Mas o restante do corpo está totalmente exposto. Além disso, serve para esconder o rosto de possíveis assaltantes.

Discute-se no Senado legislação que tenta "disciplinar" o uso da internet. Pretendem exigir o acompanhamento de todos os acessos dos internautas, dos seus emails, dos sites que visitam. O argumento usado para essas medidas é o mesmo - nossa proteção. Mas é transformar um instrumento que consolida a liberdade de comunicação em um instrumento de controle de nossa individualidade. À exemplo do que faz a China, o Irã, e outros países de regime ditatorial.

Essas e outras medidas semelhantes têm em comum o custo, que todos nós pagamos e que enriquecem uma quantidade indefinida de empresas. Aliás, quando essas medidas são tomadas, é provavelmente certo encontrar um lobby por trás delas.

Mas o pior disso tudo é a invasão de nossa liberdade de escolha, de decisão, sob o argumento antes mencionado, de proteção à nossa saúde e à nossa segurança. E cada medida desse tipo, em que restringem nossa liberdade individual, nosso poder de decisão, nos levará, se não tivermos cuidado e não resistirmos, a um incremento continuado da intervenção do Estado em nossas vidas.

Lembra-me Orwell. Se o sistema de governo e de controle descrito por ele ainda não ocorreu totalmente, essa "boa vontade" do governo na suposta busca de nossa integridade física, saúde e segurança, poderá nos levar ao que ele descreve em seu "1984". Um "Grande Irmão" nos espreitando permanentemente. Há que ficar atento."


DALTON MELO DE ANDRADE é Professor universitário (aposentado). Foi Secretário de Estado da Educação do Rio Grande do Norte

“As time goes by”

Do filme “Casablanca”

Vou comprar uma ampulheta. Ampulheta é aquele treco cheio de areia, que se usava para marcar o tempo. De hora em hora, ela tinha que ser virada. Com uma vantagem sobre o relógio – não adianta, nem atrasa. A minha vai ficar deitada. Para ver se o tempo passa mais devagar. Quando era menino, minha ansiedade era chegar aos 18. Emancipação, mas o motivo real era tirar, como se dizia então, carteira de chofer. Depois dos 18, a coisa desandou, numa velocidade tal que, de repente, cheguei aos 80. E ainda bem, pois a alternativa é pior.

O New York Times de 21 de julho publica um artigo do Dr. Richard Friedman, professor de Psiquiatria Clínica do Weill Cornell Medical College, sobre essa coisa do passar rápido do tempo. Pesquisas feitas por ele mostram que essa sensação é real. Mas real ainda, quando se consulta essa passagem por decênios. Fica aí mais evidente a sensação de que, para os mais velhos, aparentemente, um decênio passa mais rápido do que para os mais jovens.

Essa sensação da pressa do tempo, desagradável mais real, já vem me enchendo a paciência há muito. Nunca tinha lido nada que viesse confirmar minha preocupação. Nem nada que a contrariasse. Mas, não resta dúvidas que essa velocidade não seria tão má, se fosse possível ser controlada. Entre outros benefícios, o de tirar do poder esses governos incompetentes que temos, com mais rapidez.

Diz ele que essa impressão deve ser causada pela diminuição de novos eventos na vida dos mais velhos. Quando você é criança, tudo é novidade. Se vive num aprendizado permanente, e esse aprendizado é, mais das vezes, lento. Aprender a nadar, andar de bicicleta, e coisas afins, leva um certo tempo. E isso lhe dá a impressão de que o tempo anda devagar.

Não se desespere, diz. Essa aparente velocidade do tempo é meramente um ilusão cognitiva, e posso lhes assegurar que há modos de demonstrar isso e deixar claro que é possível diminuir a velocidade aparente da passagem do nosso tempo.

O essencial, segundo ele, é você se manter ocupado. Ler, e ler muito. Aprender coisas novas. Manter-se ativo. E conta a história do pai. Engenheiro, quando se aposentou, não parou de sua atualizar. Lia tudo que lhe caia nas mãos. E nunca reclamou que o tempo passava rápido.

Pode ser. Eu gosto de ler. Leio do resultado do jogo do bicho às coisas sérias. Mas, que diabo, ainda assim acho que o tempo está muito apressado. Eu sei aonde ele quer chegar. Mas, para ir a esse lugar, não tenho nenhuma pressa.

Vou comprar a ampulheta. E conservá-la deitada. Quero ver o tempo passar!

Dalton Melo de Andrade - Escrevinhador

As notícias são preocupantes. Especialmente para os funcionários. O Estado não vai pagar a folha de pessoal deste mês, dizem os jornais. O Estado nega; sim, vai pagar, sem problemas. Esperamos que sim. 

Não sei se os mais jovens sabem a razão de sermos nós norte-rio-grandenses chamados de papa-jerimum. O termo já não é usado como antigamente. Provavelmente, tampouco conhecem sua origem. Verbete no Dicionário do folclore brasileiro mostra que o nome papa-jerimum surgiu em razão de uma iniciativa do Presidente da província do RN, Lopo Joaquim de Almeida Henriques, que a administrou de 30/8/1802 a 19/2/1806. Mandou fazer roçados de mandioca e melancia (não se falava em jerimuns), para possivelmente pagar os funcionários públicos. No ano de 1906, no Jornal Diário de Natal, o autor da coluna “De meu canto”, de pseudônimo “Neto”, publicou a pretensão do governador Pedro Velho de pagar os funcionários com jerimuns.

Já conhecia essa história. Sempre ouvi comentários de que a nossa Policia chegou a ser paga com jerimuns. Não se sabe se essa forma de pagamento realmente ocorreu e se foi estendida aos demais funcionários.

Agora, quando vejo nos jornais a ameaça de atraso no salário dos funcionários do Estado, mais de cem anos depois de Pedro Velho, vemos como somos capazes de repetir a história. Sempre para pior. Não estou sugerindo que seja adotada essa solução. Longe de mim essa idéia. Mas, parece haver precedentes. Toda essa situação evidencia como uma administração incompetente nos deixa entregues ao “Deus dará”. Não aprendemos nunca.

Todas as manifestações das ruas, todos os protestos, todas as reclamações, parecem passar despercebidas à classe política, que continua agindo como se fossem inexpugnáveis e estivessem acima do bem e do mal. Como se estivessem a dizer “isso não é comigo”. Uma tristeza.

Mas, enquanto há vida, há esperança, diz o velho bordão. E os brasileiros vivem, há muito, de esperança. Acreditam até que Deus é brasileiro. No final, crêem, tudo dará certo. Talvez, com a visita do Papa, a mente e o comportamento de nossos políticos (ia escrever dirigentes, mas achei demais), se modifiquem, se iluminem. E que a governadora arranje “plata” para pagar as contas, se é que o problema existe, como propalam os periódicos. E os cortes orçamentários que aparecem neles nos deixa pensar que sim, existem.

Dalton Melo de Andrade é escrevinhador

Promessa feita, promessa cumprida. E começo com a razão do apelido de Ivanildo “Deus”. É que foi testemunha de dois acidentes, na mesma hora, um na Cidade Alta e o outro no Alecrim. Era campeão de piadas. Ninguém, perto dele, parava de rir um minuto. Foi embora de Natal, formou-se em Direito, foi nomeado Promotor de uma Comarca, segundo ele, tão longe do Recife que não tinha nem anuncio da Coca-Cola. Uma das últimas notícias que tive dele é que está escrevendo um livro cujo titulo será “Só Deus sabe”.

Um dia, chegou ele junto de Celestino, com as suas brincadeiras usuais. Diretor, Celestino era rígido com a correção de nosso fardamento: roupa caqui, camisa branca, gravata preta, sapato preto, meia preta e quepe. Levantou a calça de Deus, que estava sem meia. Mandou-o para a casa na hora: vá calçar uma meia e volte!
Um outro colega de turma, Aurino Dantas, era conhecido por “Arroz doce”. Vermelho, muito alvo, tinha a cara toda pintada. Formou-se em Medicina no Recife, e ficou por lá. Era irmão de Antonio “Careca”, que não era de nossa turma, mas outra grande figura e meu companheiro de Iate Clube por uma eternidade, que infelizmente teve fim.
Outra figura de nossa turma, inesquecível, e que faleceu há algum tempo, era Aluízio Azevedo. Tinha uma deficiência física, por ele superada e sem complexos, e seu apelido era “Pirata” – por causa da perna de pau. Escritor, foi da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Tinha um colega nosso que roubava a muleta dele, e as provas, para copiar. Claro, escondido dos professores. Aluízio era do melhores alunos e só tirava notas boas.

Contemporâneo, o “Magnata”. Luiz, o primeiro nome dele. Vivia no Grande Ponto, sempre bem vestido, bom papo. Marinheiro, descobrimos depois, escafandrista, tinha comportamento de milionário. Foi fazer o artigo 91, que então permitia fazer o ginasial de uma só vez. No exame de Inglês, com Celestino, chegou falando a língua, que tinha aprendido com os americanos. Celestino mandou que ele sentasse e lesse um trecho do livro: Professor, estou falando com o senhor e ainda precisa ler? Precisa, leia. Não sabia ler; era analfabeto em inglês.

Aluízio Furtado. Nervoso, supersticioso, medo danado de doença, estudioso. Poeta, contista. Tínhamos um colega, um sem-vergonha emérito, Chiquinho. Cabeludo, raspou os cabelos da perna, enganou Aluízio, dizendo, deixe que olhe a mucosa da sua boca (resultado de uma aula de Ciências Naturais), jogou os cabelos na boca dele. Uma briga. Aluízio passou a ser conhecido como “Mucosa”.

Um outro, Ivanildo Seabra, formou-se em Medicina. Cheio de mogangas, ficou conhecido como “Macaquita”. Nunca mais tive notícias dele.
Deixando os colegas de lado, e voltando ao quadro de funcionários. “Tio Emídio” era o Secretário da escola. “Chamirranha” era Inspetor de alunos. E, por incrível que pareça, alguns não tinham apelido. Sérgio, chefe dos Inspetores, um deles; André e Macedo, também não.

Por falar em Tio Emídio. Amigo de meu avô, Graciano Mello, este perguntou-lhe: Emídio, como vai Veríssimo (Vivi) na escola. Mello, respondeu, os outros dois, Pelúsio e Protásio, eram canalhas. Mas esse seu caçula desarreda.

E, para encerrar por hoje, nosso Professor de Matemática, Macedo. “Cegueta”, pois usava óculos de grau fortíssimo. Na terça-feira, as 4:30 da tarde, todo mundo faltava a aula dele, para assistir a fita em série do Royal. Ela já sabia disso, e estava sempre lá, o primeiro a chegar e na primeira fila.

Meu amigo de príscas eras, colega de colégio, e bate-papo permanente Pery Lamartine, lembrou de vários apelidos de colegas e professores de nosso tempo de Atheneu – 1942 até 1949.

De saída, preciso dizer que todos os apelidos aqui comentados não tinham qualquer conotação pejorativa. Pelo contrario, eram forma patente e real de admiração pelas pessoas, quase até uma homenagem, pelo bem-querer intrínseco nessa aparente e, muitas vezes, real intimidade com os homenageados.

O primeiro que nos veio à lembrança foi o de Celestino Pimentel, figura inesquecível para quem foi seu aluno, ou o teve como Diretor. O seu apelido era Celé. Óbvio. Era, com toda certeza, dos mais estimado de nossos professores. Todos o admirávamos pela sua tranqüilidade, igualdade de tratamento, e sua energia, quando necessário. Eu mesmo, por haver quebrado uma carteira numa “amigável” discussão com Amaro Marinho, meu grande amigo de toda uma vida, fui, junto com ele, suspenso por 30 dias. Escapamos da punição por que resolvemos pagar o conserto da carteira. Se não me engano, um mil réis. Para nós, lisos, dinheiro paca.

Um outro professor, muito querido, tinha a audácia de querer nos ensinar Português. Israel Nazareno era conhecido como “Tuiuiú”. Não me perguntem a razão. Mas, era original em seu comportamento. Nas chamadas, quando dizia o nome de algum estudante ausente, completava: ausente, não está, faltou, não veio, não está presente; nunca repetia o termo. Certa feita, chegou para nos dar aula e, quando viu os poucos alunos presentes, comentou: “Palmilhei longos caminhos para dar esta aula, e não os encontro”. Vinha do Atheneu feminino, onde hoje está a Fundação José Augusto, caminhando, até o nosso, na Junqueira Aires. Não tinha carro, e o bonde, muitas vezes, demorava. Para não perder o horário, caminhava.

Clementino Câmara, grande professor, exigente, chegava na hora e não faltava uma aula. Ensinava História do Brasil. Sempre com um charuto, aceso ou apagado, tinha o apelido de “Botocudo”. Não me perguntem a razão. A aula dele era às 7 da manhã, e ai de quem chegasse atrasado.

Tivemos professores de Latim padres e leigos. Dos padres, Monsenhor Landim, das melhores almas que conheci, nunca botava uma nota ruim em alguém; apenas insistia para que estudássemos mais. Já Cônego Luiz Wanderley era durão. E a gente só escapava de nota ruim quando o Vasco ganhava e elogiávamos o time. Como o Vasco perdia mais do que ganhava, já viram. Havia um professor, boa gente, não padre, lembro-me dele, mas esqueci o nome, pois todos o conhecíamos apenas pelo apelido: José Bundinha.

Professor de Desenho, tivemos, primeiro, Hostilio Dantas. A fineza e tranquilidade em pessoa. Não tinha, que me lembre, apelido. Mas o seu substituo, que tinha uma sinal azulado no rosto, era conhecido por “Faixa Azul”. A da cerveja Antártica.

Pedro Soares, outra grande figura, simplicidade e cordialidade em pessoa, se dirigia à nós sempre com um “ora, meus senhores”. Era o seu apelido. Tentou e insistiu, sem sucesso, me ensinar Química. O que leva ao professor de Física, com um livro de Nobre (não me lembro o nome todo do autor), mas, naquela época, já ultrapassado. E que dava como exemplo de alavanca o remo e fulcro do remo de um esquife. Era remador e grande figura, José Gurgel, pai de Ney, nosso colega, que se foi de forma terrível meses atrás.

Muitos outros há que lembrar. Voltarei sobre o assunto, e inclusive com os apelidos dos colegas. Como se dizia nas fitas em série, aguardem até a próxima semana. Como aperitivo, o apelido de Ivanildo Saturnino de Paiva, “Deus”. Vou contar o por que.

Caiu do Céu. Para um governo acossado, para um Congresso encurralado, ambos sem respostas inteligentes e sérias para os protestos de rua, essa tal espionagem do governo americano veio mesmo a calhar.

Fizeram um estardalhaço. Uma reação grotesca, exagerada, injustificável e especialmente infantil, se comparada aos países europeus que sofreram da mesma doença (excluam-se os latino-americanos, mais infantis do que nós), mostra bem a necessidade que tinha o governo de algum acontecimento para desviar a atenção do povo de suas mazelas e alvo de seus protestos, para algo que minimamente lhes afeta, mas que servem para patriotadas. Como disse o ex-ministro Lampreia numa entrevista ao Globo News, é jogar para a arquibancada.

Espionagem nasceu com Adão e Eva. A serpente os espionava e vendo que não rolava nada, soprou a história da maçã. Desde que o mundo é mundo faz parte da nossa cultura. E começa em nosso próprio meio e vai ao nível de nações. Se há alguma coisa constante e repetida na história, é a espionagem. Em todos os níveis. Só ficou mais sofisticada, com o passar dos tempos.

Mas, fico pensando, que diabo o governo americano espiona no Brasil? Você só espiona algo para tirar vantagem. Óbvio. Seria sobre a compra dos caças da FAB, uma indecisão que há anos voa (sem sair do chão) por aí? Segredos de nossa indústria, cada vez mais atrasada e sem nenhuma inovação que parta dela? Sofisticações que existam nesse campo são introduzidas pelas multinacionais, e as trazem de fora. Informações sobre nossa fulgurante indústria nuclear, e a possibilidade de fabricarmos uma bomba atômica? Pesquisas de ponta nas nossas universidades? Os nossos pesquisadores, e os temos muito bons, estão, a maioria, no exterior, por falta de apoio local. Busco para cima e para baixo, e não vejo o que possa despertar tanto interesse por nossos “segredos”.

Há um assunto porém que talvez tenha merecido essa atenção: o problema do terrorismo. Desde o 11 de setembro esse assunto enche de preocupação o governo e o povo americano. Com razão. Por diversas vezes têm dito que a região de Foz de Iguaçu, fronteira com Paraguai e Argentina, é possível foco de terrorismo na America Latina. Para acompanhar o que lá ocorre, diga-se, nosso governo pouco ou nada tem feito. Esse pode ser um dos motivos dessa suposta espionagem. Reconheça-se, no entanto, que se for essa a razão e identificarem possíveis focos de perigo, teriam que nos avisar. Não acredito que pretendam invadir o país para combatê-los. Se deram muito mal no Afeganistão e no Iraque.

Alguns se preocupam com o “pulmão” do mundo. O governo americano poderia estar interessado em conhecer detalhes do Amazonas. Sua riqueza mineral e florestal. A destruição das matas. Mas, para isso, não precisam de espiões escondidos. Os seus satélites, que todos sabemos existir e muitos dos quais utilizamos, mostram todos esses detalhes de forma minuciosa. E, dizem, já dominam as reservas indígenas.
Com o advento da internet, Google, Facebook, Twitter, e tantos outros programas, dos quais tantos brasileiros são adeptos, inclusive eu, com o mundo digital ditando normas, a privacidade foi para o espaço. Todo mundo sabe tudo de todo mundo. Já digitou o seu nome no Google? Experimente. Veja quanto de sua vida está exposta. Segredos? Nem de alcova. Já era.

Dalton Melo de Andrade - Escrevinhador

Mais uma reunião do Mercosul. Pompa e circunstância. Muita conversa e pouco resultado. Lembram-me meus tempos de Organização dos Estados Americanos (OEA). Quarenta anos passados. Horas e mais horas de discussões, nenhum resultado prático, prolixidade esfuziante, tempo perdido. Senso comum – ódio aos Estados Unidos, gerado por pura inveja. Nada mudou. Um amigo chileno, com quem dividia minhas frustrações, comentou numa dessas intermináveis reuniões, aí pelas três da manhã: “Mira, el gringo no habla, bebe su cafezito, fuma sus puros y paga la cuenta”. É que, naquela época, os americanos pagavam 62% das despesas da OEA. Depois, baixou para 49%. Hoje, não sei. Deve continuar do mesmo jeito. Do Mercosul, aparentemente, não pagam nada. Mas são sempre lembrados.

O Mercosul foi uma das coisas positivas, talvez a única, deixada pelo governo Sarney. Encontra-se hoje totalmente desvirtuado. Essa última reunião foi a comprovação final. Em vez de fórum econômico, como se pensou e deveria ser, virou fórum político. Da pior qualidade.

Quando deixei a UFRN, passei alguns anos prestando consultoria empresarial. Terminei trabalhando em uma dessas empresas, tempo integral, na área de comércio exterior. Nessa condição, tive oportunidade de bem vivenciar o lado positivo do Mercosul. Antes, numa viagem à Buenos Aires, vi a influência que esse acordo poderia trazer aos nossos países. Senti, em conversa com argentinos, quão benéfico seria, especialmente no relacionamento político. Vivíamos aos trancos e barrancos. Hoje, somos estimados hermanos, com apenas o futebol nos mantendo separados. Escutei de um motorista: “Mira, hoy somos hermanos, pero no me hables de futebol”.
A intenção do Mercosul era das melhores. Aproximar nossos países e, com o tempo, trazer os demais para a formação de um mercado realmente comum, onde a troca de mercadorias fosse livre e sem burocracia. No começo, até que funcionou. Hoje, não mais. O que se vê é o governo argentino, cuja má qualidade é evidente (e o efeito Orloff nos ameaça), fechando suas portas ao Brasil.

A comunidade, que se iniciou buscando o desenvolvimento econômico de seus membros, por razões puramente ideológicas (burras, diga-se de passagem), descambou para a política desenfreada e relegou a economia ao segundo plano. Durante todos esses anos, o comércio, que chegou a atingir níveis razoáveis, vem diminuindo. Como parceiros novos, adquiriu dois pesos leves e cada dia mais encalacrados, Bolívia e Venezuela. O Chile, que andou nos namorando, perdeu o estímulo e partiu para campos mais férteis. Juntou-se à Colômbia, Peru e México e criou a Aliança do Pacífico. Intensificam seus contatos com mercados ricos. O Mercosul continua ínfimo, e até hoje apenas fez acordos com a Palestina, Egito e Israel. Cada vez mais se distancia da Europa e dos Estados Unidos. Acompanha a inteligência do nosso novo Itamaraty, que abre embaixadas em lugares sem importância, seja política, seja econômica. Lugares dos quais nunca ouvimos falar. Ilhotas no Pacífico, ditaduras violentas na África, e por aí vai. Mercados ricos e produtivos, nem pensar.

Esta última reunião comprovou o caminho do fim. Nenhuma posição ou decisão econômica de peso. Gastaram todo o tempo com discussões imaturas. Protestar contra uma sabida e permanente espionagem americana (todos se espionam o tempo todo), como se fosse grande novidade. Reintroduzir o Paraguai, suspenso numa das mais esdrúxulas decisões já tomadas pelo grupo. O presidente do Paraguai já respondeu. Só volta quando as leis que regem o bloco forem cumpridas. (Lembrou-me Groucho Marx: não entro num clube que me aceita como sócio). O Paraguai faria melhor não voltando e se associando ao Chile e seus parceiros. Teria mais futuro. Pobre Mercosul.

Dalton Melo de Andrade é Escrevinhador

O Brasil vive uma onda de protestos. No meu entender, quase todos irracionais. Alguns irritantes. Já não consigo mais agüentar “índios” na TV, com aparência de boa vida e português quase impecável. Alguns, com um sotaque forçado e divertido. E protestando contra coisas importantes para o pais, como a usina Belo Monte. Índios que moram a mais de 800 quilômetros da represa e não serão por ela afetados. Protesto encomendado. Motivação política pura. Ou econômica, encomendada por alguém e de algum lugar para criar dificuldades ao progresso do pais. E continuam invadindo propriedades privadas, cujos donos possuem tais terras há centenas de anos, produtivas.

Ao lado disso, estudantes, alguns verdadeiros, muitos fajutos, protestando nas ruas do país, inclusive em Natal, contra aumento de passagens de ônibus. Muitos usando capuzes, indicação de más intenções. Não sou contra os protestos. Mas sou contra a forma como vêm sendo feitos. Tornam-se arruaças, badernas, destruição de bens públicos e privados, desafio ao bom senso, e perturbação da paz e do direito de ir e vir das pessoas. Total desrespeito ao direito dos outros.
Essa minha reação será condenada por alguns. Tudo bem. Está no seu direito; provavelmente ansioso para tirar o meu direito de me pronunciar contra. Nunca tolerei a baderna, venha de onde vier e seja que motivo tenha. Há meios mais inteligentes, menos danosos, e mais produtivos para conseguir-se resultados. E com o apoio maciço da população. A contrario dos de agora, quando já se vê o povo na TV reclamando contra a anarquia.

Uma coisa boa, para mim, trouxe essa bagunça. É que lembrei-me da Sinfonia n. 45, de Joseph Haydn, conhecida como “Sinfonia da Despedida”. Alguns chamam de “Sinfonia da Saudade”. Mas a tradução, do inglês ou do alemão, é “Despedida”. Em inglês, “Farewell”; em alemão, “Abschieds”. Um protesto contra o seu patrão, o Conde Esterházy.

O Conde tinha por hábito passar os seus verões em sua casa de campo em Esterháza. Nesse verão específico, os músicos estavam reclamando da demora em voltar para Eisenstadt, onde tinham deixado suas famílias.

O que fez Haydn? Escreveu essa sinfonia, cuja movimento final, no Adágio, termina com os músicos deixando de tocar, apagando as velas que iluminavam suas estantes com a partitura, e saindo do palco. Os dois últimos músicos a apagar suas velas e sair do palco foram o próprio Haydn, como condutor e também violinista, e o primeiro violino, Alois Luigi Tomasini. Dos maiores de seu tempo. E o protesto foi entendido. No dia seguinte, o Conde decidiu o retorno à cidade.

Querer comparar um protesto em 1772 com um protesto dos tempos presentes é, e só pode ser, uma brincadeira. Nem é minha intenção fazer essa comparação. Mas, para mim, o protesto de hoje me trouxe à lembrança essa Sinfonia, que recomendo aos curiosos e que gostam de música. É facilmente encontrada no “YouTube”. É só digitar o compositor, o nome e o número da Sinfonia. Protesto inteligente e com resultados.


Dalton Melo de Andrade é professor universitário aposentado

Cada um reage às manifestações que assolam o país de acordo com sua experiência e modo de pensar. Para deixar claro que estou antenado, começo dizendo que concordo com a maioria das reivindicações, que se podem discernir num meio tão difuso de idéias. Por exemplo, independência do eleitor, para votar e ser votado sem associação à partidos, voto não obrigatório, segurança, educação e saúde.

Essas ocorrências lembraram minhas aulas de Física no Atheneu, especialmente a 3a. Lei de Newton: cada ação, gera uma reação igual e contrária. Não vimos isso quando vândalos, destoando do tom geral dos protestos, atacaram bens públicos e privados. Alem da destruição em si, já condenável, houve saques e depredações imperdoáveis.

Por isso, tomo a liberdade de modificar aquela Lei, mesmo sem conhecimento de Física suficientes, para acrescentar uma 4a: cada má ação, deve gerar uma boa reação igual e contrária.

O que vimos nas TVs e lemos nos jornais, foi a apropriação das passeatas por um sem numero de criminosos, não tão pequeno quanto nos querem fazer crer, agindo indiscriminadamente e, geralmente, com reação tardia dos policiais. Entendo, até, essa demora em reagir. É que, além do risco que correm, muitas vezes, mesmo na maioria das vezes, são criticados por agirem com violência. Ao contrário, acho que até têm sido extremamente comedidos. Pergunto: quem, honestamente, reagiria com total frieza, diante de agressões como as que as TVs nos mostram, especialmente se a sua pessoa?

Todos que entendem do assunto dizem que multidões não têm modos. Basta alguém destoar do grupo e cometer um ato insano e muitos o sequem. Felizmente, parece que não chegamos a esse ponto, pois a grande maioria se tem comportado com correção. Mas multidões camuflam atos individuais, especialmente quando os mal intencionados já portam máscaras e capuzes, indicando de imediato que estão dirigidos à prática do vandalismo. Não seria o caso de exigir deles, se querem participar das manifestações, de mostrarem suas caras? Competiria aos responsáveis pelas convocações deixarem claro essa condição.

Também não entendo como achar “lindo”, como dizem alguns comentaristas, movimentos de massa cujos fins são difusos, sem lideranças identificáveis e que podem redundar, como vem acontecendo, em destruições e agressões. “Lindo”, sim, foi ver todo o povo no estádio de Fortaleza cantando o Hino Nacional à capela. Registre-se: não sou a favor da Copa, da forma como está sendo organizada, e escrevi artigos contra a destruição do nosso Machadão. O novo campo de futebol é um elefante branco. Como a maioria deles em todo o país. E, sem dúvida, o dinheiro gasto seria muito mais útil em saúde, educação e segurança.

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Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+

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Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/



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