NATAL PRESS

“Quem domina o presente reescreve a História.”

Segundo Colbert, arrecadar impostos é como depenar gansos, tentar obter o máximo com um mínimo de gritaria das aves. Quando se pensa em gansos, não há tantos problemas.

Depois de míseros 12 anos o STF decidiu que houve inconstitucionalidades nas leis que alteraram o índice de correção monetária dos balanços das empresas. Então, as medidas impostas às empresas há mais de 20 anos (1989) deixam de ser válidas. Não é o caso de discutir a decisão da mais alta corte. Surge a pergunta: E agora?

De imediato, nota-se que em função da decisão, aparecerão contas salgadas e a inevitável pergunta: Quem as pagará?
De um lado, empresas capitalizadas tiveram, por força das imposições, hoje “promovidas” a inconstitucionais, de corrigir os balanços com índices inferiores à inflação calculada pelo IBGE. Como o saldo dessas operações resultará agora em uma despesa maior, com a consequente redução dos lucros tributados na época, é possível e é justo que diversas empresas procurem seus direitos na Justiça, com a alegação pertinente de ter recolhido IR e CSLL a maior, sem contar que a distorção, ou a correção desta se estenderia ao longo do tempo, até o advento do Plano Real que, na tentativa de desindexar ao menos parcialmente a economia, passou a ignorar a correção – até que algum revoltado, a hipótese é delirante mas não impossível, venha a questionar a constitucionalidade do Plano Real.

Há o outro lado da moeda. As empresas que apresentaram o chamado saldo credor da correção monetária se verão, de repente, na situação de não ter recolhido IR e CSLL no montante devido, com a nova determinação. A menos que a União dê mostra de uma total, inesperada e improvável inapetência arrecadatória, haja cobranças, quem sabe mais um Refis.
E depois de uma longa hibernação, é possível, caso o STF assim determine, que os detentores de cadernetas de poupança possam reivindicar valores, que em função de diversos planos governamentais não lhes foram creditados. Resta saber, como se operacionalizaria tal ressarcimento. A quem deverá ser apresentada a conta, caso as eminências togadas declarem insuficientes os índices aplicados na salada de Planos fracassados.

A voz corrente é que a conta, se houver, deverá ser apresentada aos bancos. No entanto há objeções pertinentes. Os bancos públicos e privados não aplicaram índices menores para, a sorrelfa, e por pura perversidade, prejudicar pequenos, médios e grandes poupadores. Cumpriram leis e determinações cuja constitucionalidade passa a ser rediscutida. Vale lembrar que o mesmo índice que prejudicou os poupadores beneficiou os mutuários de determinados planos de aquisição da casa própria pelo Sistema Financeiro de Habitação. Proprietários de imóveis já quitados poderão, se ainda em vida, se ver ante novas cobranças, ou isso dará origem a uma nova versão do FCVS, potencial esqueleto para os armários da União? Isso sem contar que muitos desses mutuários na tentativa de recuperar perdas na caderneta, poderão ter a surpresa de descobrir que, na realidade estão devendo. É fácil imaginar a confusão. Fulano de Tal possuía uma caderneta de poupança nos bancos A e B e financiamento no banco C. Haja levantamentos.

Continuando no terreno das hipóteses, já que nada foi – ainda – decidido, a conta teria grandes chances de ser apresentada ao mandante das operações, ou seja, o Governo. No caso dos bancos públicos isso parece inevitável, já que, para honrar a conta, haveria a necessidade de capitalizá-los, com injeções de dinheiro do nosso incansável Tesouro – leia-se de todos nós. Aos bancos privados restará a alternativa de encaminhar a conta, por exemplo, ao BC, cujas determinações foram seguidas, naqueles dias de inflação destrambelhada. Afirmar que as instituições financeiras ganharam com essa correção incorreta merece uma reflexão, já que os depósitos em caderneta serviram para o financiamento habitacional, cujas correções de uma forma ou de outra seguiram a lei. Ganhos de um lado perdas do outro.

As consequências das decisões do STF são de impossível quantificação e a operacionalização possui aspectos políticos de inimaginável complexidade. A não ser que se procure um bode expiatório para a confusão. Diz um provérbio da região de Provence: ”Quando as cabras dão leite, não é preciso procurar bodes... expiatórios”. O problema se agrava quando se procura substituir as cabras por pedras na tentativa de se extrair leite.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
http://blogdoalexandrusolomon.blog.terra.com.br

É impressionante a vocação para comentarista político que nos aflige. O mais engraçado é que (quase) tudo já foi dito de forma, pelo menos tão percuciente, há muito tempo. Pensando nisso, reuni dois personagens que não foram contemporâneos, mas cujo ácido espírito de observação os mantém de certa maneira unidos, além de permanentemente atuais.

Georges Clemenceau foi (1841-1929) foi um estadista, jornalista e médico francês. Autor de tiradas brilhantes e irreverentes, a ele se deve a queda de seis governos e a demissão de um presidente da república. Por essa razão ganhou o apelido “O tigre”.
Mal sabia o quanto seus bordões se aplicam nessas plagas, e alhures.
Alguns exemplos:

"A França é um país extremamente fértil: plantam-se funcionários públicos e nascem impostos". - Só a França, é claro, desfrutava desse privilégio.
Alguns dos seus dizeres são recados diretos aos nossos políticos. Àqueles que "incham a máquina administrativa" por achar o Estado raquítico:
"Os funcionários públicos (sempre na França, certo?) são os maridos ideais; Chegam em casa descansados e já leram o jornal". Não é o caso de entrar na polêmica do Estado mínimo, mesmo se por aqui já se fala tanto na necessidade de se ter um estado forte.

Aos frequentadores da altura dos muros de onde não se atrevem a descer, àqueles pássaros de bico avantajado:
"É preciso saber o que se quer, uma vez sabido, é preciso ter coragem de dizê-lo, uma vez dito, é preciso ter energia para fazê-lo”. Definir de uma vez por todas. Parece simples...

Não é preciso concordar com todas as afirmações, mas quem se atreve a rejeitar de pronto essa frase?; “A vida me ensinou que há duas coisas que podemos dispensar: a Presidência da República e a próstata”. No máximo, haveremos de admitir que há um certo exagero, a próstata não é inútil, já a sua hiperplasia...
As campanhas eleitorais mereciam sarcasmos. (Estamos, nunca é demais lembrar, falando da França)
“Nunca se mente tanto quanto antes das eleições, durante a guerra e depois da caça”. Poderia ter dito “depois de uma pescaria” se estivesse na presença de um Ministro da Pesca.

Para minar um pouco as ambições políticas, “O Tigre” disse: “Em política, sucedemos a imbecis e somos substituídos por incapazes.”. É uma faca de dois gumes, melhor não utilizá-la, ou se optar por empregá-la, que seja com extremo cuidado. A chance de ser processado por injúria, difamação ou...revelação de segredos de Estado é enorme.

Como se previsse a situação em algumas democracias, paparicadas pela nossa diplomacia, ele dizia:
“Uma ditadura é o regime no qual não é preciso ficar a noite inteira pregado no rádio (sorry, era o que havia na época) para saber o resultado das eleições.”
Muito antes de se falar em “herança maldita”, Clemenceau dizia: “Todos podem cometer erros e imputá-los a outros: isso é fazer política”. É preciso reconhecer que o passar dos anos não foi em vão. O termo “herança maldita”, especialmente quando utilizado por herdeiros desastrados, pode ser equiparado a uma indulgência papal, uma absolvição antecipada para falhas eventuais. Como aqui não há falhas visíveis, o termo entrou em desuso – por enquanto.
Para os políticos sem moral – da França, porque aqui não os há - “A honra é como a virgindade, só serve uma vez”. Possivelmente, sua intenção era dizer: “Só se perde uma vez”, se bem que, basta renunciar ao mandato e voltar triunfalmente reeleito – nos braços do povo -, isso que é democracia! O conceito de democracia de Clemenceau era bem polêmico :”Democracia é o poder, dado aos piolhos, de comer leões”. Os piolhos agradecem!
Com certeza, algumas tiradas precisam de um aggiornamento. Por exemplo, a famosíssima: “A guerra é um tema grave demais para ser confiado a militares “ poderia ser adaptada de inúmeras maneiras, mas considerando os perfis de muitos escolhidos para “tocar” assuntos relevantes, é provável que surja a pergunta: “E a quem confiá-los?”, ou pior.

Um salto no tempo nos leva a Coluche (1944-1986), um cômico que em determinado momento chegou a ser cogitado para candidato à Presidência da França. Ah, esses franceses!
Segundo Coluche, o mais difícil para um político é ter suficiente memória para se lembrar do que não deve dizer. É possível acrescentar que a memória deve ser suficiente para não cair em contradição.
É imprescindível arrumar direito a papelada - ensina Coluche - para que não se torne público, antes do tempo, o que se pretende fazer. Se der zebra, alegar total desconhecimento - afinal tratava-se apenas de um plano de governo. Diante de eventual repercussão negativa, definir um aspone qualquer como responsável pelo erro e demiti-lo imediatamente é a solução.
Grande Coluche! Mesmo sem jamais ter ouvido falar no PNDH3 ele dizia:
"As ditaduras sabiam fazer-vos falar, os políticos sabem como calar-vos" – tudo em nome da liberdade de expressão e da regulamentação da mídia que precisa ser “orientada, fiscalizada e controlada”, ou numa só palavra: democratizada.
Dele também essa outra pérola - aplicável somente na França, evidentemente.
"Meu pai era funcionário público, minha mãe tampouco trabalhava".
Para os funcionários públicos - não todos, apenas com alto QI - quem indicou, na França, naturalmente.:
“Não se deve dormir de manhã no escritório sob pena de não ter nada que fazer de tarde".
Tudo muda e mesmo assim, independentemente da latitude, permanece válido. Vejam isso:
"Quem se debruça sobre o passado corre o risco de cair no esquecimento" - Essa mania de comparar governos passados pode dar nisso? Veremos.
Sem conhecer as propostas do PV, Coluche foi implacável.
"Para que um ecologista seja eleito, basta que as árvores votem".
Na França, e somente lá, era possível retratar um político sendo entrevistado;
" É só perguntar algo. Como não saberá responder, passa-se à pergunta seguinte".
Mesmo porque:
"De todos que não têm nada a dizer, os mais agradáveis são aqueles que permanecem calados". É a arte de permanecer calado, amparado por um direito constitucional. País estranho a França!
Para não abusar da paciência do leitor, aí vai a definição do político - francês, desnecessário frisar :
"É aquele que se apropria de algo que alguém não tenha ainda perdido". Essa citação prescinde de comentários, salvo o fato de fazer as honrosas ressalvas de praxe.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´Plataforma G` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Confiava cegamente neles. Aí aprendi o Braille.

“De tanto ver triunfar as nulidades”, exclamou Ruy Barbosa por volta de 1914, “...o homem chega a desanimar da virtude”. Naquela época, como hoje, o desânimo se justificava, dizem. Será? Para quem a tarefa de endireitar o mundo parece excessivamente aborrecida, resta o consolo de entender que o que puder ser salvo, um dia, o será. Dito de outra maneira: Se estiver confuso, confunda os demais e ganhe tempo. Sobretudo, jamais interpele os impostores. Para quê? A credulidade substitui a contestação; o fraco andará a reboque de conceitos que não entende, sempre disposto a amaldiçoar uma verdade em conflito com a crença que acabaram de lhe instilar. O ingênuo contemplará boquiaberto o espetáculo que lhe é oferecido. Existe justificativa melhor para os chamados showmícios? Nada como a estridência de um espetáculo para determinar uma opção política. Um espetáculo de ópera-bufa protagonizado por um candidato comunicador e pronto, muda o destino de um país. A tal consciência política tira férias remuneradas, para em seguida se indignar com uma escolha desastrada.

Isso só acontece na Namíbia, aquele país tão limpinho que não parece Africa, já que por aqui, os showmícios foram eliminados.
Exigir algo de meros títeres subordinados aos próprios instintos, é um pensamento utópico e, sobretudo, indigesto, já que a injustiça jamais se limitou a gerar um filho único. Quanto à justiça, ela é cega por definição.

Importante é deixar sempre um espaço para um recuo, que permita contemplar o todo hostil com um sorriso, mesmo com o risco de saber que a qualquer momento, poderá virar um ricto. O segredo, se é que existe, é tocar sempre com a ponta dos dedos, roçar sem o compromisso de aprofundar-se, sem provocar a alergia à verdade daqueles que dela se proclamam donos. Ressaltar o mal, que se esconde atrás de argumentos traiçoeiros, é, seguramente, uma armadilha ao nosso comodismo, a ser cuidadosamente evitada.

Visto assim, tudo passa a ser mero objeto de escárnio. Não há mais o risco de tombar empunhando a bandeira de um ideal com seu prazo de validade vencido. Aos que imaginam ser esse um caminho para a superficialidade, para a alienação, termo abusivamente presente em debates acalorados, Pascal retrucaria ser importante ter um pouco de tudo e não tudo de alguma coisa. Não é uma receita de vida nem um convite ao alheamento e sim, uma forma menos tensa de examinar o palco da existência, no qual um detalhe irrelevante pode arruinar o mais ambicioso projeto, um toque inoportuno de celular consegue dissipar a aura de um momento mágico, onde, finalmente, ídolos adquirem essa condição, enquanto iluminados pelo jogo de luzes de um diretor experiente, para se desintegrar quando baixa a cortina. O “para sempre” dura no máximo até o fenecer da estéril paixão.

Indiferente a reflexões desse jaez, a sociedade se encarrega de ignorar a imagem tétrica do relógio sem ponteiros de “Morangos silvestres”, soterrada pelo advento de inexpressivos relógios digitais. O diálogo encontrou substituto digno no discurso vazio, sem contestação possível, a arenga insossa do “vender o peixe”. Tão compacta é a fala que rege a sociedade, que não há espaço para discussão. Aforismos sem valor, e não vale a pena enumerá-los, passam a governar as mentes. Contestar? Por acaso existe a certeza – e se existe, onde é que ela fixou residência? Deve estar perdida entre a teia de Penélope e o vão esforço de Sísifo, entre o ardil e a sentença.

Levar a sério a realidade? Melhor dirigir-lhe um olhar zombeteiro. Será essa a desforra. A pretexto de estarmos vivendo intensamente determinado momento, não faz sentido afirmar ser determinado instante mais importante do que outro. Não há mais nada de excepcional, inexistem encruzilhadas históricas, a não ser para nós mesmos. Se houver alguma perspectiva inebriante, bastará um olhar irônico para demolir qualquer arcabouço ou dogma, para transformar em bagatela ao invés de sofrer por conta de males, cuja cura teima em fugir à sabedoria. O caniço pensante precisa, com urgência, aprender a dar de ombros.

Nossa jornada é apenas o atalho para descobrir, algo tardiamente, a inutilidade de ser sério. Os mais nobres sentimentos abdicam da sua solidão majestática ao chocarem-se com o trivial. Entre sermos inconsoláveis cassandras, ou torcer pelo fracasso das nulidades, manter o sorriso é uma medida de sobrevivência. Saída poética, talvez, já que sem sermos poetas, saberemos ser fingidores. Ante a falta de pudor do político, o sorriso do sábio. Isso não irá mudar algo, mas se não é a solução, proporcionará pelo menos um agradável fim de semana, sabendo que o Febeapá do saudoso Ruy Porto possui ainda várias páginas em branco.

E as nulidades? Bem, quantos têm na ponta da língua o nome de quem derrotou Ruy Barbosa, nas urnas? Eis a resposta definitiva, ainda que disfarçada de pergunta.

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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´´Todos os homens são bons.`` (UM CANIBAL)

Caramba, dirão, mais uma? Talvez o veio das variações sobre o mesmo tema não tenha se esgotado. 

Na teoria, a prática é outra, ensina o bom Joelmir, mas não podemos deixar de lado uma verdade: A teoria é a consolidação da prática dos mestres. “Com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante”, filosofava Machado de Assis. O ensinamento mantém sua validade.

Parto de uma hipótese algo ousada e que poderá ser contestada por qualquer observador, por mais distraído que seja, de nossa cena – chamemo-la de política. De acordo com essa ousadia teórica, todos os seres são fundamentalmente bons. Ou seja, quando pela primeira vez aboletam-se no poder, através dos votos ou mediante qualquer outro atalho constitucional: suplência, indicação, nomeação etc., chegam sem (muitos) vícios... É possível que um ou outro ascendeu ao cargo com o propósito de rápido e duradouro enriquecimento, mas prefiro alimentar a dúvida.

Aí, ocorre o fenômeno que apelidei de “anestesia do espírito ético”. Talvez haja outros nomes mais sugestivos, mas foi o que de melhor achei. Como poderia ser descrito sem fatigar o leitor?

É preciso ter em mente que, no Absurdistão, anualmente, há um notável momento de transição, quando se passa da era do silicone no Sambódromo, para a era da pedra lascada na política. A nossa despretensiosa análise cobre a tal fase II.

Vamos imaginar uma cena, que de extraordinário nada possui. A excelência recém-eleita senta, enxuga o suor, e procura saber como funciona a coisa. Descobre onde fica seu gabinete, quem são os colegas, quais os ritos mais importantes, o que é uma questão de ordem etc. Dizem-lhe que terá direito a diversas regalias. De tanto ouvir, passa a acreditar no que lhe sopram os que o circundam, munidos do argumento irretorquível: Aqui é assim. Inocente e jejuno (em ambos os sentidos que o Houaiss fornece, ou seja ingênuo e em jejum) assimila as informações como todo homo adaptabilis.

Pois já que aqui é assim, empregar filhos, filhas, netos, netas, tios, tias, sobrinhos, sobrinhas sem omitir primos, primas, genros, noras e amigos de verdade – e como surgem amigos nessa hora! - não pode ser errado. Se, por acaso tornou-se irregular, basta trocar chumbo com colega: eu emprego os teus, você, os meus. Não se fala mais em nepotismo. É uma forma criativa de aumentar o emprego, a renda, o consumo, o PIB. Patriotismo puro. Deve ser o certo. Por instantes paira ainda uma dúvida, uma espécie de tênue lembrança dos ensinamentos recebidos na escola e, quem sabe, até em casa. A hesitação logo cede lugar a determinação, aguilhoada pela percepção do tempo precioso perdido por conta dos, agora indesculpáveis, vacilos. Ora – raciocina a excelência - ninguém foi questionado até hoje. E acrescenta para tranqüilizar-se, só aqueles que fizeram mal feito os malfeitos!

Daí, começa o inexorável processo do entorpecimento das reações virtuosas do ser supostamente impoluto ao iniciar a caminhada. Um mandato mais tarde (pode acontecer antes), na mesma função, ou passando a exercer algum cargo similar, o gosto do melado torna-se irresistível e qualquer questionamento é relegado a um plano secundário! Aconteceu o entorpecimento, a anestesia. Daí para frente, não há mais limite.

Surge a possibilidade de edificar-se um prédio, construir uma ponte, uma central elétrica, uma estrada. O senso cívico brada, para consumo externo: “É para o bem do povo que me elegeu, vamos em frente.”. E eis que a excelência passa a se definir como “lutador”- não, não se trata de pugilista, judoca, ou praticante de alguma modalidade de arte marcial. Ele luta, enfrentando demônios ocultos – elites egoístas e reacionárias, ambientalistas fanáticos, eventualmente o bom-senso que se opõe à realização da tal obra. Nada o deterá. Tudo pelo bem do povo! Se a tal obra for superfaturada e disso resultar algo em benefício da família – e há algo mais sagrado que a família?- não há mal algum, na visão do “lutador”.

Com um pouco mais de vivência, é possível que a realização física da monumental iniciativa seja dispensável. Basta receber via caixa dois, ou três o quinhão a que faz jus todo emérito lutador. Durante essa pugna exaustiva, nada mais conveniente que, além da remuneração normal, se tire algum proveito da situação, ale de anuênios, biênios, quinquênios etc. Não há dúvida possível. Se aumentar o próprio salário pode parecer inadequado, será preciso que, junto com os colegas de insana labuta, se dê um aspecto legal aos aumentos auto-concedidos. Quanto a outras misérias, passagens aéreas, auxílios-moradia, uso de celular por terceiros etc. nem vale a pena comentar. Todos assim procedem é o refrão. Santo refrão, quanta verdade conténs! Tolo seria quem se desviasse dessa agradável linha de conduta. Pecunia non olet – dinheiro não tem cheiro – já se dizia há milênios. Vespasiano teria sido o primeiro a empregar a fórmula, ao taxar a descarga de urina dos romanos na Cloaca Máxima. Nada como uma taxa! E quanto à cloaca... Há uns tolos entre as excelências, é preciso reconhecer, possivelmente em grande número, mas eles se calam. Por que se calam é a pergunta que fica aqui à guisa de exercício.

Vezes há, em que, por alguma injustiça cometida na partilha do butim, ou por despeito de algum derrotado na guerra das nomeações, a imprensa ávida por escândalos – sim, essa imprensa maldita que só levanta miseráveis picuinhas em vez de enaltecer a edificação de uma sociedade melhor, como ensina a Novlíngua – é abastecida com detalhes sobre o lado dos negócios cujo olor fere a sensibilidade dos imbecis pagadores de impostos. E, cúmulo da falta de patriotismo, essas notícias vêm a público. Em outras circunstâncias – faz parte do jogo – órgãos fiscalizadores descobrem alguns produtos da criatividade dessa casta. Em função de desentendimentos, rivalidades ou rixas políticas, mais detalhes vazam. A mancha de ... óleo aumenta. O que fazer?

Uma vez descobertos, desmascarados, que seja, as excelências sofrem um choque: Primeiro a surpresa. Mas como? Então, “aquilo” não era legal? Cessa o efeito da anestesia e há uma breve tomada de consciência, para quem possui tal adereço. Diante da constatação que, de fato trata-se de um delito, será preciso reagir.

Entra em cena a ‘valsa em três tempos’.

Antes da procura de alguma desculpa, o procedimento usual consiste em negar com graus variáveis de indignação – de acordo com o talento de cada um. Negar, negar sempre, jogar culpa na imprensa, tornar a negar, mesmo diante de evidências esmagadoras. A seguir, subir à tribuna mais próxima e invocar um passado de glórias, um currículo que pela sua riqueza demonstra, à saciedade, a leviandade das infâmias levantadas por inimigos... do povo, naturalmente. A confraria – dos cidadãos mais iguais que a patuléia ignara – reage.

Suponhamos que, por alguma obra do destino e cúmulo dos azares, essa reação não sepulte as acusações. O ser anestesiado, já bem acordado, passa à etapa seguinte. “Eu não sabia, fui traído!” E eis que, de repente, não mais que de repente, constatamos que os eleitos do povo constituem um bando de seres distraídos, talvez amnésicos, incapazes de se recordar do que aconteceu ou caso guardem de tudo uma vaga lembrança, ostentam compreensível indignação e dirigem sua ira em direção aos que, sem seu conhecimento, aloprados, negligentes, relapsos ou mal intencionados mesmo – em se tratando dos “outros” vale qualquer epíteto – perpetraram atos que deixam trêmulas de indignação as excelências. Com algum atraso constatam: Tudo vale a pena se a alma não for pequena... desde que não sejamos pegos.

O infortúnio dessa brava gente pode não terminar. A voz rouca da plebe clama por justiça. Entra em cena a arma letal:.”Todos procedem assim, desde tempos imemoriais”. Existe desculpa melhor? Se esse recurso não levar à absolvição automática, a filosofia ocidental perderia seus esteios.

Muitos sabem das estripulias dos outros e guardam a preciosa informação para usá-la em boa hora. Fulano conhece as proezas de beltrano, até as tem imortalizado em gravações, mas não ousa citá-las, pois sabe que o outro sabe que ele sabe que o outro sabe que ele sabe de tudo e, acuado, o outro poderá pagar em igual moeda. E essa chantagem atômica, como nos saudosos tempos da Guerra fria, paralisa de vez qualquer apelo à decência, pois todos se sabem cobertos pela prática comum da gatunagem. Será que estamos falando em hábitos ou de infelizes exceções? Os risonhos abstenham-se!

Alguém falou em rabo preso? É claro que não. Estamos falando de mamíferos superiores desprovidos de cauda. Ou, se preferirem, da gloriosa confraria dos possuidores de telhados de vidro.

Seguramente, o conceito de, pulchrum et honestum, bonito e honesto não está em alta, no momento, se bem que o problema maior não parece ser a feiúra.
Isso para não mencionar a competência, atualmente em férias.

Do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Do livro ´´Apetite Famélico``, melhor livro em português, Poesia Prosa e arti figurativi – Il Convivio – Itália.

A irmã só sabia pregar-lhe peças. Precisava dar um telefonema urgente e não conseguia fazê-lo a par­tir daquele mudinho. Olhava desolado para aqueles res­tos “tecnologicamente corretos”.
O telefone espatifado tocou sem avisar. Feito um autômato, atendeu.
– Pronto.
– Bom dia. O senhor atendeu uma chamada a cobrar; para continuar, introduza um diamante. Se o fizer estará concorrendo a um secador de cabelos. A Companhia agradece sua preferência.
– Não preciso de secador de cabelos. Sou careca.
– Estar concorrendo é apenas o primeiro passo. Ganhar é outra coisa. Introduza o diamante.
– Mas introduzir onde? O telefone está quebrado!
– Então procure o nosso setor de consertos.
– Mas eu já liguei para o setor de consertos. Disse­ram que entrariam em contato.
– Pois então, estou ligando do setor de consertos. Introduza um diamante para continuar. Não aceita­mos rubis.
– Deve haver uma confusão. Não tenho diamante algum.
– Na nossa Companhia não há confusões. Sem diamante, a ligação cairá dentro de meia-hora.
– E por que usa maiúsculas para designar sua em­presa?
– E por que não? Além disso, essa é uma norma interna. O senhor cometeu uma indiscrição. Como sabe que usei maiúsculas?
– Foi apenas um palpite. Gostaria que consertas­sem o meu telefone.
– Qual é o problema?
– A minha irmã o quebrou.
– Ela o quebrou dentro da residência ou fora? Se for dentro, trata-se de um problema doméstico, fora de nossa alçada; se for fora, fica dentro de nossa al­çada. Entendeu? Fora, tá dentro e dentro, tá fora.
– Ela o jogou pela janela na calçada e eu o trouxe para dentro de casa. Fiquei com pena.
– Então o problema ocorreu fora da residência?
– Pode-se dizer que sim. Tenho certeza que sim.
– Qual o nome de sua irmã?
– Isso é importante?
– Preciso preencher o formulário. Estou procurando o campo para “parentes próximos”. Não estou achando. Terei de ligar novamente para o senhor.
– Esqueça esse campo, continue.
– Não posso. Já abri a ocorrência e o senhor me deu uma informação, que não consigo classificar. Consultarei minha supervisora. Essa informação pode ser importante para a Companhia. A Companhia agradece sua preferência. Voltaremos a contatá-lo. Será aplicada a tarifa de re-chamada.
– Não, não desligue.
– Desculpe, tenho instruções precisas.
– Quero falar com a supervisora.
– Ela não veio trabalhar hoje.
– Mas a senhora disse que precisaria tirar a dúvida com ela.
– Perfeitamente. Perguntarei assim que ela voltar. Ela está de férias no momento.
– Está certo, mas, na ausência dela, alguém a substitui, ou não?
– Claro que alguém a substitui. Ninguém é insubs­tituível. Uma posição importante como essa nunca fica descoberta.
– E quem a substitui?
– Eu.
– Entendo. Como irá proceder?
– Tentarei fazer o melhor. Recapitulemos. Quando o fone foi atirado pela janela, sabe dizer se estava co­nectado na tomada?
– Não sei. Eu cheguei depois que ela o jogou.
– Como sabe que foi jogado pela janela?
– Tive esse palpite, quando o encontrei na rua.
– Mas poderia ter sido quebrado dentro de casa e atirado depois pela janela. O que sobrou dele pode ter sido colocado na calçada com cuidado. Concorda?
– E que diferença faz?
– Dentro, tá fora e fora, tá dentro. Lembra?
– Como poderia me esquecer? Quero saber se vão resolver o meu problema.
– Por enquanto estou preenchendo um formulário. Já preenchi os dados básicos. Estou com problemas para preencher o campo “observações”; na falta do campo “parentes próximos”, encaixarei em “observa­ções”. Como vê, somos uma empresa moderna e flexí­vel. Isso me lembra...
– Deixe o campo em branco, por favor. Estamos perdendo tempo.
– Este campo nunca pode ficar em branco. De­monstraria falta de interesse do funcionário. A Com­panhia tem por objetivo a maximização da satis­fação do cliente. Isso só se consegue preenchendo o campo “observações”. Maximizar a satisfação do clien­te nunca foi perda de tempo. Trabalhamos para pro­porcionar qualidade total.
– Está maximizando minha raiva.
– Desculpe, sigo um roteiro aprovado internamente. Não deixarei o campo em branco.
– Então escreva o que quiser. Escreva uns versos de Pessoa.
– Ele é assinante?
– Ele é imortal. Pode ser que seja assinante tam­bém.
– Pode me dar os dados dessa pessoa?
– Não. Eu faltava muito às aulas. Serve Alberto Caeiro?
– Terei de abrir outra ficha. O senhor me deixa numa situação embaraçosa. Tento fazer o máximo para resolver o seu problema e o senhor está dificul­tando. Já colocou o diamante?
– Só se for numa broca dentária.
– Então o senhor é dentista? No nosso banco de dados consta: pugilista.
– Sou um pugilista filósofo sem telefone.
– Nosso tempo está se esgotando. Sua reclamação estará sendo reprocessada. A Companhia lhe deseja um bom-dia e agradece sua preferência.
– Preferiria poder dar uns telefonemas. Com este aparelho será impossível.
– O senhor não possui outro telefone?
– Tenho, sim.
– Então por que não o está usando?
– Não posso.
– Por quê?
– Minha irmã o está usando e ela fala muito. Nem pode imaginar o quanto.
– Qual é o nome de sua irmã? É para colocar no campo “observações”. Além disso, por um diamante menor, podemos proporcionar-lhe uma extensão vir­tual...
Desligou. Não havia motivo algum para ficar irri­tado. Afastou-se do aparelho cantarolando a marcha fúnebre.


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Se é verdade que a idade vem sempre acompa­nhada pela sabedoria, no caso dele, parece ter havido algum desencontro. O acúmulo de anos nada lhe trouxera de muito especial, excetuando-se a ilusória curva da prosperidade. “Pneu” para os mais objetivos. Quarenta e nove anos. Quarenta e nove, como se sabe é um quadrado perfeito. Ele era um perfeito qua­drado.

Num de seus escritos, Marx cita o lema de um heb­domadário publicado durante a Revolução Francesa “os grandes nos parecem grandes, porque estamos ajoelhados”. Ele, não estamos nos referindo ao bar­budo, não andava ajoelhado, porque tinha a digni­dade e o menisco a preservar. Não necessariamente nessa ordem. Acumulador persistente de pancadas ministrada por uma vida monótona, podia orgulhar-se de, mesmo com a auto-estima em frangalhos, ter sobrevivido. Por obra da fatalidade, os outros lhe pareciam grandes. Possivelmente, por ser ele tão pe­queno.

O aluno sem brilho, jogador de futebol medíocre, médico rejeitado por diversos convênios, marido oca­sionalmente espinafrado por uma cara metade tempe­ramental e pai caninamente dedicado a filhos remo­tamente afeiçoados, estava talhado para o papel de zero à esquerda. 

Reclamou dos professores, teve de ouvir que passar de ano, no caso dele, era uma bênção. Pedia a bola, durante as peladas, só para ouvir a recomendação para comprar uma, pois a do jogo ele não iria mal­tratar. Ao se habilitar para prestar serviços para coo­perativas médicas, teve de ouvir que ele era um forne­cedor da morte exageradamente apressado, razão pela qual se dava preferência aos mais bem sucedidos na arte de prolongar a vida. Ousar reivindicar algo no lar, além da prestação de afeto contratual, era sinônimo de querer ouvir, em altos brados, a cantilena cujo refrão era “vá lamber sabão”. Diga-se de passagem que essa recomendação jamais foi seguida ao pé da letra, por um detalhe de preferências gustativas. Quanto aos filhos, sempre tinham algo mais impor­tante do que dar atenção à carência afetiva do prove­dor de mesadas.

Teve a idéia de invadir o terreno das artes. Até par­ticipou de um concurso literário. Veio a boa nova. Seu trabalho fora selecionado e distinguido com um hon­roso terceiro lugar. Era a revanche. Ao dar, triunfante a notícia no jantar, a megera comentou, sarcastica­mente.
– Se seu trabalho foi o terceiro colocado, o primeiro deve ter sido um cartaz “Não pise na grama” e o se­gundo, uma plaquinha “Cuidado, cão bravo”.
O trabalho no qual colocara pedaços de si, objeto de chacota. Sua sensibilidade, objeto de mofa. A ri­sada familiar, em vez de elogios pelos quais ansiava. Pior, cada um de algum modo gostava dele, mas era um gostar especial. Ninguém o levava a sério. O pro­cesso se acelerava. Estava virando unanimidade negativa no ambiente familiar. Não era no lar que as feridas de fora seriam curadas.

Então onde? Como?
Não, ele não passou a beber, nem tampouco procu­rou a muleta das drogas. Nem sequer lhe ocorreu buscar fora do lar o que lhe era recusado. Gostava demais daquela célula da sociedade, da qual se consi­derava núcleo, mesmo que na óptica deles não pas­sasse de um mero vacúolo. A idéia do adultério nem chegou a surgir; portanto, muito menos desceu ao patamar da execução.

Num misto de lucidez e depressão, concluiu não ter mais função alguma no mundo. Esse pensamento que, de longa data, andava pousando suavemente nas suas costas, vergou-o moralmente. Era um processo que a própria insegurança e os fatos aceleravam impie­dosamente. Um “Por que está acontecendo isto comigo?” era a pergunta irrespondível.

Não houve gota de água a fazer transbordar a taça. A decisão brotou de súbito. Teria que acabar com tudo. Acabar, sim, pôr termo à própria vida. Basta!
No entanto, não poderia ser uma partida discreta. Nada de deixar um bilhetinho “Fui me suicidar, volto já” nem tampouco tomar uma dose de soporíferos e acordar em melhor companhia. Devia algo aos seus? Nada! Seriam eles os devedores que jamais poderiam saldar a dívida. O pensamento o alegrou. Restava de­cidir qual seria a forma de colocar em prática o plano.

De imediato, ganhou sua preferência saltar do alto de um prédio. Seria um fim soberbo. Teve imediata­mente a certeza de ser esse o meio. Não haveria segunda chance nem arrependimento. Nada de correr e pedir uma lavagem estomacal, após ingerir barbitú­ricos. Desceria brutalmente de encontro ao asfalto. Estava descartado um salto medíocre do quarto andar de seu edifício. Poderia resultar apenas num monte de fraturas ou, pior, numa invalidez. Sem contar que todos achariam ter ocorrido um acidente, acrescen­tando automaticamente o epíteto “desastrado” ao seu currículo.

Teria que ser um vôo majestoso, partindo do topo daquele edifício maravilhoso da Berrini. Teria, du­rante a queda, alguns preciosos segundos para sabo­rear a vista e a sua vingança. Não deixaria carta de despedida, da mesma forma que nenhuma dívida fica­ria para trás. Seria apenas a saída digna e ele­gante do estorvo da vida daqueles ingratos. Uma lá­grima ten­tou brotar, mas ele foi mais forte e a reteve.

Esses pensamentos o acompanhavam enquanto dirigia rapidamente pela marginal. Um vago sorriso passou a iluminar seu rosto, superando o acesso de pieguice. Enfim realizaria algo grandioso, um auto de fé em si mesmo. Mostraria a todos... Ligou o rádio a toda!

O trânsito normalmente pesado fluía com surpre­endente rapidez. Pegou o celular e ligou para ela. Queria ouvir sua voz. Em vez disso, foi informado de que a chamada estava sendo encaminhada para uma caixa postal e sujeita a uma taxa... Desligou.

Estava na frente do edifício. Mais alguns minutos e realizaria a proeza. Estacionou, desceu do carro, tran­cou-o cuidadosamente e caminhou em direção à entrada.
Mas, exatamente por ser domingo, o trânsito fluíra tão bem e... o edifício estava fechado. Devia a sua so­brevida à sua insuperável incompetência. Soltou uma enorme gargalhada e sem ter se acalmado de todo, decidiu dar mais uma oportunidade... aos outros.

Crônica do livro ´´Apetite Famélico``.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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´´... o Brasil é um país jovem. Mal completou 10 anos de existência.``

Segundo o cômico francês Coluche, o mais difícil para um político é ter suficiente memória para se lembrar do que não deve dizer. No episódio da substituição "a jato" do plano de governo Dilma por uma versão menos assustadora, vale o corolário:

É imprescindível arrumar direito a papelada para que não se torne público, antes do tempo, o que se pretende fazer. Se der zebra, alegar total desconhecimento do assunto – afinal, tratava-se apenas de um plano de governo. Diante de eventual repercussão negativa, dizer que se tratava de um mero "banco de dados", definir um aspone qualquer como responsável pelo erro e demiti-lo é a solução. Para quem possui R$ 1.999.999,99 a mudança da papelada não fez diferença alguma.

Grande Coluche! Mesmo sem jamais ter ouvido falar no PNDH3, ele dizia:
"As ditaduras sabiam fazer-vos falar, os políticos sabem como calar-vos".
Dele também essa outra pérola – aplicável somente na França, evidentemente:
"Meu pai era funcionário público, minha mãe tampouco trabalhava".

Para os funcionários públicos – não todos, apenas com alto QI (quem indicou), na França, naturalmente:
“Não se deve dormir de manhã no escritório sob pena de não ter nada que fazer de tarde".
Tudo muda e mesmo assim, independentemente da latitude, alguns pensamentos do cômico permanecem válidos. Vejam isso:
"Quem se debruça sobre o passado corre o risco de cair no esquecimento". – Essa mania de comparar governos passados pode dar nisso? Veremos. A bem da verdade, o Brasil é um país jovem. Mal completou 10 anos de existência.
Sem conhecer as propostas do PV, Coluche foi implacável.
"Para que um ecologista seja eleito, basta que as árvores votem".
Na França, e somente lá, era possível retratar um político sendo entrevistado:
"É só perguntar algo. Como não saberá responder, passa-se à pergunta seguinte".
Mesmo porque:
"De todos que não têm nada a dizer, os mais agradáveis são aqueles que permanecem calados".
Para não abusar da paciência do leitor, aí vai a definição do político-francês, desnecessário frisar:
"É aquele que se apropria de algo que alguém não tenha ainda perdido". Isso sem falar nos impostos...

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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O treinamento de Lucy assumiu novas feições. Segundo seus mentores, ela deveria passar por algumas sessões de análise, antes de continuar seu treinamento. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, Lucy se viu obrigada a passar algumas horas deitada num divã tendo de responder à angustiante pergunta:  “No que está pensando?” O interlocutor dirigiu com habilidade essa terapia relâmpago, ao término da qual, Lucy percebeu que era importante, mais ainda, FUNDAMENTAL separar-se do seu companheiro. Ficou angustiada ao constatar que não tendo companheiro, chegara a uma conclusão absurda. Guardou para si essa revelação e declarou a quem quisesse ouvir que a terapia a transformara num fóssil novo. Um dos guias, fã declarado de Melanie Klein recomendou-lhe a leitura do “Mito de Sísifo” e a nova vida seguiu seu ritmo.

O próximo desafio consistiu em colocar Lucy dentro de um simulador de última geração, de extrema sofisticação, uma vez que se tratava de um dispositivo virtual, cujo conteúdo era 75% nacional.
– Lucy,  concentre-se, em hipótese alguma não fique diluída; você está agora num reino encantado, como nunca antes na história da humanidade houve igual. Para deixar-lhe algumas referências, usaremos nomes fictícios nessa terra do Real, de maneira a podermos ter pontos de apoio nas situações que iremos examinar. Isso seria desnecessário, caso seu poder de abstração fosse maior. Quem sabe numa próxima etapa seja possível usar apenas símbolos. Está pronta?
– Estou.
– Bem, aqui está uma carta hipotética.
– Como hipotética?
– É que ela jamais foi escrita, mas se o fosse, teria esse aspecto. Começa com “Mon cher Guido” e a assinatura poderia ser da senhora Lagarde do FMI.
– Fora FMI! Yankees, go home – bradou Lucy.
– Calma, Lucy. Não se exalte. A passeata pacífica foi agendada para mais tarde. Consulte o Facebook.
– É possível ter acesso ao texto?
– Of course, como diria o ministro Aldo, amante reprimido de estrangeirismos. Na carta, Christine Lagarde comenta uma sugestão de revisão metodológica do cálculo da bruta dívida de um país, perdão, dívida bruta, o trocadilho consta da carta. O achado teórico consistiria em desconsiderar os títulos do Tesouro emitidos, porém na carteira do Banco Central por não terem ‘natureza fiscal’. Seriam meros papeis reais ou escriturais sem importância alguma.
– E daí? – perguntou Lucy reprimindo um bocejo.
– Daí, nada. Na cartinha hipotética há uma flechinhas, embebidas em curare, de pura ironia e para ser Franco (Gustavo), apesar de ser dirigida ao Guido, tem por alvo um senhor com nome de eletrodoméstico, muito famoso em terras teutônicas por causa de uma cançãozinha famosa: Ach du lieber Augustin.
– Está no iutubi?
– Decerto. Não fosse a alusão a um certo marechal De Gaulle, a carta além de hipotética seria perfeita. Mas De Gaulle, apesar de sua altura, passou por este planeta apenas como general.
– Ahammm.
– Voltando ao senhor eletrodoméstico – já não falamos mais da carta – ele se notabilizou por outro conceito: a velocidade dos dividendos, aquele saque sobre o futuro para costurar o tal superávit primário.
– De fato, o conceito é interessante. Se a velocidade dos dividendos tender à velocidade da luz – o C de Einstein – a massa dos dividendos tenderia ao infinito, possibilitando construir uma rede de total segurança fiscal para qualquer país. Trazer de volta do futuro parece um achado mais para Spielberg do que para Einstein.
– Bravo Lucy!
Nesse momento, ocorreram algumas oscilações do campo eletromagnético do simulador e Lucy sentiu um estranho formigamento nos ganchos de titânio – aprovados pela Anvisa – que serviam para garantir a harmonia do seu corpo tão penosamente reconstituído. Naquele momento, numa tela imaginária apareceu projetada a frase: “Lula não voltou porque não saiu!”  A frase piscou por algumas frações de segundo, o suficiente para ser lida, antes de desaparecer no vórtice ideológico, com o qual todo simulador virtual está equipado. Lucy deduziu, de imediato, que estava diante de uma ilustração do princípio da incerteza de Heisenberg.  Mesmo sem ter conhecimentos suficientes, ela se recordava que em essência o bom Werner demonstrara ser impossível conhecer simultaneamente a posição e a velocidade de uma partícula. Generalizando, Lucy percebeu que no caso de um ser humano extraordinário, como modestamente aquele senhor aceitava ser qualificado, ele poderia estar permanentemente onde fosse possível invocar sua presença. Logo ter saído ou não ter saído passava a ser um conceito irrelevante.
Mais ainda, Lucy percebeu que poderia associar a frase da gerente do regente ao gato de Schrödinger.  Para não fatigar a mente dos leitores a discussão desse  paradoxo fica a título de exercício para os (poucos) interessados.
Mais uma vez houve uma flutuação de energia; obviamente, não se tratava de um apagão, eis que naquele ponto do espaço n-dimensional não haveria a menor possibilidade de tal ocorrência, somente possível em tempos que, segundo alguns historiadores, haviam deixado uma herança maldita.
Lucy percebeu que fora abandonada. Enquanto aguardava a vinda do seu mentor, resolveu folhear um livro virtual de contabilidade criativa. Lendo diagonalmente, identificou a essência dessa novel disciplina. Para se chegar a um resultado desejado, a condição necessária e suficiente consistiria em desconsiderar os dados, que por mais reais que fossem, não deveriam ser levados em conta, para não invalidar o tal resultado desejado – com o perdão da repetição. Tudo uma questão de vontade política. Assim, para se chegar a um superávit primário do tamanho prometido, bastaria eliminar dos cálculos investimentos benditos. Como corolário: Se isso não fosse suficiente, poderiam ser adicionados variáveis ‘dummy’. Ou seja, eliminar o indesejável e somar os tais dividendos rápidos, por exemplo.
Politicamente, essa abordagem possuía um subproduto. Para garantir uma avaliação de 100% de Ótimo e bom, seria necessário (e suficiente) eliminar os Regular, ruim e péssimo. Encantada com essa conclusão, Lucy acionou o assento ejetável – virtual naturalmente – e saiu do simulador.

Alexandru Solomon,  empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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De tanto ver triunfar as nulidades’, exclamou Ruy Barbosa por volta de 1914, ‘... o homem chega a desanimar da virtude’. Naquela época, como hoje, o desânimo se justificava, dizem. Será? Para quem a tarefa de endireitar o mundo parece excessivamente aborrecida, resta o consolo de entender que o que puder ser salvo o será. Dito de outra maneira: Se estiver confuso, confunda os demais e ganhe tempo. Sobretudo, jamais interpele os impostores. Para quê? A credulidade substitui a contestação; o fraco andará a reboque de conceitos que não entende, sempre disposto a amaldiçoar uma verdade em conflito com a crença que acabaram de lhe instilar. Exigir algo de meros títeres subordinados aos próprios instintos é um pensamento utópico e indigesto, já que a injustiça jamais se limitou a gerar um filho único. Quanto à justiça, ela é cega por definição. Importante é deixar sempre um espaço para um recuo, que permita contemplar o todo hostil com um sorriso, mesmo com o risco de saber que, a qualquer momento, poderá virar um ricto. O segredo, se é que existe, é tocar sempre com a ponta dos dedos, roçar sem o compromisso de aprofundar-se, sem provocar a alergia à verdade daqueles que dela se proclamam donos. Ressaltar o mal que se esconde atrás de argumentos traiçoeiros, é, seguramente, uma armadilha ao nosso comodismo, a ser cuidadosamente evitada.

Visto assim, tudo passa a ser mero objeto de escárnio. Não há mais o risco de tombar, empunhando a bandeira de um ideal com seu prazo de validade vencido. Aos que imaginam ser esse um caminho para a superficialidade, para a alienação, termo abusivamente presente em debates acalorados, Pascal retrucaria ser importante ter um pouco de tudo e não tudo de alguma coisa. Não é uma receita de vida nem um convite ao alheamento, e sim uma forma menos tensa de examinar o palco da existência, no qual um detalhe irrelevante pode arruinar o mais ambicioso projeto, um toque inoportuno de celular consegue dissipar a aura de um momento mágico, em que, finalmente, ídolos adquirem essa condição, enquanto iluminados pelo jogo de luzes de um diretor experiente, para se desintegrar quando baixa a cortina. O ‘para sempre’ dura no máximo até o fenecer da inútil paixão.

Indiferente a reflexões desse jaez, a sociedade se encarrega de ignorar a imagem tétrica do relógio sem ponteiros de ‘Morangos silvestres’, soterrada pelo advento de inexpressivos relógios digitais. O diálogo encontrou substituto digno no discurso vazio, sem contestação possível, a arenga insossa do ‘vender o peixe’. Tão compacta é a fala que rege a sociedade, que não há espaço para discussão. Aforismos sem valor, e não vale a pena enumerá-los, passam a governar as mentes. Contestar? Por acaso existe a certeza – e se existe, onde é que ela fixou residência? Deve estar perdida entre a teia de Penélope e o vão esforço de Sísifo, entre o ardil e a sentença.
Levar a sério a realidade? Melhor dirigir-lhe um olhar zombeteiro. Será essa a desforra. A pretexto de estarmos vivendo intensamente determinado momento, não faz sentido afirmar ser um instante mais importante do que outro. Não há mais nada de excepcional, inexistem encruzilhadas históricas, a não ser para nós mesmos. Se houver alguma perspectiva inebriante, bastará um olhar irônico para demolir qualquer arcabouço ou dogma, para bagatelizar ao invés de sofrer por conta de males, cuja cura teima em fugir à sabedoria. O caniço pensante precisa, com urgência, aprender a dar de ombros.

Nossa jornada é apenas o atalho para descobrir, algo tardiamente, a inutilidade de ser sério. Os mais nobres sentimentos abdicam da sua solidão majestática ao chocarem-se com o trivial. Entre sermos inconsoláveis cassandras, ou torcer pelo fracasso das nulidades, manter o sorriso é uma medida de sobrevivência. Saída poética, talvez, já que sem sermos poetas, saberemos ser fingidores. Ante a falta de pudor do político, o sorriso do sábio. Isso não irá mudar algo, mas, se não é a solução, proporcionará pelo menos um agradável fim de semana.
E as nulidades? Bem, quantos têm na ponta da língua o nome de quem derrotou Ruy Barbosa nas urnas? Eis a resposta, ainda que disfarçada de pergunta.

*Crônica do livro ´´Sessão da tarde``, Ed. Edicon.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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´´Provavelmente, esse texto que resvala no politicamente incorreto, irá me valer algumas vaias, mas isso não importa``.

Em 24 de fevereiro de 1525, Francisco 1° rei da França, foi derrotado na batalha de Pavia. Aconselhado a desistir do cerco da cidade, preferiu seguir o conselho de Bonnivet: ”um rei de França não recua diante dos inimigos e não altera seus projetos de acordo com o capricho deles” Derrotado – o exército francês perdeu mais de 10.000 combatentes – ferido na mão no rosto e na perna, Francisco 1º resolveu se entregar. Perguntado se estava ferido, respondeu orgulhosamente “Non...guère”. (Não, nem um pouco). A título de curiosidade, naquela batalha pereceu La Palisse, precursor do famoso conselheiro Acácio – fala-se em verdades acacianas ou lapalissadas, para designar truísmos.

Na noite da batalha, já prisioneiro, numa mensagem enviada à sua mãe, Luísa de Saboia, Francisco escreveu a famosa frase: Tout est perdu fors l´honneur” (tudo está perdido salvo a honra). Pano rápido. Vamos avançar algo como meio milênio.

O clamor das ruas agita o Brasil de norte a sul e de leste a oeste. Abundam interpretações. Aparentemente sem saber como agir, sem ter como jogar a culpa no governo do príncipe dos sociólogos – procedimento usual, mas ineficaz nesse momento, o governo reage como pode.

Após breve resistência: ...”não recua diante dos inimigos e não altera etc.”, cede. A tarifa dos transportes – estopim da revolta- é reduzida. Faz sentido, afinal se há serviço de saúde gratuito, por que não transporte mais barato... desde que se saiba de onde sairão os recursos.

Mas a pauta dos manifestantes, apesar de difusa, é muito mais extensa. O descontentamento gerador de queda da popularidade da presidenta possui inúmeros vetores. A corrupção, o desperdício de recursos públicos, a péssima qualidade do serviço de saúde, da educação, da segurança, a inflação e por aí vai. Não faltam vilões. Sobra indignação.

Num primeiro momento, a presidenta propõe cinco pactos, diante de uma plateia disposta a bater palmas ante qualquer fala, sem levar em consideração o fato de ser um pacto “um ajuste, contrato, convenção entre duas ou mais pessoas” , de acordo com o dicionário Houaiss.
O efeito é mínimo.

Segue-se uma série de propostas desde a convocação de uma assembleia constituinte para solucionar a reforma política, adormecida há décadas, e convergindo, após a descoberta de ser essa medida inconstitucional, para um referendo, ou seria plebiscito? Remédio discutível já que visa a resolver um problema importante, porém não o mais premente.
Criou-se uma diversão – discute-se a viabilidade de a medida já influir nas eleições de 2014. Será que num universo no qual uma percentagem avassaladora é incapaz de interpretar um texto simples poderá decidir se deve ou não haver financiamento público de campanha, ou se o voto deve ser distrital misto, bastando para tanto um pronunciamento oficial dirigido aos súditos? Isso melhorará a qualidade dos serviços em estado calamitoso, garantirá a segurança dos sitiados, não em Pavia mas em suas próprias residências?

Será que nossa balança comercial melhorará com isso? Será que isso nos levará a acumular um superávit nominal- ideia rudimentar já se disse - sem acrobacias contábeis?
O discurso oficial espalha otimismo. “Não há hipótese de sermos complacentes com a inflação” O diabo é que o teto já foi furado. Nunca antes estivemos em melhor situação, que só não é melhor devido a fatores externos, tão distantes do nosso adorável umbigo. Sua Excelência o Ministro da Fazenda esfalfa-se em discursos panglossianos (que , aparentemente, lhe foram ditados), nos quais possivelmente esteja acreditando – é dos poucos se não o único. Repudiamos o tsunami financeiro e agora, ante a escalada do dólar, queremos o tsunami de volta, desbaratando as barragens erguidas pouco tempo atrás.

Trocamos um tripé por uma matriz económica. Só a imprensa golpista...e a opinião pública parecem não enxergar o mar de rosas que nos cerca.
Falamos em planos de mobilidade urbana e simultaneamente estimulamos a compra de veículos para entupir as artérias congestionadas das cidades. A frota demanda uma gasolina que não temos já que nossa autossuficiência é meramente retórica. Seguramos o preço dos combustíveis – não congelamos, Deus nos livre, e a Petrobrás que se vire. Falamos em austeridade, enquanto fluem recursos para o BNDES, Caixa e programas do tipo minha geladeira nova minha vida. Recursos que não caem do céu é bom que se diga. Sacamos sobre o futuro, antecipando dividendos de estatais e recursos que Itaipu proporcionará até o fim do contrato. tentando melhorar o presente. Quanto ao futuro, como Scarlett O´hara , pensaremos amanhã.
E agora, chegamos ao politicamente incorreto.

A percepção da realidade motivou um movimento de força e extensão insuspeitável.

A revolta procede, mas é preciso discutir essas manifestações ditas pacíficas.
Decerto não se faz omelete sem quebrar ovos, mas o lojista cuja loja foi depredada há de perguntar: Mas logo os meus?
De fato, trata-se de algumas minorias, de aproveitadores que pegam carona nos movimentos legítimos, assim como deputados pegam carona em MPs para inserir pleitos de sua conveniência. São aqueles que atiram a primeira pedra, ou eventualmente a primeira bomba. De fato, a reação da Polícia foi exagerada, mas será que naqueles casos não houve também minorias irresponsáveis. Nem todos os integrantes da força policial leram Kant na sua versão original.
Vale, porém, questionar os procedimentos da imensa maioria pacífica. Seria absurdo qualificá-la de exército de Brancaleone. Tem-se um gigantesco ‘Cansei’ apartidário. Um ‘saco cheio’ geral. Um movimento legítimo.

Por mais legítimo que seja, é razoável paralisar por longas horas cidades inteiras? Faz sentido bloquear avenidas importantes acabando com o direito de ir e vir dos cidadãos?
Claro que não faz sentido que as manifestações ocorram no Sambódromo, mas deixar uma pista livre, permitindo passagem de ambulâncias, seria pedir demais?
Quando se trata de dezenas de milhares de manifestantes, apressadamente qualificados de ‘milhões’ , ainda faz sentido, mas um grupo de algumas centenas bloquear o acesso ao aeroporto de Cumbica é razoável? Isso mais parece uma arbitrária penhora on-line das nossas estradas e avenidas.
Finalmente, esses movimentos, que serão ainda objeto de estudo, mobilizados através das redes sociais não possuem uma liderança definida que possa negociar com o governo uma solução para os inúmeros problemas que nos afligem. Quem irá sentar á mesa com um governo atônito e discutir algo mais concreto que frases e promessas bombásticas?
Voltamos ao ponto inicial desse comentário. O governo poderá afirmar, contrariamente ao que escreveu Francisco 1°: “Nem tudo está perdido’. Certo, mas a honra?

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.; target="_blank"> Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+

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Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/



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