NATAL PRESS

A Copa de 2014 está aí, e ainda lambemos feridas da anterior, num saudável exercício de autoflagelação. Não há novidades nisso. O saudoso Thomaz Mazzoni, famoso comentarista de A Gazeta Esportiva empacotou os descrentes na embalagem “legião do 16 de julho”, aludindo ao Maracanazo e ao pessimismo que se instaurou a partir da data, até a redenção de 1958. Integrantes da legião de técnicos de futebol que somos, emitimos predições sombrias, esperando, secretamente, encontrar mais adiante o desmentido dos nossos prognósticos...

Nem chegamos às semi, e a Copa 2010 terminou mais cedo, pelo menos para nós. Sobraram vuvuzelas, um estoque de camisetas auriverdes, bandeiras, apitos e outros artigos perfeitamente aproveitáveis em outras oportunidades. A pátria de chuteiras se refaz, aos poucos, do trauma, até certo ponto previsível. Comentários de sobra até 2014, mas é forçoso convir que o mundo não acabou, salvo informação que ainda não chegou até nós.

Delegamos a um grupo de atletas o resgate de glórias passadas e vejam só o que fizeram! Envergonhados, os torcedores tratam de cuidar silenciosamente a ferida aberta. Nem tanto, por favor.

A glória futebolística, se faz um bem indescritível, não é tudo.

De uma forma bastante insólita, tentamos fazer de um grupo de profissionais do ludopédio o instrumento de nossa afirmação. E nossa glória foi-se pelo ralo, por ter sido entregue nas mãos – perdão pés – de um grupo esforçado, porém limitado. Ocorre que salvo uma ou outra “gritante injustiça”, alinhamos o que de melhor havia.
Não fomos os únicos a reclamar. A mania é universal.

Da mesma forma que por aqui se lamentou o fiasco – se é que uma derrota futebolística possa ser chamada de fiasco – com tantas coisas mais sérias a nos atormentar, constatamos que não temos o privilégio da originalidade. Sarkozy (talvez Hollande teria agido de outra maneira , já que ele resolveu encarnar a mudança), em pessoa, resolveu investigar o que aconteceu com ‘les Bleus’ – que já ganharam o apelido de “les Bluffs”, na Itália se deplorou a falta do “verdadeiro futebol italiano” e por aí vai. O que seria o verdadeiro futebol de um país? Já sei: É verdadeiro quando ganha.
Onde foi parar o verdadeiro futebol brasileiro, exclamam viúvas inconsoláveis. Esse Dunga, retrucam outros, com tantos volantes. Onde já se viu? Convocação absurda, de um treinador que nada entende - bradam os mais exaltados. Dessa maneira, haverá quem duvide que Deus é brasileiro. E agora, esse Mano! Já está na hora de substituí-lo por alguém do ramo.

Perdemos em 2010. Não foi a primeira, e infelizmente, não será a última vez. É triste, mas daí virarmos desconsoladas carpideiras há uma boa dose de exagero que é melhor banir. Poderemos encarar a História de cabeça erguida. Não fomos parar no terceiro subsolo.

Longe disso.
Com o risco de levar uma vaia estrepitosa, vamos olhar para trás.
Em 1958, a convocação não foi uma unanimidade. Depois da conquista, ninguém mais reclamou da não convocação de Luizinho o “pequeno polegar”. Poucos terão a objetividade de lembrar que nas semi, massacramos a França sim, mas eles jogaram com dez, porque o Jonquet foi aleijado por um dos nossos – pouco importa saber quem, mas foi o Vavá – e, naquela época, não havia substituição. Certo, Clotilde?

Em 1962 abatemos a Fúria espanhola, mas alguém se lembra da anulação de um gol legítimo deles e da “esperteza” de Nilton Santos, que após cometer um pênalti em Gento, deu um passinho para a frente, enganando o juiz? E se fosse ao contrário? E por acaso, alguém se dispõe a recordar que Garrincha fora expulso na semi, consequentemente não poderia ter disputado a final, não houvesse um providencial “sequestro” do árbitro.
Em 1970, jogando contra o Uruguai, Pelé não deveria ter sido expulso, após uma cotovelada em Matosas, igualzinha àquela que motivou a expulsão do Leonardo, contra os Estados Unidos, em 1994? Claro que não! O juiz até deu falta a nosso favor!
Isso quer dizer que nossas vitórias não valeram? Claro que valeram, além de demonstrar que se o futebol se ganha “nos detalhes”, algumas vezes, os detalhes também estiveram a nosso favor de maneira inconteste.
Fala-se da seleção de 1982 como a grande injustiçada. Detalhe: no jogo com a União Soviética o juiz não viu um pênalti escandaloso de Luizinho. Depois, perdemos da Itália, mas será que se o técnico tivesse convocado Leão, ele não teria agarrado ao menos um dos três petardos de Paolo Rossi que arrancaram lágrimas do garotinho, na foto premiada do Jornal da tarde?
Ah, essas convocações! As vozes chorosas que lamentam a pubalgia de Kaká – o que diabo é essa pubalgia? Com pubalgia e tudo a bola que ele chutou só não entrou porque o goleiro holandês fez o que os holandeses, incluindo a Casa Real, esperavam dele: defendeu. Esse é o mal do qual padecem os goleiros inimigos.
Recordam a Copa de 1986, quando Zico, meio baleado, saiu correndo do banco de reservas para chutar mal um pênalti contra a França? Depois, é fácil criticar o grande Telê - tão malhado pelo Jô Soares, perdão, Zé da galera - por não ter colocado pontas em 82, ou ter barrado Renato Gaúcho que se atrasara num treino em 86. Jogando sem Pato, sem Ganso - os canarinhos órfãos não deram conta do recado em 2010. Fracasso de nossa avicultura?
Gostamos de sofrer? Claro. Dirigimos olhares saudosos para nossas conquistas passadas e esquecemos pequenos detalhes que poderiam ter invertido alguns resultados, como o gol anulado da Bélgica em 2002 ou o satélite artificial lançado por Baggio em 1994.
Vamos ignorar os jogos restantes e vamos pensar na Copa de 2014, com a inevitável bagunça administrativa que a antecederá. Se algo der errado (tomara que não) poderemos nos insurgir contra as sempre presentes “forças ocultas” personificadas por perversos Mr. Ellis – árbitro do jogo Hungria 4 x Brasil 2, num distante 1954, que provavelmente nada fez de tão errado para merecer os insultos dos nossos gloriosos locutores de uma época sem TV, câmera super-lenta etc.
Seremos HEXA ou hexagerados. Tudo dependerá dos caprichos dos deuses do futebol e do superfaturamento.

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Parece que os representantes graduados de nossa inteligentsia resolveram partir para a taxonomia delirante, aplicada às manifestações de rua. E as ovelhas de Panurgo tanto na grande mídia , quanto na blogosfera adotaram a classificação. É um absurdo galáctico falar que ‘isso que está aí’ é apenas o exercício democrático do direito de defender um ponto de vista, uma causa, um direito legítimo ou nem tanto separando-o da barbárie, quando na verdade estamos diferenciando apenas diversas nuances de brutalidade, Para não divagar em demasia, basta afirmar que até hoje não houve manifestação pacífica alguma. O que houve foram manifestações com vandalismo e sem vandalismo. As chamadas manifestações pacíficas nas quais grupos ou grupelhos tolhem o direito de ir e vir do cidadão comum, do trabalhador ou de um mero nefelibata a passeio, direito garantido pela Constituição, são não violentas mas não deixam de ser agressivas. Os Anti-Copa, os integrantes do MTST, os professores e por aí vai desfilam sua indignação, protestam, vituperam onde? No Sambódromo? Não! Nas principais artérias entupidas das nossas metrópoles. Entre a meia-noite e as 4 horas da manhã? Não! No horário no qual podem causar o máximo transtorno para, ao impor sofrimento, chamar a atenção Os black blocs são apenas a cereja podre em cima do bolo. Vamos convir: golpes acima ou abaixo da cintura doem. Não é preciso ser o marquês de Queensberry para concordar. E é dessas pancadas que se está falando.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Fazia parte do treinamento de Lucy, nessa sua ambientação após seu prodigioso salto no tempo uma série de visitas técnicas. Coroando essas atividades, o CIL (Centro de Integração de Lucy – observação para os leitores desmemoriados) conseguiu uma suplementação de verbas e programou um passeio no Absurdistão. Para os menos versados nas continuas modificações geopolíticas que agitam nosso miserável grão de areia perdido no Universo – fonte inesgotável de perguntas capciosas em exames vestibulares, as agitações, não o Universo – basta saber que se trata de uma república situada em algum lugar ao sul do equador, num continente conhecido como Vespúcia do Sul. Aos mais interessados, recomenda-se consultar uma criança-prodígio, dessas que passam horas intermináveis em frente a uma telinha de computador ou de um fone que nada mais tem de Smart para ela.

A viagem transcorreu sem incidentes, apesar de, vez por outra, ter sido necessário encontrar um refúgio, ainda que precário, para evitar encontros desagradáveis com manifestantes pacíficos, porém de insuspeita agressividade. À pergunta óbvia: “Qual o propósito que move esses estranhos sodalícios?” a resposta recolhida num compêndio de autoria de um pensador local não deixava margem à menor dúvida, pela precisão da análise quantitativa: “São movimentos 80% políticos e 20% lúdicos”. Foi nessa oportunidade que Lucy descobriu ser 80% prudente e 20% curiosa, motivo pelo qual, no seu caderninho de anotações, anotou – caderno de anotações serve para anotar, se bem que poderia ter consignado, registrado ou até mesmo assinalado – “Ainda bem que não sou vitrine de loja’.

Já de volta aos seus confortáveis aposentos, Lucy preparou o relatório da viagem, a fim de submetê-lo à apreciação dos seus orientadores. Alguns trechos foram “vazados”, quebrando o sigilo da missão. Ocioso perguntar como ocorreram sesses vazamentos. Tudo vaza, desde tubulações de água até os segredos de Polichinelo. Como diz um sucesso musical “mas tudo vaza, tudo vazará”. Eis alguns trechos. Será necessário dar o devido desconto pelo fato de tratar-se de um simples rascunho, uma vez que não há noticia da existência de uma formatação final a exemplo de um tal PAC N, eternamente inconcluso, sem contar que Lucy continuava com péssimo aproveitamento no quesito redação.

Observei – as observações são de inteira responsabilidade de Lucy – que há alguns pobremas de suma relevância. Esse trecho estava rasurado sendo possível constatar que a autora tinha algumas dúvidas quanto a grafia da palavra. Assim, ela alternava as formas problemas e pobremas, para finalmente, optar por pobremas.

Ética das bonecas infláveis. Foi a maneira que Lucy encontrou para designar o comportamento dos políticos que compunham uma tal base aliada. “Esses aceitavam com alegria serem inflados, tendo acesso a funções que recompensavam sua fidelidade, mesmo que não apresentassem a menor vocação, talento ou competência para desempenhar razoavelmente suas tarefas, e, em seguida, após uso, serem desinflados e colocados numa máquina de lavar, junto com algum dinheiro. Na ausência de coleta seletiva de lixo eram descartados – segundo uma expressão local colocados debaixo do tapete – e rotulados como indignos de confiança. Novas bonecas infláveis eram providenciadas, pois o Absurdistão não pode parar”. Lucy chegou a questionar seu mentor de química se não era possível encontrar um ácido aliado, que em contato com a base aliada, produzisse a conhecida reação de neutralização, resultando sal e água. “Que sal e água, Lucy, – exclamou o acadêmico – aqui resulta pão e circo”.

Numa outra página, lia-se:

“Nanismo moral. Esse pessoal – é Lucy que está filosofando – não tem outro princípio do que não ter princípio algum. Ora estão vituperando ‘tudo isso que está aqui’, ora enaltecem tudo isso que aqui está, dependendo do lado do guiché no qual se encontram. Têm um refrão; eu fiz depois de negar veementemente o malfeito – mas vocês também fizeram. Pior que, em geral, têm razão. Possuem uma paixão incontrolável com viúvas, e a paixão parece encontrar eco, pois todos gastam generosamente o dinheiro da viúva, podendo ser até a viúva Clicquot. São eméritos marceneiros, pois todos fazem uma tal de caixa dois. Higiênicos ao extremo, costumam lavar dinheiro, já que é sabido que o contato com os germes está repleto de perigos. Fato estranho, são acometidos por uma amnésia seletiva. De algumas coisas não sabem e não se lembram, em compensação estão sempre dispostos a lembrar detalhes da vida nada louvável dos seus opositores. Possuem bochechas enormes que adquirem proporções impressionantes, à la Dizzie Gillespie toda vez que pronunciam a palavra ‘povo’. Tudo pelo PPPPPovo. Engraçado o fato de no Absurdistão, quanto mais indecente o indivíduo, maior sua probabilidade de ser eleito ou reeleito. São todos participantes do programa Minha Mercedes, minha vida. Possuem primeiras amigas, primeiras amantes, com o perdão do chiste – raramente de primeira mão.

Finalmente, numa outra ficha consta
Desenvolvimento do complexo de cidade sitiada.
“Toda vez que emerge um escândalo, surge o bordão.: ”Estão tentando nos destruir”. Não se sabe ao certo quem são esses maldosos “eles’ – os amadores de destruição – mas para tranquilidade de todos vem a frase reconfortante: “mas não conseguirão”. Há um certo maniqueísmo primário, derivado da marcação dos pontos na tranca, que divide a humanidade em Nós e Eles. Naturalmente, “Eles” precisam ser aniquilados, para que nós cuidemos dessepaiz. Outro dia, disseram que alguns seres malignos associados a uma imprensa vendida estavam querendo destruir a Petroabsurdi, orgulho de todos. Quiseram até chama-la de Petroabsurdix. Claro, acrescentam, isso não acontecerá. Há inimigos por todo lado: são aqueles que promovem tsunamis monetários, outros que não compram a produção absurdistanesa, outros que se contorcem em espasmos raivosos porque o povo vive melhor. Isso é verdade, pelo que se pode apurar, em Absurdistão não falta papel higiênico.

Ausência de coluna vertebral.
As anotações às quais tivemos acesso cessam nesse ponto, mas, com certeza, o trabalho de Lucy mal começou.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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Ainda há faxineiros no vale do Silício

Freqüentemente, fala-se nos desafios de um mundo globalizado no qual , querendo ou não, o Brasil está inserido. Nada mais verdadeiro e nada mais enganador. Não se discute a ocorrência de novos fenômenos, que tornam cada vez mais complexa a conjuntura. No entanto, é importante reconhecer uma verdade: Por mais que tenham ocorrido mudanças, as sociedades mantiveram as suas relações intrínsecas.

Fala-se em globalização, outros usam “mundialização”, como se fosse uma ocorrência bombástica, sem precedentes. Ora, não é nada disso. É possível falar, sem exagero algum, em globalização na época do Império Romano, ou na época das grandes descobertas geográficas, isso para não falar na época contemporânea. Acontecimentos econômicos e culturais originados em um ponto qualquer do planeta se expandiram, ocupando espaços cada vez maiores.

Devemos à globalização o consumo da batata, do fumo, a disseminação de normas jurídicas, ou a adoção de diferentes maneiras de trajar-nos.

O que mudou drasticamente foi a velocidade de propagação das novidades. Para ilustrar esse fato, basta apoiarmo-nos em exemplos banais, ao menos aparentemente. Podemos nos lembrar, afinal, estamos falando numa época da qual muitos de nós são testemunhas, do tempo necessário para que um sucesso literário , musical ou cinematográfico no Exterior impactasse nossos hábitos. A mini-saia levou mais de um ano. Sucessos dos Beatles, algo parecido, e por aí vai. A revolução das telecomunicações acrescentou esse componente quase mágico da instantaneidade, acrescido da superabundância de dados e informações – nem sempre imprescindíveis, mas essa é uma outra história.

A proliferação de informações, fez evoluir os mercados para algo bem próximo da ficção teórica chamada de “mercados perfeitos”. Nesses, os dados estão permanentemente atualizadas e à disposição de quem os queira usar. Se, na época das guerras napoleônicas, atribuiu-se o enriquecimento dos Rotschilds à informação rápida que tiveram quanto ao desfecho da derrota de Napoleão em Waterloo (pombos-correio teriam sido portadores das notícias), hoje qualquer operador de mesa de uma instituição financeira possui, bem à sua frente, um ou mais monitores com as cotações dos principais mercados mundiais. Aos pombos-correio a aposentadoria!

Sub-rotinas acessíveis substituem “o faro” do analista, o qual prefere errar acompanhado a assumir o risco de acertar sozinho. Isso explica, ao menos em parte, os movimentos de manada do mercado financeiro. Só meu amigo Pé Trocado, já mencionado, ignora a massa, mas já recebeu aviso prévio.

As operações ditas de ‘arbitragem’ que consistem em comprar barato num lugar para vender em outro onde a cotação for maior, mantiveram sua graça. Operadores mais velhos das nossas bolsas ainda se lembram das operações ‘Ponte Aérea’, nas quais, dependurado numa linha telefônica alugada, tentava-se comprar no Rio e vender em São Paulo, ou vice-versa. Aqueles feitos viraram folclore, debate saudosista de mesas de bar, as quais, por sinal, pouco mudaram.

Estão sendo criadas condições que requerem um novo tipo de profissional. Evidentemente, isso não vale para os ramos tradicionais da economia. Arar, por exemplo continuará sendo uma atividade que irá requerer o contato de máquinas, por mais evoluídas que sejam, com o solo. Projetar uma viga demandará os mesmos cálculos, mesmo se a saudosa régua de cálculo foi aposentada e substituída por um software sofisticados. Quanto ao desentupidor de pias, (por enquanto) , o comando “Iniciar”, “Desentupir” dirigido a um robô precisa ser aprimorado.
O lixo (em quantidades crescentes, por sinal) continuará sendo recolhido e o sapateiro não irá além dos sapatos, apesar de as indústrias disporem de métodos de CAD (projetos auxiliados por computador). O bordão latino: Ne sutor ultra crepidam – sapateiro não vá além das sandálias - possui uma barba de mais de dois milênios. Para apará-la, os préstimos de um barbeiro ainda merecem alguma consideração.

Qual o elemento comum nas mudanças, se é que houve mudança?
A resposta é simples. Não mudou o “o quê”, mudou o “como”. Dito de uma forma mais empolada, houve um crescimento exponencial da função meio. A mudança radical ocorreu no setor de serviços. Mesmo assim, as alterações foram muito mais na forma do que na profundidade. De fato, desapareceu a figura do contador com viseira e protetor de mangas. No entretanto, a função permanece, sendo desempenhada de forma muito mais rápida, com o auxílio da informática. Os cínicos dirão que assim erra-se com maior rapidez. Deixem que digam, que pensem, que falem...

Essa evolução, contra a qual seria bobagem insurgir-se, sob pena de virar objeto de chacota, introduziu uma dinâmica peculiar à divisão mundial de mercados. Como conseqüência imediata, a demanda por determinados profissionais explodiu em diversos locais. A má notícia é que em decorrência disso , paralelamente ao fenômeno de desemprego - vamos chamá-lo de tecnológico, embora isso em nada atenue o trauma dos alijados do mercado de trabalho; tecnológico ou não, desempregado continua desempregado - as exigências se tornaram cada vez maiores, acarretando uma demanda crescente por indivíduos preparados para enfrentar novos desafios, além de criar uma necessidade de contínua atualização; esse fato expôs uma fraqueza do sistema educacional daqui e de alhures. Parece que dominar o IPad não bastará, mas ai do dinossauro que não souber

Com as novas exigências, trazidas pela alta tecnologia, os profissionais necessitam estar altamente atualizados. Não só na sua especialidade, mas devem conhecer também tudo aquilo que impacta sua atividade-fim. O perfil polivalente vale para todos: em atividades de emprego tradicional, que rareiam a cada dia; ou em prestação de serviços, que crescem e se renovam a olhos vistos, o perfil generalista é desejado. Novamente com a palavra, os mesmos cínicos dirão que ao invés de profissionais que saibam tudo sobre alguma coisa bem definida, serão requisitadas pessoas que saibam nada sobre tudo. Que saudade sentimos do médico que acompanhava a família, quando nos defrontamos com um especialista em traumas do joelho (mal) pago por um (custoso) convênio. Sem tocar no paciente, irá solicitar-lhe uma extensa bateria de exames, antes de fazer valer seu talento. Isso não impedirá um colega dele, vez por outra, de retirar o rim errado.

Assim, compreende-se que a educação formal dada ao cidadão deste novo século siga um roteiro diferente. A escola precisa estar em constante renovação de seus currículos. Isso é um pouco mais complicado do que introduzir “o novo”, seja lá o que isso possa significar.
A obsolescência não espera que se conquiste o almejado canudo, já faz as suas vítimas nos bancos escolares. Uma atualização contínua dos educadores é imprescindível. Para tanto, a combinação da decantada “vontade política”, associada à contribuição decisiva do vil metal será essencial.
O mercado de trabalho sofre solavancos incríveis, postos de trabalho são suprimidos e, concomitantemente, inúmeras vagas não são preenchidas. Como poderá um torneiro dispensado ocupar uma vaga de analista de software? Haja dramas! Desemprego coabitando com anúncios de “Procura-se para início imediato”.
Para todos os efeitos, o mundo encolheu, perdeu a dimensão de arquipélago para transformar-se na famosa “aldeia global”. Ao invés de dirigirmos um calhambeque, estamos a bordo de um bólido da Fórmula I, cientes da existência de curvas Tamburello assassinas.

Virou moda esculhambar a imagem dos mercados que se auto-regulam, ou seja, cuidam de si, dispensando intervenção, desde que haja regras do jogo corretas. Não faltam argumentos e evidências a favor da tese. No entanto, eles se auto-regulam, sim. Ocorre que nenhuma sociedade pode suportar as conseqüências desse processo. No seu automatismo isso pode levar a desastres insuportáveis.
Admitamos. A sociedade está em contínua evolução.(Essa frase merece um lugar de honra na galeria das maiores obviedades)
Mesmo assim, falar em ineditismo encerra um exagero. Na metade do século XIX o escritor romeno Ion Creanga, famoso pelos seus contos infantis e seu tosco antissemitismo, escreveu, em tom de troça: “Com tanta educação quem irá engraxar-nos as botas?”
Trata-se de um desafio complexo. Para que ele não se transforme em pesadelo, a sociedade deverá se adaptar. Antes isso que discursos solenes para justificar o fracasso. A alternativa inaceitável seria unir o fútil ao agradável. Por quanto tempo?

*Crônica do livro ´´A luta continua`, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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A irmã só sabia pregar-lhe peças. Precisava dar um telefonema urgente e não conseguia fazê-lo a par­tir daquele mudinho. Olhava desolado para aqueles res­tos “tecnologicamente corretos”. 

O telefone espatifado tocou sem avisar. Feito um autômato, atendeu.
– Pronto.
– Bom dia. O senhor atendeu uma chamada a cobrar; para continuar, introduza um diamante. Se o fizer estará concorrendo a um secador de cabelos. A Companhia agradece sua preferência.
– Não preciso de secador de cabelos. Sou careca.
– Estar concorrendo é apenas o primeiro passo. Ganhar é outra coisa. Introduza o diamante.
– Mas introduzir onde? O telefone está quebrado!
– Então procure o nosso setor de consertos.
– Mas eu já liguei para o setor de consertos. Disse­ram que entrariam em contato.
– Pois então, estou ligando do setor de consertos. Introduza um diamante para continuar. Não aceita­mos rubis.
– Deve haver uma confusão. Não tenho diamante algum.
– Na nossa Companhia não há confusões. Sem diamante, a ligação cairá dentro de meia-hora.
– E por que usa maiúsculas para designar sua em­presa?
– E por que não? Além disso, essa é uma norma interna. O senhor cometeu uma indiscrição. Como sabe que usei maiúsculas?
– Foi apenas um palpite. Gostaria que consertas­sem o meu telefone.
– Qual é o problema?
– A minha irmã o quebrou.
– Ela o quebrou dentro da residência ou fora? Se for dentro, trata-se de um problema doméstico, fora de nossa alçada; se for fora, fica dentro de nossa al­çada. Entendeu? Fora, tá dentro e dentro, tá fora.
– Ela o jogou pela janela na calçada e eu o trouxe para dentro de casa. Fiquei com pena.
– Então o problema ocorreu fora da residência?
– Pode-se dizer que sim. Tenho certeza que sim.
– Qual o nome de sua irmã?
– Isso é importante?
– Preciso preencher o formulário. Estou procurando o campo para “parentes próximos”. Não estou achando. Terei de ligar novamente para o senhor.
– Esqueça esse campo, continue.
– Não posso. Já abri a ocorrência e o senhor me deu uma informação, que não consigo classificar. Consultarei minha supervisora. Essa informação pode ser importante para a Companhia. A Companhia agradece sua preferência. Voltaremos a contatá-lo. Será aplicada a tarifa de re-chamada.
– Não, não desligue.
– Desculpe, tenho instruções precisas.
– Quero falar com a supervisora.
– Ela não veio trabalhar hoje.
– Mas a senhora disse que precisaria tirar a dúvida com ela.
– Perfeitamente. Perguntarei assim que ela voltar. Ela está de férias no momento.
– Está certo, mas, na ausência dela, alguém a substitui, ou não?
– Claro que alguém a substitui. Ninguém é insubs­tituível. Uma posição importante como essa nunca fica descoberta.
– E quem a substitui?
– Eu.
– Entendo. Como irá proceder?
– Tentarei fazer o melhor. Recapitulemos. Quando o fone foi atirado pela janela, sabe dizer se estava co­nectado na tomada?
– Não sei. Eu cheguei depois que ela o jogou.
– Como sabe que foi jogado pela janela?
– Tive esse palpite, quando o encontrei na rua.
– Mas poderia ter sido quebrado dentro de casa e atirado depois pela janela. O que sobrou dele pode ter sido colocado na calçada com cuidado. Concorda?
– E que diferença faz?
– Dentro, tá fora e fora, tá dentro. Lembra?
– Como poderia me esquecer? Quero saber se vão resolver o meu problema.
– Por enquanto estou preenchendo um formulário. Já preenchi os dados básicos. Estou com problemas para preencher o campo “observações”; na falta do campo “parentes próximos”, encaixarei em “observa­ções”. Como vê, somos uma empresa moderna e flexí­vel. Isso me lembra...
– Deixe o campo em branco, por favor. Estamos perdendo tempo.
– Este campo nunca pode ficar em branco. De­monstraria falta de interesse do funcionário. A Com­panhia tem por objetivo a maximização da satis­fação do cliente. Isso só se consegue preenchendo o campo “observações”. Maximizar a satisfação do clien­te nunca foi perda de tempo. Trabalhamos para pro­porcionar qualidade total.
– Está maximizando minha raiva.
– Desculpe, sigo um roteiro aprovado internamente. Não deixarei o campo em branco.
– Então escreva o que quiser. Escreva uns versos de Pessoa.
– Ele é assinante?
– Ele é imortal. Pode ser que seja assinante tam­bém.
– Pode me dar os dados dessa pessoa?
– Não. Eu faltava muito às aulas. Serve Alberto Caeiro?
– Terei de abrir outra ficha. O senhor me deixa numa situação embaraçosa. Tento fazer o máximo para resolver o seu problema e o senhor está dificul­tando. Já colocou o diamante?
– Só se for numa broca dentária.
– Então o senhor é dentista? No nosso banco de dados consta: pugilista.
– Sou um pugilista filósofo sem telefone.
– Nosso tempo está se esgotando. Sua reclamação estará sendo reprocessada. A Companhia lhe deseja um bom-dia e agradece sua preferência.
– Preferiria poder dar uns telefonemas. Com este aparelho será impossível.
– O senhor não possui outro telefone?
– Tenho, sim.
– Então por que não o está usando?
– Não posso.
– Por quê?
– Minha irmã o está usando e ela fala muito. Nem pode imaginar o quanto.
– Qual é o nome de sua irmã? É para colocar no campo “observações”. Além disso, por um diamante menor, podemos proporcionar-lhe uma extensão vir­tual...
Desligou. Não havia motivo algum para ficar irri­tado. Afastou-se do aparelho cantarolando a marcha fúnebre.

*Crônica do livro ´´Apetite Famélico``, Ed. Totalidade

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Talvez não tenha se esquecido ainda da viagem, a respeito da qual escrevi, comentando algumas recordações lisboetas. Pois continuando, aumentarei a gravidade do crime contra as letras, dando prosseguimento a esse relato.

Ao mencionar o incidente C.J. disse que havia um outro episódio menos louvável. Para apreciá-lo, quando eu me decidir a confessá-lo, sem fazer um juízo muito severo, coloque-se por alguns momentos no meio do bando de estudantes formandos. Quase todos sem dinheiro, contando com as diárias oferecidas pela nossa CêVê, (Comissão de Viagens) complementadas por algum reforço proporcionado pelas famílias. Lembro do comentário admirativo: “Pô, o Luís Augusto está levando 300 dólares.” (estamos falando de dezembro 1966, época em que fazia sentido o livro ‘Europa a 5 dólares por dia’).

Como chegamos à Europa? Num possante quadrimotor C54 da FAB, a versão militar do DC4. Poltronas? Nada disso. Apenas os assentos laterais de um avião de pára-quedistas como nos filmes de guerra. Calefação? Deve estar brincando. Mas, a avião cedido não se contam os defeitos, diria meu sábio alter ego, praticamente da mesma idade que eu. E, já que estou lhe escrevendo, não sentirá o pavor que se apoderou de nós ao descobrir a imobilidade de uma das hélices.

Faltava dinheiro; éramos,porém, os donos do mundo. Pode ser que o mundo custasse menos, ou, quem sabe, éramos ricos o suficiente para não ligar para detalhes.

Bem, não é que fomos ao Cassino de Estoril?

Espirito matemático, jogava meus trocados no cara e coroa do vermelho e preto. Para ser mais verdadeiro, preciso dizer que só jogava no vermelho. Aguardava a ocorrência de um preto e logo depois, ignorando – como todo engenheiro, cujo trabalho de graduação relacionara-se com a estatística aplicada – o fato de nada garantir a necessária ocorrência subseqüente de um vermelho, colocava, cheio de confiança, a ficha no ‘encarnado’. Quando perdia, dobrava a parada, sem poder ir além de uma única dobrada, por razões de gestão austera da minha fortuna. Aos poucos fui juntando algo como 50 dólares de lucro. Estava me tornando um milionário. A caprichosa deusa escancarava um sorriso dócil, submisso, encorajador. Nem percebi o tempo voar, fascinado pelo jogo e embalado pelos comentários de um colega menos atrevido, que se limitava a contabilizar meus lucros e perdas. Sem demérito algum, as observações eram tão interessantes quanto aquelas a que nos habituaram nossos locutores esportivos de hoje. ‘Agora vai’, ‘Vamos virar o jogo’, ‘Notou aquela gostosona de azul?’ Como demorava aquele pessoal! Nada a ver com o ritmo endiabrado de Vegas, que vim a conhecer anos mais tarde. Com o saldo positivo da minha particular balança comercial, aquele detalhe não chegava a importunar.

O crupiê anunciou, finalmente, a última rodada. Era chegado o momento do lance magistral. Parado durante algumas rodadas de preto, decidi separar o valor da fortuna inicial mais o valor da corrida de táxi e ‘partir para o tudo ou nada’ com o resto. Não poderia dar errado. Deu. Dizer que deu um inesquecível 26, seria supérfluo. Sim, o 26 é preto, meu caro. Com sono, a Fortuna decidira abandonar-me, sem aviso prévio. Dei adeus ao montão de fichas varridas com implacável zelo pelos profissionais.

Antes de regressar ao glorioso Hotel Atenas, detivemo-nos num pequeno bar, onde fui apresentado ao que me pareceu, naquela época, o néctar surrupiado a Hebe ou a algum substituto de Ganímedes. Gozadores, abstenham-se. Estou falando do capitoso Grandjó, cujo sabor adocicado nos fez esquecer a hora. Precisávamos voltar para dormir ao menos duas horas.

No táxi, junto com mais três colegas, (note, observador implacável – decerto já o notou– que ainda sobejavam, a título de lucro, três quartos do valor da corrida), resolvemos provocar o digno ás do volante.

– Chofer, queremos seu boné.
- Ora, pois, isto é ‘pruibido’. Tenho de usar o boné em s´rviço. –Tudo isso vinha dito com aquele delicioso sotaque, que me obrigou a uma transcrição fonética, para que mergulhe conosco no clima daquela pequena aventura.
- Pelo menos dirija sem boné. Faça essa gentileza.
- Ora, pois, não podemos f´zer isso.
- Chofer, é muita pompa. Seja menos formaL. Diga ao menos um palavrão
- Ora, pois, j´mais falo p´lavrõech!
- Um só! Ao menos um. Com certeza sabe
- Não. De m´neira n´nhuma!

De tanto insistirmos, ele finalmente soltou um sonoro PQP, acolhido por um coro de risadas, até que um de nós conseguiu, fingir uma justa indignação.
- Chofer, perdeu a classe. Que tremenda falta de educação!
- Mas foram os s´nhores que insistiram, pois não? –O retrato pungente da desolação. – Foram necessários longos minutos para explicar ao consternado motorista, ter sido aquilo apenas uma brincadeira, que o palavrão, desastradamente proferido, em nada diminuía a nossa estima e que ele continuava luzindo como estrela de primeira grandeza no firmamento das boas maneiras.

As luzes de Lisboa estavam se aproximando, o sono já reivindicava seus direitos. Nas mãos, o cartão de admissão por um dia no Cassino, doravante inútil. Nessa roleta, ao menos, conseguira descobrir que, se a fortuna sorri aos audaciosos, muitas vezes, o sorriso é banguela.

*Crônica do Livro ´´Sessão da Tarde``, Editora Edicon.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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A estrada se espreguiçava à sua frente com indes­crití­vel monotonia. O carro engolia placidamente quilômetro após quilômetro havia mais de cinco horas. Incomodava era saber que ainda faltava mais da metade da jornada. Uma espécie de torpor apode­rava-se dele. Dirigia automaticamente, sabendo, de experiências passadas, nessa mesma estrada, que logo viria um momento de completo desânimo, típico dessa maratona.

Era quando os reflexos pareciam estar tirando férias, a concentração desertava e a motivação caía vertiginosamente. Sabia também que, uma vez supe­rada essa barreira, que o molestaria por uma hora, o resto da viagem seria tranqüilo. Pagava, de certa forma, um tributo à sua total falta de paciência. Tinha decidido que o maldito trajeto deveria ser com­pletado num só dia. Era algo factível, com toda cer­teza, dentro das suas possibilidades; logo, não iria admitir parar na metade e, após descansar, concluir no dia seguinte.

Selecionou um outro CD. Desta vez era o concerto para violino de Tchaikovsky. Ao som dos primeiros acordes, a sucessão de painéis publicitários que mar­geavam a estrada passou a ganhar nova vida. Pare­ciam render-se ao encanto da música. Os apelos ao consumo haviam deixado de agredi-lo e, submissos, revelavam-se acompanhantes fiéis e discretos.

O primeiro movimento do concerto o havia fasci­nado sempre. O choro do violino lhe passava uma sensação de encanto, e era o que precisava para superar a fadiga. 

A dor de cabeça aproximou-se dele, rastejando como um cachorro amestrado. Foi sendo dominado, sem ter podido opor qualquer resistência. Era uma dor insinuante, monótona, persistente, implacável.
Ao longe, distinguiu um vulto à beira da estrada. Pensou em diminuir a velocidade. Ia acabar levando uma multa originada num desses radares ocultos, que as piscadas de farol dos carros, vindos em sen­tido oposto, não teriam ajudado a burlar. À medida que se aproximava, notou sucessivamente tratar-se de um ser humano, mulher, bonita. As constatações sucessivas, frutos da aproximação, se sucederam a intervalos de pouquíssimos segundos.
Estranho. Muito estranho mesmo. A mulher incrustada na paisagem, num lugar desértico.
Ela estava acenando e, mesmo que não o tivesse feito, a simples presença naquele trecho de estrada já teria justificado uma parada.

Deteve-se no acostamento, ao lado da desconhe­cida. Agora era possível afirmar que considerá-la ape­nas bonita era uma tremenda injustiça com a estra­nha. Ela estava simplesmente iluminando aquele canto perdido do universo. Jeans, camiseta, tênis, um lenço colorido no pescoço e uma bolsa de respeitáveis proporções no chão. Cabelos castanhos curtos emol­durando um rosto angelical. Um largo sorriso fez a dor de cabeça recuar como o cachorro amestrado faria, se o filme fosse projetado de trás para frente com velocidade maior.
– Bom dia, quer uma carona?
– Vou a São Paulo. Pode me levar?
– Levo até o fim do mundo.
– São Paulo será mais do que suficiente.
Ajudou-a a colocar a bolsa no porta-malas. Ela conservou apenas uma bolsinha minúscula. Entra­ram no carro. O concerto estava no seu último movi­mento.
– Adoro este concerto, disse a estranha. Meu nome é Mônica.
– Também adoro. Muito prazer, Francisco.
– Eu sei, eu sei, disse ela e com um sorriso bizarro, apanhou na bolsinha um frasco de perfume, ou algo parecido, e orientou um jato com cheiro estranho em direção ao motorista.

De repente, os traços da Mônica ficaram menos nítidos. Ela mantinha o sorriso, até parecia que esti­vesse gargalhando, embora nenhum som se fizesse ouvir. Um apito agudo, que fazia lembrar o som de uma broca de dentista, não deixava Francisco fechar os olhos e dormir como era seu desejo. Largou a dire­ção, mas, coisa estranha, o carro tinha parado de cor­rer na estrada. Estava envolto numa nuvem de poeira prateada e parecia flutuar. Juntando as suas forças, Francisco tentava em vão articular palavras em dire­ção à passageira misteriosa. Permanecia paralisado, mas o seu desejo não era se mexer e, sim, poder comunicar-se, protestar ou talvez agradecer pelo que estava se passando.

Mesmo sem enxergar com nitidez o rosto, ele se sentia atraído pela visão turva que, naquele momento, parecia reger-lhe o destino. Imóvel, perce­beu que o penteado da Mônica estava se modificando, o cabelo se juntava num coque abrigado por um cha­péu de abas largas. A camiseta cedera lugar a um decote cheio de babados e um lindo colar estava dando voltas no pescoço marfim. No lugar da calça, uma saia longa encobria as pernas escondendo até os tornozelos,

Mas será que aquela roupa provinha da bolsa do porta-malas? Como, se ela nem havia saído do lugar, e aquela roupa parecia ter surgido do nada?
– Cavalheiro, estamos em São Paulo. Gostaria de tomar um chá, isto é se for convidada.
– Onde estamos? E logo se espantou com o fato de subitamente ter recobrado a fala.
– Em São Paulo. Talvez devesse perguntar quando estamos, sorriu Mônica.
– E o meu carro. Olha o que aconteceu com ele!
– Que lindo Studebaker! Bem melhor que o seu, em todo caso, bem mais charmoso. Estamos perto do Viaduto do Chá, caso não reconheça.
De fato, o Teatro Municipal estava lá mas, no lugar de alguns dos prédios que ele conhecia, havia casi­nhas. Recuara uns bons quarenta anos. Iria tomar chá no Mappin. Algo estava errado, pensou. E logo descobriu. Era a roupa dela que seguramente era do início do século. Uma fada anacrônica pensou, igual aos gladiadores de produções descuidadas que, de vez em quando, ostentavam um relógio no pulso.
Adivinhando-lhe o pensamento, ela sorriu:
– É apenas um pretexto para passar umas horas contigo. Minha missão me leva a um passado mais remoto, e nem é para São Paulo que me dirijo. Vou para Paris de 1610, logo depois do assassinato do Henrique IV. Você é apenas uma fração do meu uni­verso. Não tenho nenhuma preocupação de coerência. Além disso, ninguém está nos vendo.
Experimente conversar com alguém. Não lhe res­ponderá. Você é uma sombra, o meu acompanhante, e, enquanto estivermos juntos, nenhum contato com humanos lhe será possível. E vou lhe dizer algo que talvez não lhe agrade, mas uma vez concluído o nosso passeio, não se lembrará de nada. Portanto carpe diem, sabendo que o seu amanhã vai independer deste hoje. E agora, talvez queira ver seus pais ainda crianças?
– Não, senhora Spielberg, já que estamos amarra­dos por uma eternidade cuja extensão só você conhece, quero realizar um sonho pueril. Dançar uma valsa com você em frente ao Municipal e, depois, poder acordar sentindo no rosto as lágrimas que der­ramarei por perdê-la. Pois nunca mais nos veremos, não é verdade?
– Saiba uma coisa. Não existe o verdadeiro nunca. Mesmo nas profundezas abissais do desespero, haverá um talvez. E é com esse talvez que você poderá efetuar qualquer travessia. Aceito seu convite, cavalheiro, em vez de chá, uma valsa. Irei me perder em seus braços.
E, de repente, pelas janelas do Municipal, os acor­des do Danúbio Azul inundaram a praça.
Enlaçou a criatura diáfana e passaram a rodopiar loucamente entre transeuntes que passavam sem vê-los. Experimentou chocar-se com uma senhora em­pertigada e descobriu que ele tinha a consistência de uma sombra. A senhora empertigada o atravessou como se ele fosse uma nuvem. No entanto, sentia o contato enlouquecedor de Mônica, a parceira desta valsa inacreditável.
Estavam rodopiando, a música afastou-se dos compassos imponentes para disparar feito um realejo demente.
Os rodopios aceleraram-se a ponto de sentir nova­mente a mesma sensação que havia experimentado ao ser tocado pelo spray. Os traços de Mônica esta­vam se apagando, tudo havia escurecido em volta deles, e a música estava se transformando numa es­pécie de uivo, parecendo uma sirene de ambulância.
– Cuidado com ele. Mas que porrada! E ainda sobrou algo do carro!
– Será que ele está vivo?
– Veja, está se mexendo!
Não estava mais dançando, mas experimentou uma alegria imensa ao descobrir que podia mexer a mão direita. A que havia segurado a mão de Mônica. No rosto, a lágrima.

*Almanaque Anacrônico e outros contos. Ed. Totalidade.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Sócrates é mortal, qualquer cachorro é

mortal, logo Sócrates é um cachorro.

Isaura e Florisvaldo casaram-se após um breve namoro. Foi uma cerimônia simples, mas muito emocionante, com a indefectível promessa de dedicação de corpo e alma, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, e nas mais diversas situações antitéticas, até que a senhora da foice os separasse. De mãos dadas, enfrentaram a reforma do apartamento, prestações atrasadas, o registro no Clube da Divida Ativa, a execração do SERASA e o choro de criança do filho dos vizinhos, mas pouco tempo depois, graças a um casal de gêmeos, devolveram com sobras os decibéis inoportunos.

Cupido fizera um trabalho admirável. É isso que dá usar flechas de qualidade superior. Nada parecia poder turvar a harmonia do casal. Porém, por melhor que fosse a obra de Eros, o máximo que conseguiu foi o selo de eterno enquanto durasse, como alguém já disse agitando um copo de uísque. Eis que, os germes da dúvida começaram, aos poucos, a minar a confiança absoluta de Isaura no seu amado. De início, ela afastou com legítima indignação as suspeitas que invadiam sua mente, mas para não fugir à regra, uma vez instalada a desconfiança, nada consegue deter a evolução desse processo infeccioso. É preciso dizer que Isaura era uma ciumenta de carteirinha, sem nenhuma anuidade em atraso.

Em homenagem à transparência, não guardou as dúvidas para si e fez parte de suas inquietações ao marido, recebendo um categórico e colérico desmentido. “Como pode imaginar! Nunca, jamais, em hipótese alguma...”. Como essa manifestação enérgica fora insuficiente para aplacar a desconfiança, Florisvaldo teve uma idéia, afinal de alguma coisa deveria servir sua sólida formação em Direito. De comum acordo, celebraram um contrato informal, que poderia ser resumido assim: Havendo traição, o casamento seria desmanchado, sem direito a apelação. Da mesma forma, a prática da mentira, levaria a idêntico resultado. Por outro lado, a fidelidade e a verdade teriam como prêmio a perpetuação do himeneu, até a ocorrência de uma das falhas listadas anteriormente. Houve algumas discussões de pouca importância – resumidas nas famosas cláusulas que costumam figurar em letras miúdas nos contratos de adesão. Por exemplo, frases do tipo: “Stalin morreu em 1953” ou “Machado de Assis escreveu O alienista”, por mais verdadeiras que fossem, por retratar fatos de domínio público, seriam inócuas, sem poder garantir a fortaleza do casamento. A recíproca valia também. Mentiras inocentes do gênero: “Diga a sua mãe que hoje iremos ao teatro” ou “Meu filho, se você for bom aluno, garantirá um futuro brilhante” não seriam objeto de penalidade. Isaura concordou com a proposta, mas nem por isso deixou de lado a desconfiança, lançando de supetão perguntas embaraçosas, fazendo deduções em voz alta, indo até procurar evidências incriminatórias nos bolsos do ser querido. Todas as artimanhas foram inúteis. Nem por um instante lhe ocorreu que o capítulo ciúme não cabe no livro da Lógica, sua leitura predileta. Até que um belo dia, na hora do jantar, Florisvaldo declarou:

-Tenho um caso, querida. Poderia passar-me o sal?
A frase caiu como uma bomba, cujo efeito imediato foi comprometer os sólidos alicerces da união. Mal conseguindo esconder as lágrimas, Isaura saiu correndo, atirou-se sobre o, leito conjugal e depois de empapar seu travesseiro, passou a refletir. Se, de fato, ele tivera uma aventura, significaria o fim do casamento, cujas fundações pareciam definitivamente comprometidas. No entanto, o fato de ele ter dito a verdade, implicava na continuidade da relação. Trato é trato e deve ser cumprido. Pacta sunt servanda – de acordo com Florisvaldo e com o dicionário de citações latinas. Não contente com essa conclusão, Isaura aprofundou a análise. E se Florisvaldo mentira? A peta significaria, igualmente, o fim do matrimônio. Kaputt! Mas se o tal caso fosse apenas uma invenção, Florisvaldo continuara sendo fiel, o que de imediato, dava vida perene à união deles. Isaura percebeu que fora presa numa armadilha lógica e não vislumbrou nenhuma saída. Voltou à mesa, incapaz de fazer qualquer tipo de pergunta e o jantar transcorreu num silêncio sepulcral, na expressão de premiadíssimos autores. Num esforço supremo, Isaura decidiu não fazer qualquer tipo de perguntas. Seguiram-se dias de reflexão, animados como a marcha fúnebre de Chopin. Isaura continuava à procura de uma solução. Enquanto isso, Florisvaldo saboreava seu triunfo e o término do terrorismo conjugal.

Qual não foi seu espanto, quando, alguns dias depois, na hora do jantar, antes do Jornal Nacional, durante uma insuportável inserção eleitoral gratuita, Isaura emitiu com doçura:
- Querido, tenho um caso. Poderia me passar o pão?

*Crônica do livro ´A luta continua`, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Somos - sem exceção – humildes atores ensaiando uma peça cujo final nos é totalmente desconhecidos. Ainda bem. Estou de volta depois da minha 21ª maratona de Nova Iorque. Mesmo sem saber o que nos espera prefiro referir-me a essa prova como sendo a mais recente. Falar em última seria carregar nas tintas do pessimismo, mesmo porque o final da peça à qual me referi acima não me foi revelado.

A corrida em si foi, como sempre, aquele evento maravilhoso. Mesmo sendo minha 61ª maratona – considerando meu currículo inteiro - a emoção se fez presente. Como não pretendo falar na corrida, direi que meu desempenho não foi dos melhores e poderei alinhar uma série de “circunstâncias extenuantes” para justificar o resultado: um joelho avariado (apesar de ter sido operado por um dos papas do joelho), um estiramento na coxa da outra perna, o que me fez mancar das duas pernas, e uma gripe com a qual fui contemplado na antevéspera da prova, com direito a presença de médico etc. e tal.
Enfim.

Nada como viajar, rever lugares conhecidos e arriscar incursões em novos espaços. Mas para tanto é preciso chegar lá. E para chegar precisa ensaiar alguns passos do samba do crioulo doido – se é que a tribo do politicamente correto me permite assim dizer. Para acalmar censores implacáveis retiro o crioulo doido e o substituo por afrodescendente com problemas neurológicos. Pronto.

Confesso que devido às vendas espetaculares dos meus livros, viajei em classe executiva, affaires, business class, ou dito de outra maneira, em classe antieconômica - mesmo com o risco de levar a pecha de fomentador da luta de classes, conceito grouchomarxista que não me seduz.

Pois bem. Com o crescente rigor, presente em todos os aeroportos, para embarcar é preciso passar por um controle severo. No moderníssimo aeroporto de Guarulhos, apinhado de gente, mesmo sem estar em plena Copa do Mundo – já sei, estamos nos preparando e tudo corre de acordo com o cronograma – foi preciso enfrentar uma fila para o controle de passaportes e passar pela intransigente inspeção de bagagens de mão. Macaco velho – ou seria mais adequado dizer primata provecto?- não estava carregando nenhum objeto que pudesse ser usado para seqüestrar a aeronave. Nada de cortador de unhas, frascos contendo mais de 100ml de qualquer substância líquida, enfim, nada...

De forma algo paradoxal, descobri, pouco depois, que os talheres usados para as refeições a bordo eram de metal. Nada de passar um temível cortador de unhas, em compensação, facas de corte afiado, com as quais poderia... Vá entender!

Conforme prometi, nada direi a respeito daquelas intermináveis 26 milhas e algum quebrados, salvo a inevitável e obrigatória menção ao ambiente festivo que envolve a Big Apple durante o grande dia.
A volta foi ainda mais engraçada, já que as medidas de segurança no JFK são ainda mais drásticas – claro que depois os talheres são os mesmos.
Por um motivo que não conseguiria explicar resolvi embarcar usando meu monitor de freqüência cardíaca, cuja marca não declinarei, uma vez que a Polar não remuneraria esse tipo de merchandizing. Os leitores do meu imortal Um triângulo de bermudas, bem como todo atleta de fim de semana, sabem que se trata de um relógio incrementado e uma faixa colocada sobre o peito que permite monitorar os batimentos do coração.
Tive de, a semelhança do então embaixador Celso Lafer, tirar os sapatos e o cinto e passar por uma engenhoca que ‘scaneou’ meu corpo cansado, bem como as vestes autorizadas. Retirar e recolocar os sapatos são atos que requerem um certo equilíbrio ou na falta deste uma cadeira. Maratonista dispensa cadeira. Dediquei um pensamento enternecido ao NOSSOEXPRESIDENTE ( se o Canard Enchainé continua a se referir a De Gaulle como Mongénéral, por que não Nossoex? Não me canso de repetir) que desde sempre se insurgiu contra esse procedimento, proferindo a inesquecível frase: “Ministro meu não tira os sapatos”. Não sendo ministro, cumpri docilmente a exigência. Um alarme soou.
Eis que um empregado da TSA – Transportation Security Administration – aproximou-se de mim, e polidamente pediu para me apalpar. Se o gesto poderia ser classificado de assedio ou não, fica a critério do leitor. Em seguida, decretou. “ O senhor está usando um dispositivo no peito”. Disse-o num português rudimentar – isso porque, para me dar ampla oportunidade de defesa, os inspetores haviam. Após analisar meu passaporte, escalado um funcionário capaz de se expressar no português tosco, ao qual já aludi - mas à la guerre, comme à la guerre. Pensei que ele se referia à medalha. “Não, é um dispositivo”. Retruquei tratar-se de um sensor, o que em nada o acalmou. Levantei a camisa, para mostrar do que se tratava, gesto pelo qual fui imediatamente repreendido pela ‘otoridade’. Percebi o quanto essa forma impensada de agir poderia ter ferido o pudor anglo-saxão, que tolera o Pato Donald sem calças, mas é avesso à visão ainda que parcial de um busto masculino, mas já era tarde. Dezenas de retinas já haviam sido ofendidas. Mesmo assim, o fiador da segurança aeroportuária parecia alimentar dúvidas. Provavelmente passou-lhe pela cabeça que estaria eu interessado nas 72 virgens prometidas aos mártires que andam se explodindo, e insistiu num tom pouco amistoso que não admitia alternativa a não ser uma explicação abrangente: “para que serve isso?“. Fato sabido: a propensão a criar “enrosco” é inversamente proporcional ao grau hierárquico de qualquer funcionário.
Foi quando me lembrei de um filme maravilhoso: Amici miei, no qual por diversas vezes o inesquecível Ugo Tognazzi, quando confrontado com um interlocutor incômodo, saia-se com uma frase delirante. Algo assim: “Supercazzola prematurata a la seconda com scapelamento a destra”, tudo dito com uma velocidade de fazer inveja a um tarimbado locutor esportivo.
Imediatamente recitei o mais rápido que pude: “Sofro de variações da freqüência cardíaca que eventualmente pode alcançar níveis considerados perigosos e ao detectar tal fato tomo de imediato um betabloqueador”.
Funcionou. Fui liberado e tive, finalmente, direito aos talheres de metal que em nada comprometem a segurança das aeronaves, diferentemente dos perigosíssimos cortadores da lâmina dura, formada de queratina, que recobre a última falange dos dedos das mãos e dos pés – segundo impecável definição do Houaiss.

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Com certeza, essa data pode passar despercebida para muitos. Não é o caso dos que aniversariam, ou que tem algo a festejar nesse dia: ter encontrado o verdadeiro amor, ter passado no vestibular, ter adquirido um novo tapete - debaixo do qual há sempre tanto para se esconder - ou ter finalmente encontrado a chave do carro. São fatos que podem ocorrer dia 21 de dezembro, marcando a data, ou em outro dia qualquer. Tudo acontece nesse nosso “reino animal” do qual usurpamos a coroa. Por coroa entendo, é bom que se diga, aquele adorno metálico usado por majestáticas criaturas - o diadema - e não aquela boazuda que habita as anedotas mais ou menos divertidas. Usurpar coroa é, potencialmente, um tema capaz de adquirir tamanho enciclopédico.

Não pretendo em tão diminuto espaço resumir a biografia de um indivíduo afetado, de maneira irremediável, por agudo nanismo moral. Refiro-me a Stalin. Posso dar apenas meu testemunho de ter sido enorme a lavagem cerebral aplicada na Romênia, em tudo que dizia respeito a esse “farol do pensamento marxista”, “pai das crianças do mundo”. Dotes sexuais à parte, é provável que a metáfora tenha algo a ver com o estranho acasalamento no qual o papel de fêmeas coube às nações subjugadas pelo “farol dos povos”, cujo nome era citado no hino nacional da União Soviética.

Stalin nasceu em Gori na Geórgia , dia 21 de dezembro de 1879, quarto filho de um casal pobre. Os três primeiros não sobreviveram, mas, caprichosamente, quis o destino que Iossif Vissarionovitch Djugashvilli sobrevivesse até 5 de março de 1953, dia de luto, durante o qual as rádios soviéticas e dos países satélites trocaram suas programações pela irradiação de músicas fúnebres. Descrever a aflição oficial demandaria um esforço muito superior à minha capacidade. Como imaginar que aquele ser maravilhoso pudesse ter deixado órfã a humanidade progressista?

Filho de sapateiro, ingressou, por mérito, no seminário teológico de Tiflis, sendo de lá expulso por causa das suas leituras proibidas. Segundo seus áulicos, ele estava se abeberando nas puras fontes do marxismo.

A seguir, filiou-se ao Partido Social Democrático Trabalhista do qual fazia parte Lênin. Quando o partido rachou ideologicamente, seguiu Lênin, junto com Zinoviev, Kamenev e Nadejda Krupskaia - futura esposa de Lênin. Essa facção recebeu o nome de Bolchevique. Os demais formaram o grupo Menchevique, no qual figurava, entre outros, Plehanov. Meus precários conhecimentos de russo levam-me a associar a palavra Bolchevique a “maior”, do russo Bolshoi-grande. Se non è vero... peço desculpas.
Depois de várias peripécias, pontuadas por diversas prisões, torna-se editor do jornal Pravda. Ironicamente, Pravda significa verdade em russo. Por décadas, representou a verdade única, à disposição de milhões.

Depois da Revolução russa, decorrida em dois tempos - o primeiro a derrubada do czar Nicolau II e estabelecimento de um governo provisório chefiado por Kerenski, e o segundo a derrubada de Kerenski pelos Bolcheviques, com a tomada do palácio de Inverno ao som das salvas de canhão do encouraçado Aurora (errou quem falou Potemkin), Lênin conclamou os operários a assumir as fábricas e os camponeses a pegar as terras dos latifundiários.-‘sounds familiar’ soa familiar? O slogan era “paz, terra, pão”.

Em reconhecimento pela sua participação, Stalin ascendeu ao posto de Comissário das nacionalidades: ucraniana, bielo-russa, georgiana etc. Novos estados nasceram, inicialmente brindados com a autodeterminação. Foi um sonho que se desmanchou rapidamente. A autodeterminação valeria para quem aderisse aos Bolcheviques. Por falta de alternativa, foi o que ocorreu.

A guerra civil irrompeu, e o exército branco, o dos “reaças”, foi derrotado pelo exército vermelho na batalha de Tsaritsin (depois Stalingrado, depois Volgogrado). Naquela época Stalin participou de reuniões com administradores locais numa balsa no rio Volga. Aqueles que não inspiravam confiança eram sumariamente fuzilados e atirados ao rio. Simples assim.

A guerra civil arruinou o país, apesar de haver saído da primeira guerra Mundial através do tratado de Brest-Litovsk. Lênin lançou a Nova Política Econômica. As pequenas propriedades agrícolas voltam a ser permitidas, sendo geridas por proprietários –os Kulaks - que aos poucos aumentam suas posses; pequenas fábricas são privatizadas, sendo devolvidas aos antigos proprietários.

Em 1918 Lênin sofre um atentado, levando dois tiros de Dora Kaplan. Sua saúde declina e a preocupação com a designação do sucessor aumenta. Os competidores são afastados, sobrando Stalin. A polícia secreta “Tcheca” comandada por Dzerzhinsky se desdobra em ações que não levavam muito em conta os chamados “direitos humanos”. Os detalhes da luta nos bastidores fogem ao escopo dessa crônica. Contrariando um testamento de Lênin – que até pedira ajuda a Trotsky para “segurar o rojão” o então Secretário Geral do partido assume o poder. (Trata-se de Stalin, para quem ainda duvida). Para Lênin, conservou-se, para uso nos manuais escolares, o epíteto

“Grande”. O grande Lênin...
Logo depois, Stalin volta-se contra os kulaks, confiscando as propriedades, no mais puro estilo MST, promovendo a criação de Kolkhoses e Sovhozes- fazendas coletivas. Milhares de kulaks foram executados e milhões foram deportados na Sibéria, junto com outros “reacionários”, leia-se :inimigos do regime.
Foram lançados ambiciosos planos quinquenais, com metas audazes, cujo cumprimento iria garantir a defesa da União Soviética das ameaças do mundo capitalista. Nasceu o culto aos cumpridores de metas, o Stakhanovismo - preito à personalidade de um mineiro de Dombass , Stakhanov, é claro. Ser stakhanovista era uma honra. A moda pegou nos países satélites. Na Romênia o torneiro Nicolae Vasu –recompensado com a medalha de Herói do trabalho socialista- notabilizou-se por estar décadas adiantado em relação ao plano de produção. Havia heróis de ambos os sexos. Uma conhecida stakhanovista romena chamava-se Amália Sarközi! (sic).
Em contrapartida - trágica contrapartida – reservava-se um destino inglório aos que não cumpriam as metas. De acordo com a gravidade eram fuzilados , ou, generosamente, enviados à Sibéria.

Era comum o bordão: Iremos realizar o plano qüinqüenal em quatro anos. Seria a afirmação do “verdadeiro homem soviético”, não a confissão de um erro do planejamento centralizado. Os “verdadeiros homens soviéticos” fariam com que a União Soviética ultrapassasse os Estados Unidos. Havia até data marcada, sistematicamente adiada. E para se chegar ao estágio de verdadeiro homem soviético, era fundamental começar como verdadeira criança soviética – um pioneiro. Paradigma conhecido foi Pavlik Morozov – há quem diga que se tratava de invenção da NKVD, antecessora da KGB. O que fez essa criança, condecorada como Herói da União Soviética a título póstumo? Delatou seus pais. O fato ou o mito foi um incentivo à delação. Os pioneiros cantavam hinos de glória a Stalin. Suas gravatas eram vermelhas por terem se embebido (simbolicamente) no sangue vertido pelos heróis da classe operária. Como curiosidade a gravata dos pioneiros da Alemanha Oriental era azul. Noblesse oblige?
No meio da arrancada, alguns incômodos companheiros de viagem, responsáveis pela ascensão do “paizinho” foram descartados: Bukharin, Zinoviev, Kamenev, Bukharin e Yagoda foram executados. Trotsky morreu no México, convenientemente assassinado, por uma agente stalinista - Ramón Mercader; chefes do Exército Vermelho, juntamente com uns 30.000 oficiais e soldados pereceram , vítimas do expurgo. A lista é muito longa e enumerar figurões caídos em desgraça seria pouco producente. Logo depois, estamos em 1937, Béria é nomeado chefe da polícia secreta e o rol das vítimas aumenta. Até que chegou a vez de Béria, depois do desaparecimento de Stalin. Dizem que Béria chamava Stalin de “Lênin do Caucaso”, puxar o saco fazia parte do jogo. Os discursos oficiais e os manuais escolares enalteciam os grandes pensadores: Marx, Engels, Lênin e Stalin.

A Segunda Guerra Mundial estava se aproximando. Durante a guerra civil espanhola Stalin enviou conselheiros e armas para auxiliar a Frente Popular. Para tentar adiar o conflito com a Alemanha, que já se mostrava inevitável, Stalin articulou discussões entre Molotov e von Ribbentropp. Assim mesmo, a guerra eclodiu. Um dos momentos épicos foi a derrota que o exército alemão chefiado por von Paulus sofreu em Stalingrado. Naturalmente, os méritos pela derrota do Reich foi atribuída a Stalin, pelo menos nos manuais de História romenos – disso tenho certeza.

Dissipada a fumaça , nasceu a Cortina de ferro – metáfora que devemos a Churchill. Do lado errado da mesma estava a Romênia, em conseqüência da conferência de Yalta. Durante essa conferência Stalin prometeu a Churchill e Roosevelt a realização de eleições livres nos países libertados do jugo invasor alemão. Prometeu...Como dizem os franceses: promettre c´est noble , tenir c´est bourgeois – prometer é nobre, cumprir é burguês. Sem menor sombra de dúvida, Stalin de burguês não tinha nada.
Seguiram-se anos, durante os quais o culto da personalidade de Stalin atingiu níveis que beiravam a histeria. Na Romênia – país que me viu nascer - a cidade de Brasov foi rebatizada de Cidade de Stalin. Abundavam avenidas, parques, estátuas do “melhor amigo das crianças”. Também houve cidades Stalin na Hungria, Albânia, Ucrãnia, Polônia etc. A enumeração seria tediosa...

Durante os desfiles de 7 de novembro comemorativos da “Grande revolução socialista de ... outubro”, escandíamos : “Stalin e o povo russo nos trouxeram a liberdade”.
Três anos depois da morte de Stalin, no XX congresso do PCUS, Hruschov desmascarou os abusos do “culto da personalidade” o que levou a uma fúria demolidora de monumentos erigidos em honra ao “paizinho”, bem como à remoção dos seus restos mortais do mausoléu da Praça Vermelha, sem falar nas cidades, parques, praças e avenidas que recuperaram o antigo nome.
Stalin se foi. Cabe à História julgá-lo. Cabe a todos manter viva a lembrança do que foi o terror por ele implantado, e que povoa uma ou outra mente totalitária, aqui e alhures.

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+

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Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/



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