NATAL PRESS

Somos - sem exceção – humildes atores ensaiando uma peça cujo final nos é totalmente desconhecidos. Ainda bem. Estou de volta depois da minha 21ª maratona de Nova Iorque. Mesmo sem saber o que nos espera prefiro referir-me a essa prova como sendo a mais recente. Falar em última seria carregar nas tintas do pessimismo, mesmo porque o final da peça à qual me referi acima não me foi revelado.

A corrida em si foi, como sempre, aquele evento maravilhoso. Mesmo sendo minha 61ª maratona – considerando meu currículo inteiro - a emoção se fez presente. Como não pretendo falar na corrida, direi que meu desempenho não foi dos melhores e poderei alinhar uma série de “circunstâncias extenuantes” para justificar o resultado: um joelho avariado (apesar de ter sido operado por um dos papas do joelho), um estiramento na coxa da outra perna, o que me fez mancar das duas pernas, e uma gripe com a qual fui contemplado na antevéspera da prova, com direito a presença de médico etc. e tal.
Enfim.

Nada como viajar, rever lugares conhecidos e arriscar incursões em novos espaços. Mas para tanto é preciso chegar lá. E para chegar precisa ensaiar alguns passos do samba do crioulo doido – se é que a tribo do politicamente correto me permite assim dizer. Para acalmar censores implacáveis retiro o crioulo doido e o substituo por afrodescendente com problemas neurológicos. Pronto.

Confesso que devido às vendas espetaculares dos meus livros, viajei em classe executiva, affaires, business class, ou dito de outra maneira, em classe antieconômica - mesmo com o risco de levar a pecha de fomentador da luta de classes, conceito grouchomarxista que não me seduz.

Pois bem. Com o crescente rigor, presente em todos os aeroportos, para embarcar é preciso passar por um controle severo. No moderníssimo aeroporto de Guarulhos, apinhado de gente, mesmo sem estar em plena Copa do Mundo – já sei, estamos nos preparando e tudo corre de acordo com o cronograma – foi preciso enfrentar uma fila para o controle de passaportes e passar pela intransigente inspeção de bagagens de mão. Macaco velho – ou seria mais adequado dizer primata provecto?- não estava carregando nenhum objeto que pudesse ser usado para seqüestrar a aeronave. Nada de cortador de unhas, frascos contendo mais de 100ml de qualquer substância líquida, enfim, nada...

De forma algo paradoxal, descobri, pouco depois, que os talheres usados para as refeições a bordo eram de metal. Nada de passar um temível cortador de unhas, em compensação, facas de corte afiado, com as quais poderia... Vá entender!

Conforme prometi, nada direi a respeito daquelas intermináveis 26 milhas e algum quebrados, salvo a inevitável e obrigatória menção ao ambiente festivo que envolve a Big Apple durante o grande dia.
A volta foi ainda mais engraçada, já que as medidas de segurança no JFK são ainda mais drásticas – claro que depois os talheres são os mesmos.
Por um motivo que não conseguiria explicar resolvi embarcar usando meu monitor de freqüência cardíaca, cuja marca não declinarei, uma vez que a Polar não remuneraria esse tipo de merchandizing. Os leitores do meu imortal Um triângulo de bermudas, bem como todo atleta de fim de semana, sabem que se trata de um relógio incrementado e uma faixa colocada sobre o peito que permite monitorar os batimentos do coração.
Tive de, a semelhança do então embaixador Celso Lafer, tirar os sapatos e o cinto e passar por uma engenhoca que ‘scaneou’ meu corpo cansado, bem como as vestes autorizadas. Retirar e recolocar os sapatos são atos que requerem um certo equilíbrio ou na falta deste uma cadeira. Maratonista dispensa cadeira. Dediquei um pensamento enternecido ao NOSSOEXPRESIDENTE ( se o Canard Enchainé continua a se referir a De Gaulle como Mongénéral, por que não Nossoex? Não me canso de repetir) que desde sempre se insurgiu contra esse procedimento, proferindo a inesquecível frase: “Ministro meu não tira os sapatos”. Não sendo ministro, cumpri docilmente a exigência. Um alarme soou.
Eis que um empregado da TSA – Transportation Security Administration – aproximou-se de mim, e polidamente pediu para me apalpar. Se o gesto poderia ser classificado de assedio ou não, fica a critério do leitor. Em seguida, decretou. “ O senhor está usando um dispositivo no peito”. Disse-o num português rudimentar – isso porque, para me dar ampla oportunidade de defesa, os inspetores haviam. Após analisar meu passaporte, escalado um funcionário capaz de se expressar no português tosco, ao qual já aludi - mas à la guerre, comme à la guerre. Pensei que ele se referia à medalha. “Não, é um dispositivo”. Retruquei tratar-se de um sensor, o que em nada o acalmou. Levantei a camisa, para mostrar do que se tratava, gesto pelo qual fui imediatamente repreendido pela ‘otoridade’. Percebi o quanto essa forma impensada de agir poderia ter ferido o pudor anglo-saxão, que tolera o Pato Donald sem calças, mas é avesso à visão ainda que parcial de um busto masculino, mas já era tarde. Dezenas de retinas já haviam sido ofendidas. Mesmo assim, o fiador da segurança aeroportuária parecia alimentar dúvidas. Provavelmente passou-lhe pela cabeça que estaria eu interessado nas 72 virgens prometidas aos mártires que andam se explodindo, e insistiu num tom pouco amistoso que não admitia alternativa a não ser uma explicação abrangente: “para que serve isso?“. Fato sabido: a propensão a criar “enrosco” é inversamente proporcional ao grau hierárquico de qualquer funcionário.
Foi quando me lembrei de um filme maravilhoso: Amici miei, no qual por diversas vezes o inesquecível Ugo Tognazzi, quando confrontado com um interlocutor incômodo, saia-se com uma frase delirante. Algo assim: “Supercazzola prematurata a la seconda com scapelamento a destra”, tudo dito com uma velocidade de fazer inveja a um tarimbado locutor esportivo.
Imediatamente recitei o mais rápido que pude: “Sofro de variações da freqüência cardíaca que eventualmente pode alcançar níveis considerados perigosos e ao detectar tal fato tomo de imediato um betabloqueador”.
Funcionou. Fui liberado e tive, finalmente, direito aos talheres de metal que em nada comprometem a segurança das aeronaves, diferentemente dos perigosíssimos cortadores da lâmina dura, formada de queratina, que recobre a última falange dos dedos das mãos e dos pés – segundo impecável definição do Houaiss.

Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Com certeza, essa data pode passar despercebida para muitos. Não é o caso dos que aniversariam, ou que tem algo a festejar nesse dia: ter encontrado o verdadeiro amor, ter passado no vestibular, ter adquirido um novo tapete - debaixo do qual há sempre tanto para se esconder - ou ter finalmente encontrado a chave do carro. São fatos que podem ocorrer dia 21 de dezembro, marcando a data, ou em outro dia qualquer. Tudo acontece nesse nosso “reino animal” do qual usurpamos a coroa. Por coroa entendo, é bom que se diga, aquele adorno metálico usado por majestáticas criaturas - o diadema - e não aquela boazuda que habita as anedotas mais ou menos divertidas. Usurpar coroa é, potencialmente, um tema capaz de adquirir tamanho enciclopédico.

Não pretendo em tão diminuto espaço resumir a biografia de um indivíduo afetado, de maneira irremediável, por agudo nanismo moral. Refiro-me a Stalin. Posso dar apenas meu testemunho de ter sido enorme a lavagem cerebral aplicada na Romênia, em tudo que dizia respeito a esse “farol do pensamento marxista”, “pai das crianças do mundo”. Dotes sexuais à parte, é provável que a metáfora tenha algo a ver com o estranho acasalamento no qual o papel de fêmeas coube às nações subjugadas pelo “farol dos povos”, cujo nome era citado no hino nacional da União Soviética.

Stalin nasceu em Gori na Geórgia , dia 21 de dezembro de 1879, quarto filho de um casal pobre. Os três primeiros não sobreviveram, mas, caprichosamente, quis o destino que Iossif Vissarionovitch Djugashvilli sobrevivesse até 5 de março de 1953, dia de luto, durante o qual as rádios soviéticas e dos países satélites trocaram suas programações pela irradiação de músicas fúnebres. Descrever a aflição oficial demandaria um esforço muito superior à minha capacidade. Como imaginar que aquele ser maravilhoso pudesse ter deixado órfã a humanidade progressista?

Filho de sapateiro, ingressou, por mérito, no seminário teológico de Tiflis, sendo de lá expulso por causa das suas leituras proibidas. Segundo seus áulicos, ele estava se abeberando nas puras fontes do marxismo.

A seguir, filiou-se ao Partido Social Democrático Trabalhista do qual fazia parte Lênin. Quando o partido rachou ideologicamente, seguiu Lênin, junto com Zinoviev, Kamenev e Nadejda Krupskaia - futura esposa de Lênin. Essa facção recebeu o nome de Bolchevique. Os demais formaram o grupo Menchevique, no qual figurava, entre outros, Plehanov. Meus precários conhecimentos de russo levam-me a associar a palavra Bolchevique a “maior”, do russo Bolshoi-grande. Se non è vero... peço desculpas.
Depois de várias peripécias, pontuadas por diversas prisões, torna-se editor do jornal Pravda. Ironicamente, Pravda significa verdade em russo. Por décadas, representou a verdade única, à disposição de milhões.

Depois da Revolução russa, decorrida em dois tempos - o primeiro a derrubada do czar Nicolau II e estabelecimento de um governo provisório chefiado por Kerenski, e o segundo a derrubada de Kerenski pelos Bolcheviques, com a tomada do palácio de Inverno ao som das salvas de canhão do encouraçado Aurora (errou quem falou Potemkin), Lênin conclamou os operários a assumir as fábricas e os camponeses a pegar as terras dos latifundiários.-‘sounds familiar’ soa familiar? O slogan era “paz, terra, pão”.

Em reconhecimento pela sua participação, Stalin ascendeu ao posto de Comissário das nacionalidades: ucraniana, bielo-russa, georgiana etc. Novos estados nasceram, inicialmente brindados com a autodeterminação. Foi um sonho que se desmanchou rapidamente. A autodeterminação valeria para quem aderisse aos Bolcheviques. Por falta de alternativa, foi o que ocorreu.

A guerra civil irrompeu, e o exército branco, o dos “reaças”, foi derrotado pelo exército vermelho na batalha de Tsaritsin (depois Stalingrado, depois Volgogrado). Naquela época Stalin participou de reuniões com administradores locais numa balsa no rio Volga. Aqueles que não inspiravam confiança eram sumariamente fuzilados e atirados ao rio. Simples assim.

A guerra civil arruinou o país, apesar de haver saído da primeira guerra Mundial através do tratado de Brest-Litovsk. Lênin lançou a Nova Política Econômica. As pequenas propriedades agrícolas voltam a ser permitidas, sendo geridas por proprietários –os Kulaks - que aos poucos aumentam suas posses; pequenas fábricas são privatizadas, sendo devolvidas aos antigos proprietários.

Em 1918 Lênin sofre um atentado, levando dois tiros de Dora Kaplan. Sua saúde declina e a preocupação com a designação do sucessor aumenta. Os competidores são afastados, sobrando Stalin. A polícia secreta “Tcheca” comandada por Dzerzhinsky se desdobra em ações que não levavam muito em conta os chamados “direitos humanos”. Os detalhes da luta nos bastidores fogem ao escopo dessa crônica. Contrariando um testamento de Lênin – que até pedira ajuda a Trotsky para “segurar o rojão” o então Secretário Geral do partido assume o poder. (Trata-se de Stalin, para quem ainda duvida). Para Lênin, conservou-se, para uso nos manuais escolares, o epíteto

“Grande”. O grande Lênin...
Logo depois, Stalin volta-se contra os kulaks, confiscando as propriedades, no mais puro estilo MST, promovendo a criação de Kolkhoses e Sovhozes- fazendas coletivas. Milhares de kulaks foram executados e milhões foram deportados na Sibéria, junto com outros “reacionários”, leia-se :inimigos do regime.
Foram lançados ambiciosos planos quinquenais, com metas audazes, cujo cumprimento iria garantir a defesa da União Soviética das ameaças do mundo capitalista. Nasceu o culto aos cumpridores de metas, o Stakhanovismo - preito à personalidade de um mineiro de Dombass , Stakhanov, é claro. Ser stakhanovista era uma honra. A moda pegou nos países satélites. Na Romênia o torneiro Nicolae Vasu –recompensado com a medalha de Herói do trabalho socialista- notabilizou-se por estar décadas adiantado em relação ao plano de produção. Havia heróis de ambos os sexos. Uma conhecida stakhanovista romena chamava-se Amália Sarközi! (sic).
Em contrapartida - trágica contrapartida – reservava-se um destino inglório aos que não cumpriam as metas. De acordo com a gravidade eram fuzilados , ou, generosamente, enviados à Sibéria.

Era comum o bordão: Iremos realizar o plano qüinqüenal em quatro anos. Seria a afirmação do “verdadeiro homem soviético”, não a confissão de um erro do planejamento centralizado. Os “verdadeiros homens soviéticos” fariam com que a União Soviética ultrapassasse os Estados Unidos. Havia até data marcada, sistematicamente adiada. E para se chegar ao estágio de verdadeiro homem soviético, era fundamental começar como verdadeira criança soviética – um pioneiro. Paradigma conhecido foi Pavlik Morozov – há quem diga que se tratava de invenção da NKVD, antecessora da KGB. O que fez essa criança, condecorada como Herói da União Soviética a título póstumo? Delatou seus pais. O fato ou o mito foi um incentivo à delação. Os pioneiros cantavam hinos de glória a Stalin. Suas gravatas eram vermelhas por terem se embebido (simbolicamente) no sangue vertido pelos heróis da classe operária. Como curiosidade a gravata dos pioneiros da Alemanha Oriental era azul. Noblesse oblige?
No meio da arrancada, alguns incômodos companheiros de viagem, responsáveis pela ascensão do “paizinho” foram descartados: Bukharin, Zinoviev, Kamenev, Bukharin e Yagoda foram executados. Trotsky morreu no México, convenientemente assassinado, por uma agente stalinista - Ramón Mercader; chefes do Exército Vermelho, juntamente com uns 30.000 oficiais e soldados pereceram , vítimas do expurgo. A lista é muito longa e enumerar figurões caídos em desgraça seria pouco producente. Logo depois, estamos em 1937, Béria é nomeado chefe da polícia secreta e o rol das vítimas aumenta. Até que chegou a vez de Béria, depois do desaparecimento de Stalin. Dizem que Béria chamava Stalin de “Lênin do Caucaso”, puxar o saco fazia parte do jogo. Os discursos oficiais e os manuais escolares enalteciam os grandes pensadores: Marx, Engels, Lênin e Stalin.

A Segunda Guerra Mundial estava se aproximando. Durante a guerra civil espanhola Stalin enviou conselheiros e armas para auxiliar a Frente Popular. Para tentar adiar o conflito com a Alemanha, que já se mostrava inevitável, Stalin articulou discussões entre Molotov e von Ribbentropp. Assim mesmo, a guerra eclodiu. Um dos momentos épicos foi a derrota que o exército alemão chefiado por von Paulus sofreu em Stalingrado. Naturalmente, os méritos pela derrota do Reich foi atribuída a Stalin, pelo menos nos manuais de História romenos – disso tenho certeza.

Dissipada a fumaça , nasceu a Cortina de ferro – metáfora que devemos a Churchill. Do lado errado da mesma estava a Romênia, em conseqüência da conferência de Yalta. Durante essa conferência Stalin prometeu a Churchill e Roosevelt a realização de eleições livres nos países libertados do jugo invasor alemão. Prometeu...Como dizem os franceses: promettre c´est noble , tenir c´est bourgeois – prometer é nobre, cumprir é burguês. Sem menor sombra de dúvida, Stalin de burguês não tinha nada.
Seguiram-se anos, durante os quais o culto da personalidade de Stalin atingiu níveis que beiravam a histeria. Na Romênia – país que me viu nascer - a cidade de Brasov foi rebatizada de Cidade de Stalin. Abundavam avenidas, parques, estátuas do “melhor amigo das crianças”. Também houve cidades Stalin na Hungria, Albânia, Ucrãnia, Polônia etc. A enumeração seria tediosa...

Durante os desfiles de 7 de novembro comemorativos da “Grande revolução socialista de ... outubro”, escandíamos : “Stalin e o povo russo nos trouxeram a liberdade”.
Três anos depois da morte de Stalin, no XX congresso do PCUS, Hruschov desmascarou os abusos do “culto da personalidade” o que levou a uma fúria demolidora de monumentos erigidos em honra ao “paizinho”, bem como à remoção dos seus restos mortais do mausoléu da Praça Vermelha, sem falar nas cidades, parques, praças e avenidas que recuperaram o antigo nome.
Stalin se foi. Cabe à História julgá-lo. Cabe a todos manter viva a lembrança do que foi o terror por ele implantado, e que povoa uma ou outra mente totalitária, aqui e alhures.

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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O debate acerca dos planos econômicos e suas consequências sobre poupadores (e por que só sobre os poupadores?) merece um tratamento lógico, sem o foguetório improdutivo da discurseira destinada a granjear popularidade. Um esquema do tipo ‘arvore de decisão’ seria um providencial fio de Ariadne em busca da saída desse labirinto. Primeira pergunta: Os planos econômicos – deixando de lado o fato de terem sido gestados em situações de desespero – feriram a Constituição? Vamos deixar de lado também o fato que o plano Bresser foi emitido antes de a Constituição de 88 ter sido promulgada. Não feriram. Então não há mais o que discutir. Próximo assunto, pois há centenas de processos a serem julgados. Feriram, sim. Então, vamos determinar quem foi prejudicado e quem se beneficiou. Houve prejudicados e beneficiados, sim ou não? Não houve. Caso encerrado. Houve, sim. Caberá recomposição dos valores? Sim ou não. Não. Vamos ao cinema. Sim, é preciso retroceder. Finalmente se houve prejuízos e lucros a quem caberá pagar a conta? Mal nenhum faria, caso a discussão siga esse caminho, começar a falar em números. Como no quadro cômico do Jô Soares – nos tempos em que ele era mais engraçado do que hoje –, imitando o então ministro Delfim: “Meu negócio são números”. Parece simplória a decisão de pendurar a conta no pescoço dos bancos que nada mais fizeram a não ser respeitar decisões vindas “de cima”. Seria apenas um subproduto da cultura que demoniza as instituições financeiras. Continuemos. De quanto estamos falando, afinal? É preciso definir, ou basta bater o martelo e contar mais tarde mortos e feridos? Iniciar-se-ia uma discussão, para a qual, com todo o respeito, os magistrados da mais alta corte, não possuem competência técnica. Podem decidir se os planos feriram ou não a Constituição, mas determinar valores é outro departamento. No entanto terão que fixar com precisão, para operacionalizar essa eventual sentença, porque lavar as mãos não parece muito sério. Ficarão se debatendo entre pareceres que afirmam que os bancos ganharam em valores de hoje estratosféricos 230 bilhões de reais e outros que afirmam que não houve ganho algum. E esses pareceres não são fruto de pura “achologia”, embora as diferenças sejam escandalosamente grandes e não estejam desprovidos de viés ideológico e/ou erros mais ou menos involuntários. Frases como a do eminente ministro Lewandowski, que aparentemente está dotado da resposta às perguntas anteriores: “Caberá aos bancos, que já ganharam muito dinheiro”, tipificam prejulgamento e desmoralizam o processo. Ser dono de tal convicção antes de uma profunda análise, no mínimo o tornaria impedido.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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“Quem domina o presente reescreve a História.”

Segundo Colbert, arrecadar impostos é como depenar gansos, tentar obter o máximo com um mínimo de gritaria das aves. Quando se pensa em gansos, não há tantos problemas.

Depois de míseros 12 anos o STF decidiu que houve inconstitucionalidades nas leis que alteraram o índice de correção monetária dos balanços das empresas. Então, as medidas impostas às empresas há mais de 20 anos (1989) deixam de ser válidas. Não é o caso de discutir a decisão da mais alta corte. Surge a pergunta: E agora?

De imediato, nota-se que em função da decisão, aparecerão contas salgadas e a inevitável pergunta: Quem as pagará?
De um lado, empresas capitalizadas tiveram, por força das imposições, hoje “promovidas” a inconstitucionais, de corrigir os balanços com índices inferiores à inflação calculada pelo IBGE. Como o saldo dessas operações resultará agora em uma despesa maior, com a consequente redução dos lucros tributados na época, é possível e é justo que diversas empresas procurem seus direitos na Justiça, com a alegação pertinente de ter recolhido IR e CSLL a maior, sem contar que a distorção, ou a correção desta se estenderia ao longo do tempo, até o advento do Plano Real que, na tentativa de desindexar ao menos parcialmente a economia, passou a ignorar a correção – até que algum revoltado, a hipótese é delirante mas não impossível, venha a questionar a constitucionalidade do Plano Real.

Há o outro lado da moeda. As empresas que apresentaram o chamado saldo credor da correção monetária se verão, de repente, na situação de não ter recolhido IR e CSLL no montante devido, com a nova determinação. A menos que a União dê mostra de uma total, inesperada e improvável inapetência arrecadatória, haja cobranças, quem sabe mais um Refis.
E depois de uma longa hibernação, é possível, caso o STF assim determine, que os detentores de cadernetas de poupança possam reivindicar valores, que em função de diversos planos governamentais não lhes foram creditados. Resta saber, como se operacionalizaria tal ressarcimento. A quem deverá ser apresentada a conta, caso as eminências togadas declarem insuficientes os índices aplicados na salada de Planos fracassados.

A voz corrente é que a conta, se houver, deverá ser apresentada aos bancos. No entanto há objeções pertinentes. Os bancos públicos e privados não aplicaram índices menores para, a sorrelfa, e por pura perversidade, prejudicar pequenos, médios e grandes poupadores. Cumpriram leis e determinações cuja constitucionalidade passa a ser rediscutida. Vale lembrar que o mesmo índice que prejudicou os poupadores beneficiou os mutuários de determinados planos de aquisição da casa própria pelo Sistema Financeiro de Habitação. Proprietários de imóveis já quitados poderão, se ainda em vida, se ver ante novas cobranças, ou isso dará origem a uma nova versão do FCVS, potencial esqueleto para os armários da União? Isso sem contar que muitos desses mutuários na tentativa de recuperar perdas na caderneta, poderão ter a surpresa de descobrir que, na realidade estão devendo. É fácil imaginar a confusão. Fulano de Tal possuía uma caderneta de poupança nos bancos A e B e financiamento no banco C. Haja levantamentos.

Continuando no terreno das hipóteses, já que nada foi – ainda – decidido, a conta teria grandes chances de ser apresentada ao mandante das operações, ou seja, o Governo. No caso dos bancos públicos isso parece inevitável, já que, para honrar a conta, haveria a necessidade de capitalizá-los, com injeções de dinheiro do nosso incansável Tesouro – leia-se de todos nós. Aos bancos privados restará a alternativa de encaminhar a conta, por exemplo, ao BC, cujas determinações foram seguidas, naqueles dias de inflação destrambelhada. Afirmar que as instituições financeiras ganharam com essa correção incorreta merece uma reflexão, já que os depósitos em caderneta serviram para o financiamento habitacional, cujas correções de uma forma ou de outra seguiram a lei. Ganhos de um lado perdas do outro.

As consequências das decisões do STF são de impossível quantificação e a operacionalização possui aspectos políticos de inimaginável complexidade. A não ser que se procure um bode expiatório para a confusão. Diz um provérbio da região de Provence: ”Quando as cabras dão leite, não é preciso procurar bodes... expiatórios”. O problema se agrava quando se procura substituir as cabras por pedras na tentativa de se extrair leite.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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É impressionante a vocação para comentarista político que nos aflige. O mais engraçado é que (quase) tudo já foi dito de forma, pelo menos tão percuciente, há muito tempo. Pensando nisso, reuni dois personagens que não foram contemporâneos, mas cujo ácido espírito de observação os mantém de certa maneira unidos, além de permanentemente atuais.

Georges Clemenceau foi (1841-1929) foi um estadista, jornalista e médico francês. Autor de tiradas brilhantes e irreverentes, a ele se deve a queda de seis governos e a demissão de um presidente da república. Por essa razão ganhou o apelido “O tigre”.
Mal sabia o quanto seus bordões se aplicam nessas plagas, e alhures.
Alguns exemplos:

"A França é um país extremamente fértil: plantam-se funcionários públicos e nascem impostos". - Só a França, é claro, desfrutava desse privilégio.
Alguns dos seus dizeres são recados diretos aos nossos políticos. Àqueles que "incham a máquina administrativa" por achar o Estado raquítico:
"Os funcionários públicos (sempre na França, certo?) são os maridos ideais; Chegam em casa descansados e já leram o jornal". Não é o caso de entrar na polêmica do Estado mínimo, mesmo se por aqui já se fala tanto na necessidade de se ter um estado forte.

Aos frequentadores da altura dos muros de onde não se atrevem a descer, àqueles pássaros de bico avantajado:
"É preciso saber o que se quer, uma vez sabido, é preciso ter coragem de dizê-lo, uma vez dito, é preciso ter energia para fazê-lo”. Definir de uma vez por todas. Parece simples...

Não é preciso concordar com todas as afirmações, mas quem se atreve a rejeitar de pronto essa frase?; “A vida me ensinou que há duas coisas que podemos dispensar: a Presidência da República e a próstata”. No máximo, haveremos de admitir que há um certo exagero, a próstata não é inútil, já a sua hiperplasia...
As campanhas eleitorais mereciam sarcasmos. (Estamos, nunca é demais lembrar, falando da França)
“Nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante a guerra e depois da caça”. Poderia ter dito “depois de uma pescaria” se estivesse na presença de um Ministro da Pesca.

Para minar um pouco as ambições políticas, “O Tigre” disse: “Em política, sucedemos a imbecis e somos substituídos por incapazes.”. É uma faca de dois gumes, melhor não utilizá-la, ou se optar por empregá-la, que seja com extremo cuidado. A chance de ser processado por injúria, difamação ou...revelação de segredos de Estado é enorme.

Como se previsse a situação em algumas democracias, paparicadas pela nossa diplomacia, ele dizia:
“Uma ditadura é o regime no qual não é preciso ficar a noite inteira pregado no rádio (sorry, era o que havia na época) para saber o resultado das eleições.”
Muito antes de se falar em “herança maldita”, Clemenceau dizia: “Todos podem cometer erros e imputá-los a outros: isso é fazer política”. É preciso reconhecer que o passar dos anos não foi em vão. O termo “herança maldita”, especialmente quando utilizado por herdeiros desastrados, pode ser equiparado a uma indulgência papal, uma absolvição antecipada para falhas eventuais. Como aqui não há falhas visíveis, o termo entrou em desuso – por enquanto.
Para os políticos sem moral – da França, porque aqui não os há - “A honra é como a virgindade, só serve uma vez”. Possivelmente, sua intenção era dizer: “Só se perde uma vez”, se bem que, basta renunciar ao mandato e voltar triunfalmente reeleito – nos braços do povo -, isso que é democracia! O conceito de democracia de Clemenceau era bem polêmico :”Democracia é o poder, dado aos piolhos, de comer leões”. Os piolhos agradecem!
Com certeza, algumas tiradas precisam de um aggiornamento. Por exemplo, a famosíssima: “A guerra é um tema grave demais para ser confiado a militares “ poderia ser adaptada de inúmeras maneiras, mas considerando os perfis de muitos escolhidos para “tocar” assuntos relevantes, é provável que surja a pergunta: “E a quem confiá-los?”, ou pior.

Um salto no tempo nos leva a Coluche (1944-1986), um cômico que em determinado momento chegou a ser cogitado para candidato à Presidência da França. Ah, esses franceses!
Segundo Coluche, o mais difícil para um político é ter suficiente memória para se lembrar do que não deve dizer. É possível acrescentar que a memória deve ser suficiente para não cair em contradição.
É imprescindível arrumar direito a papelada - ensina Coluche - para que não se torne público, antes do tempo, o que se pretende fazer. Se der zebra, alegar total desconhecimento - afinal tratava-se apenas de um plano de governo. Diante de eventual repercussão negativa, definir um aspone qualquer como responsável pelo erro e demiti-lo imediatamente é a solução.
Grande Coluche! Mesmo sem jamais ter ouvido falar no PNDH3 ele dizia:
"As ditaduras sabiam fazer-vos falar, os políticos sabem como calar-vos" – tudo em nome da liberdade de expressão e da regulamentação da mídia que precisa ser “orientada, fiscalizada e controlada”, ou numa só palavra: democratizada.
Dele também essa outra pérola - aplicável somente na França, evidentemente.
"Meu pai era funcionário público, minha mãe tampouco trabalhava".
Para os funcionários públicos - não todos, apenas com alto QI - quem indicou, na França, naturalmente.:
“Não se deve dormir de manhã no escritório sob pena de não ter nada que fazer de tarde".
Tudo muda e mesmo assim, independentemente da latitude, permanece válido. Vejam isso:
"Quem se debruça sobre o passado corre o risco de cair no esquecimento" - Essa mania de comparar governos passados pode dar nisso? Veremos.
Sem conhecer as propostas do PV, Coluche foi implacável.
"Para que um ecologista seja eleito, basta que as árvores votem".
Na França, e somente lá, era possível retratar um político sendo entrevistado;
" É só perguntar algo. Como não saberá responder, passa-se à pergunta seguinte".
Mesmo porque:
"De todos que não têm nada a dizer, os mais agradáveis são aqueles que permanecem calados". É a arte de permanecer calado, amparado por um direito constitucional. País estranho a França!
Para não abusar da paciência do leitor, aí vai a definição do político - francês, desnecessário frisar :
"É aquele que se apropria de algo que alguém não tenha ainda perdido". Essa citação prescinde de comentários, salvo o fato de fazer as honrosas ressalvas de praxe.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Confiava cegamente neles. Aí aprendi o Braille.

“De tanto ver triunfar as nulidades”, exclamou Ruy Barbosa por volta de 1914, “...o homem chega a desanimar da virtude”. Naquela época, como hoje, o desânimo se justificava, dizem. Será? Para quem a tarefa de endireitar o mundo parece excessivamente aborrecida, resta o consolo de entender que o que puder ser salvo, um dia, o será. Dito de outra maneira: Se estiver confuso, confunda os demais e ganhe tempo. Sobretudo, jamais interpele os impostores. Para quê? A credulidade substitui a contestação; o fraco andará a reboque de conceitos que não entende, sempre disposto a amaldiçoar uma verdade em conflito com a crença que acabaram de lhe instilar. O ingênuo contemplará boquiaberto o espetáculo que lhe é oferecido. Existe justificativa melhor para os chamados showmícios? Nada como a estridência de um espetáculo para determinar uma opção política. Um espetáculo de ópera-bufa protagonizado por um candidato comunicador e pronto, muda o destino de um país. A tal consciência política tira férias remuneradas, para em seguida se indignar com uma escolha desastrada.

Isso só acontece na Namíbia, aquele país tão limpinho que não parece Africa, já que por aqui, os showmícios foram eliminados.
Exigir algo de meros títeres subordinados aos próprios instintos, é um pensamento utópico e, sobretudo, indigesto, já que a injustiça jamais se limitou a gerar um filho único. Quanto à justiça, ela é cega por definição.

Importante é deixar sempre um espaço para um recuo, que permita contemplar o todo hostil com um sorriso, mesmo com o risco de saber que a qualquer momento, poderá virar um ricto. O segredo, se é que existe, é tocar sempre com a ponta dos dedos, roçar sem o compromisso de aprofundar-se, sem provocar a alergia à verdade daqueles que dela se proclamam donos. Ressaltar o mal, que se esconde atrás de argumentos traiçoeiros, é, seguramente, uma armadilha ao nosso comodismo, a ser cuidadosamente evitada.

Visto assim, tudo passa a ser mero objeto de escárnio. Não há mais o risco de tombar empunhando a bandeira de um ideal com seu prazo de validade vencido. Aos que imaginam ser esse um caminho para a superficialidade, para a alienação, termo abusivamente presente em debates acalorados, Pascal retrucaria ser importante ter um pouco de tudo e não tudo de alguma coisa. Não é uma receita de vida nem um convite ao alheamento e sim, uma forma menos tensa de examinar o palco da existência, no qual um detalhe irrelevante pode arruinar o mais ambicioso projeto, um toque inoportuno de celular consegue dissipar a aura de um momento mágico, onde, finalmente, ídolos adquirem essa condição, enquanto iluminados pelo jogo de luzes de um diretor experiente, para se desintegrar quando baixa a cortina. O “para sempre” dura no máximo até o fenecer da estéril paixão.

Indiferente a reflexões desse jaez, a sociedade se encarrega de ignorar a imagem tétrica do relógio sem ponteiros de “Morangos silvestres”, soterrada pelo advento de inexpressivos relógios digitais. O diálogo encontrou substituto digno no discurso vazio, sem contestação possível, a arenga insossa do “vender o peixe”. Tão compacta é a fala que rege a sociedade, que não há espaço para discussão. Aforismos sem valor, e não vale a pena enumerá-los, passam a governar as mentes. Contestar? Por acaso existe a certeza – e se existe, onde é que ela fixou residência? Deve estar perdida entre a teia de Penélope e o vão esforço de Sísifo, entre o ardil e a sentença.

Levar a sério a realidade? Melhor dirigir-lhe um olhar zombeteiro. Será essa a desforra. A pretexto de estarmos vivendo intensamente determinado momento, não faz sentido afirmar ser determinado instante mais importante do que outro. Não há mais nada de excepcional, inexistem encruzilhadas históricas, a não ser para nós mesmos. Se houver alguma perspectiva inebriante, bastará um olhar irônico para demolir qualquer arcabouço ou dogma, para transformar em bagatela ao invés de sofrer por conta de males, cuja cura teima em fugir à sabedoria. O caniço pensante precisa, com urgência, aprender a dar de ombros.

Nossa jornada é apenas o atalho para descobrir, algo tardiamente, a inutilidade de ser sério. Os mais nobres sentimentos abdicam da sua solidão majestática ao chocarem-se com o trivial. Entre sermos inconsoláveis cassandras, ou torcer pelo fracasso das nulidades, manter o sorriso é uma medida de sobrevivência. Saída poética, talvez, já que sem sermos poetas, saberemos ser fingidores. Ante a falta de pudor do político, o sorriso do sábio. Isso não irá mudar algo, mas se não é a solução, proporcionará pelo menos um agradável fim de semana, sabendo que o Febeapá do saudoso Ruy Porto possui ainda várias páginas em branco.

E as nulidades? Bem, quantos têm na ponta da língua o nome de quem derrotou Ruy Barbosa, nas urnas? Eis a resposta definitiva, ainda que disfarçada de pergunta.

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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´´Todos os homens são bons.`` (UM CANIBAL)

Caramba, dirão, mais uma? Talvez o veio das variações sobre o mesmo tema não tenha se esgotado. 

Na teoria, a prática é outra, ensina o bom Joelmir, mas não podemos deixar de lado uma verdade: A teoria é a consolidação da prática dos mestres. “Com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante”, filosofava Machado de Assis. O ensinamento mantém sua validade.

Parto de uma hipótese algo ousada e que poderá ser contestada por qualquer observador, por mais distraído que seja, de nossa cena – chamemo-la de política. De acordo com essa ousadia teórica, todos os seres são fundamentalmente bons. Ou seja, quando pela primeira vez aboletam-se no poder, através dos votos ou mediante qualquer outro atalho constitucional: suplência, indicação, nomeação etc., chegam sem (muitos) vícios... É possível que um ou outro ascendeu ao cargo com o propósito de rápido e duradouro enriquecimento, mas prefiro alimentar a dúvida.

Aí, ocorre o fenômeno que apelidei de “anestesia do espírito ético”. Talvez haja outros nomes mais sugestivos, mas foi o que de melhor achei. Como poderia ser descrito sem fatigar o leitor?

É preciso ter em mente que, no Absurdistão, anualmente, há um notável momento de transição, quando se passa da era do silicone no Sambódromo, para a era da pedra lascada na política. A nossa despretensiosa análise cobre a tal fase II.

Vamos imaginar uma cena, que de extraordinário nada possui. A excelência recém-eleita senta, enxuga o suor, e procura saber como funciona a coisa. Descobre onde fica seu gabinete, quem são os colegas, quais os ritos mais importantes, o que é uma questão de ordem etc. Dizem-lhe que terá direito a diversas regalias. De tanto ouvir, passa a acreditar no que lhe sopram os que o circundam, munidos do argumento irretorquível: Aqui é assim. Inocente e jejuno (em ambos os sentidos que o Houaiss fornece, ou seja ingênuo e em jejum) assimila as informações como todo homo adaptabilis.

Pois já que aqui é assim, empregar filhos, filhas, netos, netas, tios, tias, sobrinhos, sobrinhas sem omitir primos, primas, genros, noras e amigos de verdade – e como surgem amigos nessa hora! - não pode ser errado. Se, por acaso tornou-se irregular, basta trocar chumbo com colega: eu emprego os teus, você, os meus. Não se fala mais em nepotismo. É uma forma criativa de aumentar o emprego, a renda, o consumo, o PIB. Patriotismo puro. Deve ser o certo. Por instantes paira ainda uma dúvida, uma espécie de tênue lembrança dos ensinamentos recebidos na escola e, quem sabe, até em casa. A hesitação logo cede lugar a determinação, aguilhoada pela percepção do tempo precioso perdido por conta dos, agora indesculpáveis, vacilos. Ora – raciocina a excelência - ninguém foi questionado até hoje. E acrescenta para tranqüilizar-se, só aqueles que fizeram mal feito os malfeitos!

Daí, começa o inexorável processo do entorpecimento das reações virtuosas do ser supostamente impoluto ao iniciar a caminhada. Um mandato mais tarde (pode acontecer antes), na mesma função, ou passando a exercer algum cargo similar, o gosto do melado torna-se irresistível e qualquer questionamento é relegado a um plano secundário! Aconteceu o entorpecimento, a anestesia. Daí para frente, não há mais limite.

Surge a possibilidade de edificar-se um prédio, construir uma ponte, uma central elétrica, uma estrada. O senso cívico brada, para consumo externo: “É para o bem do povo que me elegeu, vamos em frente.”. E eis que a excelência passa a se definir como “lutador”- não, não se trata de pugilista, judoca, ou praticante de alguma modalidade de arte marcial. Ele luta, enfrentando demônios ocultos – elites egoístas e reacionárias, ambientalistas fanáticos, eventualmente o bom-senso que se opõe à realização da tal obra. Nada o deterá. Tudo pelo bem do povo! Se a tal obra for superfaturada e disso resultar algo em benefício da família – e há algo mais sagrado que a família?- não há mal algum, na visão do “lutador”.

Com um pouco mais de vivência, é possível que a realização física da monumental iniciativa seja dispensável. Basta receber via caixa dois, ou três o quinhão a que faz jus todo emérito lutador. Durante essa pugna exaustiva, nada mais conveniente que, além da remuneração normal, se tire algum proveito da situação, ale de anuênios, biênios, quinquênios etc. Não há dúvida possível. Se aumentar o próprio salário pode parecer inadequado, será preciso que, junto com os colegas de insana labuta, se dê um aspecto legal aos aumentos auto-concedidos. Quanto a outras misérias, passagens aéreas, auxílios-moradia, uso de celular por terceiros etc. nem vale a pena comentar. Todos assim procedem é o refrão. Santo refrão, quanta verdade conténs! Tolo seria quem se desviasse dessa agradável linha de conduta. Pecunia non olet – dinheiro não tem cheiro – já se dizia há milênios. Vespasiano teria sido o primeiro a empregar a fórmula, ao taxar a descarga de urina dos romanos na Cloaca Máxima. Nada como uma taxa! E quanto à cloaca... Há uns tolos entre as excelências, é preciso reconhecer, possivelmente em grande número, mas eles se calam. Por que se calam é a pergunta que fica aqui à guisa de exercício.

Vezes há, em que, por alguma injustiça cometida na partilha do butim, ou por despeito de algum derrotado na guerra das nomeações, a imprensa ávida por escândalos – sim, essa imprensa maldita que só levanta miseráveis picuinhas em vez de enaltecer a edificação de uma sociedade melhor, como ensina a Novlíngua – é abastecida com detalhes sobre o lado dos negócios cujo olor fere a sensibilidade dos imbecis pagadores de impostos. E, cúmulo da falta de patriotismo, essas notícias vêm a público. Em outras circunstâncias – faz parte do jogo – órgãos fiscalizadores descobrem alguns produtos da criatividade dessa casta. Em função de desentendimentos, rivalidades ou rixas políticas, mais detalhes vazam. A mancha de ... óleo aumenta. O que fazer?

Uma vez descobertos, desmascarados, que seja, as excelências sofrem um choque: Primeiro a surpresa. Mas como? Então, “aquilo” não era legal? Cessa o efeito da anestesia e há uma breve tomada de consciência, para quem possui tal adereço. Diante da constatação que, de fato trata-se de um delito, será preciso reagir.

Entra em cena a ‘valsa em três tempos’.

Antes da procura de alguma desculpa, o procedimento usual consiste em negar com graus variáveis de indignação – de acordo com o talento de cada um. Negar, negar sempre, jogar culpa na imprensa, tornar a negar, mesmo diante de evidências esmagadoras. A seguir, subir à tribuna mais próxima e invocar um passado de glórias, um currículo que pela sua riqueza demonstra, à saciedade, a leviandade das infâmias levantadas por inimigos... do povo, naturalmente. A confraria – dos cidadãos mais iguais que a patuléia ignara – reage.

Suponhamos que, por alguma obra do destino e cúmulo dos azares, essa reação não sepulte as acusações. O ser anestesiado, já bem acordado, passa à etapa seguinte. “Eu não sabia, fui traído!” E eis que, de repente, não mais que de repente, constatamos que os eleitos do povo constituem um bando de seres distraídos, talvez amnésicos, incapazes de se recordar do que aconteceu ou caso guardem de tudo uma vaga lembrança, ostentam compreensível indignação e dirigem sua ira em direção aos que, sem seu conhecimento, aloprados, negligentes, relapsos ou mal intencionados mesmo – em se tratando dos “outros” vale qualquer epíteto – perpetraram atos que deixam trêmulas de indignação as excelências. Com algum atraso constatam: Tudo vale a pena se a alma não for pequena... desde que não sejamos pegos.

O infortúnio dessa brava gente pode não terminar. A voz rouca da plebe clama por justiça. Entra em cena a arma letal:.”Todos procedem assim, desde tempos imemoriais”. Existe desculpa melhor? Se esse recurso não levar à absolvição automática, a filosofia ocidental perderia seus esteios.

Muitos sabem das estripulias dos outros e guardam a preciosa informação para usá-la em boa hora. Fulano conhece as proezas de beltrano, até as tem imortalizado em gravações, mas não ousa citá-las, pois sabe que o outro sabe que ele sabe que o outro sabe que ele sabe de tudo e, acuado, o outro poderá pagar em igual moeda. E essa chantagem atômica, como nos saudosos tempos da Guerra fria, paralisa de vez qualquer apelo à decência, pois todos se sabem cobertos pela prática comum da gatunagem. Será que estamos falando em hábitos ou de infelizes exceções? Os risonhos abstenham-se!

Alguém falou em rabo preso? É claro que não. Estamos falando de mamíferos superiores desprovidos de cauda. Ou, se preferirem, da gloriosa confraria dos possuidores de telhados de vidro.

Seguramente, o conceito de, pulchrum et honestum, bonito e honesto não está em alta, no momento, se bem que o problema maior não parece ser a feiúra.
Isso para não mencionar a competência, atualmente em férias.

Do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Do livro ´´Apetite Famélico``, melhor livro em português, Poesia Prosa e arti figurativi – Il Convivio – Itália.

A irmã só sabia pregar-lhe peças. Precisava dar um telefonema urgente e não conseguia fazê-lo a par­tir daquele mudinho. Olhava desolado para aqueles res­tos “tecnologicamente corretos”.
O telefone espatifado tocou sem avisar. Feito um autômato, atendeu.
– Pronto.
– Bom dia. O senhor atendeu uma chamada a cobrar; para continuar, introduza um diamante. Se o fizer estará concorrendo a um secador de cabelos. A Companhia agradece sua preferência.
– Não preciso de secador de cabelos. Sou careca.
– Estar concorrendo é apenas o primeiro passo. Ganhar é outra coisa. Introduza o diamante.
– Mas introduzir onde? O telefone está quebrado!
– Então procure o nosso setor de consertos.
– Mas eu já liguei para o setor de consertos. Disse­ram que entrariam em contato.
– Pois então, estou ligando do setor de consertos. Introduza um diamante para continuar. Não aceita­mos rubis.
– Deve haver uma confusão. Não tenho diamante algum.
– Na nossa Companhia não há confusões. Sem diamante, a ligação cairá dentro de meia-hora.
– E por que usa maiúsculas para designar sua em­presa?
– E por que não? Além disso, essa é uma norma interna. O senhor cometeu uma indiscrição. Como sabe que usei maiúsculas?
– Foi apenas um palpite. Gostaria que consertas­sem o meu telefone.
– Qual é o problema?
– A minha irmã o quebrou.
– Ela o quebrou dentro da residência ou fora? Se for dentro, trata-se de um problema doméstico, fora de nossa alçada; se for fora, fica dentro de nossa al­çada. Entendeu? Fora, tá dentro e dentro, tá fora.
– Ela o jogou pela janela na calçada e eu o trouxe para dentro de casa. Fiquei com pena.
– Então o problema ocorreu fora da residência?
– Pode-se dizer que sim. Tenho certeza que sim.
– Qual o nome de sua irmã?
– Isso é importante?
– Preciso preencher o formulário. Estou procurando o campo para “parentes próximos”. Não estou achando. Terei de ligar novamente para o senhor.
– Esqueça esse campo, continue.
– Não posso. Já abri a ocorrência e o senhor me deu uma informação, que não consigo classificar. Consultarei minha supervisora. Essa informação pode ser importante para a Companhia. A Companhia agradece sua preferência. Voltaremos a contatá-lo. Será aplicada a tarifa de re-chamada.
– Não, não desligue.
– Desculpe, tenho instruções precisas.
– Quero falar com a supervisora.
– Ela não veio trabalhar hoje.
– Mas a senhora disse que precisaria tirar a dúvida com ela.
– Perfeitamente. Perguntarei assim que ela voltar. Ela está de férias no momento.
– Está certo, mas, na ausência dela, alguém a substitui, ou não?
– Claro que alguém a substitui. Ninguém é insubs­tituível. Uma posição importante como essa nunca fica descoberta.
– E quem a substitui?
– Eu.
– Entendo. Como irá proceder?
– Tentarei fazer o melhor. Recapitulemos. Quando o fone foi atirado pela janela, sabe dizer se estava co­nectado na tomada?
– Não sei. Eu cheguei depois que ela o jogou.
– Como sabe que foi jogado pela janela?
– Tive esse palpite, quando o encontrei na rua.
– Mas poderia ter sido quebrado dentro de casa e atirado depois pela janela. O que sobrou dele pode ter sido colocado na calçada com cuidado. Concorda?
– E que diferença faz?
– Dentro, tá fora e fora, tá dentro. Lembra?
– Como poderia me esquecer? Quero saber se vão resolver o meu problema.
– Por enquanto estou preenchendo um formulário. Já preenchi os dados básicos. Estou com problemas para preencher o campo “observações”; na falta do campo “parentes próximos”, encaixarei em “observa­ções”. Como vê, somos uma empresa moderna e flexí­vel. Isso me lembra...
– Deixe o campo em branco, por favor. Estamos perdendo tempo.
– Este campo nunca pode ficar em branco. De­monstraria falta de interesse do funcionário. A Com­panhia tem por objetivo a maximização da satis­fação do cliente. Isso só se consegue preenchendo o campo “observações”. Maximizar a satisfação do clien­te nunca foi perda de tempo. Trabalhamos para pro­porcionar qualidade total.
– Está maximizando minha raiva.
– Desculpe, sigo um roteiro aprovado internamente. Não deixarei o campo em branco.
– Então escreva o que quiser. Escreva uns versos de Pessoa.
– Ele é assinante?
– Ele é imortal. Pode ser que seja assinante tam­bém.
– Pode me dar os dados dessa pessoa?
– Não. Eu faltava muito às aulas. Serve Alberto Caeiro?
– Terei de abrir outra ficha. O senhor me deixa numa situação embaraçosa. Tento fazer o máximo para resolver o seu problema e o senhor está dificul­tando. Já colocou o diamante?
– Só se for numa broca dentária.
– Então o senhor é dentista? No nosso banco de dados consta: pugilista.
– Sou um pugilista filósofo sem telefone.
– Nosso tempo está se esgotando. Sua reclamação estará sendo reprocessada. A Companhia lhe deseja um bom-dia e agradece sua preferência.
– Preferiria poder dar uns telefonemas. Com este aparelho será impossível.
– O senhor não possui outro telefone?
– Tenho, sim.
– Então por que não o está usando?
– Não posso.
– Por quê?
– Minha irmã o está usando e ela fala muito. Nem pode imaginar o quanto.
– Qual é o nome de sua irmã? É para colocar no campo “observações”. Além disso, por um diamante menor, podemos proporcionar-lhe uma extensão vir­tual...
Desligou. Não havia motivo algum para ficar irri­tado. Afastou-se do aparelho cantarolando a marcha fúnebre.


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Se é verdade que a idade vem sempre acompa­nhada pela sabedoria, no caso dele, parece ter havido algum desencontro. O acúmulo de anos nada lhe trouxera de muito especial, excetuando-se a ilusória curva da prosperidade. “Pneu” para os mais objetivos. Quarenta e nove anos. Quarenta e nove, como se sabe é um quadrado perfeito. Ele era um perfeito qua­drado.

Num de seus escritos, Marx cita o lema de um heb­domadário publicado durante a Revolução Francesa “os grandes nos parecem grandes, porque estamos ajoelhados”. Ele, não estamos nos referindo ao bar­budo, não andava ajoelhado, porque tinha a digni­dade e o menisco a preservar. Não necessariamente nessa ordem. Acumulador persistente de pancadas ministrada por uma vida monótona, podia orgulhar-se de, mesmo com a auto-estima em frangalhos, ter sobrevivido. Por obra da fatalidade, os outros lhe pareciam grandes. Possivelmente, por ser ele tão pe­queno.

O aluno sem brilho, jogador de futebol medíocre, médico rejeitado por diversos convênios, marido oca­sionalmente espinafrado por uma cara metade tempe­ramental e pai caninamente dedicado a filhos remo­tamente afeiçoados, estava talhado para o papel de zero à esquerda. 

Reclamou dos professores, teve de ouvir que passar de ano, no caso dele, era uma bênção. Pedia a bola, durante as peladas, só para ouvir a recomendação para comprar uma, pois a do jogo ele não iria mal­tratar. Ao se habilitar para prestar serviços para coo­perativas médicas, teve de ouvir que ele era um forne­cedor da morte exageradamente apressado, razão pela qual se dava preferência aos mais bem sucedidos na arte de prolongar a vida. Ousar reivindicar algo no lar, além da prestação de afeto contratual, era sinônimo de querer ouvir, em altos brados, a cantilena cujo refrão era “vá lamber sabão”. Diga-se de passagem que essa recomendação jamais foi seguida ao pé da letra, por um detalhe de preferências gustativas. Quanto aos filhos, sempre tinham algo mais impor­tante do que dar atenção à carência afetiva do prove­dor de mesadas.

Teve a idéia de invadir o terreno das artes. Até par­ticipou de um concurso literário. Veio a boa nova. Seu trabalho fora selecionado e distinguido com um hon­roso terceiro lugar. Era a revanche. Ao dar, triunfante a notícia no jantar, a megera comentou, sarcastica­mente.
– Se seu trabalho foi o terceiro colocado, o primeiro deve ter sido um cartaz “Não pise na grama” e o se­gundo, uma plaquinha “Cuidado, cão bravo”.
O trabalho no qual colocara pedaços de si, objeto de chacota. Sua sensibilidade, objeto de mofa. A ri­sada familiar, em vez de elogios pelos quais ansiava. Pior, cada um de algum modo gostava dele, mas era um gostar especial. Ninguém o levava a sério. O pro­cesso se acelerava. Estava virando unanimidade negativa no ambiente familiar. Não era no lar que as feridas de fora seriam curadas.

Então onde? Como?
Não, ele não passou a beber, nem tampouco procu­rou a muleta das drogas. Nem sequer lhe ocorreu buscar fora do lar o que lhe era recusado. Gostava demais daquela célula da sociedade, da qual se consi­derava núcleo, mesmo que na óptica deles não pas­sasse de um mero vacúolo. A idéia do adultério nem chegou a surgir; portanto, muito menos desceu ao patamar da execução.

Num misto de lucidez e depressão, concluiu não ter mais função alguma no mundo. Esse pensamento que, de longa data, andava pousando suavemente nas suas costas, vergou-o moralmente. Era um processo que a própria insegurança e os fatos aceleravam impie­dosamente. Um “Por que está acontecendo isto comigo?” era a pergunta irrespondível.

Não houve gota de água a fazer transbordar a taça. A decisão brotou de súbito. Teria que acabar com tudo. Acabar, sim, pôr termo à própria vida. Basta!
No entanto, não poderia ser uma partida discreta. Nada de deixar um bilhetinho “Fui me suicidar, volto já” nem tampouco tomar uma dose de soporíferos e acordar em melhor companhia. Devia algo aos seus? Nada! Seriam eles os devedores que jamais poderiam saldar a dívida. O pensamento o alegrou. Restava de­cidir qual seria a forma de colocar em prática o plano.

De imediato, ganhou sua preferência saltar do alto de um prédio. Seria um fim soberbo. Teve imediata­mente a certeza de ser esse o meio. Não haveria segunda chance nem arrependimento. Nada de correr e pedir uma lavagem estomacal, após ingerir barbitú­ricos. Desceria brutalmente de encontro ao asfalto. Estava descartado um salto medíocre do quarto andar de seu edifício. Poderia resultar apenas num monte de fraturas ou, pior, numa invalidez. Sem contar que todos achariam ter ocorrido um acidente, acrescen­tando automaticamente o epíteto “desastrado” ao seu currículo.

Teria que ser um vôo majestoso, partindo do topo daquele edifício maravilhoso da Berrini. Teria, du­rante a queda, alguns preciosos segundos para sabo­rear a vista e a sua vingança. Não deixaria carta de despedida, da mesma forma que nenhuma dívida fica­ria para trás. Seria apenas a saída digna e ele­gante do estorvo da vida daqueles ingratos. Uma lá­grima ten­tou brotar, mas ele foi mais forte e a reteve.

Esses pensamentos o acompanhavam enquanto dirigia rapidamente pela marginal. Um vago sorriso passou a iluminar seu rosto, superando o acesso de pieguice. Enfim realizaria algo grandioso, um auto de fé em si mesmo. Mostraria a todos... Ligou o rádio a toda!

O trânsito normalmente pesado fluía com surpre­endente rapidez. Pegou o celular e ligou para ela. Queria ouvir sua voz. Em vez disso, foi informado de que a chamada estava sendo encaminhada para uma caixa postal e sujeita a uma taxa... Desligou.

Estava na frente do edifício. Mais alguns minutos e realizaria a proeza. Estacionou, desceu do carro, tran­cou-o cuidadosamente e caminhou em direção à entrada.
Mas, exatamente por ser domingo, o trânsito fluíra tão bem e... o edifício estava fechado. Devia a sua so­brevida à sua insuperável incompetência. Soltou uma enorme gargalhada e sem ter se acalmado de todo, decidiu dar mais uma oportunidade... aos outros.

Crônica do livro ´´Apetite Famélico``.

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´´... o Brasil é um país jovem. Mal completou 10 anos de existência.``

Segundo o cômico francês Coluche, o mais difícil para um político é ter suficiente memória para se lembrar do que não deve dizer. No episódio da substituição "a jato" do plano de governo Dilma por uma versão menos assustadora, vale o corolário:

É imprescindível arrumar direito a papelada para que não se torne público, antes do tempo, o que se pretende fazer. Se der zebra, alegar total desconhecimento do assunto – afinal, tratava-se apenas de um plano de governo. Diante de eventual repercussão negativa, dizer que se tratava de um mero "banco de dados", definir um aspone qualquer como responsável pelo erro e demiti-lo é a solução. Para quem possui R$ 1.999.999,99 a mudança da papelada não fez diferença alguma.

Grande Coluche! Mesmo sem jamais ter ouvido falar no PNDH3, ele dizia:
"As ditaduras sabiam fazer-vos falar, os políticos sabem como calar-vos".
Dele também essa outra pérola – aplicável somente na França, evidentemente:
"Meu pai era funcionário público, minha mãe tampouco trabalhava".

Para os funcionários públicos – não todos, apenas com alto QI (quem indicou), na França, naturalmente:
“Não se deve dormir de manhã no escritório sob pena de não ter nada que fazer de tarde".
Tudo muda e mesmo assim, independentemente da latitude, alguns pensamentos do cômico permanecem válidos. Vejam isso:
"Quem se debruça sobre o passado corre o risco de cair no esquecimento". – Essa mania de comparar governos passados pode dar nisso? Veremos. A bem da verdade, o Brasil é um país jovem. Mal completou 10 anos de existência.
Sem conhecer as propostas do PV, Coluche foi implacável.
"Para que um ecologista seja eleito, basta que as árvores votem".
Na França, e somente lá, era possível retratar um político sendo entrevistado:
"É só perguntar algo. Como não saberá responder, passa-se à pergunta seguinte".
Mesmo porque:
"De todos que não têm nada a dizer, os mais agradáveis são aqueles que permanecem calados".
Para não abusar da paciência do leitor, aí vai a definição do político-francês, desnecessário frisar:
"É aquele que se apropria de algo que alguém não tenha ainda perdido". Isso sem falar nos impostos...

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+

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Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/



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