NATAL PRESS

Momento mágico. A expressão surrada descrevia com perfeição o instante de enlevo. Embalado pela barulheira ensurdecedora reinante na boate Hullabaloo, escravo dos decibéis à solta, no ritmo do Black is Black, pobre tautologia e sucesso barulhento do momento, estava pulando feito mico de circo em frente à Camila. A luz negra tornava infernalmente atraente a jovem.

Com 18 anos incompletos, fora um tour de force entrar na boate. Uma generosa gorjeta, discretamente colocada na mão do Cérbero de plantão, uma carteirinha do grêmio da faculdade, surrupiada do irmão, bem como o penteado alto, ressaltado pela maquiagem pesada de Camila, tinham sido o passaporte para a boate do momento de São Paulo. A gritaria alcançou níveis inimagináveis, quando os alto-falantes inundaram a pista diminuta com o sucesso dos Four tops: Reach out.

A luz estroboscópica passou a piscar, criando a ilusão de movimentos entrecortados...to give you all the love you need... Para dar-lhe todo o amor de que precisa... urrava o conjunto... Tudo era magia naquela noite de 1967.

Um mês antes, conseguira superar a timidez e balbuciara um inaudível ‘te amo’, enquanto passeavam, suprema ousadia, de mãos dadas, morrendo de medo de encontrar algum conhecido.Teve como resposta um beliscão e uma risada da Camila. Existe melhor confirmação? Isso os tornou namorados firmes. Não era pouca coisa. Ele até fora apresentado aos pais de Camila, um casal simpático e abastado. Acompanhar a namorada depois das aulas, os levou à constatação de que, se o caminho mais curto entre a escola e o lar era uma linha reta, de longe a melhor alternativa era seguir um trajeto tortuoso. Falavam de tudo e de nada. Não raro, os silêncios eram mais eloqüentes que a troca de banalidades. Sérgio a olhava de soslaio e se encantava com a visão do rosto regular de pele acetinada no qual brilhavam imensos olhos verdes. A imagem o perseguia durante as aulas, de noite logo antes de adormecer e, pasmem, até quando saía com os amigos, para tomar uma Coca Cola no Chic Chá, um bar diminuto, vizinho da escola, e que vivia sempre cheio. Por mais que quisessem, não conseguiam se isolar dos amigos, afinal a turma deles com poucas baixas ou novas adesões fora a mesma nos últimos dois anos. A boa companhia muitas vezes vira estorvo quando a vontade é beijar. O primeiro beijo ocorreu no elevador do prédio dela. Foi o primeiro de muitos.

Naquele sábado, ela contara uma mentirinha em casa. Iriam com o grupo de sempre ao Urso Branco e ela estaria de volta ‘sem falta’ pouco depois da meia-noite. O álibi foi montado, com a total e unânime cumplicidade do resto da turma, que iria jurar, se necessário fosse, que estiveram em companhia deles. Era quase verdade. O detalhe omitido era que Sérgio e Camila iriam se deter no início da Avenida Santo Amaro ao invés de cumprir o roteiro prometido. Alguns quarteirões separariam o fato da versão.

Lá estava o casalzinho na boate, sentados, durante um intervalo entre músicas, tomando, ele um uísque intragável, bebida com a qual não estava acostumado, ela um Alexander, a consumação mínima, suficiente para ‘detonar’ a mesada de Sérgio. De mãos dadas, era como se o mundo exterior deixasse de existir. Com a cabeça no ombro dele, ela murmurou:

– Estou tão feliz. Gostaria tanto de poder... Ela se deteve.

– Diga.

– Nada, bobinho. Um beijo completou-lhe o pensamento. Ele a abraçou e nada na galáxia passou a importar. O abraço se tornou de parte a parte mais voraz. Sabiam muito bem o que isso significava. Com um suspiro, ela se desvencilhou.

– Está ficando tarde.

– Só mais um pouco.

– Já passa de meia-noite.

– Eu sei. Quero tanto...Não ousou dizer o que tanto desejava. Nem era preciso. Tornou a beijá-la. A música recomeçou. Era uma seleção um pouco mais lenta, permitindo que a pista fosse invadida por pares enlaçados. Sitting in the dark of the bay...Pois é, e que tudo mais fosse para o inferno, pensava Sérgio. Por nada no mundo teria trocado a sensação do rosto dela colado no seu. Quando ela lhe beijou o pescoço, viu mil luzes se acenderem naquela escuridão. Passos miúdos sem a pretensão de sair do lugar. Com muita indulgência aquilo poderia ter sido chamado de dançar. Camila foi a primeira a romper o sortilégio.

– Não.

Era um pobre não, mas estava decretada a volta à superfície, depois do mergulho. Sérgio ficou surpreso com a tonalidade da própria voz, quando implorou.

– Agora, deixa...

– Temos de ir. Prometemos.

Foram caminhando abraçados como bêbados. Ébrios de paixão. Pasmos com a própria ousadia. Uma vez no Gordini, cedido pelo irmão de Sérgio, as últimas resistências dela pareciam fadadas ao desaparecimento. Não bateram o carro por pura casualidade. Finalmente, estacionaram. O último beijo. Carícias, desajeitadas talvez, mas arrebatadoras, enquanto, submissos, cediam à fantasia dos seus corpos.

-Não, Sérgio. Estou com medo. Aqui não...é muito tarde. Mamãe pode estar na janela; daqui não posso ver...

– Nem ela pode ver...

– Mas vai ver o carro.

– Não sabe de quem é...

– Mas vai me ver saindo dele...

– Jura, então, que no próximo sábado...

– Sim.

– Diga: eu juro.

– Tá bem.

– Diga.

– Eu juro.

– Promete?

– O que você quiser.

– Sábado que vem?

– Com certeza.

Não houve ‘sábado que vem’. Ao menos, não como eles imaginaram. O pai de Camila teve de deixar o Brasil às pressas. Na quinta-feira Camila não apareceu no colégio. Soube-se depois que o pai de Camila pagara com um precipitado exílio voluntário o preço dos chamados ‘anos de chumbo’. Circularam inúmeras versões. Fato é, que nunca se soube a verdade. Pouco importava. Estava decretado o fim do momento mágico. Durante alguns meses, chegaram cartas de Camila. Estavam em Lisboa. Breve, voltariam ao Brasil. Ela o amava. O amaria para sempre. Queria notícias. O endereço da remetente era Rua da Padaria, em Lisboa. Para lá voaram epístolas, cujo conteúdo teria sido melhor aproveitado nos trabalhos escolares sobre diversas correntes literárias. Houve uma passagem pelo realismo, substituído gradualmente por um romantismo cada vez mais desprovido de foco. Por fim, as cartas escassearam, até que as últimas missivas de Sérgio ficaram sem resposta. Um ‘para sempre’ que se eternizasse por alguns meses era mais do que razoável, resignou-se Sérgio. Mas a lembrança continuou a fustigá-lo. A fantasia alojou-se-lhe na mente, para nunca mais abandoná-lo.

***

De pé, no metrô, Sérgio fitava com ansiedade o desfile das estações: Trocadéro, La Muette, Pompe, Ranelagh... Durante sua estada em Paris, para participar de um congresso patrocinado pela Bouyghes, empresa relacionada com a dos seus patrões, o sobrenome de Camila fora pronunciado por um dos anfitriões do evento. Coincidência ou não, a mente de Sérgio deu um pulo de vinte anos para trás. A lembrança insepulta lacerou-lhe a alma. Não poderia ser obra do acaso. Quantas famílias Antanças haveria em Paris? Abandonou a palestra e, com um terminal Minitel, localizou o único possuidor do sobrenome, em Marly-le-Roy. Telefonou e conversou com a mãe de Camila. Ela mal se lembrava dele, mas não criou dificuldades em lhe dar o telefone da filha. Camila estava bem, era casada, arquiteta, feliz. Com toda certeza ficaria encantada em conversar com um amigo brasileiro. Nunca mais haviam voltado ao Brasil. Talvez um dia. Sérgio se despediu e enquanto teclava o número, a cada toque sentia um calafrio. Atenderam.

– Alo, oui.

Era a mesma voz.

– Camila, sou eu Sérgio.

– Sérgio? Que Sérgio? Sérgio! Ça alors! Que surpresa! Onde está você?

– Estou em Paris, por alguns dias. Gostaria muito de ver você.

– Claro, podemos almoçar juntos amanhã?

– E se for agora, já?

Ela riu.

– Bem, então venha em casa. Moro na Rue du Ranelagh – e deu o número. Fica pertinho da estação de metrô. Achará com facilidade. Conte-me, como está você?

– Estarei aí em meia hora, no máximo. Aguarde.

– É claro que aguardarei. Preste atenção. Há um código a ser teclado na entrada: 536. É no quarto andar. Bisous.

Que droga, ela mandava beijos em francês, pensou divertido. Seria essa a única mudança? Melhor pensar em outra coisa, decidiu. A caminho do metrô, entrou numa doceira e de lá saiu com um pacote de chocolates sortidos. Estava realmente nervoso, tanto que foi um drama resolver que tipo de bombons iria levar. Uma vendedora objetiva e mal-humorada se encarregou de encurtar o processo de escolha. Durante o trajeto ficou observando os passageiros do metrô. Sentados, liam indiferentes, enquanto a mente dele dava pulos. A esperança louca de reviver a continuação de um instante sempre presente na memória, não lhe dava paz.

Empacou em frente à entrada do edifício. Respirou fundo e, instantes depois, cumprido o ritual, acionava o botão da campainha do apartamento, como nos bons velhos tempo: três toques, sendo o do meio mais longo. Será que ela lembraria? A maçaneta girou e lá estavam eles frente a frente. A mesma silhueta esguia, o sorriso, o incomparável olhar cor de esmeralda. Ela pareceu-lhe imune à ação do tempo. Apenas o tailleur nada tinha a ver com os vestidos de um outro tempo, com os quais ela o visitara durante tantas noites de insônia.

– Querido, que surpresa maravilhosa! Entre. Mi casa es su casa. A mesma fórmula. Nada mudara, felizmente. Trocaram dois beijinhos no rosto. Infelizmente, algo mudara. Entraram na sala, cuja mobília moderna o impressionou. Pernas trêmulas, desabou no sofá que ela lhe indicou, enquanto Camila ia e vinha trazendo guloseimas. Sentada a seu lado, desatou a falar. Em menos de dez minutos, Sérgio teve o retrato completo de duas décadas. A saída clandestina, passando pelo Uruguai, o exílio em Lisboa, o drama da imigração, a falência e a depressão do pai, a nova vida em Paris, a faculdade, casamento, o filho que estudava num colégio próximo o Claude Bernard. Sim, ele deveria chegar dentro de no máximo duas horas. Em momento algum Camila fez referência a Sérgio. Ela continuou falando, mas ele não a ouvia mais. Estava perdido na contemplação de uma ilusão que se desmanchava, ali, à sua frente.

Arriscou uma pergunta, mesmo sabendo qual seria a resposta:

– Camila, você pensou em mim, alguma vez?

– Ah, querido, muitas vezes. Éramos tão crianças. Conte um pouco de você. Fiquei falando sem cessar. Diga-me: O que faz. É feliz? Mostre-me fotos de sua família. Não vai me dizer que não trouxe. Nunca lhe perdoaria isso.

Tirou a carteira do bolso e por momentos ficaram vendo as fotos. Meus filhos, minha mulher, o cachorro, minha mulher e eu...Camila olhava: ‘Que belo cão! Sabe, tivemos um Collie...’

O que mais poderia esperar? Para ele, num recanto secreto da alma, construíra um paraíso em miniatura. Esse permaneceria. Nada e ninguém abalroaria essas muralhas. Infelizmente, estaria condenado a visitar, sempre só, aquele recanto de uma felicidade, cujo segredo a mais ninguém pertenceria. Iludira-se por instantes, ao imaginar que o tempo cometeria a loucura cúmplice de se deter e que lhe seria dado conseguir obstar a marcha inexorável dos ponteiros do relógio. A máquina do tempo havia triturado de maneira desigual. Apenas ele poderia sonhar doravante com o ‘sábado que vem’. Breve iriam se despedir com um insosso ‘bisous’.

– Agora, mostre-me as fotos de vocês.

(*) Do livro “Sessão da Tarde”, Ed. Edicon.

AlexandruSolomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de “Almanaque Anacrônico”, “Versos Anacrônicos”, “Apetite Famélico”, “Mãos Outonais”, “Sessão da Tarde”, “Desespero Provisório”, “Não basta sonhar”, “Um Triângulo de Bermudas”, “O Desmonte de Vênus” (Ed. Totalidade) , “Bucareste” e ´´A luta continua´´ (Ed. Letraviva). E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Depois que Roberto Carlos declarou peremptoriamente, que, ao entrar no carro, a solidão causava-lhe dores, houve quem, maldosamente, pas­­­sasse a conjeturar quanto às interpretações possíveis do termo. Seres insensíveis chegaram a abusar de pe­­­rífrases injuriosas, baseadas em tão comovente texto. Pois bem, irão me perdoar se eu não for deslizar pelas ondas do saudosismo, se eu deixar, mesmo a contragosto, de cavalgar metáforas batidas e se, enfim, tentar dar uma interpretação jocosa ao drama.

Para os aficionados do bem escrever isso poderá parecer um insulto. Asseguro-lhes que não é essa a intenção.

Constatar que iniciamos e concluímos nossa trajetória no planeta de maneira solitária é um equívoco. Alguém nos traz e alguém nos despacha. Ao menos uma pessoa. Quanto ao resto, cabe-nos gerenciar essa contingência. A menos que uma esmagadora maioria declare:’Não queremos a cura, queremos curtir a doença’.

Então, tudo muda de figura.Transformamo-nos em sofredores profissionais, atarefados em decifrar o enigma da nossa finitude. De tão envolvidos nessa tarefa, engordamos, envelhecemos e, se outro mal não se antecipar, enfartamos. Schopenhauer diria isso bem melhor, mas, no momento, o telefone dele está na secretária eletrônica.

Quem disser que está só, nunca pensou em olhar as ondas do mar, nunca se apaixonou por um livro, não se encantou com um cachorrinho, não amou de verdade nem ao menos procurou um encanador depois da meia-noite. Como consolo, ainda nos resta saber que nossa sombra irá nos acompanhar, ao menos em ambientes iluminados. Nossos pensamentos estarão a postos e o Fisco estará sempre presente para nos dizer que não estamos sós. Querido Leão! Para ele, jamais seremos invisíveis.

Então, caro amigo, vamos erguer um cálice de vi­­nho, para começar e vamos brindar a essa agradável tarefa: Viver.

De tão complexa nem nos deixa descobrir que estamos mergulhados na mais profunda e inextricável solidão.

De bom tom me dizem todos é chorar sem ter motivo.

Choro que se agiganta, torna-se superlativo.

Se em vez de um neurônio ao menos houver dois,

Viva a filosofia. Choro fica pra depois.

Lamentar, desconsolados, essa nossa triste sina,

É inútil, reprovável, cansativa sabatina.

Otimista por instantes, sei que não será demais.

Posso sofrer de outros males, mas de solidão...Jamais.

Pois então, ao agredir as musas e homenagear Baco, pode ser que nos seja dada a felicidade de divisar, lá longe, a famosa luz ao fim do tantas vezes mencionado túneL. Estando com a conta de luz em dia, ela não irá se apagar.

Caspite, onde estão meus leitores? Socorro! Não me deixem só! Dizem que a solidão grupal tem seus encantos, logo, vale a pena ser vivida.

Tchin,tchin.

*Do livro ´´Sessão da Tarde´´, Ed. Edicon

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico‘, ´Versos Anacrônicos‘, ´Apetite Famélico‘, ´Mãos Outonais‘, ´Sessão da Tarde‘, ´Desespero Provisório‘ , ´Não basta sonhar‘, ´Um Triângulo de Bermudas‘, ´O Desmonte de Vênus‘ (Ed. Totalidade), ´Bucareste‘, ´Plataforma G‘ e ´A luta continua‘ (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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A Copa de 2014 está aí, e ainda lambemos feridas da anterior, num saudável exercício de autoflagelação. Não há novidades nisso. O saudoso Thomaz Mazzoni, famoso comentarista de A Gazeta Esportiva empacotou os descrentes na embalagem “legião do 16 de julho”, aludindo ao Maracanazo e ao pessimismo que se instaurou a partir da data, até a redenção de 1958. Integrantes da legião de técnicos de futebol que somos, emitimos predições sombrias, esperando, secretamente, encontrar mais adiante o desmentido dos nossos prognósticos...

Nem chegamos às semi, e a Copa 2010 terminou mais cedo, pelo menos para nós. Sobraram vuvuzelas, um estoque de camisetas auriverdes, bandeiras, apitos e outros artigos perfeitamente aproveitáveis em outras oportunidades. A pátria de chuteiras se refaz, aos poucos, do trauma, até certo ponto previsível. Comentários de sobra até 2014, mas é forçoso convir que o mundo não acabou, salvo informação que ainda não chegou até nós.

Delegamos a um grupo de atletas o resgate de glórias passadas e vejam só o que fizeram! Envergonhados, os torcedores tratam de cuidar silenciosamente a ferida aberta. Nem tanto, por favor.

A glória futebolística, se faz um bem indescritível, não é tudo.

De uma forma bastante insólita, tentamos fazer de um grupo de profissionais do ludopédio o instrumento de nossa afirmação. E nossa glória foi-se pelo ralo, por ter sido entregue nas mãos – perdão pés – de um grupo esforçado, porém limitado. Ocorre que salvo uma ou outra “gritante injustiça”, alinhamos o que de melhor havia.
Não fomos os únicos a reclamar. A mania é universal.

Da mesma forma que por aqui se lamentou o fiasco – se é que uma derrota futebolística possa ser chamada de fiasco – com tantas coisas mais sérias a nos atormentar, constatamos que não temos o privilégio da originalidade. Sarkozy (talvez Hollande teria agido de outra maneira , já que ele resolveu encarnar a mudança), em pessoa, resolveu investigar o que aconteceu com ‘les Bleus’ – que já ganharam o apelido de “les Bluffs”, na Itália se deplorou a falta do “verdadeiro futebol italiano” e por aí vai. O que seria o verdadeiro futebol de um país? Já sei: É verdadeiro quando ganha.
Onde foi parar o verdadeiro futebol brasileiro, exclamam viúvas inconsoláveis. Esse Dunga, retrucam outros, com tantos volantes. Onde já se viu? Convocação absurda, de um treinador que nada entende - bradam os mais exaltados. Dessa maneira, haverá quem duvide que Deus é brasileiro. E agora, esse Mano! Já está na hora de substituí-lo por alguém do ramo.

Perdemos em 2010. Não foi a primeira, e infelizmente, não será a última vez. É triste, mas daí virarmos desconsoladas carpideiras há uma boa dose de exagero que é melhor banir. Poderemos encarar a História de cabeça erguida. Não fomos parar no terceiro subsolo.

Longe disso.
Com o risco de levar uma vaia estrepitosa, vamos olhar para trás.
Em 1958, a convocação não foi uma unanimidade. Depois da conquista, ninguém mais reclamou da não convocação de Luizinho o “pequeno polegar”. Poucos terão a objetividade de lembrar que nas semi, massacramos a França sim, mas eles jogaram com dez, porque o Jonquet foi aleijado por um dos nossos – pouco importa saber quem, mas foi o Vavá – e, naquela época, não havia substituição. Certo, Clotilde?

Em 1962 abatemos a Fúria espanhola, mas alguém se lembra da anulação de um gol legítimo deles e da “esperteza” de Nilton Santos, que após cometer um pênalti em Gento, deu um passinho para a frente, enganando o juiz? E se fosse ao contrário? E por acaso, alguém se dispõe a recordar que Garrincha fora expulso na semi, consequentemente não poderia ter disputado a final, não houvesse um providencial “sequestro” do árbitro.
Em 1970, jogando contra o Uruguai, Pelé não deveria ter sido expulso, após uma cotovelada em Matosas, igualzinha àquela que motivou a expulsão do Leonardo, contra os Estados Unidos, em 1994? Claro que não! O juiz até deu falta a nosso favor!
Isso quer dizer que nossas vitórias não valeram? Claro que valeram, além de demonstrar que se o futebol se ganha “nos detalhes”, algumas vezes, os detalhes também estiveram a nosso favor de maneira inconteste.
Fala-se da seleção de 1982 como a grande injustiçada. Detalhe: no jogo com a União Soviética o juiz não viu um pênalti escandaloso de Luizinho. Depois, perdemos da Itália, mas será que se o técnico tivesse convocado Leão, ele não teria agarrado ao menos um dos três petardos de Paolo Rossi que arrancaram lágrimas do garotinho, na foto premiada do Jornal da tarde?
Ah, essas convocações! As vozes chorosas que lamentam a pubalgia de Kaká – o que diabo é essa pubalgia? Com pubalgia e tudo a bola que ele chutou só não entrou porque o goleiro holandês fez o que os holandeses, incluindo a Casa Real, esperavam dele: defendeu. Esse é o mal do qual padecem os goleiros inimigos.
Recordam a Copa de 1986, quando Zico, meio baleado, saiu correndo do banco de reservas para chutar mal um pênalti contra a França? Depois, é fácil criticar o grande Telê - tão malhado pelo Jô Soares, perdão, Zé da galera - por não ter colocado pontas em 82, ou ter barrado Renato Gaúcho que se atrasara num treino em 86. Jogando sem Pato, sem Ganso - os canarinhos órfãos não deram conta do recado em 2010. Fracasso de nossa avicultura?
Gostamos de sofrer? Claro. Dirigimos olhares saudosos para nossas conquistas passadas e esquecemos pequenos detalhes que poderiam ter invertido alguns resultados, como o gol anulado da Bélgica em 2002 ou o satélite artificial lançado por Baggio em 1994.
Vamos ignorar os jogos restantes e vamos pensar na Copa de 2014, com a inevitável bagunça administrativa que a antecederá. Se algo der errado (tomara que não) poderemos nos insurgir contra as sempre presentes “forças ocultas” personificadas por perversos Mr. Ellis – árbitro do jogo Hungria 4 x Brasil 2, num distante 1954, que provavelmente nada fez de tão errado para merecer os insultos dos nossos gloriosos locutores de uma época sem TV, câmera super-lenta etc.
Seremos HEXA ou hexagerados. Tudo dependerá dos caprichos dos deuses do futebol e do superfaturamento.

*Crônica do livro ´´A luta continua``, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Parece que os representantes graduados de nossa inteligentsia resolveram partir para a taxonomia delirante, aplicada às manifestações de rua. E as ovelhas de Panurgo tanto na grande mídia , quanto na blogosfera adotaram a classificação. É um absurdo galáctico falar que ‘isso que está aí’ é apenas o exercício democrático do direito de defender um ponto de vista, uma causa, um direito legítimo ou nem tanto separando-o da barbárie, quando na verdade estamos diferenciando apenas diversas nuances de brutalidade, Para não divagar em demasia, basta afirmar que até hoje não houve manifestação pacífica alguma. O que houve foram manifestações com vandalismo e sem vandalismo. As chamadas manifestações pacíficas nas quais grupos ou grupelhos tolhem o direito de ir e vir do cidadão comum, do trabalhador ou de um mero nefelibata a passeio, direito garantido pela Constituição, são não violentas mas não deixam de ser agressivas. Os Anti-Copa, os integrantes do MTST, os professores e por aí vai desfilam sua indignação, protestam, vituperam onde? No Sambódromo? Não! Nas principais artérias entupidas das nossas metrópoles. Entre a meia-noite e as 4 horas da manhã? Não! No horário no qual podem causar o máximo transtorno para, ao impor sofrimento, chamar a atenção Os black blocs são apenas a cereja podre em cima do bolo. Vamos convir: golpes acima ou abaixo da cintura doem. Não é preciso ser o marquês de Queensberry para concordar. E é dessas pancadas que se está falando.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Fazia parte do treinamento de Lucy, nessa sua ambientação após seu prodigioso salto no tempo uma série de visitas técnicas. Coroando essas atividades, o CIL (Centro de Integração de Lucy – observação para os leitores desmemoriados) conseguiu uma suplementação de verbas e programou um passeio no Absurdistão. Para os menos versados nas continuas modificações geopolíticas que agitam nosso miserável grão de areia perdido no Universo – fonte inesgotável de perguntas capciosas em exames vestibulares, as agitações, não o Universo – basta saber que se trata de uma república situada em algum lugar ao sul do equador, num continente conhecido como Vespúcia do Sul. Aos mais interessados, recomenda-se consultar uma criança-prodígio, dessas que passam horas intermináveis em frente a uma telinha de computador ou de um fone que nada mais tem de Smart para ela.

A viagem transcorreu sem incidentes, apesar de, vez por outra, ter sido necessário encontrar um refúgio, ainda que precário, para evitar encontros desagradáveis com manifestantes pacíficos, porém de insuspeita agressividade. À pergunta óbvia: “Qual o propósito que move esses estranhos sodalícios?” a resposta recolhida num compêndio de autoria de um pensador local não deixava margem à menor dúvida, pela precisão da análise quantitativa: “São movimentos 80% políticos e 20% lúdicos”. Foi nessa oportunidade que Lucy descobriu ser 80% prudente e 20% curiosa, motivo pelo qual, no seu caderninho de anotações, anotou – caderno de anotações serve para anotar, se bem que poderia ter consignado, registrado ou até mesmo assinalado – “Ainda bem que não sou vitrine de loja’.

Já de volta aos seus confortáveis aposentos, Lucy preparou o relatório da viagem, a fim de submetê-lo à apreciação dos seus orientadores. Alguns trechos foram “vazados”, quebrando o sigilo da missão. Ocioso perguntar como ocorreram sesses vazamentos. Tudo vaza, desde tubulações de água até os segredos de Polichinelo. Como diz um sucesso musical “mas tudo vaza, tudo vazará”. Eis alguns trechos. Será necessário dar o devido desconto pelo fato de tratar-se de um simples rascunho, uma vez que não há noticia da existência de uma formatação final a exemplo de um tal PAC N, eternamente inconcluso, sem contar que Lucy continuava com péssimo aproveitamento no quesito redação.

Observei – as observações são de inteira responsabilidade de Lucy – que há alguns pobremas de suma relevância. Esse trecho estava rasurado sendo possível constatar que a autora tinha algumas dúvidas quanto a grafia da palavra. Assim, ela alternava as formas problemas e pobremas, para finalmente, optar por pobremas.

Ética das bonecas infláveis. Foi a maneira que Lucy encontrou para designar o comportamento dos políticos que compunham uma tal base aliada. “Esses aceitavam com alegria serem inflados, tendo acesso a funções que recompensavam sua fidelidade, mesmo que não apresentassem a menor vocação, talento ou competência para desempenhar razoavelmente suas tarefas, e, em seguida, após uso, serem desinflados e colocados numa máquina de lavar, junto com algum dinheiro. Na ausência de coleta seletiva de lixo eram descartados – segundo uma expressão local colocados debaixo do tapete – e rotulados como indignos de confiança. Novas bonecas infláveis eram providenciadas, pois o Absurdistão não pode parar”. Lucy chegou a questionar seu mentor de química se não era possível encontrar um ácido aliado, que em contato com a base aliada, produzisse a conhecida reação de neutralização, resultando sal e água. “Que sal e água, Lucy, – exclamou o acadêmico – aqui resulta pão e circo”.

Numa outra página, lia-se:

“Nanismo moral. Esse pessoal – é Lucy que está filosofando – não tem outro princípio do que não ter princípio algum. Ora estão vituperando ‘tudo isso que está aqui’, ora enaltecem tudo isso que aqui está, dependendo do lado do guiché no qual se encontram. Têm um refrão; eu fiz depois de negar veementemente o malfeito – mas vocês também fizeram. Pior que, em geral, têm razão. Possuem uma paixão incontrolável com viúvas, e a paixão parece encontrar eco, pois todos gastam generosamente o dinheiro da viúva, podendo ser até a viúva Clicquot. São eméritos marceneiros, pois todos fazem uma tal de caixa dois. Higiênicos ao extremo, costumam lavar dinheiro, já que é sabido que o contato com os germes está repleto de perigos. Fato estranho, são acometidos por uma amnésia seletiva. De algumas coisas não sabem e não se lembram, em compensação estão sempre dispostos a lembrar detalhes da vida nada louvável dos seus opositores. Possuem bochechas enormes que adquirem proporções impressionantes, à la Dizzie Gillespie toda vez que pronunciam a palavra ‘povo’. Tudo pelo PPPPPovo. Engraçado o fato de no Absurdistão, quanto mais indecente o indivíduo, maior sua probabilidade de ser eleito ou reeleito. São todos participantes do programa Minha Mercedes, minha vida. Possuem primeiras amigas, primeiras amantes, com o perdão do chiste – raramente de primeira mão.

Finalmente, numa outra ficha consta
Desenvolvimento do complexo de cidade sitiada.
“Toda vez que emerge um escândalo, surge o bordão.: ”Estão tentando nos destruir”. Não se sabe ao certo quem são esses maldosos “eles’ – os amadores de destruição – mas para tranquilidade de todos vem a frase reconfortante: “mas não conseguirão”. Há um certo maniqueísmo primário, derivado da marcação dos pontos na tranca, que divide a humanidade em Nós e Eles. Naturalmente, “Eles” precisam ser aniquilados, para que nós cuidemos dessepaiz. Outro dia, disseram que alguns seres malignos associados a uma imprensa vendida estavam querendo destruir a Petroabsurdi, orgulho de todos. Quiseram até chama-la de Petroabsurdix. Claro, acrescentam, isso não acontecerá. Há inimigos por todo lado: são aqueles que promovem tsunamis monetários, outros que não compram a produção absurdistanesa, outros que se contorcem em espasmos raivosos porque o povo vive melhor. Isso é verdade, pelo que se pode apurar, em Absurdistão não falta papel higiênico.

Ausência de coluna vertebral.
As anotações às quais tivemos acesso cessam nesse ponto, mas, com certeza, o trabalho de Lucy mal começou.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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Ainda há faxineiros no vale do Silício

Freqüentemente, fala-se nos desafios de um mundo globalizado no qual , querendo ou não, o Brasil está inserido. Nada mais verdadeiro e nada mais enganador. Não se discute a ocorrência de novos fenômenos, que tornam cada vez mais complexa a conjuntura. No entanto, é importante reconhecer uma verdade: Por mais que tenham ocorrido mudanças, as sociedades mantiveram as suas relações intrínsecas.

Fala-se em globalização, outros usam “mundialização”, como se fosse uma ocorrência bombástica, sem precedentes. Ora, não é nada disso. É possível falar, sem exagero algum, em globalização na época do Império Romano, ou na época das grandes descobertas geográficas, isso para não falar na época contemporânea. Acontecimentos econômicos e culturais originados em um ponto qualquer do planeta se expandiram, ocupando espaços cada vez maiores.

Devemos à globalização o consumo da batata, do fumo, a disseminação de normas jurídicas, ou a adoção de diferentes maneiras de trajar-nos.

O que mudou drasticamente foi a velocidade de propagação das novidades. Para ilustrar esse fato, basta apoiarmo-nos em exemplos banais, ao menos aparentemente. Podemos nos lembrar, afinal, estamos falando numa época da qual muitos de nós são testemunhas, do tempo necessário para que um sucesso literário , musical ou cinematográfico no Exterior impactasse nossos hábitos. A mini-saia levou mais de um ano. Sucessos dos Beatles, algo parecido, e por aí vai. A revolução das telecomunicações acrescentou esse componente quase mágico da instantaneidade, acrescido da superabundância de dados e informações – nem sempre imprescindíveis, mas essa é uma outra história.

A proliferação de informações, fez evoluir os mercados para algo bem próximo da ficção teórica chamada de “mercados perfeitos”. Nesses, os dados estão permanentemente atualizadas e à disposição de quem os queira usar. Se, na época das guerras napoleônicas, atribuiu-se o enriquecimento dos Rotschilds à informação rápida que tiveram quanto ao desfecho da derrota de Napoleão em Waterloo (pombos-correio teriam sido portadores das notícias), hoje qualquer operador de mesa de uma instituição financeira possui, bem à sua frente, um ou mais monitores com as cotações dos principais mercados mundiais. Aos pombos-correio a aposentadoria!

Sub-rotinas acessíveis substituem “o faro” do analista, o qual prefere errar acompanhado a assumir o risco de acertar sozinho. Isso explica, ao menos em parte, os movimentos de manada do mercado financeiro. Só meu amigo Pé Trocado, já mencionado, ignora a massa, mas já recebeu aviso prévio.

As operações ditas de ‘arbitragem’ que consistem em comprar barato num lugar para vender em outro onde a cotação for maior, mantiveram sua graça. Operadores mais velhos das nossas bolsas ainda se lembram das operações ‘Ponte Aérea’, nas quais, dependurado numa linha telefônica alugada, tentava-se comprar no Rio e vender em São Paulo, ou vice-versa. Aqueles feitos viraram folclore, debate saudosista de mesas de bar, as quais, por sinal, pouco mudaram.

Estão sendo criadas condições que requerem um novo tipo de profissional. Evidentemente, isso não vale para os ramos tradicionais da economia. Arar, por exemplo continuará sendo uma atividade que irá requerer o contato de máquinas, por mais evoluídas que sejam, com o solo. Projetar uma viga demandará os mesmos cálculos, mesmo se a saudosa régua de cálculo foi aposentada e substituída por um software sofisticados. Quanto ao desentupidor de pias, (por enquanto) , o comando “Iniciar”, “Desentupir” dirigido a um robô precisa ser aprimorado.
O lixo (em quantidades crescentes, por sinal) continuará sendo recolhido e o sapateiro não irá além dos sapatos, apesar de as indústrias disporem de métodos de CAD (projetos auxiliados por computador). O bordão latino: Ne sutor ultra crepidam – sapateiro não vá além das sandálias - possui uma barba de mais de dois milênios. Para apará-la, os préstimos de um barbeiro ainda merecem alguma consideração.

Qual o elemento comum nas mudanças, se é que houve mudança?
A resposta é simples. Não mudou o “o quê”, mudou o “como”. Dito de uma forma mais empolada, houve um crescimento exponencial da função meio. A mudança radical ocorreu no setor de serviços. Mesmo assim, as alterações foram muito mais na forma do que na profundidade. De fato, desapareceu a figura do contador com viseira e protetor de mangas. No entretanto, a função permanece, sendo desempenhada de forma muito mais rápida, com o auxílio da informática. Os cínicos dirão que assim erra-se com maior rapidez. Deixem que digam, que pensem, que falem...

Essa evolução, contra a qual seria bobagem insurgir-se, sob pena de virar objeto de chacota, introduziu uma dinâmica peculiar à divisão mundial de mercados. Como conseqüência imediata, a demanda por determinados profissionais explodiu em diversos locais. A má notícia é que em decorrência disso , paralelamente ao fenômeno de desemprego - vamos chamá-lo de tecnológico, embora isso em nada atenue o trauma dos alijados do mercado de trabalho; tecnológico ou não, desempregado continua desempregado - as exigências se tornaram cada vez maiores, acarretando uma demanda crescente por indivíduos preparados para enfrentar novos desafios, além de criar uma necessidade de contínua atualização; esse fato expôs uma fraqueza do sistema educacional daqui e de alhures. Parece que dominar o IPad não bastará, mas ai do dinossauro que não souber

Com as novas exigências, trazidas pela alta tecnologia, os profissionais necessitam estar altamente atualizados. Não só na sua especialidade, mas devem conhecer também tudo aquilo que impacta sua atividade-fim. O perfil polivalente vale para todos: em atividades de emprego tradicional, que rareiam a cada dia; ou em prestação de serviços, que crescem e se renovam a olhos vistos, o perfil generalista é desejado. Novamente com a palavra, os mesmos cínicos dirão que ao invés de profissionais que saibam tudo sobre alguma coisa bem definida, serão requisitadas pessoas que saibam nada sobre tudo. Que saudade sentimos do médico que acompanhava a família, quando nos defrontamos com um especialista em traumas do joelho (mal) pago por um (custoso) convênio. Sem tocar no paciente, irá solicitar-lhe uma extensa bateria de exames, antes de fazer valer seu talento. Isso não impedirá um colega dele, vez por outra, de retirar o rim errado.

Assim, compreende-se que a educação formal dada ao cidadão deste novo século siga um roteiro diferente. A escola precisa estar em constante renovação de seus currículos. Isso é um pouco mais complicado do que introduzir “o novo”, seja lá o que isso possa significar.
A obsolescência não espera que se conquiste o almejado canudo, já faz as suas vítimas nos bancos escolares. Uma atualização contínua dos educadores é imprescindível. Para tanto, a combinação da decantada “vontade política”, associada à contribuição decisiva do vil metal será essencial.
O mercado de trabalho sofre solavancos incríveis, postos de trabalho são suprimidos e, concomitantemente, inúmeras vagas não são preenchidas. Como poderá um torneiro dispensado ocupar uma vaga de analista de software? Haja dramas! Desemprego coabitando com anúncios de “Procura-se para início imediato”.
Para todos os efeitos, o mundo encolheu, perdeu a dimensão de arquipélago para transformar-se na famosa “aldeia global”. Ao invés de dirigirmos um calhambeque, estamos a bordo de um bólido da Fórmula I, cientes da existência de curvas Tamburello assassinas.

Virou moda esculhambar a imagem dos mercados que se auto-regulam, ou seja, cuidam de si, dispensando intervenção, desde que haja regras do jogo corretas. Não faltam argumentos e evidências a favor da tese. No entanto, eles se auto-regulam, sim. Ocorre que nenhuma sociedade pode suportar as conseqüências desse processo. No seu automatismo isso pode levar a desastres insuportáveis.
Admitamos. A sociedade está em contínua evolução.(Essa frase merece um lugar de honra na galeria das maiores obviedades)
Mesmo assim, falar em ineditismo encerra um exagero. Na metade do século XIX o escritor romeno Ion Creanga, famoso pelos seus contos infantis e seu tosco antissemitismo, escreveu, em tom de troça: “Com tanta educação quem irá engraxar-nos as botas?”
Trata-se de um desafio complexo. Para que ele não se transforme em pesadelo, a sociedade deverá se adaptar. Antes isso que discursos solenes para justificar o fracasso. A alternativa inaceitável seria unir o fútil ao agradável. Por quanto tempo?

*Crônica do livro ´´A luta continua`, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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A irmã só sabia pregar-lhe peças. Precisava dar um telefonema urgente e não conseguia fazê-lo a par­tir daquele mudinho. Olhava desolado para aqueles res­tos “tecnologicamente corretos”. 

O telefone espatifado tocou sem avisar. Feito um autômato, atendeu.
– Pronto.
– Bom dia. O senhor atendeu uma chamada a cobrar; para continuar, introduza um diamante. Se o fizer estará concorrendo a um secador de cabelos. A Companhia agradece sua preferência.
– Não preciso de secador de cabelos. Sou careca.
– Estar concorrendo é apenas o primeiro passo. Ganhar é outra coisa. Introduza o diamante.
– Mas introduzir onde? O telefone está quebrado!
– Então procure o nosso setor de consertos.
– Mas eu já liguei para o setor de consertos. Disse­ram que entrariam em contato.
– Pois então, estou ligando do setor de consertos. Introduza um diamante para continuar. Não aceita­mos rubis.
– Deve haver uma confusão. Não tenho diamante algum.
– Na nossa Companhia não há confusões. Sem diamante, a ligação cairá dentro de meia-hora.
– E por que usa maiúsculas para designar sua em­presa?
– E por que não? Além disso, essa é uma norma interna. O senhor cometeu uma indiscrição. Como sabe que usei maiúsculas?
– Foi apenas um palpite. Gostaria que consertas­sem o meu telefone.
– Qual é o problema?
– A minha irmã o quebrou.
– Ela o quebrou dentro da residência ou fora? Se for dentro, trata-se de um problema doméstico, fora de nossa alçada; se for fora, fica dentro de nossa al­çada. Entendeu? Fora, tá dentro e dentro, tá fora.
– Ela o jogou pela janela na calçada e eu o trouxe para dentro de casa. Fiquei com pena.
– Então o problema ocorreu fora da residência?
– Pode-se dizer que sim. Tenho certeza que sim.
– Qual o nome de sua irmã?
– Isso é importante?
– Preciso preencher o formulário. Estou procurando o campo para “parentes próximos”. Não estou achando. Terei de ligar novamente para o senhor.
– Esqueça esse campo, continue.
– Não posso. Já abri a ocorrência e o senhor me deu uma informação, que não consigo classificar. Consultarei minha supervisora. Essa informação pode ser importante para a Companhia. A Companhia agradece sua preferência. Voltaremos a contatá-lo. Será aplicada a tarifa de re-chamada.
– Não, não desligue.
– Desculpe, tenho instruções precisas.
– Quero falar com a supervisora.
– Ela não veio trabalhar hoje.
– Mas a senhora disse que precisaria tirar a dúvida com ela.
– Perfeitamente. Perguntarei assim que ela voltar. Ela está de férias no momento.
– Está certo, mas, na ausência dela, alguém a substitui, ou não?
– Claro que alguém a substitui. Ninguém é insubs­tituível. Uma posição importante como essa nunca fica descoberta.
– E quem a substitui?
– Eu.
– Entendo. Como irá proceder?
– Tentarei fazer o melhor. Recapitulemos. Quando o fone foi atirado pela janela, sabe dizer se estava co­nectado na tomada?
– Não sei. Eu cheguei depois que ela o jogou.
– Como sabe que foi jogado pela janela?
– Tive esse palpite, quando o encontrei na rua.
– Mas poderia ter sido quebrado dentro de casa e atirado depois pela janela. O que sobrou dele pode ter sido colocado na calçada com cuidado. Concorda?
– E que diferença faz?
– Dentro, tá fora e fora, tá dentro. Lembra?
– Como poderia me esquecer? Quero saber se vão resolver o meu problema.
– Por enquanto estou preenchendo um formulário. Já preenchi os dados básicos. Estou com problemas para preencher o campo “observações”; na falta do campo “parentes próximos”, encaixarei em “observa­ções”. Como vê, somos uma empresa moderna e flexí­vel. Isso me lembra...
– Deixe o campo em branco, por favor. Estamos perdendo tempo.
– Este campo nunca pode ficar em branco. De­monstraria falta de interesse do funcionário. A Com­panhia tem por objetivo a maximização da satis­fação do cliente. Isso só se consegue preenchendo o campo “observações”. Maximizar a satisfação do clien­te nunca foi perda de tempo. Trabalhamos para pro­porcionar qualidade total.
– Está maximizando minha raiva.
– Desculpe, sigo um roteiro aprovado internamente. Não deixarei o campo em branco.
– Então escreva o que quiser. Escreva uns versos de Pessoa.
– Ele é assinante?
– Ele é imortal. Pode ser que seja assinante tam­bém.
– Pode me dar os dados dessa pessoa?
– Não. Eu faltava muito às aulas. Serve Alberto Caeiro?
– Terei de abrir outra ficha. O senhor me deixa numa situação embaraçosa. Tento fazer o máximo para resolver o seu problema e o senhor está dificul­tando. Já colocou o diamante?
– Só se for numa broca dentária.
– Então o senhor é dentista? No nosso banco de dados consta: pugilista.
– Sou um pugilista filósofo sem telefone.
– Nosso tempo está se esgotando. Sua reclamação estará sendo reprocessada. A Companhia lhe deseja um bom-dia e agradece sua preferência.
– Preferiria poder dar uns telefonemas. Com este aparelho será impossível.
– O senhor não possui outro telefone?
– Tenho, sim.
– Então por que não o está usando?
– Não posso.
– Por quê?
– Minha irmã o está usando e ela fala muito. Nem pode imaginar o quanto.
– Qual é o nome de sua irmã? É para colocar no campo “observações”. Além disso, por um diamante menor, podemos proporcionar-lhe uma extensão vir­tual...
Desligou. Não havia motivo algum para ficar irri­tado. Afastou-se do aparelho cantarolando a marcha fúnebre.

*Crônica do livro ´´Apetite Famélico``, Ed. Totalidade

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Talvez não tenha se esquecido ainda da viagem, a respeito da qual escrevi, comentando algumas recordações lisboetas. Pois continuando, aumentarei a gravidade do crime contra as letras, dando prosseguimento a esse relato.

Ao mencionar o incidente C.J. disse que havia um outro episódio menos louvável. Para apreciá-lo, quando eu me decidir a confessá-lo, sem fazer um juízo muito severo, coloque-se por alguns momentos no meio do bando de estudantes formandos. Quase todos sem dinheiro, contando com as diárias oferecidas pela nossa CêVê, (Comissão de Viagens) complementadas por algum reforço proporcionado pelas famílias. Lembro do comentário admirativo: “Pô, o Luís Augusto está levando 300 dólares.” (estamos falando de dezembro 1966, época em que fazia sentido o livro ‘Europa a 5 dólares por dia’).

Como chegamos à Europa? Num possante quadrimotor C54 da FAB, a versão militar do DC4. Poltronas? Nada disso. Apenas os assentos laterais de um avião de pára-quedistas como nos filmes de guerra. Calefação? Deve estar brincando. Mas, a avião cedido não se contam os defeitos, diria meu sábio alter ego, praticamente da mesma idade que eu. E, já que estou lhe escrevendo, não sentirá o pavor que se apoderou de nós ao descobrir a imobilidade de uma das hélices.

Faltava dinheiro; éramos,porém, os donos do mundo. Pode ser que o mundo custasse menos, ou, quem sabe, éramos ricos o suficiente para não ligar para detalhes.

Bem, não é que fomos ao Cassino de Estoril?

Espirito matemático, jogava meus trocados no cara e coroa do vermelho e preto. Para ser mais verdadeiro, preciso dizer que só jogava no vermelho. Aguardava a ocorrência de um preto e logo depois, ignorando – como todo engenheiro, cujo trabalho de graduação relacionara-se com a estatística aplicada – o fato de nada garantir a necessária ocorrência subseqüente de um vermelho, colocava, cheio de confiança, a ficha no ‘encarnado’. Quando perdia, dobrava a parada, sem poder ir além de uma única dobrada, por razões de gestão austera da minha fortuna. Aos poucos fui juntando algo como 50 dólares de lucro. Estava me tornando um milionário. A caprichosa deusa escancarava um sorriso dócil, submisso, encorajador. Nem percebi o tempo voar, fascinado pelo jogo e embalado pelos comentários de um colega menos atrevido, que se limitava a contabilizar meus lucros e perdas. Sem demérito algum, as observações eram tão interessantes quanto aquelas a que nos habituaram nossos locutores esportivos de hoje. ‘Agora vai’, ‘Vamos virar o jogo’, ‘Notou aquela gostosona de azul?’ Como demorava aquele pessoal! Nada a ver com o ritmo endiabrado de Vegas, que vim a conhecer anos mais tarde. Com o saldo positivo da minha particular balança comercial, aquele detalhe não chegava a importunar.

O crupiê anunciou, finalmente, a última rodada. Era chegado o momento do lance magistral. Parado durante algumas rodadas de preto, decidi separar o valor da fortuna inicial mais o valor da corrida de táxi e ‘partir para o tudo ou nada’ com o resto. Não poderia dar errado. Deu. Dizer que deu um inesquecível 26, seria supérfluo. Sim, o 26 é preto, meu caro. Com sono, a Fortuna decidira abandonar-me, sem aviso prévio. Dei adeus ao montão de fichas varridas com implacável zelo pelos profissionais.

Antes de regressar ao glorioso Hotel Atenas, detivemo-nos num pequeno bar, onde fui apresentado ao que me pareceu, naquela época, o néctar surrupiado a Hebe ou a algum substituto de Ganímedes. Gozadores, abstenham-se. Estou falando do capitoso Grandjó, cujo sabor adocicado nos fez esquecer a hora. Precisávamos voltar para dormir ao menos duas horas.

No táxi, junto com mais três colegas, (note, observador implacável – decerto já o notou– que ainda sobejavam, a título de lucro, três quartos do valor da corrida), resolvemos provocar o digno ás do volante.

– Chofer, queremos seu boné.
- Ora, pois, isto é ‘pruibido’. Tenho de usar o boné em s´rviço. –Tudo isso vinha dito com aquele delicioso sotaque, que me obrigou a uma transcrição fonética, para que mergulhe conosco no clima daquela pequena aventura.
- Pelo menos dirija sem boné. Faça essa gentileza.
- Ora, pois, não podemos f´zer isso.
- Chofer, é muita pompa. Seja menos formaL. Diga ao menos um palavrão
- Ora, pois, j´mais falo p´lavrõech!
- Um só! Ao menos um. Com certeza sabe
- Não. De m´neira n´nhuma!

De tanto insistirmos, ele finalmente soltou um sonoro PQP, acolhido por um coro de risadas, até que um de nós conseguiu, fingir uma justa indignação.
- Chofer, perdeu a classe. Que tremenda falta de educação!
- Mas foram os s´nhores que insistiram, pois não? –O retrato pungente da desolação. – Foram necessários longos minutos para explicar ao consternado motorista, ter sido aquilo apenas uma brincadeira, que o palavrão, desastradamente proferido, em nada diminuía a nossa estima e que ele continuava luzindo como estrela de primeira grandeza no firmamento das boas maneiras.

As luzes de Lisboa estavam se aproximando, o sono já reivindicava seus direitos. Nas mãos, o cartão de admissão por um dia no Cassino, doravante inútil. Nessa roleta, ao menos, conseguira descobrir que, se a fortuna sorri aos audaciosos, muitas vezes, o sorriso é banguela.

*Crônica do Livro ´´Sessão da Tarde``, Editora Edicon.

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A estrada se espreguiçava à sua frente com indes­crití­vel monotonia. O carro engolia placidamente quilômetro após quilômetro havia mais de cinco horas. Incomodava era saber que ainda faltava mais da metade da jornada. Uma espécie de torpor apode­rava-se dele. Dirigia automaticamente, sabendo, de experiências passadas, nessa mesma estrada, que logo viria um momento de completo desânimo, típico dessa maratona.

Era quando os reflexos pareciam estar tirando férias, a concentração desertava e a motivação caía vertiginosamente. Sabia também que, uma vez supe­rada essa barreira, que o molestaria por uma hora, o resto da viagem seria tranqüilo. Pagava, de certa forma, um tributo à sua total falta de paciência. Tinha decidido que o maldito trajeto deveria ser com­pletado num só dia. Era algo factível, com toda cer­teza, dentro das suas possibilidades; logo, não iria admitir parar na metade e, após descansar, concluir no dia seguinte.

Selecionou um outro CD. Desta vez era o concerto para violino de Tchaikovsky. Ao som dos primeiros acordes, a sucessão de painéis publicitários que mar­geavam a estrada passou a ganhar nova vida. Pare­ciam render-se ao encanto da música. Os apelos ao consumo haviam deixado de agredi-lo e, submissos, revelavam-se acompanhantes fiéis e discretos.

O primeiro movimento do concerto o havia fasci­nado sempre. O choro do violino lhe passava uma sensação de encanto, e era o que precisava para superar a fadiga. 

A dor de cabeça aproximou-se dele, rastejando como um cachorro amestrado. Foi sendo dominado, sem ter podido opor qualquer resistência. Era uma dor insinuante, monótona, persistente, implacável.
Ao longe, distinguiu um vulto à beira da estrada. Pensou em diminuir a velocidade. Ia acabar levando uma multa originada num desses radares ocultos, que as piscadas de farol dos carros, vindos em sen­tido oposto, não teriam ajudado a burlar. À medida que se aproximava, notou sucessivamente tratar-se de um ser humano, mulher, bonita. As constatações sucessivas, frutos da aproximação, se sucederam a intervalos de pouquíssimos segundos.
Estranho. Muito estranho mesmo. A mulher incrustada na paisagem, num lugar desértico.
Ela estava acenando e, mesmo que não o tivesse feito, a simples presença naquele trecho de estrada já teria justificado uma parada.

Deteve-se no acostamento, ao lado da desconhe­cida. Agora era possível afirmar que considerá-la ape­nas bonita era uma tremenda injustiça com a estra­nha. Ela estava simplesmente iluminando aquele canto perdido do universo. Jeans, camiseta, tênis, um lenço colorido no pescoço e uma bolsa de respeitáveis proporções no chão. Cabelos castanhos curtos emol­durando um rosto angelical. Um largo sorriso fez a dor de cabeça recuar como o cachorro amestrado faria, se o filme fosse projetado de trás para frente com velocidade maior.
– Bom dia, quer uma carona?
– Vou a São Paulo. Pode me levar?
– Levo até o fim do mundo.
– São Paulo será mais do que suficiente.
Ajudou-a a colocar a bolsa no porta-malas. Ela conservou apenas uma bolsinha minúscula. Entra­ram no carro. O concerto estava no seu último movi­mento.
– Adoro este concerto, disse a estranha. Meu nome é Mônica.
– Também adoro. Muito prazer, Francisco.
– Eu sei, eu sei, disse ela e com um sorriso bizarro, apanhou na bolsinha um frasco de perfume, ou algo parecido, e orientou um jato com cheiro estranho em direção ao motorista.

De repente, os traços da Mônica ficaram menos nítidos. Ela mantinha o sorriso, até parecia que esti­vesse gargalhando, embora nenhum som se fizesse ouvir. Um apito agudo, que fazia lembrar o som de uma broca de dentista, não deixava Francisco fechar os olhos e dormir como era seu desejo. Largou a dire­ção, mas, coisa estranha, o carro tinha parado de cor­rer na estrada. Estava envolto numa nuvem de poeira prateada e parecia flutuar. Juntando as suas forças, Francisco tentava em vão articular palavras em dire­ção à passageira misteriosa. Permanecia paralisado, mas o seu desejo não era se mexer e, sim, poder comunicar-se, protestar ou talvez agradecer pelo que estava se passando.

Mesmo sem enxergar com nitidez o rosto, ele se sentia atraído pela visão turva que, naquele momento, parecia reger-lhe o destino. Imóvel, perce­beu que o penteado da Mônica estava se modificando, o cabelo se juntava num coque abrigado por um cha­péu de abas largas. A camiseta cedera lugar a um decote cheio de babados e um lindo colar estava dando voltas no pescoço marfim. No lugar da calça, uma saia longa encobria as pernas escondendo até os tornozelos,

Mas será que aquela roupa provinha da bolsa do porta-malas? Como, se ela nem havia saído do lugar, e aquela roupa parecia ter surgido do nada?
– Cavalheiro, estamos em São Paulo. Gostaria de tomar um chá, isto é se for convidada.
– Onde estamos? E logo se espantou com o fato de subitamente ter recobrado a fala.
– Em São Paulo. Talvez devesse perguntar quando estamos, sorriu Mônica.
– E o meu carro. Olha o que aconteceu com ele!
– Que lindo Studebaker! Bem melhor que o seu, em todo caso, bem mais charmoso. Estamos perto do Viaduto do Chá, caso não reconheça.
De fato, o Teatro Municipal estava lá mas, no lugar de alguns dos prédios que ele conhecia, havia casi­nhas. Recuara uns bons quarenta anos. Iria tomar chá no Mappin. Algo estava errado, pensou. E logo descobriu. Era a roupa dela que seguramente era do início do século. Uma fada anacrônica pensou, igual aos gladiadores de produções descuidadas que, de vez em quando, ostentavam um relógio no pulso.
Adivinhando-lhe o pensamento, ela sorriu:
– É apenas um pretexto para passar umas horas contigo. Minha missão me leva a um passado mais remoto, e nem é para São Paulo que me dirijo. Vou para Paris de 1610, logo depois do assassinato do Henrique IV. Você é apenas uma fração do meu uni­verso. Não tenho nenhuma preocupação de coerência. Além disso, ninguém está nos vendo.
Experimente conversar com alguém. Não lhe res­ponderá. Você é uma sombra, o meu acompanhante, e, enquanto estivermos juntos, nenhum contato com humanos lhe será possível. E vou lhe dizer algo que talvez não lhe agrade, mas uma vez concluído o nosso passeio, não se lembrará de nada. Portanto carpe diem, sabendo que o seu amanhã vai independer deste hoje. E agora, talvez queira ver seus pais ainda crianças?
– Não, senhora Spielberg, já que estamos amarra­dos por uma eternidade cuja extensão só você conhece, quero realizar um sonho pueril. Dançar uma valsa com você em frente ao Municipal e, depois, poder acordar sentindo no rosto as lágrimas que der­ramarei por perdê-la. Pois nunca mais nos veremos, não é verdade?
– Saiba uma coisa. Não existe o verdadeiro nunca. Mesmo nas profundezas abissais do desespero, haverá um talvez. E é com esse talvez que você poderá efetuar qualquer travessia. Aceito seu convite, cavalheiro, em vez de chá, uma valsa. Irei me perder em seus braços.
E, de repente, pelas janelas do Municipal, os acor­des do Danúbio Azul inundaram a praça.
Enlaçou a criatura diáfana e passaram a rodopiar loucamente entre transeuntes que passavam sem vê-los. Experimentou chocar-se com uma senhora em­pertigada e descobriu que ele tinha a consistência de uma sombra. A senhora empertigada o atravessou como se ele fosse uma nuvem. No entanto, sentia o contato enlouquecedor de Mônica, a parceira desta valsa inacreditável.
Estavam rodopiando, a música afastou-se dos compassos imponentes para disparar feito um realejo demente.
Os rodopios aceleraram-se a ponto de sentir nova­mente a mesma sensação que havia experimentado ao ser tocado pelo spray. Os traços de Mônica esta­vam se apagando, tudo havia escurecido em volta deles, e a música estava se transformando numa es­pécie de uivo, parecendo uma sirene de ambulância.
– Cuidado com ele. Mas que porrada! E ainda sobrou algo do carro!
– Será que ele está vivo?
– Veja, está se mexendo!
Não estava mais dançando, mas experimentou uma alegria imensa ao descobrir que podia mexer a mão direita. A que havia segurado a mão de Mônica. No rosto, a lágrima.

*Almanaque Anacrônico e outros contos. Ed. Totalidade.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Sócrates é mortal, qualquer cachorro é

mortal, logo Sócrates é um cachorro.

Isaura e Florisvaldo casaram-se após um breve namoro. Foi uma cerimônia simples, mas muito emocionante, com a indefectível promessa de dedicação de corpo e alma, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença, e nas mais diversas situações antitéticas, até que a senhora da foice os separasse. De mãos dadas, enfrentaram a reforma do apartamento, prestações atrasadas, o registro no Clube da Divida Ativa, a execração do SERASA e o choro de criança do filho dos vizinhos, mas pouco tempo depois, graças a um casal de gêmeos, devolveram com sobras os decibéis inoportunos.

Cupido fizera um trabalho admirável. É isso que dá usar flechas de qualidade superior. Nada parecia poder turvar a harmonia do casal. Porém, por melhor que fosse a obra de Eros, o máximo que conseguiu foi o selo de eterno enquanto durasse, como alguém já disse agitando um copo de uísque. Eis que, os germes da dúvida começaram, aos poucos, a minar a confiança absoluta de Isaura no seu amado. De início, ela afastou com legítima indignação as suspeitas que invadiam sua mente, mas para não fugir à regra, uma vez instalada a desconfiança, nada consegue deter a evolução desse processo infeccioso. É preciso dizer que Isaura era uma ciumenta de carteirinha, sem nenhuma anuidade em atraso.

Em homenagem à transparência, não guardou as dúvidas para si e fez parte de suas inquietações ao marido, recebendo um categórico e colérico desmentido. “Como pode imaginar! Nunca, jamais, em hipótese alguma...”. Como essa manifestação enérgica fora insuficiente para aplacar a desconfiança, Florisvaldo teve uma idéia, afinal de alguma coisa deveria servir sua sólida formação em Direito. De comum acordo, celebraram um contrato informal, que poderia ser resumido assim: Havendo traição, o casamento seria desmanchado, sem direito a apelação. Da mesma forma, a prática da mentira, levaria a idêntico resultado. Por outro lado, a fidelidade e a verdade teriam como prêmio a perpetuação do himeneu, até a ocorrência de uma das falhas listadas anteriormente. Houve algumas discussões de pouca importância – resumidas nas famosas cláusulas que costumam figurar em letras miúdas nos contratos de adesão. Por exemplo, frases do tipo: “Stalin morreu em 1953” ou “Machado de Assis escreveu O alienista”, por mais verdadeiras que fossem, por retratar fatos de domínio público, seriam inócuas, sem poder garantir a fortaleza do casamento. A recíproca valia também. Mentiras inocentes do gênero: “Diga a sua mãe que hoje iremos ao teatro” ou “Meu filho, se você for bom aluno, garantirá um futuro brilhante” não seriam objeto de penalidade. Isaura concordou com a proposta, mas nem por isso deixou de lado a desconfiança, lançando de supetão perguntas embaraçosas, fazendo deduções em voz alta, indo até procurar evidências incriminatórias nos bolsos do ser querido. Todas as artimanhas foram inúteis. Nem por um instante lhe ocorreu que o capítulo ciúme não cabe no livro da Lógica, sua leitura predileta. Até que um belo dia, na hora do jantar, Florisvaldo declarou:

-Tenho um caso, querida. Poderia passar-me o sal?
A frase caiu como uma bomba, cujo efeito imediato foi comprometer os sólidos alicerces da união. Mal conseguindo esconder as lágrimas, Isaura saiu correndo, atirou-se sobre o, leito conjugal e depois de empapar seu travesseiro, passou a refletir. Se, de fato, ele tivera uma aventura, significaria o fim do casamento, cujas fundações pareciam definitivamente comprometidas. No entanto, o fato de ele ter dito a verdade, implicava na continuidade da relação. Trato é trato e deve ser cumprido. Pacta sunt servanda – de acordo com Florisvaldo e com o dicionário de citações latinas. Não contente com essa conclusão, Isaura aprofundou a análise. E se Florisvaldo mentira? A peta significaria, igualmente, o fim do matrimônio. Kaputt! Mas se o tal caso fosse apenas uma invenção, Florisvaldo continuara sendo fiel, o que de imediato, dava vida perene à união deles. Isaura percebeu que fora presa numa armadilha lógica e não vislumbrou nenhuma saída. Voltou à mesa, incapaz de fazer qualquer tipo de pergunta e o jantar transcorreu num silêncio sepulcral, na expressão de premiadíssimos autores. Num esforço supremo, Isaura decidiu não fazer qualquer tipo de perguntas. Seguiram-se dias de reflexão, animados como a marcha fúnebre de Chopin. Isaura continuava à procura de uma solução. Enquanto isso, Florisvaldo saboreava seu triunfo e o término do terrorismo conjugal.

Qual não foi seu espanto, quando, alguns dias depois, na hora do jantar, antes do Jornal Nacional, durante uma insuportável inserção eleitoral gratuita, Isaura emitiu com doçura:
- Querido, tenho um caso. Poderia me passar o pão?

*Crônica do livro ´A luta continua`, Ed. Letraviva

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`, ´Plataforma G` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+

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Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/



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