NATAL PRESS

Cidades em polvorosa, manifestações, depredações, reações desproporcionais da polícia. Um clima de 1968, ou de tomada da Bastilha?

Perguntem a um desses estudantes (viramos um país de estudiosos) por qual motivo estavam lá? Não era pelos 10 centavos de aumento – estudante paga meia, quando pega bus. Será que era pelo desperdício/roubo/superfaturamento com a construção dos elefantes brancos dedicados à prática do ludopédio? Ora, mas isso era sabido há mais de ano! Estamos diante de um movimento espontâneo, ou uma simples massa de manobra, bucha de canhão orientada por interesses outros. Quais? Cui prodest? Arrancar lixeiras nas ruas, quebrar vitrines agregava sentido àquelas manifestações? Mais importante – além de deixar claro o descontentamento, qual o resultado prático? Bus de graça? Isso já foi pensado na gestão Erundina. Mas tudo tem custo, já que nem almoço grátis há, exceto no dia da pendura.
Vamos tirar dos ricos? Bonito. Mas façamos uma conta. O custo disso em São Paulo, por baixo, será de 10bi por ano.

Vamos tirar do IPTU dos 'ricos'. Será que há 500.000 imóveis considerados 'ricos'. Bem isso daria – por baixo, como disse – 20.000 R$ a mais por residência. É mole? Sem contar que isso só poderá acontecer no ano que vem. E até lá? De onde sai a bufunfa? Da Saúde que está esse espetáculo? Da Segurança que nos faz prisioneiros em nossas residências? Ah... sim... da educação... Bem, manifestar é um direito. O resultado outro que a melhora do condicionamento aeróbico dos participantes fica sob uma belo ponto de interrogação. Sejamos otimistas. As instituições recuperarão sua credibilidade, como por um passe de mágica.

Não há como disfarçar. Há uma enorme insatisfação, motivada por comichões no órgão sensível: o bolso. Uma degradação das ‘condições de contorno’ e não terrorismo econômico promovido pela máfia da informação. A inflação está aí. As estatísticas que serão publicadas em julho mostrarão que a inflação furou o teto de banda. A Coca cola sobe no supermercado, os tomates deixaram de ser o único vilão. O senhor otimismo – que atende pelo nome de Guido, ou Guidinho como é chamado pela nossa Dama de ferro continua desempenhando um papel cada vez mais ridículo. A credibilidade dos seus prognósticos derrete como a cotação do Real. Ou como o saldo comercial? Ou como o índice Bovespa? Não se trata de chamar alguém do banco de reservas. Enquanto prevalecerem truques contábeis, não haverá melhora. Em recente artigo, uma Delfinetada, de autoria insuspeita do antigo tsar (é tsar, não czar!) da nossa economia pede mais seriedade na política fiscal.

Lances ridículos se sucedem como a recente ficha suja da Petrobrás, que a impediria de importar e exportar. Um sopro de bom senso anulou essa aberração – uma constituição de dívida, contestada sem que se chegue a uma definição final. Sem contar que metade dessa dívida de 7 bi e do governo que possui o controle da empresa para o governo que através da Receita morde o próprio rabo.
Segundo dizeres de nossa Presidenta, com a gestão petista o Brasil se encontrou. Esperemos que sim! Ou será que se encontrou numa confusão?

Essas manifestações – diferentes das vaias da abertura da Copa das Confederações, geradas pela zelite que podia se dar ao luxo de pagar ingressos – parecem colocar em dúvida mais um discurso triunfalista. Por sorte, no litoral do patropi não há icebergs. Nosso Titanic pode navegar ao som da orquestra de incansáveis áulicos.
Estar descontente consigo mesmo é fraqueza, estar satisfeito é loucura – escrevia Baltasar Gracián séculos atrás.
A piada final, coroando esse “chienlit”, termo ressuscitado por De Gaulle é “a resposta virá nas urnas”. Que resposta e quais urnas e mais grave, quais candidatos?

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Tranqüilamente refestelado na sua poltrona Ababurtinogamerontes curtia um merecido descanso depois das suas andanças pelo mundo. Envelhecer exigia tempo. Quem disse que ele estaria sem tempo? Escravo de suas lembranças, ou a rigor, de recordações de terceiros, desde que bem escritas, tinha tudo, menos pressa. Seu silêncio era daqueles que prenunciavam uma tempestade, ou talvez, fosse ele a própria tempestade a prenunciar um incontrolável mutismo?

Enquanto soltava baforadas do seu inseparável cachimbo, examinava cuidadosamente o teto, na esperança de lá encontrar a motivação necessária para novas aventuras. A seu lado, Júnior estava às turras com palavras cruzadas. Como em todas as tardes, Bigulinamerontes, a fiel esposa, estava fora de casa, atraída, desta vez, pela liquidação de algumas bugigangas da caixinha de Pandora. Azar dela, depois não adiantaria reclamar por não ter sido incluída em mais um conto. Fraca compensação, pois, no lar, era ela a detentora do poder, já que o poder fica do lado de quem tem em mãos o controle remoto da TV. Isso ele sabia. Tinha lido neste volume mesmo. E dá-lhe Big Brother...
Júnior quebrou o silêncio:
– Pai, como se chama aquele que mutilou uma orelha? Myke Tyson tem letras demais.
– Experimente Van Gogh...suspirou o pai contrafeito.
– Isso aí. Obrigado.
– Pai, o que é tristeza?
– É quando vem uma visita em casa e toma todas, retrucou Ababurtino com impaciência.
– Pai, o que é sorriso?
– Cada pergunta! É quando a gente ri de boca fechada para não incomodar os vizinhos.
Novamente, o silêncio envolveu o escritório no seu manto aveludado, como diria qualquer autor de prestígio. Ababurtino, é melhor chamá-lo assim por razões de economia, olhou para seu filho inculto e belo e estremeceu ao constatar que estava chegando a hora de orientá-lo na vida. Sabia que tudo mudava e não necessariamente para melhor, de sorte que sua intervenção tornava-se imperiosa. O corpo docente da escola não passava de um corpo decente e isso era muito pouco. Era doloroso ouvir de Júnior que os três mos­queteiros atendiam pelos nomes de Huguinho, Zezinho e Fernandinho Beira-mar, ou que Ricardo III daria seu reino pela egüinha Pocotó, ou seria pelo cavalo de Tróia? Uma nova viagem talvez? Para onde? Pensando bem, talvez levar o menino ao consultório do doutor Jivago fosse mais indicado. Iria ouvir a canção de Lara no elevador e uma opinião abalizada do amigo, uma vez à sua frente, no consultório oval.
O telefone tocou. Júnior correu para atender.
– Alô... Meu Deus, isso fala! É para você, pai.
– Quem é?
– Não quis dizer. Quem cala, não fala.
– Alô...Alô...Quem é? – Ababurtino soltou um palavrão sonoro – e desligou. Palavrões, é sabido, quebram o gelo melhor que um encontro numa sauna mista. Foi a falta deles que impediu a quebra do gelo no episódio do Titanic, época em que a censura reprimia o uso dessas iguarias da fala. Parafusos frouxos de outros tempos.
– Quem era, pai? Não pode dizer?
No melhor estilo gaulês, Ababurtino limitou-se a fazer um bico, sem responder . Na verdade, não conseguira identificar o interlocutor . Devia ser mais um trote, nada além de um desses gaiatos que só conseguiam ser grandes quando somados à própria sombra na qual preferiam permanecer. Não valia a pena preocupar-se. Para ele era bem pior constatar que a maior preocupação de Júnior resumia-se em saber qual palavra correspondia ao ‘8 vertical’. Não deixava de ser uma preocupação louvável, se bem que saber o nome com 6 letras de Sebastião José Carvalho e Melo, dificilmente transformaria Júnior em erudito. No máximo aumentaria as chances de ver o rebento brilhando no Show do Milhão, ao identificar o marquês de Pombal, um misto de Mazarino com pit-bull. Preparar alguém para as provações futuras, fazendo-o livrar-se do peso das provações passadas, era o nome do desafio. Por onde começar? Como poderia encontrar a saída do labirinto educacional ele, Ababurtino, que nunca sofrera de labirintite. Fácil como acostumar um boxeador a comer comida chinesa com pauzinhos, sem tirar as luvas. Esperar pela volta de Dom Sebastião, de férias no Club Med de Alcácer Quibir, junto com seu amigo Dorian Gray, não parecia razoável, pois a fila de espera era e é ainda muito extensa. De mais a mais, Júnior iria colaborar, querendo ou não, mesmo porque, não lhe faltaria interesse em caminhar rumo aos mistérios. Com certeza, saberia se livrar da tentação de descobrir inutilidades tais como saber se na corte do Rei Sol, os súditos usavam ou não protetor solar, ou se os quarenta ladrões da história de Ali Babá possuíam ficha de bons antecedentes.
A decisão estava tomada. Não haveria interferência alguma. Júnior seria dono do próprio nariz e do restante também, e o cotidiano seria o mestre escolhido. Ababurtino sabia que, da mesma forma que o meridiano de Tordesilhas não conseguiria separar com perfeição o fado da dança com castanholas, ele próprio seria incapaz de erguer uma barreira entre o ensinamento dos mestres e a anarquia da contracultura. Teria de conversar mais com Júnior. Apesar de saber que as palavras voam, o escrito não tem melhor resultado, se ao seguir o exemplo de Anchieta for perpetrado sobre a areia úmida da praia. A opção pelo diálogo suplantou as demais. Pois é, verba volant resmungou Ababurtino. Malditas verbas a desafiar a Lei de Responsabilidade Fiscal, segundo alguns.
Convidou o filho para um breve passeio. Precisava caminhar um pouco, por recomendação médica. Uma boa companhia tornaria o passeio mais prazeroso. Vagar nada tinha de programa de índio, mesmo porque a Funai não possui acordo com o doutor Cooper.
– Pai, olhe lá uma pedra no meio do caminho.
– Que coisa mais linda, mais cheia de graça, filho. Vamos prosseguir. Caminhar é preciso. Melhorará meu HDL e seu apetite.
– Vou apanhá-la. Posso usar a mão invisível?
-Deixe-a lá, um dia ela será famosa.
– A mão?
– Não, a pedra. A mão será hostilizada. Pergunte à Vênus de Milo. Ela possui duas mãos invisíveis de tanto roer as unhas. Por sorte, não sofria de coceira como Marat. Já pensou? E qual poderia ser o futuro dela no Olodum? Com certeza, o mesmo que o do Aleijadinho.
– Dizem que posou nua para a revista Playboy.
– Não, aquela foi a Maja desnuda. Na última hora, dizem, ela passou a perna em Carlota Joaquina que andava algo distraída à procura de um par de chifres que combinassem com o físico do marido, aquele Otelo algo mais manso. Jamais acreditou na carta anônima de Pero Vaz de Caminha.
– Mas, que carta anônima era essa se o autor é conhecido?
– Esse detalhe passou despercebido aos historiadores, que ficaram ligados no ‘em se plantando, tudo dá, até transgênicos’ . O importante, filho, é entender que o conjunto virtude de Dona Carlota era um conjunto vazio, mas desses vazios comme il faut.. Pode me dar um outro exemplo de conjunto vazio?
– O conjunto de peixes vivos em água fervendo. Daí a pergunta musicada ‘Como pode um peixe vivo viver fora de água fria’ .
– Ah sim, também conhecido como o princípio da bouillabaisse. É da época dos cinqüenta anos em cinco, quando aumentou drasticamente a produção dos conhaques envelhecidos na base do jeitinho e escoados às talagadas no Cala Bar por van Schöpke que apreciava o chope do Pingüim também.
– Entendi...Gostava tanto que, sempre que a família lhe mandava um e-mail pedindo que voltasse para casa, dizia ao portador: ’Diga ao povo que fico’
– Por aí...Já é tarde para falarmos do Descobrimento do Brasil.
– Que nada. Esse barato é interessante. Dizem que antes de descobrir o Brasil, Cabral avistou a ilha de Caras. Verdade?
– Não há nenhum documento a esse respeito, mas tudo indica que sim. Aquela ilha iria virar a capitania hereditária do consumismo.
– Sempre pensei que a ilha dos Amores, lá dos Lusíadas, sabe pai, fosse essa ilha de Caras. Rola o mesmo clima.
- Bingo, filho. (a cena se passa antes da proibição dos bingos, é bom que se frise).
Ababurtino saboreou, em silêncio, a observação do herdeiro, e fiel à definição de sua autoria, riu de boca fechada, para não incomodar os vizinhos. O menino prometia.

*Crônica do livro ´´Sessão da Tarde``

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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L. era o que se convenciona chamar um sortudo. Não um sortudo qualquer, vez por outra bafejado pela sorte e sim , um sortudo definitivo. Um daqueles indivíduos a quem essa deusa caprichosa se entrega de vez. Dizem que, no caso dos azarados, o sanduíche cai sempre com o presunto para baixo. Não era o caso. Em se tratando de L. o sanduíche jamais caía.

Na escola, sem ser particularmente estudioso, sempre conseguira se sobressair. Também pudera. Nas provas caíam exatamente os poucos tópicos estudados. Com o tempo, L. percebeu essa agradável conspiração do destino e passou a confiar nesse aliado tão constante.

Uma vez na faculdade — é claro que dera um show de cruzinhas no vestibular- chegou a ser considerado um dos mais competentes estudantes do qual se teve notícia. Junte-se a esse fato o detalhe de a natureza ter sido generosa, para entender seus sucessos junto às colegas. Isso sem contar uma ou outra conquista , recrutada no meio de outros contingentes, igualmente vulneráveis ao charme de L. . Entre amigos já se tornara proverbial o brilho da boa estrela de L. Talvez a chave de tudo tenha residido no fato de L. nunca ter abusado da generosidade do destino. Até que numa roda de póquer jamais fizera feio, mas nunca lhe ocorreu acertar números de megassesena, loto ou outras divertidas maneiras de empobrecer, a pretexto de querer dar um salto para a frente.

Profissional de sucesso, L. foi flechado por Eros. O encontro, ocorreu por mera casualidade na casa de um tio dela, grande amigo de L. Ser tio, já está demonstrado, não significa ser bem mais velho. Na verdade a diferença não passava de cinco anos, se tanto. Ela estava concluindo a faculdade de....

Neste mundo injusto, onde tanto se fala na lei da oferta e da procura, ela era procuradíssima e para desespero de uma legião de fãs nada oferecia além de uma risada cristalina, um sorriso ambíguo e uma desculpa qualquer para descartar namorados insistentes demais. Ao menos foi o que L. pôde descobrir. Após o primeiro encontro, houve outros, com progressos lentos, sem ao menos serem notáveis. É claro que no século XXI o romantismo, apesar de acuado, ainda defende bravamente privilégios de outras épocas. Sejamos românticos, pois, pensou L. Apesar de o roteiro ser diferente das suas usuais blitzkrieg , as dificuldades poderiam ter desencorajado qualquer um, menos L.. Em suma, tratava-se de um desafio para seu coração apaixonado. E nada acostumado com uma recusa. Isso pôs termo a uma carreira de Casanova. L. passou a concentrar todos os esforços numa frente única. L. estava amando. L. oferecia flores. L. passava noites em claro, sonhando.

Pouco a pouco, Madalena (ela tinha nome), se não descartou de todo a legião de admiradores, deixou clara sua vulnerabilidade ao assédio.

Casaram-se. Mais uma vez, L. lançou um agradecimento mudo aos ventos que sempre sopravam a seu favor.
Ela concluiu o curso e, meses a fio, continuaram em plena lua de mel, mais apaixonados do que nunca.

Ao completar um ano de casados, L resolveu organizar uma festa-surpresa, mobilizando uma penca de amigos que festejaram o evento até altas horas da madrugada. Não faltou bolo, um DJ e seus decibéis agressivos, muito menos a emoção do momento. Ao final da festa, Madalena ganhou de presente um anel com um pequeno brilhante. Pequeno, pois apesar de sortudo, apaixonado e bem-sucedido, L não era ainda milionário. Na mesma noite, L ganhou de presente sensações de cuja existência nem desconfiara até então.

Madalena adorou o anel. Por não ter dimensões exageradas, ela passou a usá-lo diariamente. Usava-o ao sair de carro, com o cuidado de virar a pedra para dentro. Usava-o no emprego, nos fins de semana em companhia de L.. Evidentemente, nem teria sentido perguntar se o usava quando iam a algum evento. Enfim, o anel parecia soldado àquela mão graciosa. Madalena adorava o anel.

Nada mais normal que Madalena estivesse com ele quando, emocionada, encontrou Pedro, velho amigo de infância. Pedro. O primeiro namorado. As mulheres que nunca tiveram um primeiro namorado, pulando diretamente para o segundo ou terceiro são consideravelmente mais imunes a tentações, mas Pedro fora o primeiro. Uma agitação incomum apossou-se de ambos. Talvez por ter sido esse reencontro muito agitado, ao chegar em casa, Madalena notou, consternada, a falta da jóia. Apavorada ligou para Pedro, Pedro procurou cuidadosamente no carro, até voltou na mesma tarde, sem nenhuma esperança para o motel. Desgraçadamente, Madalena não tinha a sorte de L..
Apavorada e arrependida, Madalena teve de procurar uma solução. O que fazer? A falta seria notada logo. Como explicar? O que poderia dizer? Nenhuma mentira convincente lhe ocorreu. Entrou em pânico. Torrentes de lágrimas embeberam, na tarde seguinte, o ombro generoso de Pedro. Enfim, a grandes males, tratamento de choque. Decidido, ou teria sido mais correto dizer “persuadido” a proteger Madalena, Pedro encontrou a solução na vitrine de uma joalharia. Com cartão de crédito tudo é possível, garante a propaganda, mesmo se precisar parcelar em dez vezes. Após certificarem-se que o anel era absolutamente idêntico, Pedro se fez de desentendido, bufou, bufou um bocado e após uma série de promessas, pagou. A última prestação coincidiu com o último encontro deles. Pura coincidência, diga-se de passagem. Seria maldade fazer insinuações sem provas, menosprezando os sentimentos de Madalena. No fundo, no fundo, o episódio servira para provar-lhe que gostava mesmo de L. Nunca mais, jurou para si mesma, iria ser infiel. Aquele Pedro. Como fora possível? Nada tinha de sedutor. Droga!

L. notou que, após um breve período de arrefecimento, a paixão de Madalena voltou a se fazer presente. Sem ter a mais vaga ideia do que se passara, L atribuiu à sua sorte esse maré amorosa.
Alguns dias depois, o casal estava passeando, despreocupadamente, de mãos dadas, por uma avenida dessa maravilhosa Sampa de todos os assaltos. A história não teria a menor graça não fosse o aparecimento de um revólver na continuação de um braço trêmulo de emoção e crack.

O convite veio sem cerimônia alguma.
- A grana, já! O pivete dava mostra de objetividade. Nada de conversa fútil, comentários sobre o tempo, a situação política, a proximidade das eleições. Ele queria era por a mão na bufunfa

Por razões diferentes os três protagonistas da cena estavam apavorados. Um quarto personagem se perfilava ao longe. Para desapontamento daqueles que, como L. possam ter imaginado tratar-se de um guarda , tudo indicava ser apenas um sócio oculto do trombadinha. Teria a sorte se ausentado por um instante?
-  Vamos logo. Grana , cartão de crédito, celular. Rápido.

Foi quando L interveio.
-  Olha, pegue o anel da minha mulher, vale uma nota. Pegue e deixe-nos em paz.
-  Falou, coroa. Passe o anel.
-  Calma menino, tou tirando.
-  Vamos logo.

Um minuto depois, nada fazia supor que houvera um assalto. A rua deserta estava cheia de gente. Onde será que esse povo se escondera?
Caminharam rapidamente sem falar até o carro. Há quem numa situação dessas fala, gesticula, xinga. Não era o caso deles. Duas lágrimas correram pelo rosto de Madalena. Desta vez o anel se fora definitivamente. Já em casa L rompeu o silêncio.
-  Olha, tivemos sorte. Minha sorte de sempre.
Madalena estava soluçando.
-  Querida, você não está entendendo.
-  Não mesmo
-  Quando digo que tenho sorte , é por essas coisas. Em primeiro lugar tenho você e em segundo lugar, a pedra do anel era falsa.
-  Como?
-  Naquela época estava atolado em dívidas. Ia justamente, por esses dias, inventar algum pretexto para ficar com o anel e mandar colocar uma pedra verdadeira. O garotão não fez um negócio tão bom quanto imaginou.
E enquanto Madalena, ainda se refazia do choque, L divisou na estante um livro de Maupassant, apanhou-o, mas na última hora desistiu de ler uma história bem parecida, interrompida na véspera e preferiu curtir sua inacreditável dose de sorte.


Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.">Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Saiu uma fumacinha branca. O Copom decidiu manter a cautela e a taxa Selic passou para 7.5%. Os especialistas em interpretar os dizeres do comunicado e posteriormente, da ata têm assunto até a próxima reunião. De fato os valores mensais deste ano estão diminuindo, mas estão acima dos valores verificados nos meses correspondentes do ano passado. É possível que a inflação de abril de 2013 seja inferior à de abril 2012 (0,64%). Caso isso aconteça, o coro dos que entoarão o mantra: “a inflação sucumbiu aos tiros de metralhadora do ministro- artilheiro” será ensurdecedor. Em junho, talvez seja mais difícil ‘bater’ o valor de 0,08 e os comentaristas disporão de mais assunto para empolgantes tertúlias. Daí porque “o comitê avalia e blá-blá... (que) a política monetária seja administrada com cautela. Intervalo. Nossos comerciais, por favor.

Na Itália os cômicos podem chegar até bem perto de se tornar primeiro-ministro, caso de Beppe Grillo. Há, porém um outro menos votado – e bem mais velho – Pippo Franco. Um momento hilário que lhe devemos é um monólogo no qual surge a tirada; “Come i listrici fanno l´amore? Con atenzione, con moooooolta atenzione”. Embora desnecessária para os meus leitores, lá vai a tradução: “Como fazem amor os porcos-espinho. Com atenção, com muuuuita atenção”. Um assunto espinhoso como o combate à inflação, decerto, merece igual tratamento. Como esse texto não pretende ser erudito, levando em consideração as limitações do autor, vale a pena contar uma anedota que ilustra a independência do BC. Claro, é uma opinião pessoal. Bem sei que as metáforas possuem o defeito de não retratarem a realidade – exceto aquelas produzidas pelo senhor do ‘nunca antes’. Mesmo assim, vamos a anedota, que poderá ferir retinas delicadas e espíritos pudicos.

Uma residência é assaltada. Os “elementos” dominam o casal, fazem a ‘limpa’. E ocorre-lhes coroar o assalto com um estupro. A mulher em prantos e carregada para um quarto. Quanto ao marido, mantida sob a mira de um “trezoitão”, o tratamento é cruel. Um dos ‘elementos’ desenha um círculo de giz (sem ser o caucasiano de Brecht) e decreta: Se tu sai daí, desse círculo, tu morre. Obviamente nessas horas, a correção gramatical não é prioritária. Terminada a ‘operação’ os “elementos” saem, com as recomendações de praxe, resumidas num lacônico ‘bico calado, se não, nois voltemo’. O casal se abraça em lágrimas. Fúria impotente, lágrimas e tudo o mais que os integrantes da ABL – com exceções – retratariam tão melhor. Momentos depois, a mulher, ainda em compreensível estado de choque pergunta ao esposo: “Querido ao meu sofrimento juntou-se o seu. Você nada pôde fazer”. “Nada disso. Você nem sabe como eu os tapeei.... enquanto praticavam essa barbárie, meu pé saiu por três vezes do círculo”. O que tem isso a ver com a independência do Copom que determinou o que a presidenta já havia declarado na véspera?

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O número de pacotes econômicos no Governo Dilma tende a empatar com o número absurdo de ministérios “profissionais e meritocrácicos”, na definição presidencial. Breve deverá ultrapassá-lo, caso o crescimento errático destes estacionar, se é que vai. A corrida presidencial disparada antes da hora em nada contribui para a tranquilidade no ambiente dos negócios. Os esforços para manter a coesão da base eventualmente aliada acarretou nomeações raramente marcadas pela competência dos indicados, tudo para garantir o precioso tempo de televisão. Os apelos à consciência dos empresários para que evitem remarcações dos preços dos produtos – o que se assemelha perigosamente a um congelamento mal disfarçado, dependendo da ênfase do apelo –, as continuas e inesperadas intervenções mudando as regras do jogo num ativismo febril e contraproducente, o câmbio que de flutuante passou a saltitante, a deterioração dos sinais vitais da economia, apesar dos artifícios contábeis utilizados com o fito de poder afirmar, para quem se dispuser a acreditar, que “tout va très bien , madame la marquise”, a série infindáveis de apostas sem sentido vindas de Sua Excelência o Sr. Ministro da Fazenda e afirmações nebulosas, para encanto dos decifradores das atas do BC, do tipo “a inflação convergirá de forma não linear para o centro da meta”, não constituem propriamente um ambiente animador. Diante disso, a retração do decantado espírito animal, em plena migração para os zoológicos, pouco ou nada tem de espantoso. Como o prestígio do governo e da “governanta” segue inabalado, com viés de alta, qual é o problema?

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Era um velho sonho prestes a se materializar. A emoção não o deixara dormir. Mal chegado a Roma, teria que ver a famosa capela. Ele a conhecia, por ter estudado cada quadro, além da obra magnífica de Michelangelo. Agora, no táxi que o estava levando, preparava-se para o grande momento. Passava das onze e ele sabia que não teria muito tempo. Pouco importava. Não queria ver o museu do Vaticano, queria ver materializar-se à sua frente a jóia rara, objeto de horas de estudos e devaneios. Alheio à paisagem, observou distraidamente o Castelo Santangelo e, pouco depois, já estava na fila que flanqueava as muralhas dentro das quais iria encontrar o tesouro.

A fila avançava célere. Poucos minutos depois, subia pela escadaria em caracol e, com o ingresso na mão, indiferente aos apelos da butique de souvenires, encaminhou-se ao encontro da revelação. Entre as opções de itinerários, diferenciados pela duração, escolheu o mais curto. Caminhava sem nenhuma emoção junto às obras expostas. Deteve-se por alguns instantes nas stanze di Raffaelo, para admirar a escola de Atenas, apenas o suficiente para admirar o retrato de Michelangelo e prosseguiu. Uma escada estreita e apinhada de gente levava à capela.
Já ao entrar, ficou com a desagradável impressão de ser um intruso no meio de uma horda de bárbaros que se acotovelavam, acompanhando os guias.
Uma voz metálica lembrava a cada minuto, em diversos idiomas, ser aquele um lugar de meditação, ordenando que não houvesse barulho, que se evitassem flashes etc. Engraçado. A principal fonte de ruído era justamente a voz metálica que sobrepujava o burburinho dos visitantes. Uma outra decepção o aguardava, já no interior da capela. As telas dos mestres, e ele as conhecia tão bem, estavam sendo restauradas, cobertas com lonas. Adeus, Ghirlandaio, Perugino, Pinturicchio, velhos e queridos mestres. Restava-lhe olhar para o teto, com a sensação de estar prestes a ter um torcicolo.

Alguns, mais experientes, carregavam espelhos, com o auxílio dos quais admiravam o teto sem se cansar. Achou aquilo uma afronta ao mestre que, para pintar, teve que ficar durante anos deitado sobre andaimes. Finalmente, conseguiu sentar num banco, o que tornou menos penosa a contemplação. Estava tudo lá, tal qual os seus livros retratavam. Ao fundo, o imponente juízo final com o imperturbável Caronte, barqueiro sem destino, portador do desespero.
Era só isso.

Olhou mais uma vez em volta, com a certeza de nunca mais regressar. Sempre iria adorar aquela obra, mesmo que a visita nada lhe tivesse acrescentado. Decidiu comprar um álbum, na saída, lembrança de um momento que esperara ser mágico e que se revelara comum. A expectativa exagerada torpedeara o possível encantamento. Quando tivera uma sensação semelhante? Talvez naquela conquista amorosa que, após uma espera angustiada, se revelara, no fim, tão igual a tantas outras.

Era chegada a hora da partida. O seu olhar, vagando sem rumo, encontrou o de uma mulher. A visão o colheu em cheio. Tentou aproximar-se da desconhecida mas, separados pela multidão, teve apenas tempo de vê-la afastando-se, no seu vestido estampado, na companhia de um homem. Antes de desaparecer, ela virou a cabeça como se fosse se despedir. E foi com aquela sensação de ruptura, sob o olhar de Caronte, que empreendeu o caminho da volta. A imagem fugaz daquele rosto avistado a distância sobrepujara a majestade da capela.

Crônica do livro ´´Mãos Outonais``, Editora Totalidade.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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A pessoa que pensa assim, um dia se apaixona por outra que ela julga ser sua "cara metade". A partir de então, essa "cara metade" que trate de fazê-la feliz. Mas os dias passam e essa tal felicidade não chega. Mais uma vez, ainda na ilusão, ela acha que aquela não era a "cara" esperada e sai atrás de outra. Depois de inúmeras "caras metades" e “almas gêmeas”, a infelicidade continua. O tão sonhado sentimento que ela tanto procura nos outros não dá sinal de sua existência.

Mas, felizmente para alguns, o tempo passa e, somado aos desacertos da vida, geralmente traz bons frutos, como a sabedoria, por exemplo. É nesse momento, então, que, num lapso de lucidez, ela percebe que sua "cara metade" nada mais é do que ela mesma!

Ora, o ser humano para ser ele mesmo, tem que ser inteiro, completo. Ninguém é capaz de lhe trazer a felicidade. Nascemos sós e sós morreremos. Ter admiração e amor por ele mesmo é a base de tudo. Perceber suas limitações e virtudes são ingredientes necessários para o autoconhecimento.

Nós só podemos ser felizes e só conseguiremos amar alguém se formos apaixonados por nós mesmos. A partir dessa descoberta, estaremos preparados para viver com outra pessoa. Sem essa de "cara metade", de “alma gêmea”, de responsabilidade pela felicidade um do outro. Simplesmente são dois seres que se amam e descobrem que essa é a verdadeira estrada que conduz à felicidade.

Dois inteiros que, aí sim, se tornam um só. Ponto final.

 

Ser poeta é ser um ser infeliz
E só assim sendo ele consegue sê-lo
Serve-se da angústia como combustível do seu ser
Sem ela, é um ser qualquer, um ser comum. E, se for para assim ser, ele foge

Esta é sua sina, posto que...
O poeta se alegra quando a tristeza chega
O poeta gosta do sabor da amargura
O poeta goza quando a solidão lhe invade
O poeta ri quando a dor lhe bate na alma

Ora, pensa o poeta a contemplar o copo vazio…
Ser feliz qualquer idiota o é
Ser doce é ser coisa banal, açucarada
Ser um vivente acompanhado é para limitados de espírito 
Ser dono de uma alma livre é para os fracos que por aí penam

Diz o poeta em voz alta, embargada... 
Que o bom é o fundo do poço
Que o gostoso é o desprezo que ele atrai
Que o ápice da sua vida foi a traição por ele sofrida
Que a desesperança é seu caminho futuro

E não poderia ser diferente...
O poeta escreve com a alma
O poeta deixa fluir seus sentimentos
O poeta não tem limites
O poeta sangra nas letras que vomita

Por isso que nos toca tanto o poeta...
Pois só ele consegue descrever a dor que não sabemos sentir e que fingimos senti-la 
Pois só ele tem o dom de nos liberar as lágrimas represadas que não sabemos chorar
Pois só ele pode desnudar a solidão que de nós toma conta, mesmo quando acompanhados
Pois só ele ama a alma com cuja dona nunca falou e nunca um olhar sequer trocou

Pensando bem, feliz é ele, o poeta
Vive a essência da vida
Saboreia o cotidiano no seu âmago
E, no final, ri de nós, pobres e ignorantes mortais
De nós, que nada sabemos fazer, a não ser simplesmente viver (MW)

 

Ele é assim. Ninguém consegue explicar quando surge. Extremamente mal-educado, chega sem avisar, entra sem bater na porta do nosso coração e vai alma adentro. Assim, como se fosse um morador antigo, ele vai, sem cerimônias, até ao nosso âmago. Aos poucos, esse intruso, sem que a gente perceba, começa a tomar conta do nosso pensamento e nos deixa à sua mercê. E nós, viventes, na medida em que nos sentimos dominados, mais gostamos de senti-lo encravado nas nossas profundezas. Ele carrega consigo uma sensação tão boa que jamais queremos que ele saia.

 

Ele é singular. Tem vontade própria e não tem preconceitos de nenhuma espécie. Cor, raça, gênero, idade, seja o que for, inesperadamente ele pode atingir a quem quer que seja. Não há dia nem hora, mas é sempre certeiro e fulminante! Qualquer um, desde que tenha um mínimo de sentimento, está sujeito a receber tal visita.

 

Às vezes, quando o rio das nossas vidas já correu um pouco e estamos até meio sossegados, julgando que a vida é assim mesmo, que as emoções são coisas do passado, ele nos surpreende. Chega e, como se fôssemos um automóvel sem combustível, nos reabastece. Num repente, a vida ganha novos e lindos contornos.

 

É assim que eu me sinto, meu amor. Tanque cheio e disposto a percorrer os caminhos que me conduzam até seu coração. E aí, juntos, poderemos fazer grandes viagens para um futuro que agora nos parece palpável. Até onde vai dar, ninguém sabe. Pouco importa, aliás. Importa, sim, o que sentimos.

 

Deixemos que ele nos guie por essa nova estrada que é, como todas, plena de retas e curvas. Por isso, devemos ter cuidado para que o trajeto seja feito em paz. Sempre! Sabemos que ele é muito sensível e que não vê com bons olhos quem o maltrata. Se o tratarmos bem, como o fazemos, ele é até capaz de fixar residência nos nossos corações. Que continuemos assim. Cada vez mais alimentando esse forasteiro que queremos que fique para sempre dentro de cada um de nós.

 

O nosso amor é legítimo, como legítimos são os mais simples momentos que passamos. Só quem ama é capaz de entender o que digo. Quando estou ao seu lado, corações juntos pelas mãos entrelaçadas, entrego-me a esse sentimento e sou completamente seu. Corpo e alma.

Amo você. Definitivamente!

 

 

*Jornalista


Não sei se me precipito na avaliação, mas creio que, às vezes, há uma banalização de tal honraria. A escolha de alguém deveria ser mais criteriosa, passar por setores pelos quais o homenageado fez algo, mostrar o porquê da deferência. Não tenho a fórmula para se chegar a esse consenso, mas existem entidades que representam os mais diversos segmentos da sociedade, como Fiern, CDL, CRM, OAB, etc. 

Dificilmente uma proposição de um vereador será rejeitada pelos demais. Claro, já que, um dia, será a vez de cada um apresentar seu candidato e ele contará com o "sim" dos outros colegas. Temos que ampliar essa escolha. Natal é nossa e não me convence o fato de que os vereadores "representam a vontade povo". É minha opinião.

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Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+

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Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/



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