NATAL PRESS

Faz um mês inauguraram uma nova galeria

Na feliz combinação arte com hotelaria.

Desde então vive tão cheia, impossível visitar,

Desafio aos amadores, longas filas enfrentar.


Finalmente, um belo dia, ajudado pela sorte

E por uma patronesse, cujo santo era forte,

Conseguiu por um milagre o ingresso tão sonhado,

Constatando que o destino não o tinha abandonado.


O lugar impressionante e repleto de pinturas

Em painéis dependuradas e, no meio, esculturas.

Alguns guias voluntários interpretam as mensagens,

Traduzindo em palavra a linguagem das imagens.


Decidiu seguir um guia todo uniformizado,

Que as obras explicava com um ar compenetrado.

Convidado com o resto, um lugar tomou num banco

E ouviu os comentários sobre uma tela em branco.


‘Linda tela que por sorte foi possível adquirir.

O pintor foi inovando, pôde até substituir

O convencional do traço por um ritmo interior.

Essa obra sem ambages é de nível superior.’


E, perante a tela branca, o discurso continua,

A inspiração da obra foi uma modelo nua,

Pela qual ele nutria um amor indescritível.

Falecida em desastre. O destino é terrível!

Esse outro representa a essência do borrão.


Para espalhar as cores, o pintor usou a mão.

Surge ali um comentário: ‘Olha, para ser bem franco,

Creio que ainda fico com aquela tela em branco.’


‘Meu senhor, são dois momentos igualmente criativos,

Ambos dignos de elogios, ambos são superlativos!

Ficaria um dia inteiro admirando essas obras,

Não há quem lhes chegue perto, nem os mais famosos cobras.’


Frente a uma nova tela, a sessão explicativa

‘Livre se sentiu do jugo da arte figurativa,

Vejam, um simples quadrado. Quanta força ele exala.

Olhem bem, este quadrado ponto alto é da sala!’


‘Outra obra milionária, olhem por aqui, senhores,

Este monte de areia, cacos de diversas cores,

É um marco da escultura, coisa igual já não se faz,

Essa obra tolstoiana chama-se Guerra e Paz.’


A platéia cativada nem ousava divergir.

Comentários em voz baixa, todos querem prosseguir:

‘ E aquela outra obra, a vermelha, meu senhor,

Valerá uma fortuna?’ ‘Vale, sim, é o extintor’.



Do livro ´´Desespero Provisório´´

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Existe um projeto que corre por aí, de autoria de Renato Simões de Ricardo Berzoini – ambos do PT. Em resumo, de acordo com o projeto, os dividendos – lucro distribuído por pessoas jurídicas – seria tributado novamente na declaração de rendimentos das pessoas físicas. Essa medida, se implantada, representaria obviamente uma bitributação. Bem, o Sr. Berzoini já imaginou coisas piores, como as Berzofilas dos aposentados que deveriam comprovar – se sobrevivessem às filas – que estão em vida.

Além disso, o projeto eliminaria a figura dos juros sobre o capital próprio (JCP), que hoje representam uma despesa dedutível na declaração das empresas, cuja obrigação é de recolher um imposto de 15%, na fonte. O acionista arca com esses 15%, em compensação as empresas deixam de pagar IR e CSLL sobre uma parcela de lucro que passou a ser uma despesa. Como diria o conselheiro Acácio, caso perguntado, trata-se de um incentivo beneficiando em última análise empresas e acionistas.

Claro que se o projeto prosperar o governo apuraria sonhados bilhões, vale dizer, além dos que já apura de maneira abusiva – focando ainda esse microcosmos.

Os acionistas, seres demonizados por investir no mercado de ações, já têm motivos de sobra para resmungar.

Nas entranhas do Plano Real existe a intenção de acabar com as indexações. Uma intenção louvável, mas que não se aplica de maneira universal, por uma razão excelente. Não vivemos num mundo de inflação zero. Daí salários e tarifas de serviços são corrigidos e parece justo, embora como toda correção monetária, realimentem o processo inflacionário. Não se tem notícias de qualquer categoria profissional que tenha rejeitado a reposição de perdas inflacionárias em nome do combate à inflação. Tentem persuadir seu dentista na próxima oportunidade.

Com os odiados acionistas essa eliminação assume um efeito perverso, sobretudo no caso dos investidores de longo prazo, aquele prazo que segundo Keynes, uma vez decorrido nos iguala perante a dama da foice. Suponha-se um investidor detentor de um lote de ações adquiridas há uns 20 anos, ao preço unitário de 100. Decorridos esses 20 anos, eis que esse cidadão decide vender as ações, pelas quais apuraria hipotéticos 120. Vem o fisco, sempre vigilante, e tributa a diferença. Não é preciso ser doutor Honoris causa por Sciences Po, na França, ou um mero PHD pela Universidade de Chicago para perceber que o pobre diabo será tributado sobre um lucro inexistente. Se alguém tiver paciência de examinar uma tabela do IBGE, notará, caso não esteja com preguiça de fazer as contas, que o IPCA no período 1995-2014 evoluiu algo como 222%. Ou seja, o investidor paciente deveria apurar mais que 322, para que pudesse falar em lucro. O Fisco vigilante não quer saber disso. Trata-se de um exemplo extremo, mas ignorar a existência da inflação produz distorções. No caso dos imóveis já existe a figura da correção quando da alienação. Para as ações isso seria consideravelmente mais trabalhoso, então ...

Por outro lado, o Plano Real eliminou a correção dos balanços. Com isso, empresas capitalizadas passam a apresentar lucros inflados por uma parcela inexistente, sobre os quais incidem IR e CSLL, com a maior naturalidade. Para um período curto, o efeito é menor, mas considerando o fato de essa medida ter soprado 20 velinhas, há uma distorção. Então verberar os JCP como ‘planejamento tributário’ parece algo exagerado. Para ser franco – ou euro, já que os francos perderam a validade – no caso das empresas altamente endividadas, ocorre o efeito oposto e elas SONEGAM LEGALMENTE, já que seu lucro é subestimado.

Possivelmente nossos parlamentares, ao examinar o tal projeto de lei, se é que o examinarão algum dia, poderiam dedicar um olhar distraído a essas distorções, ou só vale arrumar $$? Desmoralizar o mercado de ações não parece uma boa ideia. Para todos os efeitos, amaldiçoar os especuladores já dá bastante IBOPE.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade), ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´ (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Quanto mais muda, afinal teremos um ‘novo’ governo, mais fica igual.

Numa carta da Marta – a rima foi involuntária – a ministra saiu do ministério, tascando votos de sucesso à Presidenta. Para os amadores de Química o pH da carta situa-se perto de zero. Para os menos iniciados, trata-se de uma alta acidez. Apesar da aparente tranquilidade da destinatária, ao afirmar ter se inteirado previamente do conteúdo da missiva, essa acidez deve ter causado um uso adicional de Maalox ou outro antiácido disponível em Qatar. Dizia Marta, entre as demais fórmulas protocolares, que desejava à Dilma que “ seja iluminada” – suprema ironia ao se dirigir a um poste – e que escolhesse uma equipe econômica independente, experiente etc. comprometida com uma “nova agenda de crescimento e estabilidade”. Ora, direis, mas o que mais se ouviu e viu durante a campanha foi um desmedido autoelogio à sábia política econômica, que aparentemente, com alguns retoques, um ajuste fino, vá lá, será matéria obrigatória dos livros de Economia daqui para frente.

Mas a carta da Marta insinuava algo diferente.  Talvez tenha sido escrita a quatro mãos com o marqueteiro do candidato derrotado.

Procurando satisfazer a curiosidade dos repórteres quanto à composição da nova equipe, a Presidenta desautorizou boatos supostamente plantados por fontes palacianas: “O Palácio não fala. O Palácio é integrado por paredes mudas”, desmontando, assim, a prosopopeia insinuada pela audiência ávida por um furo. Logo, é errado atribuir a uma construção, por mais vistosa e pouco funcional que seja, qualidades humanas. Perfeito. As paredes são mudas, embora haja quem jure que possuem ouvidos. Dizem que alguém teria pensado com seus botões: Além de paredes mudas, não haveria por acaso um telhado de vidro?

Voltando à nossa Pindorama, houve quem estranhasse o projeto de lei permitindo o desconto das despesas do PAC e das desonerações da meta fiscal. Estamos falando da LDO de 2014. De forma bastante lógica, é possível afirmar que se a última revisão for concluída em fevereiro de 2015, embora o passado seja coisa incerta entre nós, será possível dizer que as diretrizes orçamentárias foram obedecidas.

Então qual é o problema?

O tal superávit primário. Sim, aquela parcela destinada a pagar (parte) dos juros da dívida. É um conceito relativamente bobo, já que o ideal seria conseguir um superávit nominal, ou seja, depois de pagar os juros, sobrar algo. Mas se trata de uma abordagem “rudimentar” segundo frase atribuída à então Chefa da Casa Civil. Se non è vero, azar do goleiro.

Grosseiramente, a superávit primários seria em escala nacional algo como o EBITDA  (earnings before I tricked damn auditor) das empresas , ou LAJIDA.

Ocorre que, anualmente, em meio a rufar de tambores anuncia-se que faremos um “primário” de algo como 2% do PIB. Mesmo insuficiente para fazer frente ao pagamento dos juros, o crescimento da dívida seria contrabalançado pelo crescimento do PIB e nosso “cadastro”, apreciado pelas empresas de “rating” (de classificação de risco, se preferirem) continuará bom. “O sujeito deve mais, mas possui mais um imóvel (quitado), então vamos conceder um empréstimo a juro camarada para ele comprar uma moto, pagar a empregada etc.  Se ele dever mais e não aumentou o patrimônio vamos conceder o empréstimo, mas a juros maiores;” Simples assim.

Sucede que as surpresas vêm de ambos os lados. O PIB não cresce o quanto trombeteiam as “otoridades” econômicas, em compensação a tal economia não se realiza nas proporções prometidas por culpa das despesas. O quadro perfeito para que chovam críticas. Daí, nossa criatividade partiu para um atalho. Já que não se conseguirá realizar a tal economia: a receita é “errática (apud Miriam Belchior) e as despesas (vigiadas com a lupa) teimam em se elevar mais do que o fariam se bem comportadas fossem, introduz-se um artifício. Parte dos investimentos passam a ser considerados tão virtuosos que podem ser descontados da tal meta anunciada em meio ao rufar de tambores e som de clarins no início do ano e “suavizada” à medida que o fim do exercício se aproxima. Não vai dar para pagar tudo isso de juros, porém, transpusemos o “velho Chico”. Então além das virtudes da moeda listadas pelo professor Gudin: instrumento de troca, meio de pagamento, reserva de valor, unidade de conta etc. surge o dom da ubiquidade. O mesmo dinheiro faria duas coisas ao mesmo tempo.

Em 2014 falava-se em abater uns míseros 67 bi da meta,. Agora, caso o liberou geral prevalecer, serão mais de 120, correspondentes ao investimento do PAC e ás desonerações. Esse valor é superior à meta cheia. So what? (em original no texto) E daí? Daí, que não há mais sentido em falar em meta do primário. A meta será cumprida sempre, já que poderá sofrer abatimentos de 100% do valor. E por que não mais? Para que parar se estamos num caminho tão bom?

Mais fácil seria reconhecer que no ano X não houve superávit e partir para outra, mas seria tolher a criatividade daqueles que imaginaram tão bela manobra. A quem enganará?

A resposta ainda não está clara.

Portanto a iluminação do poste viria em boa hora, sem necessidade de esperar a virada do ano. Admita-se o não cumprimento, afinal e meta não pode virar um eterno espartilho e, abandonando os esqueletos para as escolas de medicina, que se parta para uma administração responsável. Alguém falou em LRF. A exemplo de Scarlett O´Hara, nisso pensaremos amanhã.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Há quem não tenha gostado. Bobagem. A voz do povo... já sabem, o povo é ventríloquo. É possível duvidar do processo, partir para teorias conspiratórias e, raciocinando, menos com o cérebro e mais com o fígado, indignar-se. Ah, as urnas estavam pré-programadas, as pesquisas foram fajutadas etc. Nada disso irá resolver. Estamos (ainda) numa democracia, logo... parafraseando Millôr: “ Livre desconfiar, é só desconfiar”.

Mesmo conhecendo-lhe os pujantes antecedentes, espera-se que a oposição desempenhe, diferentemente do que que nos acostumou nos últimos 12 anos, um papel menos ridículo. Oxalá. Partir para o “fora Dilma” seria repetir, trocando os papéis, o “fora FHC” do glorioso Tarso Genro, uma aberração entre tantas outras, como os “apitaços” comandados pelo José Genoíno no Congresso, ou o recente abraço à Petrobrás, como se houvesse ainda muito que espremer da nossa ex estrela.

Antes de prosseguir, um pensamento digno do Conselheiro Acácio: “O papel da oposição é fazer oposição”. Querer passar a limpo Pasadena e outras Refinarias Abreu e Lima é obrigatório. Ah, e os escândalos de vocês? Vale lembrar que a exemplo do jogo de buraco (palavra desastrosamente colocada), o Brasil ganhou uma nova divisão “Nós” e “Eles”. Ora, tudo deve ser investigado na república dos grampos e dos vazamentos.

Sem querer tisnar a vitória da presidente, ou presidenta, como queiram, tecer algumas críticas mal algum faria. Apesar de ela já ter dito que em campanha eleitoral vale fazer o diabo, nem que a vaca tussa – citando a mesma fonte –, faz sentido aplaudir os meios utilizados.

Desconstruir a imagem do oponente, não de um inimigo, apenas um adversário já não é elogiável. Agora desfilar o rosário de mentiras utilizadas chega a ser deprimente. Atribuir ao “inimigo” intenções torpes é uma manobra reprovável, para usar um eufemismo. Basta lembrar do filmete relativo à independência/autonomia do BC que faria sumir a comida da mesa da população para indignar-se, e, polidamente, achar “feio”. Colocar gráficos – que falam mais que mil palavras – com escalas distorcidas para ilustrar uma desconcentração vertiginosa de renda, quando não foi o que de fato ocorreu foi no mínimo uma desonestidade intelectual. O refrão: quebraram o País três vezes, é uma frase que possui um toque bíblico algo, com todo o respeito. O país não quebrou, foi ao FMI duas vezes. Nem vale argumentar que a primeira foi herança do calote de Sarney e a segunda foi dinheiro para ajudar o governo Lula1.

Declarar que foram retiradas da miséria 35 milhões de pessoas, quando o número mais correto seria menos de um terço do valor declarado seria um “superfaturamento” tão em voga hoje – e por que não dizer no passado?

Seria pura insanidade contestar que houve progresso ao longo desses últimos 12 anos, assim como seria panglossianismo puro achar que nada de melhor poderia ter sido feito. Não vivemos no melhor dos mundos.

Os “idiotas da objetividade” na expressão de Nelson Rodrigues poderão e deveriam ter colocado um bemol nas declarações triunfalistas que poluíram a campanha eleitoral. Agora, já era.

Como deixar de associar o “renascimento da indústria naval nacional” ao lançamento do famoso João Candido, recolhido às pressas para evitar que a cerimônia se transformasse numa triste comemoração de um naufrágio?

O que dizer de algumas obras do PAC que estouraram prazos ou sequer saíram do papel, ou alguém acha que a transposição do “velho Chico” foi concluída dentro do cronograma. Ah, ainda não foi? Paciência. É provável que a obra termine antes da entrada em operação do trem-bala que nem licitado foi.

Para falar em aceleração do crescimento diria o senhor La Palisse, antecessor do famoso conselheiro, ao qual associam-se a emissão de obviedades, é necessário haver crescimento. Diria um matemático amador: ”Vamos cuidar da derivada primeira, antes de trombetear as maravilhas da segunda”.

Isso nos leva ao tal crescimento, que se resumiu, nos últimos quatro anos, a miseráveis “pibinhos” e se 2014 for tão ingrato quanto parece, decorridos dez meses do último ano quadriênio Dilma I, poderemos chegar à triste constatação de ter havido uma evolução pífia do PIB per capita. Decréscimo? Seguramente em 2014. Como a busca de culpados é o passatempo predileto no Olimpo presidencial, a culpa será das capitas. Esses velhinhos que se eternizam e ainda contribuem com sua teimosa longevidade a aumentar o buraco da (im)Previdência! Isso sem contar com a conjuntura internacional. Ficou combinado que quando ela for favorável, os méritos serão nossos e quando o oposto se verificar, será essa tal conjuntura a causa dos nossos problemas. Novamente, os idiotas da objetividade observarão timidamente que outras economias ditas emergentes conseguiram taxas superiores às nossas, mesmo em tempos bicudos. Alto lá! Não somos (ainda) uma economia “submergente”.

Na campanha eleitoral, os vencedores insistiram nos tais novos rumos da economia como se de repente, por um passe de mágica houvessem criado uma oposição dentro da situação .”Faremos melhor”. Bem, é o que se espera.

Enfim, águas passadas.

À guisa de consolo, citarei um amigo que se me der a honra de ler essas traçadas mal linhas, haverá de reconhecer sua sentença definitiva. “Ninguém quebra um país”. Portanto não é o caso de lembrar o “Finis Poloniae” do herói Tadeusz Kosciuszko. A Polonia não acabou. Continuou viva, tão viva que ainda hoje há quem se lembre das famigeradas polonetas. Nada de “Finis Brasilis”, portanto. Talvez sejamos menos contraciclicos no futuro e pronto. A presidente do clube já demitiu (aceitou uma demissão sem dar tempo ao interessado apresenta-la) o pobre Mantega, por tabela alçado à função de pai do fracasso e alvo dos “fracassomaníacos” (ops, essa é do outro”).

Agora vamos nos preocupar com a regulamentação da mídia, reacionária, sectária conservadora por definição e vamos caminhar a passos largos colhendo os elogios da nossa mídia progressista. Sem o direito de criticar, não há elogio válido, disse outrora Beaumarchais. Em francês soa melhor. O PT deseja ser hegemônico. Prolfaças!

Poderemos presenciar a criação dos conselhos populares, poderemos também fazer algumas contas, como por exemplo: como é que los Hermanos de Cuba têm para exportar mais 10.000 médicos para o Brasil além dos 30.000 existentes na Venezuela? Em 2006 – último ano para o qual achei algo no Google, havia em Cuba 60.000 médicos e em 2013 uns 380.000 médicos no Brasil. Faz sentido.10.000 em 380.000 é a solução. Se faltarem leitos e até esparadrapo, ora, não têm pão, comam brioches.

Já que faremos tábula rasa do passado, talvez cheguem ao fim as tais “pedaladas”, ou seja, o financiamento disfarçado concedido pelos bancos oficiais ao Tesouro, “conta movimento” (ops, orçamento paralelo do BNDES) e outras artimanhas destinadas a enganar não se sabe bem quem. Pedalaremos na Olimpíada. 2016 está tão longe, tudo ficará pronto a custo baixíssimo.

Somos um país sério, lhano e verdadeiro.

Algumas agências de “rating’ parecem dispostas a acreditar – parcialmente – nisso. Que não ousem mexer no nosso “Grau de investimento”. A exemplo do petróleo, o Investment grade é nosso.

E como se não bastasse, estamos abertos a convênios celebrados à sorrelfa com hermanos venezuelanos, dispostos a compartilhar sua rica experiência em fomentar sublevação. Bobagem. O Itamaraty já ergueu as sobrancelhas em sinal de espanto, o que diplomaticamente deve ter um valor inestimável.

Se o pior acontecer, e sabemos que isso não passa de discurso de mau perdedor, poderemos caminhar para um pleonasmo “democracia popular’ e terminar numa onomatopeia: Ploft!, enquanto a vaca se encaminhar para o brejo.

Bem-vindos ao Dilmistão!

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade), ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´ (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

É interessante ver a interpretação de algumas frases famosas.

○ A oferta cria sua própria demanda – J.B Say

○ A demanda cria sua própria oferta –  PT

○ O limite de toda dor é uma dor maior – Emil Cioran

○ Doze anos já está de bom tamanho – Um eleitor

○ L´´Etat c´est moi – Luís XIV

○ O Estado tá aparelhado –PT

○ Après moi le déluge – Luís XV ; Madame de Pompadour

○ Depois de vocês, a aurora – Aécio

○ Do alto dessas pirâmides 40 séculos vos contemplam – Napoleão

○ Do alto da refinaria – Abreu e Lima – USD 20 bilhões contemplamos – Um observador.

○ E la nave va – Federico Fellini

○ E a nave João Cândido volta rapidinho – Um observador

○ Jamais te banharás duas vezes nas águas do mesmo rio – Heráclito

○ O Brasil não continuará na mesma ‘água’ – Torcida

○ A propriedade é um roubo – Proudhon

○ Não roubamos nem deixamos roubar – Atribuído a José Dirceu

○ Construímos 12 arenas para a Copa –  Frase ufanista

○ Só falta construir o Brasil em volta – Um cético.

○ Mehr Licht (mais luz) – Goethe

○ Segura as pontas – Ministério das Minas e Energia.

○ É possível resistir a tudo menos à tentação – Oscar Wilde

○ Relaxa e goza – Marta Suplicy

○ O mal não pode vencer o mal. Só o bem pode fazê-lo – Tolstoi

○ Votem direito – Um patriota

○ Autoplagiar-se é estilo – Hitchcock

○ Nunca antes na história desse país... – Lula

○ Deve-se temer mais o amor de uma mulher que o ódio de um homem – Sócrates

○ Será que Dilma me ama? – Pós-socrático preocupado

○ Não penses mal dos que procedem mal, pensa apenas que estão equivocados – Sócrates

○ Haja equívocos! – Eleitor de Aécio.

○ O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções – Karl Marx

○ Por sorte essa pavimentação já estourou o prazo – Um observador

○ Tudo que é sólido se desmancha no ar – Karl Marx

○ A candidatura do 13 também? – Um curioso.

○ O sábio fala porque tem alguma coisa a dizer, o tolo, porque tem de dizer alguma coisa – Platão

○ Ah esses debates – Telespectador desesperado, durante o horário eleitoral.

○ Salvo o poder, tudo é ilusão – Lenin

○ É isso aí, bicho, matou a charada! – Um observador

○ Toda cozinheira deve aprender a governar o Estado – Lenin

○ Será que não precisa aprender a cozinhar primeiro? - Um curioso

○ Os fatos são teimosos – Lenin

○ As versões então nem se fala – Um cético em relação ao marketing político

○ Só sei que nada sei – Sócrates

○ Eu sei tudo – Dilma

Alexandru Solomon, empresário, escritor

O excelentíssimo Sr. ministro com prazo de validade vencida, exercendo suas tarefas em pleno aviso prévio, chega a despertar pena com suas declarações. Profeta de um crescimento que teimou em não se materializar , especialista em apostas perdidas de antemão, arúspice amador, seguidor de Sartre ao atribuir aos ‘outros’ os fracassos da politica econômica, protagonista destemido de uma ‘guerra cambial’ imaginária, ora insurgindo-se, ora contra o ‘tsunami financeiro’ – se bem que a expressão não lhe tenha pertencido – ora contra a fuga dos capitais covardes, conseguiu um gol de placa. Na entrevista ao Estadão 19/9 B4, soltou essa pérola, verdadeira chave de ouro: “Agora que a inflação caiu, achamos que não haverá pressão no início do ano que vem..” Mil perdões Excelência, é difícil fazer previsões, sobretudo sobre o futuro – frase cuja autoria pode ser reivindicada por diversas personalidades, Mark Twain e Niels Bohr, entre outros – mas insultar o presente e falar na queda da inflação, quando o acumulado dos últimos 12 meses ameaça ficar fora da “meta ampliada”, conceito criado para criar uma ilusão quanto a eficácia do controle, é negar o óbvio no contexto da artificialidade dos preços administrados sendo ‘administrados’.

Um humorista italiano – Marcello Marchesi – falava no “Doutor Divago” ao se referir a Aldo Moro. “Morreu antes de conhecer nosso Ministro da Fazenda”.

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Foi um sofrimento imerecido, mas cada um de nós possui sua dose de masoquismo. Pelo menos estivemos 'presentes' de livre e espontânea vontade, não pegos de surpresa por uma daquelas pérfidas inserções, que atacam quando menos se espera. Como o mordomo oriental do inspetor Clousseau. A impressão que se depreendeu era que os candidatos estavam falando para a plateia, não uns com os outros. “O candidato parece ignorar que”, “a candidata omitiu...” etc.. As regras estabelecidas para o debate, a exemplo do que aconteceu em outros carnavais engessaram o debate. Pergunta, resposta, réplica, tréplica, e vamos em frente que atrás vem gente!

Considerando o horário e a audiência padrão da Band foi um desperdício de energia por parte dos candidatos, ou então apenas um warm-up para futuros embates. “Eu me pergunto: por que ninguém investigou o afundamento da maior plataforma de petróleo [P-36 em 2001]? Que custava 1,5 bilhão de dólares”. Perguntou nossa presidenta. Investigar o acidente, não parece ser uma boa ideia para melhorar a imagem da Petrobrás e, definitivamente, não foi FHC que afundou a plataforma. Na verdade, é um argumento nada desprezível a favor da privatização. O show de incidentes advoga em favor dessa ‘heresia’. Segundo informações da época do acidente, o custo da plataforma teria sido de 430 milhões de dólares. (Veja 21 de março de 2001). Havia um seguro de quase 500 milhões de dólares, cobrindo a perda, não cobrindo, porém, a produção perdida, nem a parte submersa. Não foi o caso de Pasadena, mesmo porque não há seguro contra compras desastradas, decorrentes de relatórios falhos. Tampouco não foi o caso da refinaria Abreu e Lima, por enquanto uma sinfonia inacabada. Afirmar que o valor de mercado da Petrobrás aumentou negligencia um detalhe: a famosa capitalização. O que fez a Petrobrás com o dinheiro? A cessão onerosa explica: Adquiriu 5 bilhões de barris do pré-sal. Seria exagero dizer que enterrou dinheiro lá, mas com esses recursos poderia ter evitado o seu endividamento colossal. Aqueles que compraram ações da Petrobrás com o dinheiro do FGTS estão a se perguntar onde está a tal valorização. Em algo que poderia ser considerado um ato falho da candidata a reeleição, veio a afirmação: Se plebiscito e um ato de bolivarianismo, a Califórnia é bolivariana. Então, tá. Bolivarianismo seria algo ruim, porém desculpável por existir na Califórnia. Até agora, os bolivarianos não eram um exemplo de democracia? Disse-o Lula!

E dá-lhe comparações com os anos FHC. Faltou frisar que a população do Brasil é hoje maior do que naquele período que deixou uma herança maldita a herdeiros... inábeis.

Não faltaram falas estranhas, como aquela afirmação segundo a qual os juros de nossa dívida interna engordam os banqueiros. Seria o caso de se comparar o tamanho da dívida com os ativos dos bancos... Ah... temos também a raça maldita dos rentistas... certo, esses devem ser enquadrados por terem dinheiro aplicado. Parece que o problema, na visão de dois dos debatedores é o monetarismo. Pobre Milton Friedman!

A ideia democrática de juntar ao “trio de ferro” os divertidíssimos nanicos – que até desempenharam com brio seu papel – surtiu o efeito soporífero esperado. “A mim ninguém pergunta nada”, suspirou a candidata do PSOL... Bem feito para nós, pobres mortais! Quem mandou ficarmos acordados? Pobres dos telespectadores, isso sim!

Apesar de ter havido inúmeras alusões à mudança, nas suas diversas modalidades, em discursos que precederam o debate, nada se falou na tal mudança, talvez para evitar que telespectadores meio adormecidos não pensassem tratar-se de um comercial da Lusitana, aquela que roda, enquanto o mundo gira.

Cada vez mais fica evidente que a existência da TV paga é uma alternativa indicada para as noites de insônia do eleitorado.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de “Almanaque Anacrônico”, “Versos Anacrônicos”, “Apetite Famélico”, “Mãos Outonais”, “Sessão da Tarde”, “Desespero Provisório”, “Não basta sonhar”, “Um Triângulo de Bermudas”, “O Desmonte de Vênus” (Ed. Totalidade) , “Bucareste” e ´´A luta continua´´ (Ed. Letraviva). E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Alguns prédios já nascem feios. O tempo apenas acentua-lhes a feiúra. Não era o caso daquele edifício, no bairro do Bixiga. Ele já tivera seus dias de esplendor. Um elevador vetusto, com porta pantográfica, levou-me de maneira hesitante ao quarto andar. No corredor mal iluminado, pude distinguir algumas portas, cuja tinta descascada emprestava um tom de aflição ao cenário. Segui as instruções e toquei a campainha do “último apartamento do lado direito de quem sai do elevador”. Um toque. Nada. Insisti e percebi que, pelos ruídos vindos do outro lado da porta, algo estava acontecendo. “Já vai”. A porta se abriu, e um sujeito alto, magro, com vasta cabeleira branca atendeu. O rosto impressionou-me pelas rugas profundas que o sulcavam, bem como pela barba grisalha, por fazer. Não usava óculos e lembro-me, como se fosse hoje, de como o azul claro dos olhos iluminava-lhe as feições. No mais, a aparência combinava com a do imóvel.

Convidou-me para entrar. De relance, notei a calça de flanela um pouco puída. A camisa esporte de mangas compridas, sem dúvida fora elegante num passado remoto; agora, apenas impecavelmente limpa, com um colarinho de longas pontas. Hoje, posso dizer que ele nutria uma firme preferência por esse tipo de colarinho. O que mais me impressionou, naquele momento, foi o ar de tristeza que seu sorriso traía.

— Então, o que o traz? — perguntou o dono do sorriso enigmático e dos faróis azulados.

O que me trazia? Ora, não havia mistério. Sempre fora bom aluno, o melhor da turma. O motivo era um prosaico sete na prova de matemática. O efeito daquela nota fora semelhante a uma explosão nuclear. Minha mãe me aconselhou a nada dizer, ao menos por enquanto. Senti, no entanto, que deveria contar a meu pai. Assim fiz, com todos os cuidados, sem deixar de mencionar ter sido minha nota a melhor da classe. Não tive direito a circunstâncias atenuantes. Primeiro, ele quis ver a prova. Simplesmente, não tinha respondido a uma pergunta, que valia três pontos. Hoje, decorridos tantos anos, ainda me lembro do malsinado problema. Algumas equações e lugares geométricos definiam um paralelepípedo cortado por dois planos que nele penetravam como uma cunha. O enunciado pedia determinar o volume do sólido menor. Bastaria ter visualizado a continuação dos cortes, que criavam uma espécie de telhado de casinha. Com o emaranhado dos traços, isso não era tão simples.

— Pai, esse problema caiu no vestibular do ITA.

— E daí? A prova se dirigia a seres normais, sendo que você ainda teve o benefício de não sentir a tensão do vestibular. Veja como é fácil. — Fácil não era, pois depois de mais de uma hora nossos esforços somados nos levaram a consultar um livrão de problemas dos Frères Jésuites e desistir. Papai decidiu: “o menino precisa de umas aulas de reforço”. Restava saber de onde viria esse auxílio neuronal. “Filho, se ele ainda vive, irá conhecer um sujeito fabuloso. É um lituano...’Palauskas’ qualquer coisa assim. Foi meu professor de Descritiva. Era simplesmente impressionante”. Uma rápida procura na então confiável lista telefônica e,lá estava eu...

— Então, menino? Vamos começar pelo começo. Sente-se ali e comece contando seu nome. Dirigiu-se para o fundo da sala e puxou uma cortina de plástico, segura por argolas de madeira, de maneira a esconder o que devia ser o quarto. Com gestos rápidos retirou uma porção de livros e papéis de cima de uma mesa de madeira trabalhada, com tampo de mogno, como eu ainda não tinha visto. Sentei numa cadeira forrada de veludo, que um dia fora azul, azul que, com o passar dos anos, tinha virado cinza-escuro, enquanto ele puxava um verdadeiro trono, uma cadeira de espaldar alto com descanso para os braços. Tive tempo de examinar a formidável desordem que reinava no quarto. Nas paredes, alguns quadros que não me causaram impressão nenhuma, num canto, uma cristaleira sobre a qual, entre livros e algumas peças de prata, tronava um jogo de chá bastante heterogêneo, composto por sobreviventes de diversos conjuntos. Enquanto procurava o que dizer, ouvi um rosnado partindo de algum canto da sala.

— Não tenha medo. É o Gauss. Aqui, Gauss! Além deste professor, ainda terá o auxílio do “principe dos matemáticos”. – Gauss era um enorme mestiço de pelagem preta reluzente. Interpretando algo equivocadamente a ordem, veio primeiro na minha direção e colocou a cabeçorra no meu colo. Gelei. Fiz menção de recuar, mas desisti, ao ver que Gauss estava abanando o rabo sem que nada fizesse prever a existência de qualquer intenção assassina.

— Tenho um pouco de medo.

— Bobagem. É só tamanho. Ele é tudo que me resta. Vamos ao seu problema. Seu pai me contou em detalhes o acontecido. Por fone, já puxei a orelha dele. Onde já se viu um bom aluno meu não matar um probleminha banal? — Deu uma breve risada, interrompida por um acesso de tosse seca — Ia dizer alguma coisa mais?— perguntou com os olhos marejados por causa do esforço.

— O professor mesmo disse que era um problema e tanto. A semana que vem ele resolverá em classe. Ninguém matou.

— Se ninguém matou, vamos nos resignar? Belo argumento de perdedor. O único problema importante é o da nossa existência, que se guia pelos axiomas mais disparatados, isso sim. Como afirmar que uma prova não é banal? Sejamos sérios, ora — não parava de sorrir; aquele ar triste era o que se poderia esperar de um “professor de melancolia” — Vamos ao enunciado do enigma. Sabe como deve proceder para solucionar um problema?

— ...

— Deve ler o enunciado.

— Sim, é claro.

— Muito bem. E depois?

— Tentar resolver, não?

— Ainda não, deve reler o enunciado. Diferentemente do que acontece na vida, do nosso dia-a-dia repleto de informações irrelevantes, prontas para mascarar as verdadeiras agruras, nos bancos escolares, os enunciados são enxutos. Não há informações desnecessárias. Então, depois de ler uma segunda vez, o que fará?

— Vou resolver..

— Ainda não. Vai parar, vai pensar, talvez até, relerá mais uma vez. E aí, sim. Seu pai, fominha, como quando era meu aluno, não agüentou, ligou novamente e me passou o enunciado pelo telefone antes de você vir. Agora ele sabe a resposta, mas saiba que o fiz ler duas vezes o enunciado e que ele encontrou, sozinho, a solução. Vamos? — Poucos minutos depois, a única coisa que não entendia era como tinha sido possível não encontrar a solução que saltava aos olhos. O resto da aula foi um tiroteio cerrado, do qual me saí bem. Gauss ficou dormindo a meus pés. Só levantava a cabeça, quando o dono começava a tossir, tornando a abaixá-la, passado acesso.

— Professor, o que acha?

— Não acho nada. Meu papel não é achar. Faz muito tempo que não procuro e não acho mais nada. Vamos ver como você irá enfrentar o livro de Petersen.— Já conhecia o livro, terror das aulas de geometria do “Tirano”, apelido ao qual o professor de matemática fazia jus com sobra. Avançamos pelo livro até que o professor deu a aula por terminada. Ao voltar, papai me acolheu sorrindo.

— Ele é fantástico, não achou?

— É sim — faltou pouco para dizer-lhe que não achava nada, que estava simplesmente entusiasmado — Com ele, tudo fica ridículo mesmo. Fica parecendo tão simples.

— Era um professor notável. Tem livros publicados. Ele lhe mostrou?

— Não.

— É bem o jeito dele. Típico. Não mudou nada. Gostaria muito de revê-lo.

— Por que diz isso?

— Nunca vi uma pessoa mais desprendida de valores materiais. Fuma como chaminé e o resto que se dane. Dizem que bebia, mas isso não sei. Tenho medo de revê-lo, prefiro guardar a imagem que ficou na minha mente.

— Ele é bem velho. Não fuma mais. Talvez tenha razão pai — opinei na qualidade de psicólogo improvisado.

— Largou o cigarro? Também preciso parar com isso... Tenho de criar vergonha na cara.

As aulas continuaram, até que numa tarde, tive um choque ao entrar. Ele havia bebido. O cabelo em desalinho, o olhar turvo, o sorriso apagado.

— Quer que venha outro dia, professor?

— Não. Talvez não haja outro dia. Vamos conversar um pouco. Não estou matando a aula. Nada lhe cobrarei. Poderia me fazer um grande favor?

— Sim, claro.

— Não tenho força nas pernas e alguém tem de passear com o pobre Gauss. Depois quero que pegue o livro de Petersen. É meu presente para você. Está cheio de comentários, anotações e de soluções alternativas. Talvez alguns rabiscos meus lhe serão úteis. Acho que você será meu último aluno. Não faça essa cara, nada vai me acontecer. Apenas penso em parar de dar aulas, para poder tossir mais à vontade.

— Professor, não acho engraçado.

— Por acaso a vida é engraçada? Agora, leve o Gauss. A faxineira não veio, e o “príncipe dos matemáticos” está sem sair faz quase vinte e quatro horas. Tenha pena dele. Ah sim, não use o elevador, tem gente histérica no pedaço. Mal fiz menção de apanhar a guia, e Gauss já estava de pé, abandonando sua pose de filósofo em busca da verdade suprema. E quem disse que ele queria sair? Naquele momento tive a demonstração do que significa obediência. Bastou um estalar de dedos do dono, para que o cachorro me seguisse confiante.

O passeio durou uma boa meia hora, talvez um pouco mais, com direito a pausas junto a determinados postes. Parecia inteirar-se das mensagens deixadas pelos seus semelhantes e a todas respondia. Concluída a operação “alívio” Gauss começou a puxar em direção â casa.

Lá chegando, fiquei surpreso com a total mudança ocorrida nesse escasso intervalo de tempo. O mestre parecia totalmente sóbrio, cabelo arrumado, barba feita, recendendo a loção pós-barba; era outra pessoa.

— Vamos ter aula, ou vamos papear, meu jovem?

— Como quiser.

— Odeio aborrecer os outros com minhas lorotas, mas hoje creio que deva falar com alguém. Quase não saio de casa. Ao menos faz dois anos que não saio, a não ser para fazer companhia ao Gauss.

— Mas deveria.

— Pode ser. Pode ser. Não se surpreenda com o que lhe direi. Acho que nada mais tenho que fazer por aqui. Nunca fui rico, sempre gastei até o último tostão. Mas tinha uma razão de ser. Não, não fui irresponsável para colocar no mundo outros infelizes, não. Havia alguém que dava um sentido à minha vida. — Apontou para um retrato em cima da cristaleira. Nunca vira esse retrato antes. — Sei que nunca viu esse retrato, pois ele sempre esteve no meu quarto, mas agora ela está me chamando e pediu para me ver saindo de casa.— Fiz menção de levantar, mas com um tom de voz, que, por mais que me esforçasse, não saberia descrever, ele me pediu. — “Deixe-a em paz. À medida que envelhecemos, precisamos cada vez mais nos sentir em segurança ao abrigo de perigos. Quando ela se foi, já faz dois anos hoje, tudo deixou de fazer sentido. Percebi que não há segurança alguma, que as certezas mais se assemelham a dúvidas e, que o ato de fechar os olhos não passa de um ensaio geral. Estou doente e não faço o menor esforço para procurar auxílio médico. Por ela tinha parado de fumar, mas hoje vou fumar um bom charuto, lembrança de outros tempos. Levava cada bronca por causa dos charutos, menino, nem consegue imaginar. E agora, nada! A equação da minha vida já não admite mais uma raiz real. — Acendeu o charuto—. Essa tosse, que você ouviu, é uma tosse cardíaca. Devo estar com um belo entupimento das coronárias.Elas reclamam sempre que faço algum esforço. Gauss sabe disso e nunca me puxa na rua; seria incapaz de acompanhá-lo. É claro, que uso o elevador e ele vai pela escada, chega antes e me espera sentado. Ele é bem esperto... Quando seu pai me ligou, eu já estava enclausurado aqui, sem nada fazer e foi uma espécie de desafio dar o empurrão do qual você necessitava. Sinceramente — olhou novamente em direção ao retrato, soltando uma baforada avantajada — depois que ela se foi, quando faço a barba e passo a mão no rosto, tenho a impressão de tocar o crânio do futuro defunto. Eis a razão pela qual me viu tantas vezes com a barba por fazer. Alguém disse certa feita ‘Já que sabemos de maneira absoluta que tudo é irreal, não há motivo para darmo-nos ao trabalho de demonstrá-lo’. Vemos a passagem das horas; isso vale mais do que tentar preenchê-las. Um dia, mesmo que não me dê razão, poderá, ao menos, avaliar melhor essas verdades, que apunhalam toda vontade de se apegar a algo, que para mim já não faz mais sentido. Não há expressão matemática capaz de retratar meu desespero. Durante dois anos — já disse que hoje esses dois anos se completam, se insisto na repetição, não o faço por demência senil, creia; é apenas uma tentativa de persuadir-me de que...— tentei descobrir uma razão de viver. Não encontrei. Assim como não pude explicar o porquê do meu nascimento, não encontro mais motivo algum para prolongar minha existência. Não amaldiçoei o fato de ter nascido; até dois anos atrás vivi na ilusão de ter encontrado a felicidade. Bastou que algumas células do corpo dela passassem a crescer de modo desordenado, para que pudesse entender o quanto tudo é efêmero. O que sei agora, passados setenta anos de vida, já intuía aos vinte. Passei cinquenta anos, mergulhado em divagações estéreis, atrelado a uma tarefa supérflua de verificação. Sempre que me detive diante da presença hipnótica do vazio, a presença da minha mulher fazia-me retomar o gosto pela vida. Não foi só ela. O que me animou, também, foi poder rebocar meus alunos a caminho de uma sabedoria restrita. É isso. Você, menino, terá sucesso no futuro. Procure afastar para bem longe essa poção amarga que lhe ministrei. A vida é o lugar geométrico de alegrias situadas a uma distância tal que, escolhida uma grandeza qualquer, ela será sempre inferior àquela que o separa da verdadeira felicidade. A recíproca do teorema existe, mas sua demonstração é impossível. Se você estiver muito longe da felicidade, está vivo. E o corolário que nos mantém firmes é que há momentos em que pensamos ser felizes e vivos simultaneamente. Aproveite-os. No mais, pensar é sofrer. Console-se. Há dois anos, achava tudo que acabei de lhe dizer rematada estupidez. Essas reflexões são bem recentes. Meu olhar retrospectivo é uma impostura intelectual. Não se fie no que minhas palavras afirmam, procure o que elas ocultam. Antes de chegar ao meu desânimo, lute bastante. E para começar, resolva os problemas do Petersen. Talvez nos vejamos na quarta-feira que vem. Sinceramente, duvido.”

Na tal quarta-feira, encontrei a porta aberta. Entrei. Ninguém. Ouvi apenas o ganido de Gauss. Afastei a cortina de plástico, e lá estava o professor, deitado na cama, pálido, o peito agitado por uma respiração irregular, uma das mãos apoiada na cabeça do cachorro. Apavorado, saí gritando por socorro. Liguei para casa, para saber como pedir uma ambulância. Ele acenou apara mim. Tentava dizer algo. Aproximei-me dele e ouvi: Gauss. Leve Gauss. O cachorro não queria se mexer. O professor estalou os dedos. Depois de ver o cachorro pronto para me acompanhar, olhou para mim, com olhar turvo e... acho que estalou os dedos mais uma vez... para mim...

Gauss ficou comigo mais alguns anos. Até hoje conservo o livro de Petersen.

(*) Do livro ´´O desmonte de Vênus´´, Ed. Totalidade

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de “Almanaque Anacrônico”, “Versos Anacrônicos”, “Apetite Famélico”, “Mãos Outonais”, “Sessão da Tarde”, “Desespero Provisório”, “Não basta sonhar”, “Um Triângulo de Bermudas”, “O Desmonte de Vênus” (Ed. Totalidade), “Bucareste” e “A luta continua” (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Momento mágico. A expressão surrada descrevia com perfeição o instante de enlevo. Embalado pela barulheira ensurdecedora reinante na boate Hullabaloo, escravo dos decibéis à solta, no ritmo do Black is Black, pobre tautologia e sucesso barulhento do momento, estava pulando feito mico de circo em frente à Camila. A luz negra tornava infernalmente atraente a jovem.

Com 18 anos incompletos, fora um tour de force entrar na boate. Uma generosa gorjeta, discretamente colocada na mão do Cérbero de plantão, uma carteirinha do grêmio da faculdade, surrupiada do irmão, bem como o penteado alto, ressaltado pela maquiagem pesada de Camila, tinham sido o passaporte para a boate do momento de São Paulo. A gritaria alcançou níveis inimagináveis, quando os alto-falantes inundaram a pista diminuta com o sucesso dos Four tops: Reach out.

A luz estroboscópica passou a piscar, criando a ilusão de movimentos entrecortados...to give you all the love you need... Para dar-lhe todo o amor de que precisa... urrava o conjunto... Tudo era magia naquela noite de 1967.

Um mês antes, conseguira superar a timidez e balbuciara um inaudível ‘te amo’, enquanto passeavam, suprema ousadia, de mãos dadas, morrendo de medo de encontrar algum conhecido.Teve como resposta um beliscão e uma risada da Camila. Existe melhor confirmação? Isso os tornou namorados firmes. Não era pouca coisa. Ele até fora apresentado aos pais de Camila, um casal simpático e abastado. Acompanhar a namorada depois das aulas, os levou à constatação de que, se o caminho mais curto entre a escola e o lar era uma linha reta, de longe a melhor alternativa era seguir um trajeto tortuoso. Falavam de tudo e de nada. Não raro, os silêncios eram mais eloqüentes que a troca de banalidades. Sérgio a olhava de soslaio e se encantava com a visão do rosto regular de pele acetinada no qual brilhavam imensos olhos verdes. A imagem o perseguia durante as aulas, de noite logo antes de adormecer e, pasmem, até quando saía com os amigos, para tomar uma Coca Cola no Chic Chá, um bar diminuto, vizinho da escola, e que vivia sempre cheio. Por mais que quisessem, não conseguiam se isolar dos amigos, afinal a turma deles com poucas baixas ou novas adesões fora a mesma nos últimos dois anos. A boa companhia muitas vezes vira estorvo quando a vontade é beijar. O primeiro beijo ocorreu no elevador do prédio dela. Foi o primeiro de muitos.

Naquele sábado, ela contara uma mentirinha em casa. Iriam com o grupo de sempre ao Urso Branco e ela estaria de volta ‘sem falta’ pouco depois da meia-noite. O álibi foi montado, com a total e unânime cumplicidade do resto da turma, que iria jurar, se necessário fosse, que estiveram em companhia deles. Era quase verdade. O detalhe omitido era que Sérgio e Camila iriam se deter no início da Avenida Santo Amaro ao invés de cumprir o roteiro prometido. Alguns quarteirões separariam o fato da versão.

Lá estava o casalzinho na boate, sentados, durante um intervalo entre músicas, tomando, ele um uísque intragável, bebida com a qual não estava acostumado, ela um Alexander, a consumação mínima, suficiente para ‘detonar’ a mesada de Sérgio. De mãos dadas, era como se o mundo exterior deixasse de existir. Com a cabeça no ombro dele, ela murmurou:

– Estou tão feliz. Gostaria tanto de poder... Ela se deteve.

– Diga.

– Nada, bobinho. Um beijo completou-lhe o pensamento. Ele a abraçou e nada na galáxia passou a importar. O abraço se tornou de parte a parte mais voraz. Sabiam muito bem o que isso significava. Com um suspiro, ela se desvencilhou.

– Está ficando tarde.

– Só mais um pouco.

– Já passa de meia-noite.

– Eu sei. Quero tanto...Não ousou dizer o que tanto desejava. Nem era preciso. Tornou a beijá-la. A música recomeçou. Era uma seleção um pouco mais lenta, permitindo que a pista fosse invadida por pares enlaçados. Sitting in the dark of the bay...Pois é, e que tudo mais fosse para o inferno, pensava Sérgio. Por nada no mundo teria trocado a sensação do rosto dela colado no seu. Quando ela lhe beijou o pescoço, viu mil luzes se acenderem naquela escuridão. Passos miúdos sem a pretensão de sair do lugar. Com muita indulgência aquilo poderia ter sido chamado de dançar. Camila foi a primeira a romper o sortilégio.

– Não.

Era um pobre não, mas estava decretada a volta à superfície, depois do mergulho. Sérgio ficou surpreso com a tonalidade da própria voz, quando implorou.

– Agora, deixa...

– Temos de ir. Prometemos.

Foram caminhando abraçados como bêbados. Ébrios de paixão. Pasmos com a própria ousadia. Uma vez no Gordini, cedido pelo irmão de Sérgio, as últimas resistências dela pareciam fadadas ao desaparecimento. Não bateram o carro por pura casualidade. Finalmente, estacionaram. O último beijo. Carícias, desajeitadas talvez, mas arrebatadoras, enquanto, submissos, cediam à fantasia dos seus corpos.

-Não, Sérgio. Estou com medo. Aqui não...é muito tarde. Mamãe pode estar na janela; daqui não posso ver...

– Nem ela pode ver...

– Mas vai ver o carro.

– Não sabe de quem é...

– Mas vai me ver saindo dele...

– Jura, então, que no próximo sábado...

– Sim.

– Diga: eu juro.

– Tá bem.

– Diga.

– Eu juro.

– Promete?

– O que você quiser.

– Sábado que vem?

– Com certeza.

Não houve ‘sábado que vem’. Ao menos, não como eles imaginaram. O pai de Camila teve de deixar o Brasil às pressas. Na quinta-feira Camila não apareceu no colégio. Soube-se depois que o pai de Camila pagara com um precipitado exílio voluntário o preço dos chamados ‘anos de chumbo’. Circularam inúmeras versões. Fato é, que nunca se soube a verdade. Pouco importava. Estava decretado o fim do momento mágico. Durante alguns meses, chegaram cartas de Camila. Estavam em Lisboa. Breve, voltariam ao Brasil. Ela o amava. O amaria para sempre. Queria notícias. O endereço da remetente era Rua da Padaria, em Lisboa. Para lá voaram epístolas, cujo conteúdo teria sido melhor aproveitado nos trabalhos escolares sobre diversas correntes literárias. Houve uma passagem pelo realismo, substituído gradualmente por um romantismo cada vez mais desprovido de foco. Por fim, as cartas escassearam, até que as últimas missivas de Sérgio ficaram sem resposta. Um ‘para sempre’ que se eternizasse por alguns meses era mais do que razoável, resignou-se Sérgio. Mas a lembrança continuou a fustigá-lo. A fantasia alojou-se-lhe na mente, para nunca mais abandoná-lo.

***

De pé, no metrô, Sérgio fitava com ansiedade o desfile das estações: Trocadéro, La Muette, Pompe, Ranelagh... Durante sua estada em Paris, para participar de um congresso patrocinado pela Bouyghes, empresa relacionada com a dos seus patrões, o sobrenome de Camila fora pronunciado por um dos anfitriões do evento. Coincidência ou não, a mente de Sérgio deu um pulo de vinte anos para trás. A lembrança insepulta lacerou-lhe a alma. Não poderia ser obra do acaso. Quantas famílias Antanças haveria em Paris? Abandonou a palestra e, com um terminal Minitel, localizou o único possuidor do sobrenome, em Marly-le-Roy. Telefonou e conversou com a mãe de Camila. Ela mal se lembrava dele, mas não criou dificuldades em lhe dar o telefone da filha. Camila estava bem, era casada, arquiteta, feliz. Com toda certeza ficaria encantada em conversar com um amigo brasileiro. Nunca mais haviam voltado ao Brasil. Talvez um dia. Sérgio se despediu e enquanto teclava o número, a cada toque sentia um calafrio. Atenderam.

– Alo, oui.

Era a mesma voz.

– Camila, sou eu Sérgio.

– Sérgio? Que Sérgio? Sérgio! Ça alors! Que surpresa! Onde está você?

– Estou em Paris, por alguns dias. Gostaria muito de ver você.

– Claro, podemos almoçar juntos amanhã?

– E se for agora, já?

Ela riu.

– Bem, então venha em casa. Moro na Rue du Ranelagh – e deu o número. Fica pertinho da estação de metrô. Achará com facilidade. Conte-me, como está você?

– Estarei aí em meia hora, no máximo. Aguarde.

– É claro que aguardarei. Preste atenção. Há um código a ser teclado na entrada: 536. É no quarto andar. Bisous.

Que droga, ela mandava beijos em francês, pensou divertido. Seria essa a única mudança? Melhor pensar em outra coisa, decidiu. A caminho do metrô, entrou numa doceira e de lá saiu com um pacote de chocolates sortidos. Estava realmente nervoso, tanto que foi um drama resolver que tipo de bombons iria levar. Uma vendedora objetiva e mal-humorada se encarregou de encurtar o processo de escolha. Durante o trajeto ficou observando os passageiros do metrô. Sentados, liam indiferentes, enquanto a mente dele dava pulos. A esperança louca de reviver a continuação de um instante sempre presente na memória, não lhe dava paz.

Empacou em frente à entrada do edifício. Respirou fundo e, instantes depois, cumprido o ritual, acionava o botão da campainha do apartamento, como nos bons velhos tempo: três toques, sendo o do meio mais longo. Será que ela lembraria? A maçaneta girou e lá estavam eles frente a frente. A mesma silhueta esguia, o sorriso, o incomparável olhar cor de esmeralda. Ela pareceu-lhe imune à ação do tempo. Apenas o tailleur nada tinha a ver com os vestidos de um outro tempo, com os quais ela o visitara durante tantas noites de insônia.

– Querido, que surpresa maravilhosa! Entre. Mi casa es su casa. A mesma fórmula. Nada mudara, felizmente. Trocaram dois beijinhos no rosto. Infelizmente, algo mudara. Entraram na sala, cuja mobília moderna o impressionou. Pernas trêmulas, desabou no sofá que ela lhe indicou, enquanto Camila ia e vinha trazendo guloseimas. Sentada a seu lado, desatou a falar. Em menos de dez minutos, Sérgio teve o retrato completo de duas décadas. A saída clandestina, passando pelo Uruguai, o exílio em Lisboa, o drama da imigração, a falência e a depressão do pai, a nova vida em Paris, a faculdade, casamento, o filho que estudava num colégio próximo o Claude Bernard. Sim, ele deveria chegar dentro de no máximo duas horas. Em momento algum Camila fez referência a Sérgio. Ela continuou falando, mas ele não a ouvia mais. Estava perdido na contemplação de uma ilusão que se desmanchava, ali, à sua frente.

Arriscou uma pergunta, mesmo sabendo qual seria a resposta:

– Camila, você pensou em mim, alguma vez?

– Ah, querido, muitas vezes. Éramos tão crianças. Conte um pouco de você. Fiquei falando sem cessar. Diga-me: O que faz. É feliz? Mostre-me fotos de sua família. Não vai me dizer que não trouxe. Nunca lhe perdoaria isso.

Tirou a carteira do bolso e por momentos ficaram vendo as fotos. Meus filhos, minha mulher, o cachorro, minha mulher e eu...Camila olhava: ‘Que belo cão! Sabe, tivemos um Collie...’

O que mais poderia esperar? Para ele, num recanto secreto da alma, construíra um paraíso em miniatura. Esse permaneceria. Nada e ninguém abalroaria essas muralhas. Infelizmente, estaria condenado a visitar, sempre só, aquele recanto de uma felicidade, cujo segredo a mais ninguém pertenceria. Iludira-se por instantes, ao imaginar que o tempo cometeria a loucura cúmplice de se deter e que lhe seria dado conseguir obstar a marcha inexorável dos ponteiros do relógio. A máquina do tempo havia triturado de maneira desigual. Apenas ele poderia sonhar doravante com o ‘sábado que vem’. Breve iriam se despedir com um insosso ‘bisous’.

– Agora, mostre-me as fotos de vocês.

(*) Do livro “Sessão da Tarde”, Ed. Edicon.

AlexandruSolomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de “Almanaque Anacrônico”, “Versos Anacrônicos”, “Apetite Famélico”, “Mãos Outonais”, “Sessão da Tarde”, “Desespero Provisório”, “Não basta sonhar”, “Um Triângulo de Bermudas”, “O Desmonte de Vênus” (Ed. Totalidade) , “Bucareste” e ´´A luta continua´´ (Ed. Letraviva). E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Depois que Roberto Carlos declarou peremptoriamente, que, ao entrar no carro, a solidão causava-lhe dores, houve quem, maldosamente, pas­­­sasse a conjeturar quanto às interpretações possíveis do termo. Seres insensíveis chegaram a abusar de pe­­­rífrases injuriosas, baseadas em tão comovente texto. Pois bem, irão me perdoar se eu não for deslizar pelas ondas do saudosismo, se eu deixar, mesmo a contragosto, de cavalgar metáforas batidas e se, enfim, tentar dar uma interpretação jocosa ao drama.

Para os aficionados do bem escrever isso poderá parecer um insulto. Asseguro-lhes que não é essa a intenção.

Constatar que iniciamos e concluímos nossa trajetória no planeta de maneira solitária é um equívoco. Alguém nos traz e alguém nos despacha. Ao menos uma pessoa. Quanto ao resto, cabe-nos gerenciar essa contingência. A menos que uma esmagadora maioria declare:’Não queremos a cura, queremos curtir a doença’.

Então, tudo muda de figura.Transformamo-nos em sofredores profissionais, atarefados em decifrar o enigma da nossa finitude. De tão envolvidos nessa tarefa, engordamos, envelhecemos e, se outro mal não se antecipar, enfartamos. Schopenhauer diria isso bem melhor, mas, no momento, o telefone dele está na secretária eletrônica.

Quem disser que está só, nunca pensou em olhar as ondas do mar, nunca se apaixonou por um livro, não se encantou com um cachorrinho, não amou de verdade nem ao menos procurou um encanador depois da meia-noite. Como consolo, ainda nos resta saber que nossa sombra irá nos acompanhar, ao menos em ambientes iluminados. Nossos pensamentos estarão a postos e o Fisco estará sempre presente para nos dizer que não estamos sós. Querido Leão! Para ele, jamais seremos invisíveis.

Então, caro amigo, vamos erguer um cálice de vi­­nho, para começar e vamos brindar a essa agradável tarefa: Viver.

De tão complexa nem nos deixa descobrir que estamos mergulhados na mais profunda e inextricável solidão.

De bom tom me dizem todos é chorar sem ter motivo.

Choro que se agiganta, torna-se superlativo.

Se em vez de um neurônio ao menos houver dois,

Viva a filosofia. Choro fica pra depois.

Lamentar, desconsolados, essa nossa triste sina,

É inútil, reprovável, cansativa sabatina.

Otimista por instantes, sei que não será demais.

Posso sofrer de outros males, mas de solidão...Jamais.

Pois então, ao agredir as musas e homenagear Baco, pode ser que nos seja dada a felicidade de divisar, lá longe, a famosa luz ao fim do tantas vezes mencionado túneL. Estando com a conta de luz em dia, ela não irá se apagar.

Caspite, onde estão meus leitores? Socorro! Não me deixem só! Dizem que a solidão grupal tem seus encantos, logo, vale a pena ser vivida.

Tchin,tchin.

*Do livro ´´Sessão da Tarde´´, Ed. Edicon

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico‘, ´Versos Anacrônicos‘, ´Apetite Famélico‘, ´Mãos Outonais‘, ´Sessão da Tarde‘, ´Desespero Provisório‘ , ´Não basta sonhar‘, ´Um Triângulo de Bermudas‘, ´O Desmonte de Vênus‘ (Ed. Totalidade), ´Bucareste‘, ´Plataforma G‘ e ´A luta continua‘ (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.
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Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+

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Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/



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