NATAL PRESS

Esta data já está definitivamente incorporada ao calendário. No dia 8 de março, o mundo inteiro comemora o Dia internacional da mulher. A perspectiva histórica aponta a origem da escolha, e, seria herética a separação da celebração, muitas vezes centrada na fogueira consumista, da longa história de lutas que as mulheres protagonizaram. Afinal, todas as profissões, praticamente, possuem um dia que as homenageia. Há uma profunda diferença. Seria leviano tentar equiparar o dia do advogado, por exemplo, ao Dia internacional da mulher. E por qual motivo não se instituiu o Dia internacional do homem, acrescentaria um cínico revoltado com essa injustificada discriminação. A pergunta permanece em aberto.

A segregação das mulheres, a associação da condição feminina a um nível inferior parece ter desconsiderado, durante séculos, o papel decisivo que elas sempre desempenharam. Não se tem notícia de homem ter protagonizado a função sublime de entregar ao mundo as crianças gestadas no seu organismo. Talvez, à luz dessa obviedade, faça sentido a frase de Alexandre Dumas “falar mal de uma mulher, sim, de todas, nunca”.

As sentenças que diminuíam as mulheres perdem-se na névoa dos tempos. “Nada pior que uma mulher, a não ser outra”, dizia Aristófanes. ”Cabelos longos, idéias curtas”, sentenciava Schopenhauer, para quem havia apenas dois tipos de mulheres, as enganadas e as enganadoras. Ao grande filósofo não ocorreu a possibilidade de haver a fusão desses tipos distintos.

O rótulo de “sexo frágil” procurou associar à mulher uma hipotética incapacidade de lidar com o dia-a-dia, refugiada que ela, ser meramente decorativo, objeto de devastadoras paixões, estaria num escondedouro de futilidades de onde obraria para enfeitiçar homens indefesos. “Frailty, thy name is woman”(fragilidade, teu nome é mulher) suspira um desconsolado Hamlet.

Claro está que, deixando de lado ‘efeitos especiais’ diferenças há, porém, equivocam-se aqueles que sustentam ainda hoje a dicotomia sexo forte – sexo frágil. Rotular a mulher de sexo frágil é tornar-se culpado de difamação, afirmava Gandhi.

Durante séculos, as mulheres tiveram de conviver com uma condição inferior, causada por uma divisão de trabalho que sempre as desfavoreceu. Poucas tinham acesso à uma educação melhor, cabendo à maioria o fardo da maternidade – esse inevitável – associado a condições de trabalho subumanas.

Em plena Revolução francesa, 1791, Olympe de Gouges reivindica o direito feminino a todas as dignidades e empregos segundo suas capacidades. Foi guilhotinada, dois anos mais tarde, resposta que a sociedade de então encontrou para ilustrar que o princípio da liberdade, igualdade, fraternidade possuía alcance limitado. A acusação? “Ter querido ser um homem de estado e ter esquecido as virtudes próprias do seu sexo.

Durante os séculos seguintes, as mulheres passaram a integrar a força de trabalho fabril, em jornadas que, não raro, chegavam a 14 horas diárias, durante seis dias por semana. Ao organizar um protesto contra as más condições de trabalho, pedindo uma jornada de trabalho de 10 horas, tecelãs de uma fábrica de vestuário feminino Tecidos Cotton, em Nova Iorque, foram obrigadas a refugiar-se dentro da fábrica, fugindo da polícia. As portas foram trancadas, foi ateado fogo à fábrica e, em 8 de março de 1857, 129 operárias morreram carbonizadas. A luta continuou, sendo que nos Estados Unidos o movimento por uma organização sindical foi liderado pelo setor têxtil , ressaltando-se a liderança de imigrantes judeus russos e poloneses.

Paralelamente, novos focos de tensão despontavam na Europa e nos EUA.

Em 1910 a segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas debate o tema e, a seguir, a ativista Clara Zetkin, muito ligada a Rosa Luxemburgo, propõe, no jornal L´Égalité, do qual era redatora, que o dia 8 de março fosse declarado Dia Internacional da Mulher, em homenagem às vítimas de 1857. No ano seguinte, mais de um milhão de pessoas comemoraram a data. Essa prática continuou nas décadas de 1910 e 1920.

Na Rússia, dia 23 de fevereiro de 1917, de acordo com o calendário juliano, correspondente a 8 de março do calendário gregoriano, trabalhadoras do setor de tecelagem entram em greve. Segundo

Trotsky, teria sido o ponto de partida da Revolução de outubro. Depois do triunfo da revolução, a feminista bolchevique Alexandra Kollontai persuadiu Lênin a tornar a data de 8 de março em celebração da heróica mulher trabalhadora. Enquanto no Ocidente essa comemoração perdia forças, na então União Soviética e, depois da segunda guerra, nos seus satélites, a data continuou sendo festejada.

Outra faceta da luta das mulheres foi a dedicada à obtenção do direito de voto. Em 1893 esse direito foi conquistado, pela primeira vez na Nova Zelândia. No Brasil, tal viria ocorrer em 1932 com o Código eleitoral — lei 21076 de 24 de fevereiro. Para não desmerecer o famoso “jeitinho brasileiro”, já em 1929, Alzira Soriano de Souza elegeu-se prefeita de Lages (RN).

Coincidentemente, em 1932, a delegação brasileira para os Jogos Olímpicos de Los Angeles incluiu uma mulher: Maria Lenk.

Em 1975, a ONU começou a patrocinar o Dia Internacional da Mulher, não por coincidência, durante o Ano internacional da Mulher.

Atualmente, passados os sobressaltos do feminismo exacerbado de Betty Friedan, com as queimas simbólicas de sutiãs, as mulheres se fazem cada vez mais presentes em todos os setores da atividade humana. Aquilo que era anômalo ou esporádico tornou-se normal. Se é normal que não as encontremos praticando futebol americano, não causa nenhuma surpresa vê-las presidindo um país. Não há mais atividade da qual as mulheres estejam alijadas. Desigualdades persistem ainda, embora seja possível afirmar que houve progressos gigantescos.

Pouco a pouco, é evidente a tendência de a data se tornar um evento, cuja conotação comercial tende a superar a história de lutas que a consagrou. O andar da carruagem há de reservar ainda muitas surpresas, embora algumas tendências possam ser consideradas como tendo prazo de validade indeterminado.

Por mais que se evolua nessa direção, uma evidência inarredável há de marcar para sempre. As palavras “mulher “ e “paixão” possuem o mesmo número de letras. As conclusões quanto a essa curiosidade são livres.

Ao reler o texto, percebi que acabei de me tornar culpado por excesso de objetividade. Nessa crônica deveria caber no mínimo o tradicional: "Parabéns a todas as mulheres do mundo"!

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Será ele Pinóquio, serei eu Gepetto?

Ao ver seu eleito, meu desafeto,

Conter-me prometo.

De passagem me ocorre o seguinte panfleto

De tão concreto,

Parece abjeto.

Linguajar seleto

E pouco discreto

O truão acalenta  infame projeto

Secreto.

Pretende ser vago mas é bem direto,

Envia um conto , depois um soneto

Devagar bagunçando o coreto....

Ostentando afeto,

Mas quadrado, feito cateto.

Será que politicamente correto,

Quando se diz de paixão repleto?

Desejo esmagar o maldito inseto!

Estranho dialeto

Liquidar este dejeto?

Que triunfo mais incompleto...

Represália melhor arquiteto

Pra liquidar este truque obsoleto

Ao escamotear-lhe da cobiça o objeto.

Humilhado o gajo será... por completo.

Maldade girando no espeto.

Banido por decreto,

Que não admite veto!

 

*Do livro ´´Desespero Provisório´´

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo." target="_blank">Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

É carnaval

Festival de serpentinas, já chegou o carnaval.

As escolas no desfile mostram a nossa pujança.

Derrotado foi o medo, triunfou a esperança.

Boquiabertos, os turistas pensam ver um bacanal.

Anne Krüger, Reed e Fisher todos de corpo presente

Ao som de atabaques tamborins e reco-reco

Esqueceram equações. Rogoff quase teve um treco.

O FMI se dobra ante a comissão de frente.

O desfile dura horas, consagrando o alto astral.

Distribuição de renda é assunto superado.

Jogaremos sempre duro e ninguém sai machucado.

Não importa o superávit, vale o tal de nu frontal.

Alegria contagiante.  Euforia sem barreira.

A problemas seculares , soluções vem a jato.

Já dizia o De Gaulle , nós somos sérios de fato.

O gigante se espreguiça, esperando a quinta-feira.

Do livro ´´Desespero Provisório´´, ED. Edicon


Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste`  e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Recentemente, reli essa pequena jóia de autoria do escritor vienense Stefan Zweig, aquele que se referia ao Brasil como sendo o país do futuro. Decorridos mais de 60 anos, ostentamos o mesmo rótulo, mas essa é uma outra história. O autor percorre, com sua maestria peculiar, os labirintos da mente humana, tomando como ponto de referência o jogo de xadrez. Reduzido à expressão mais despretensiosa, o jogo consiste em encurralar uma peça de madeira do adversário. Nada além disso. Trata-se, é claro, de uma simplificação, que se, por um lado tudo tem de verdadeiro, por outro lado, minimiza as tempestades mentais que estão por trás da movimentação de 64 peças sobre uma tábua quadriculada.

Eu mesmo fui um amador apaixonado por essa aventura. Isso começou quando tinha sete anos e terminou durante os anos de faculdade, durante os quais, por inércia, ainda tive algumas recaídas.

Os jogadores, que levam o jogo a sério, são seres bizarros. Muitas vezes, além do desempenho frente ao tabuleiro, protagonizam cenas estranhas. Alguns exemplos?

O campeão mundial Alekhine (vamos usar a grafia francesa, que, por definição, distorce tudo), num momento de fúria, urinou em direção ao público. Outro campeão mundial, Bobby Fisher, ao desafiar Boris Spassky em Reykjawick, profundamente incomodado com os reflexos da luz incidindo sobre o tabuleiro, declarou que não iria jogar nessas condições. Seu não comparecimento custou-lhe duas derrotas, depois das quais ministrou uma surra no detentor do título. Anos mais tarde, por razões pouco claras, deixou de defender seu título. Outro ex-campeão Gary Kasparov desafiado (e derrotado) por uma engenhoca da IBM, o tal de Deep thought (pensamento profundo), teve uma quase crise de raiva ao descobrir que numa partida que havia abandonado, ao enfrentar o computador, havia uma manobra que teria lhe garantido o empate.

Além de ser um confronto no qual, em tese, a sorte não influencia o resultado final, o lado psicológico possui uma influência nada desprezível. Vacilos de grandes mestres deliciam os neófitos; já que se os deuses do tabuleiro podem errar, por que negar esse direito aos diletantes? Os exemplos são inúmeros. Há mais de cem anos o mestre russo Tchigorin desafiara o campeão mundial W. Steinitz, e na última partida, estando em desvantagem de um ponto, precisava ganhar, para levar o match para uma prorrogação de três partidas. Conseguiu uma posição ganhadora, e ao deslocar uma peça defensiva, levou mate em dois lances. Coisa de principiante. No torneio dos candidatos de 1953 , Tigran Petrossian, que mais tarde viria a ser campeão mundial, perdeu a dama num lance grotesco. “Eles também erram”.

A infinidade de lances possíveis torna o jogo praticamente inesgotável em alternativas. No entanto, hoje, as análises tornam cada vez mais problemática a descoberta de uma novidade teórica nas aberturas. Já se foi o tempo em que valiam fórmulas mnemônicas como a do Dr. Tarrasch Der Springer am rande ist immer ein Schande (um cavalo à margem – do tabuleiro – é sempre uma vergonha). Graças ao contínuo aperfeiçoamento da técnica das aberturas, um grande mestre do passado, aterrissando num torneio de força média, teria grande chance de ser “varrido do tabuleiro” por um jogador de força mediana.

Além dos recursos lícitos, entra o fator humano. Trata-se de um combate de egos. Muitas vezes dar um lance fazendo estalar a própria peça ao encontro do tabuleiro, aparentando segurança, pode deixar o adversário em pânico. Um nada pode ser suficiente para fazer pender a balança para um ou outro lado. Um sorriso confiante de Korchnoi já levou nosso Mequinho à derrota. Mesmo jogadores sem retrospecto brilhante têm histórias saborosas para contar. Para ilustrar essa afirmação, irei recorrer às minhas lembranças.

Estava participando da competição Univ. de São Carlos x ITA (num modesto terceiro tabuleiro – ou seja, havia dois jogadores mais fortes no primeiro e segundo). A competição estava empatada. De Pretas joguei a Defesa francesa – para tornar o relato menos árido, a defesa consiste em responder ao avanço de duas casas do peão do Rei das Brancas com o avanço de uma casa do peão do Rei das Pretas. Conversa vai, conversa vem, fiquei com um peão de vantagem num final de torres. Como se tratava do peão da coluna da torre, todos os manuais ensinam ser esse um final empatado. Meu capitão veio, olhou o tabuleiro e disse: “empate logo isso”. Os termos usados foram menos eufônicos. Meu adversário propôs empate. Só fiz refestelar-me na cadeira, com ar ausente, e declarei. “Nesta posição, as Pretas ganham”. Não é que meu adversário errou e, poucos lances depois, abandonou?

Num torneio por pontos corridos, estava eu em primeiro lugar, antes da última rodada. Pelo sistema de emparceiramento, deveria jogar com o segundo, que estava meio ponto atrás. (uma vitória vale um ponto, o empate vale meio). Ou seja, um empate bastava-me, e para o outro, só a vitória interessava. Joguei, com as Brancas uma abertura sabidamente inferior para as Brancas: o ataque Fegatello, uma abertura que havia aprendido nos anos 50, ainda em Bucareste. Qualquer almanaque de farmácia informa ser essa abertura desfavorável às Brancas. Mas para tanto, “o inimigo” deveria ter lido o tal almanaque. Apostei, pelo que eu já sabia a respeito dele, que tal não era o caso. Depois do quarto lance (CF3-G5) “o inimigo” mergulhou num abismo de reflexão. Propus empate, que me dava o primeiro lugar. Ele pensou, pensou e deve ter levado uma bela meia-hora, durante a qual, levantei, circulei pela sala, examinado as outras partidas, voltando sempre apressado para ver se as Pretas haviam tomado alguma decisão. Já sabia que o adversário estava com medo, pois perdendo, iria para um quarto lugar empatado. Finalmente, ele aceitou o empate. O prazer não teria sido completo se não lhe mostrasse que empatou podendo ganhar. Ser gentil é próprio dos enxadristas. Não havia razão para fugir à regra.

Nem sempre as coisas correm tão bem. Jogando contra a Poli, com as Brancas, o adversário jogou a defesa Alekhine. Consegui cair numa cilada besta (as ciladas dos adversários nunca merecem epítetos melhores) e perdi, em poucos lances a “qualidade” (significa perder uma torre em troca de um bispo ou cavalo). Meu capitão aproximou-se e declarou: “Dançou” (novamente, o rigor me obriga dizer não ter sido esse o termo empregado). Fiz o diabo, congestionei a posição, (a ponto de meu capitão achar que realmente poderia salvar a partida) aparentei ar tranqüilo e despreocupado, caminhei pela sala, o adversário também, propus empate, ele recusou, e.... acabei perdendo. O sorriso do outro prevaleceu.

O jogo é maravilhoso. Dele guardo belas lembranças e imagino que o surto do politicamente correto em breve irá eliminar os termos de cunho racista: Brancas e Pretas. Quem sabe, leremos um dia: Nessa posição, as Afro-descendentes levam vantagem.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade),  ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´  (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Papai Noel

– Você?

– Você!

Ficou tão surpreso quanto uma paralela ao encontrar uma outra e não era para menos. Lá estava o Alberto; divisando o Marcelo. Apesar da passagem dos anos, quase nada mudara.

Quase.

Alberto, prefeito do próspero município de Aldeia da Praia, mal podia acre¬ditar. Lá estava o Marcelo, o melhor centroavante da história do colégio Padre Anchieta, de chute certeiro e drible desconcertante, além de ter sido o crânio da turma. Lá estava o amigão Marcelo, um pouco mais gordo, com o sorriso a iluminar o rosto de um sósia perfeito de um Marlon Brando um pouco mais magro.

Após estudar medicina na capital, Alberto voltara para a sua cidade e, pas¬sados alguns anos, descobriu ser a política a sua verdadeira paixão. Apesar da profusão de legendas partidárias, em Aldeia havia, de fato, apenas dois partidos: o “nós” e o “eles”. Filiou-se ao “nós” e, graças ao seu discurso vi¬brante, rapidamente, conseguiu ser eleito vereador. Daí a ser prefeito, foi apenas uma questão de tempo. Uma administração competente o levara a um segundo mandato, cujo início estava sendo festejado naquele exato momento.

O jardim do casarão – sede da prefeitura – estava apinhado de gente. Tapi¬nhas nas costas, abraços efusivos e risadas abafadas pelo som de um con¬junto de músicos amadores, senhor inconteste dos ouvidos dos vitoriosos.

Um toldo cobria um pequeno estrado em cima do qual tronava uma espécie de púlpito com um microfone pronto para o inevitável discurso.

Legal ter encontrado o Marcelo.

– Fale-me um pouco de você, caramba! Que surpresa! Nem acredito. Por onde andou esse tempo todo?

– Fiz GeVê, e fui controller em algumas empresas grandes. Depois... hesitou um pouco... viajei para... o exterior... e cá estou de volta.

– Bom filho a casa torna. Que mais? Rápido pô, tenho que dar atenção a toda essa gente e ainda tenho que fazer discurso. Casou?

– Casei e... separei faz... uns anos.

– Precisamos conversar. Pretende ficar por aqui?

– Vou ficar, sim. A casa dos meus pais me coube na partilha. Meu irmão fi¬cou com a fazenda. Para falar a verdade, foi bom ter saído daqui e melhor ainda ter voltado.

– Vai gostar, tenho certeza. Bem, vou fazer a média com os meus eleitores. Putz, fiquei contente, mesmo. Só me fale uma coisa: continua aquele con¬quistador irresistível? Aqui não tem disso, viu?

– Que nada, sou um pacato senhor.

– Sei, sei. O pacato senhor está intimado a comparecer amanhã ao gabi-nete do Prefeito. Venha por volta das 5 da tarde. Tá?

E assim foi.

À conversa do dia seguinte seguiram-se muitas outras. Em pouco tempo, Marcelo voltou a conquistar a cidade. Conquistas diversas.

Não foi surpresa para ninguém a nomeação para o pomposo cargo de Se¬cretário de Finanças. Na Câmara de Vereadores até os “eles” não se opuse-ram. Afinal, Marcelo abrira mão de toda e qualquer remuneração, ao menos por um período de 6 meses. Depois, poderiam voltar a discutir o assunto.

Começou a era do turbilhão de idéias.

Para reforçar as finanças municipais, Marcelo sugeriu que se atualizasse o cadastro dos logradouros. Uma empresa especializada colocou ordem num banco de dados desatualizado, permitindo uma cobrança de um IPTU compa¬tível com o padrão das edificações.

Sem praticar nenhum abuso, a receita para o próximo ano iria mais que dobrar, permitindo ir além das promessas de campanha do Alberto.

– Alberto, precisamos dar uma modernizada nisso.

– O que tem em mente? Concordo que tem um cheiro de naftalina. Vale a pena melhorar o visual de tudo isso. A Prefeitura do século 21.

– Mas que visual que nada. Estou falando em equipamento não em mobi¬liário. Só porque apareceu uma grana vamos torrar?

– Sim, senhor secretário. Desculpe, senhor secretário.

– Estou falando sério.

– E eu então.

– Vamos ampliar o velho Anchieta, vai dar para aumentar os salários dos professores. O hospital poderá...

– Ó, você prepara o raio do orçamento. Ah, vamos parar com essa baba-quice de você trabalhar de graça. No fim vão acabar achando que...

– Ninguém vai achar, porque não tem o que achar...

Não era bem assim. “eles” bem que tentavam, só que para cada centavo gasto, o inatacável Marcelo tinha uma prestação de contas à prova de bala. Sempre alegre e sorridente, alem de comprovadamente competente, ele se tornara um unanimidade. O prefeito estava fazendo seu sucessor, para a total frustração da oposição encurralada. Diga-se, de passagem, que o máximo que “eles” haviam conseguido, foi tentar uma aproximação tentando aliciar o cra¬que. Por sua vez, o craque não parecia ter o menor interesse em mudar de time. De vez em quando, ele se refugiava na sua sala. A secretária, imposição do Alberto, (pára de querer fazer tudo sozinho!!!) levava-lhe, suspirando, um comprimido para dor de cabeça, às vezes até dois.

Qualquer assunto era uma oportunidade para o Marcelo impressionar os demais. Contudo, durante todos aqueles meses, jamais fizera alusão alguma ao seu passado.

O Natal estava chegando. Como de costume, a prefeitura iria organizar uma festa infantil. Só que desta vez, seria para “todas” as crianças do muni-cípio. Desnecessário dizer de quem fora a sugestão e de quem foi o anúncio. Tudo calculado. Com uma listagem enorme com classificação por idade e sexo, Marcelo conseguira negociar um pacote com uma fábrica de brinquedos. Trabalho de primeira. Não haveria a menor possibilidade de um marmanjinho de 12 anos ganhar uma boneca ou uma menininha de 2 anos ganhar um ca¬minhão de bombeiros. E não era só isso. Na entrada, todos receberiam um envelope no qual haveria um vale-brinde. Os mais sortudos receberiam um vale-cheque, possibilitando a compra de um brinquedo adicional. Para os de¬mais, o papelzinho marcaria “sorvete”.

Na véspera da festa, Marcelo ficou trancado no seu escritório, com mais uma das suas já famosas dores de cabeça e lá permaneceu enclausurado até altas horas com a impressora emitindo os vales-brinde.

No dia seguinte, a fanfarra do colégio estava dando as boas-vindas a todos, ao som do “gingobel”.

Discurso emocionado e emocionante do prefeito.

Mais um discurso comovente do diretor do colégio, elogiando a competente administração “sem a qual nada disto teria sido possível”.

Outro, finalmente, vindo da oposição, louvando a transparência da admi¬nistração, mas lembrando que o importante era o município e que, naquele momento, mais do que nunca, permaneceriam vigilantes para que tantas ou¬tras realizações não ficassem apenas nas promessas e sim... etc, etc, etc.

Teve início a distribuição de brinquedos. Pais emocionados apanhando as sacolas etiquetadas, e, numa urna aberta, o misterioso envelope, ouvindo atenta¬mente a recomendação “ só abram quando o Sr. Prefeito pedir”.

Finalmente o sinal.

Uma explosão indescritível de alegria, pessoas pulando, se abraçando, en¬tusiasmo infinitamente superior ao que se poderia imaginar.

A explicação foi trazida pelas centenas de pessoas brandindo cheques, cujo valor fez empalidecer o Sr. Prefeito.

Na mesma tarde, Marcelo voltava a ser internado!...

Crônica do livro “Mãos Outonais”, Ed. Totalidade

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Vivemos numa época impregnada de ritos. E, como queremos demonstrar que não nos deixamos tapear com facilidade, protestamos. Protesto combina com cantar o OUVIRAM DO... mas combina também com queimar pneu, incendiar ônibus – apedrejar também vale. Abraçar o edifício-sede de uma estatal é marca registrada de patriotas, protestando contra infames vendilhões privatistas. Se for protesto de detentos, não terá graça sem queima de colchões. Os colchões que os “de menor” queimam possuem as mesmas dimensões, por uma questão de justiça – que nem sempre é cega, limita-se a ser lenta – que os “de maior” Se os colchões são iguais, as penas são diferentes. Nos colchões dos “de maior”, as penas são de ganso, dizem.

Entrevista de atleta patrocinado combina com uso de boné, chova ou não no estúdio. Se fosse apenas o boné! Os agasalhos roubam a cena, uma verdadeira edição dos Maiores e Melhores da Abril - êta merchandizing sem-vergonha... de minha parte!

Aplaudir no teatro, só de pé. Entusiasmo médio, enorme ou nenhum, para bater palmas em sinal de aprovação nossa brava gente considera ser obrigatório levantar-se. Levanta-se e anda, seguindo o mandamento bíblico. Nos teatros, a postura bípede facilita a saída, e vez por outra, até coincide com a exultação da platéia, pronta para ligar tudo quanto é celular que porventura tenha estado desligado, durante o espetáculo. “Calma, já estamos chegando, estamos meio atrasados, mas podem começar sem nós”.

Apresentação de bandidos combina com gestos pudicos dos “meliantes”, ou “dos elementos”, cobrindo os “semblantes” – diriam as tais crônicas de antanho. O locutor dispara suas catilinárias, xinga corajosamente os presos. Microfones tentam captar o desespero dos familiares das vítimas, com o risco de serem engolidos pelos entrevistados. As perguntas são sempre oportunas. “Já sente saudades do falecido?”, “ O que fez quando viu o cadáver?”, “Aquela perna lhe faz muita falta?” A lista é infindável. Os bandidos saem de cena, ou pelo menos o diretor de TV coloca no ar novas imagens. Estamos com pressa. Os assaltantes, também. Breve serão soltos por bom comportamento, por falta de acomodações, progressão de pena, ou porque ficaram com saudades, palavra tão maravilhosamente nossa. Ninguém pode se vangloriar de tê-los visto quando desfilavam com o rosto coberto em frente às câmeras. Uma vez soltos, estarão aí prontos para saciar nossa curiosidade. “Lembra daquela cara que uma camisa xadrez encobria? Sou eu, mano velho, passe a grana!”

De acordo, quando se tratar de suspeitos – não de apanhados com a boca na botija –, o uso de burkas improvisadas faz sentido; o assunto merece alguma análise. Ser acusado é uma coisa, ser preso, outra, ser processado é ter azar e, ser condenado, é um privilégio ao alcance dos Zés., em geral integrantes do PPP.

De qualquer maneira, a dinâmica intrínseca à lavagem cerebral televisiva exige novas desgraças, e disso não há falta. Se não houver uma boa inundação, que será da programação, como ajudar o telespectador a assassinar os minutos que faltam até o início da novela? Um terremoto, um furacãozinho com nome de mulher – ultimamente, elas perderam a vez, há mais furacões com nomes de marmanjo. Sem um incêndio, uma erupção, sem tsunami, os índices de audiência irão mergulhar na mediocridade de porcentuais que perdem no cotejo com a taxa de juros dos empréstimos bancários. Um dia, alguém terá de me explicar por que diabo falamos em “picos de audiência” de uma TV, quando sabemos de boas fontes, que o pessoal não se limita a ouvir, assiste de olhos abertos, como os grandes goleadores ao cabecearem. Tá,tá, segundo dicionarista parente do Chico, receber mensagem da mídia caracteriza audiência. Imagine, ir a um “auditório” para assistir a um show de mímica... Uma audiência de surdos, assistindo mudos.

De acordo, quando se tratar de suspeitos – não de apanhados com a boca na botija –, o uso de burkas improvisadas... Calma, gente! Repeti só para ver se estavam prestando atenção...

Na falta de outra coisa, para os entediados, vale queimar a bandeira norte-americana. Penso que existem indústrias que devem sua sobrevivência à fabricação desses vistosos lábaros. É como fabricar rojão. Vendeu, queimou – a demanda permanece aquecida – sem trocadilho. Mais queimas, maior produção, mais emprego e vamos de mão dadas, abanando-as para cima, é claro, caminhar para um mundo mais justo. Alguns caminhantes até se dispõem a fornecer o endereço dessa praça da Utopia na confluência das avenidas da Ilusão com a rua do Engodo.

Por falar nessa famosa esquina, nada como os programas de propaganda dos partidos políticos. Todos os problemas que afligem uma cidade, um estado, o país ou até o universo são resolvidos por personagens bizarros que protagonizam um autêntico show de sabedoria em cima dos telespectadores. Promessas que dificilmente serão cumpridas, ilustradas por jingles que vão desde “São Paulo foi mais São Paulo, no tempo de Adhemaaaar” até “Brasil, urgente, Fulano presidente”, martelam sem dó o telespectador indefeso. É sabido que um bom jingle vale por dez propostas.

O que acho disso tudo? Ora, o analista é você, caríssimo leitor; eu estou apenas de passagem.

*Crônica do livro Bucareste

Alexandru Solomon, empresário, escritor. Formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´Almanaque Anacrônico`, ´Versos Anacrônicos`, ´Apetite Famélico`, ´Mãos Outonais`, ´Sessão da Tarde`, ´Desespero Provisório` , ´Não basta sonhar`, ´Um Triângulo de Bermudas`, ´O Desmonte de Vênus` ´Plataforma G` (Ed. Totalidade), ´Bucareste` e ´A luta continua` (Ed. Letraviva). Livrarias: Saraiva (www.livrariasaraiva.com.br), Cultura (www.livrariacultura.com.br), Loyola (www.livrarialoyola.com.br), Letraviva (www.letraviva.com.br). | E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Risultati Premio Il Convivio 2015

Descrizione:

Premio “Poesia, Prosa ed Arti figurative”

e Premio teatrale “Angelo Musco”

In portoghese:

1) Solomon Alexandru, Bucareste, San Paolo (Brasile)

Presidente della Giuria

Carmela Tuccari

Crônica :: Bucareste

L. nasceu, segundo testemunhos de seus contemporâneos, na Paris dos Bálcãs, Bucareste, que de Paris tinha muito pouco e de Bálcãs, um bocado. Morou por um tempo na Strada Sperantei – ou rua da esperança -, num apartamento que se tornou pequeno quando sua família teve de conviver com dois jogadores de rúgbi da equipe do Dinamo de Bucareste, uma cobertura pouco original dos agentes da Securitate – a temida polícia secreta romena –. Com a chegada dos designados pelo “espaço locativo”, organização subordinada aos conselhos populares de bairro, que resolvia o déficit habitacional socando gente onde de acordo com o critério – no máximo um cômodo com janelas por morador-, havia espaços a serem preenchidos, a rotina da família mudou. Nada de conversas em voz alta, nada de assuntos geradores de risco, nada de piadas envolvendo as sábias lideranças do país, nada de ouvir estações de rádio, além das oficiais. Os olhos e ouvidos da sempre vigilante democracia popular estavam implantados e atentos naquele lar pacato. Separados por uma reles porta, observados e observadores desfrutavam de maneira diversa os benefícios dessa coabitação. A pressão contínua dos alertas falados ou expressos por mímicas eloqüentes: “Fale baixo, não fale francês, cuidado com o que diz no telefone” mantinham a família em estado de permanente vigilância. Se essa situação de eterno vigiado acarretou ou não algum impacto na personalidade de L. seria impossível afirmar.

L. devia ter uns cinco ou talvez seis anos, quando, pela primeira vez, sentiu seu sangue gelar. Acabara de perceber o que significava ser, ele também, mortal. O trágico fim, que parecia até bem pouco tempo ser apenas um problema para moscas ou cães atropelados, lhe era reservado. No seu desespero, procurou imediatamente a Nora, ex-babá promovida a governanta e que continuava com a família para não abrir outra brecha para o famoso “espaço locativo’. Ouviu dela:

– Bobinho, depois vamos para o céu. Viramos anjos. – A explicação o satisfez, por algum tempo, embora não ficasse claro o que de tão bom haveria em virar um anjo. Encontrou num velho Larousse fotos da escultura dos anjos de Thorvaldsen na catedral de São Pedro em Roma e, apesar de achar que ficaria gordo e ridículo, sossegou. Virar anjo era melhor do que... Logo depois de presenciar a passagem de um cortejo fúnebre - naquela época era ainda uma carruagem negra, puxada por cavalos adornados de preto- verdadeiro caixote com paredes de vidro deixando visível o caixão, as dúvidas voltaram a se acumular. Não conseguiu resistir e tornou a perguntar à Nora:

-Você tem certeza? Vamos virar anjos? Como sabe tão bem? Há lugar para tantos anjos? A última preocupação era, provavelmente, o retrato do trauma do “espaço locativo”

Avessa á metafísica, Nora procurou tranqüilizá-lo. Fez o melhor que pôde, não sem antes certificar-se de que os dois agentes estavam longe, em alguma missão ou treinando no estádio do Dinamo Bucareste no bulevar Stefan cel Mare.– Mas é claro, queridinho. Não se preocupe. Basta ser um menino obediente, não pecar e virará um anjinho. Mas para que se preocupar se tem a vida inteira pela frente?

- É que não sei o que vem depois. Um dia, serei bem velho como você. – L. estava vislumbrando claramente o drama de sua finitude.

- Por enquanto, é apenas uma criança. Não se preocupe.

– Você também? Gostaria de ter anjos conhecidos por perto.- Era uma tentativa de perguntar a respeito do destino de seus pais e amigos.

– É, acho que sim, pode ser.

A resposta não o satisfez, e nunca mais tentou arrancar mais informações.

Passaram-se os anos. A tentativa de dissipar o pavor coube a um padre. Ou teria sido um rabino? Sem grandes resultados. Antes de adormecer o terror voltava. Por alguns segundos, mergulhava num desespero atroz. E se ‘depois’ não houvesse mais nada. As primeiras noções de astronomia o deixaram em pânico. Naquela imensidão de planetas, estrelas e cometas, haveria quem se preocupasse com ele? Nos momentos de angústia, agarrava com força o travesseiro, nele enterrando a cabeça, já que o receio o assediava por alguns minutos até ir se dissipando lentamente. Já sabia, que se demorasse a adormecer, as apreensões voltariam. Não havia meio de se livrar delas. Nessas ocasiões, parecia-lhe ouvir o sábio que sentenciava: “Se no fundo de todas as coisas não houver nada além de um poder selvagem e borbulhante, no turbilhão de paixões escuras, se sob todas as coisas estiver escondido um vazio sem fundo que nada puder preencher, o que seria a vida se não a desesperança?” Mais tarde, veio a descobrir o nome do sábio sem que esse fato lhe trouxesse a serenidade, durante os momentos de angustura.

Fora aqueles breves instantes de terror intenso, L. nada tinha de diferente se comparado com seus amigos, exceto talvez seus óculos de lentes grossas, que lhe valeram o apelido de Marin Niculescu, uma glória local do ciclismo.

Estudou, com relativo brilho, experimentou o raro privilégio de poder emigrar, legalmente, para uma terra distante, cortada pelo trópico do Capricórnio, trilhou uma carreira profissional, com relativo destaque, fundou uma família, com relativo sucesso, tornou-se um torcedor relativamente fanático do Santos F.C. Afinal, tudo é relativo. A sensação de estar descendo a ladeira, rumo ao desconhecido, não o abandonou em momento algum.

Quem o abandonou foi a esposa, por não agüentar mais ser acordada no meio da noite pelos lamentos de um marido insone e amedrontado, que a ela se agarrava como o fizera na infância com o travesseiro consolador. Durante algum tempo, ela soubera proporcionar-lhe o remédio de fabricação caseira, na forma de amor. Com o passar dos anos e o arrefecimento da paixão, ela substituiu o compromisso do “Até que a morte nos separe”, por uma solução mais prática “Até eu dar no pé”.

Os filhos, casados, afastavam-se cada vez mais, sobrando os encontros proporcionados por aniversários diversos e uma ou outra visita acidental, durante as quais a tranqüilidade parecia ter resolvido fazer-lhe companhia.

No fundo, ele estava terrivelmente, assus¬tado¬ra¬mente só.

O surgimento da visão insuportável tornou-se mais frequente. Resolveu procurar a ajuda de um ‘psi’ calorosamente recomendado por um amigo, a quem confidenciara seu padecer. Aquele figurão iria ajudá-lo. Se esse fracassasse, nenhum outro seria capaz. “Eu era um poço de incertezas e vacilos, e ele foi bárbaro”. Recomendação melhor, impossível. E como nada agrada mais a um náufrago do que uma bóia, procurou o médico e assim deu início a uma nova etapa nessa luta desesperada.

As primeiras sessões foram bastante desprovidas de graça. Ele desfiava o rosário de inquietudes, enquanto o outro se limitava a tomar algumas anotações, solicitava dados sobre a freqüência de ocorrência dos “sintomas” e o encorajava a continuar revelando pormenores. As sessões eram interrompidas pelo sinal sonoro de um marcador de tempo. O ‘psi’ apertava-lhe a mão e juntos verificavam na agenda qual a data e o horário da próxima consulta.

Uma vez o médico resolveu sair dos seu eternos pronunciamentos lacônicos “ Como, de acordo com os médicos, talvez não haja alguém inteiramente são, poder-se-ia dizer, conhecendo os seres humanos, que não há um único ser isento de desespero, no qual não se abrigue uma inquietação, um distúrbio, um medo de um quê desconhecido ou que não ousa mesmo tentar conhecer”.

Grande coisa! Ambos tinham lido Kierkegaard. Não era preciso gastar uma fortuna para, juntos, reinterpretá-lo.

– Obrigado, doutor Carlos. Isso não nos levará muito longe. Posso ter a fé e a certeza? É o que procuro.

– Relaxe... Se é isso que sente agora, teremos de falar mais e mais. Não sou um removedor de grilos. Juntos, podemos encontrar um caminho para que você possa seguir sem medo. Prossiga.

– Se agora irá me falar na busca da luz interior, teremos que parar imediatamente... Sugiro deixar de lado o “Peça e receberá”, uma vez que escolhi outro bordão: Pague e receberá. Estou lhe pagando... Espero receber...

– De tudo que vi nesses seis meses – retrucou o médico, sem se abalar– concluo que talvez tenha chegado a hora de eu lhe apresentar um achado secreto, que ainda não testei em nenhum ser. É uma solução que poderá me valer a cassação do registro profissional. Ocorre que você é o paciente, cujo perfil melhor se adapta a essa descoberta. Há uma condição: aceitando ou não minha solução, deve prometer que jamais irá mencionar o que irei lhe contar. Falaremos sobre isso na próxima sexta-feira. Se concordar com a proposta, isso coincidirá com sua alta. Se não aceitar, uma hipótese muito razoável, continuaremos, normalmente, nossas sessões.- Enquanto falava, um brilho estranho parecia iluminar o olhar do ‘psi’.

– Então, fale. Sabe que aceitarei. É claro que aceitarei.

– Seu tempo acabou.

– Não pode me deixar assim. Agora, depois de me acenar com a solução, não pode me deixar prisioneiro da obsessão. Apagou a luz no fim do túnel a pretexto de ter se esgotado o tempo? Não faça isso. Não é justo!

– Impossível. Há um paciente esperando.

– Percebe que está me torturando?

– Não pretendo torturá-lo. Pense que talvez haja uma solução inédita. Ah, sim. Até a próxima sessão, suspenda toda a medicação que lhe receitei.

– Suspender tudo? Como farei para dormir? Logo agora, que durmo feito recém-nascido?

– A ideia de haver uma alternativa interessante agirá melhor que um calmante. O médico levantou-se e veio apertar-lhe a mão. O aperto pareceu-lhe diferente, sem dúvida por causa da reviravolta provável do tratamento.

– Até sexta-feira, amigo – Que estranho, nunca o doutor Carlos o chamara de “amigo’..

– Até sexta. Será que não pode me encaixar antes?

– Impossível. Agenda lotada.

Faltavam dois dias para a temível sexta. Pior, faltavam duas noites. Para sua surpresa, na primeira, dormiu tranqüilo sem nenhum tipo de agitação. Será que a simples existência de uma promessa espantava a paúra?

Na quinta-feira, não resistiu e telefonou.

– Aconteceu alguma coisa? A voz do médico soava completamente impessoal. Muito diferente da animação da qual dera mostra na antevéspera.

– Será que não poderíamos antecipar a sessão?

– Não. Cada coisa tem seu tempo certo. De mais a mais, já disse, minha agenda está lotada. Procure ficar calmo. Distraia-se. Leia algo. Caminhe um pouco. Não costumo dar conselhos, mas abro essa exceção.

A intranqüilidade voltou com redobrado vigor. O poço sem fundo estava lá, prestes a engolir sua vítima. Não apelou para soporífero algum. O psi fora claro. Saiu da cama, tentou ler, assistir à TV e, de volta à cama, contar carneiros. Por tratar-se de ovelhas de Panurgo, a tarefa de contabilizá-las era mais desafiadora e mais cansativa. Finalmente, após horas de desassossego, o sono veio, já no raiar da famosa sexta-feira.

O médico o recebeu da mesma forma fria e distante com a qual costumava tratá-lo.

– Então, doutor?

– Como passou esse dois dias? Quer falar sobre algo em particular?

– Não. Quero apenas experimentar o achado.

– Sem saber do que se trata?

– Isso.

– Recorde-se. Qualquer que seja sua decisão, o que lhe direi não poderá ser comentado. Na verdade, trata-se de algo tão inusitado que, mesmo se resolver ser tagarela, ninguém lhe dará ouvidos.

– Serei um túmulo.

– Muito bem. Há uma condição adicional, que considero aceita de antemão. Não irá me interromper. Seu silêncio é a aquiescência que procuro. – Fez uma pausa.– Por um acaso, totalmente sem importância para o que lhe direi, tive acesso a um segredo. Nunca usei essa informação, que poderá parecer-lhe tresloucada. Seu medo é deixar de existir. Pois bem, se o segredo ao qual tive acesso não for um engodo, tenho a solução.

– Posso fumar, doutor?

– Prometeu não interromper. Você não é fumante e eu não lhe emprestarei um cigarro. Ouça. Creio ter a fórmula de uma certa, digamos, continuidade. Para tanto, saiba que deverá se aproximar de uma criança, não qualquer uma e sim do lugar que o viu nascer, e segurar-lhe as mãos. Não pode ser parente, não me pergunte por quê. Terá, portanto, de segurar as mãos e pronunciar a frase seguinte...– Baixou a voz e murmurou algumas palavras.– Anote, decore e rasgue. Quando terminar a frase, você estará dentro daquele corpo jovem. Guardará algumas lembranças e alguns conhecimentos que já possui. Não me pergunte o que carregará consigo e o que ficará pelo caminho. O essencial é que a frase estará para sempre gravada na mente do seu novo eu. Percebeu que bastará repetir a operação indefinidamente e não mais ter motivo para temor algum?

– E o que acontecerá comigo?

– Se me permite a imagem, seu cronômetro ficará zerado e seus minutos serão contados a partir desse momento. Para os demais, terá sido vítima de um ataque fulminante. A criança nada perceberá, pois você terá lhe tomado o lugar. Enfim, subsistirá um misto daquela jovem criatura e do adulto inseguro que tenho à minha frente. É irrelevante saber por qual motivo não me submeti a essa experiência. Se insistir, direi que prefiro testar primeiro em alguém. Aceita ser cobaia?

– É inacreditável. E... isso funciona?

– Você será o primeiro a saber.

– Mas, se recomeçar do zero, perderei a memória da minha vida atual! Estará cortado o vínculo com meu eu. Minha personalidade implantada num menino...

– Quem me revelou o segredo disse que as personalidades se somarão. O principal de sua bagagem será salvo.

– E se não for verdade?

– Vai recuar?

– Preciso pensar.

– Pois pense à vontade. O tempo acabou. Creio que não nos veremos mais. Sei que aceitará. Tenho certeza disso. Como lhe disse, dou-lhe alta. Se um dia um menino vier me contar algo incrível, saberei que você conseguiu. Se eu não for procurado, ficarei na dúvida. Até um dia. Acerte seu saldo devedor com minha secretária. Não ficará bem ela tentar cobrar de um menor com paradeiro desconhecido. Concorda? Desta vez duas mãos úmidas trocaram um demorado aperto.

Seguiu-se um fim de semana cheio de hesitações e alucinações. Sabia que iria tentar. Decorou a frase, repetiu-a à exaustão, mas, em vez de rasgá-la, colocou-a no livro que acabara de ler. Pensou em deixar tudo registrado num envelope lacrado “a ser aberto somente em 2050”. Desistiu. Não desrespeitaria a promessa. O absurdo maior daquela receita extravagante era ter de regressar depois de décadas a um lugar do qual mal se lembrava.

Liquidou seus investimentos, fechou suas contas, transformou tudo em dinheiro vivo escondido no cofre de sua casa. E comprou uma passagem de ida e de volta para Bucareste.

Uma quantidade avassaladora de perguntas o assaltaram. E se a experiência lhe fosse fatal, o que aconteceria com aquele dinheiro, do qual nem ele nem seus filhos poderiam desfrutar. Resignou-se. Do mundo nada se leva mesmo. E se, pelo contrário, a tentativa fosse bem sucedida, como regressaria, na condição de menor de idade – qual a utilidade da passagem de volta? - supondo que não perdesse a memória? Uma demora prolongada significaria o arrombamento do apartamento, o sumiço das suas economias, obviamente fora do alcance do aprendiz de feiticeiro no qual se transformara. De qualquer maneira, levaria consigo o suficiente para garantir seu regresso, que se danasse a passagem correspondente à volta. Percebeu que estava diante de uma impossibilidade. A criança romena, cujas feições tomaria, não poderia voltar usando o passaporte dele. Seria impossível sair da Romênia, e tão ou mais difícil regressar à terra cortada pelo Trópico do Capricórnio. O máximo que conseguiria seria uma surra dos seus novos “pais”, que jamais entenderiam a estripulia.

Teria de apoiar-se em algum amigo de infância, a quem teria de contar ao menos em parte... Impossível. Além de desrespeitar a palavra dada, de duas uma: o amigo acreditaria e claramente solicitaria uma carona nesse projeto maluco e para tanto teria de se apoiar num terceiro, que por sua vez incluiria, outro e mais outro, e acabariam todos presos por pedofilia, ou então, nem daria atenção, muito menos entregaria ao menino desconhecido, no qual L. teria se transformado o dinheiro e o passaporte inútil.

Quem não arrisca...

O lado jogador de L. prevaleceu. Reservou um quarto no Hotel Lido, seu sonho de consumo quando criança,e embarcou.

No avião, no aeroporto de Otopeni e a caminho do hotel, repetiu para si mesmo que estava cometendo uma insanidade, mas como nada daquilo que o psi dissera poderia acontecer, a aventura se saldaria com uma volta instigante ao passado.

Algumas décadas e alguns terremotos haviam modificado a cidade, mas não o suficiente para que L. não reconhecesse o centro velho. Achou a cidade escura e o trãnsito, caótico.

No dia seguinte, após uma noite mal-dormida, caminhou pela cidade, e passou pela Strada Sperantei. O prédio estava lá. Pior sorte teve a casa vizinha, transformada num monte de entulho, pelo terremoto. Sem demora, caminhou rumo a Rua Italiana – algumas dezenas de metros apenas - e postou-se em frente ao Liceu Spiru Haret, seu antigo colégio. Da calçada oposta examinava as crianças alegres que saíam. Um rapaz chamou-lhe a atenção. Possivelmente pela impressionante semelhança com outro menino, o das perguntas sem resposta, ou teriam sido os óculos? Sentiu um impulso muito forte de abraçá-lo e atravessou correndo. O carro, vindo em alta velocidade,fazendo a conversão da Strada Otetari para a Strada Italiana, não conseguiu frear a tempo.



Sempre o progresso

Por razões misteriosas, o progresso não desiste.

Infiltrado para sempre no insosso cotidiano,

Recompensa os audazes, o passado não resiste,

Uma década, agora, se completa em um ano.

A miragem perigosa, sob o manto igualitário,

Equipara pouco a pouco num medíocre conjunto,

O pascácio e o sábio, o magnata e o proletário

Nivelados são por baixo, mais por falta de assunto.

E a fonte milagrosa da eterna juventude

Pode parecer piada ou remédio indolor.

Nem o cético lhe nega sua principal virtude,

Ser agente do futuro: micro e computador.

Submergidos pela onda, a terceira ou a quarta,

Alvin Tofler batizando é manchete garantida.

Abandona-se o escriba para redigir a carta,

O Excel e companhia alicerçam-nos a vida.

Houve caixas milagrosas no passado bem recente.

Quem se esqueceu do rádio, da TV, do gravador,

Para trás ficaram todas na mudança de ambiente,

Pois convergem, se agrupam rumo ao computador.

Um Spinoza, ou um Sartre, ou um Kant, ou quem quiser,

Órfãos de identidade rumam junto pro arquivo,

E de lá apenas saem ao comando de um qualquer

Que ao digitar o Google, dará prova de estar vivo.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade), ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´ (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

O termo “pedaladas” ganhou popularidade, a ponto de muita gente, incluindo nosso dinâmico ex-presidente, de acordo com o próprio, não ter uma ideia clara do que se trata. Não se está falando de uma modalidade esportiva, senhores. Pode ter ficado a impressão de que se trata de algo inocente, um meio de manter a forma física. Será?

Recapitulando: essa “brincadeira” – para empregar o termo do Joaquim Levy – ocorre quando o Governo, para não estourar suas sacrossantas e combalidas contas, atrasa o repasse aos bancos oficiais de um dinheiro que tem destino certo, por exemplo, o pagamento da Bolsa Família. O dinheiro chega aos destinatários, mas provem dos bancos oficiais, que adiantam verbas as quais “um dia” lhes será reembolsado.

Portanto, afirmar que as pedaladas tiveram uma finalidade nobre, preservar o emprego e outras mentiras, pode fazer sucesso entre os desavisados e chamar de idiotas àqueles que ainda têm paciência de ouvir as petas planaltinas. Imaginem o caos que se seguiria a um possível atraso desses pagamentos. Docilmente, os bancos oficiais evitam a balbúrdia, adiantando os recursos. Tudo se passa como se, em desacordo com a LRF, o governo esteja tomando emprestado dessas instituições financeiras. Se fosse apenas a Bolsa Família... Ocorre que o buraco, de acordo com a expressão consagrada, situa-se mais embaixo. O volume pedalado é da ordem de 40 bi. Então, doce leitor(a), foi uma “pendurada de contas”. Tanto é que zerar esse ‘detalhe’ poderá levar algum tempo. Quanto tempo? Depende da vontade de estourar nosso superávit primário em 2015.

Outra inverdade que está ganhando corpo de tanto ser repetida é que a atual crise é fruto dos ajustes, que, a bem da verdade, até hoje não aconteceram. Não aconteceram porque a maior parte está emperrada no Congresso, objeto de negociações. A culpa, segundo os detratores do ministro, não é da farra, o tal de “fazer o diabo” anos a fio e sim, do insensível ministro Levy, o Judas de plantão, que não consegue aprovar as medidas já apresentadas como únicas culpadas “disso que está aí”. Renasce o bordão “Tudo pelo crescimento”, como se esse tão sonhado crescimento fosse fruto apenas da “vontade política” em rota de colisão com perversas fantasias neoliberais. Como se o desejo de crescer fosse apanágio do Governo. Crescer requer condições macroeconômicas saudáveis. Ou então a exemplo do barão de Münchausen o time do crescimento pretende fazer voar um cavalo puxando-lhe a crina para cima?

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade), ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´ (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

Pessoalmente, se é que isso vale algo, acho Chico Buarque um compositor brilhante, um cantor medíocre e politicamente o considero imberbe. Na época da Banda ele ainda não tinha se exilado no desconforto da Île Saint Louis. Essa pequena paródia é apenas uma carona sem-vergonha na magistral A Banda e uma reflexão da pátria subtraída, na expressão do bardo. Menções a mensalões e outros “ões” ficam a critério da coloração política do leitor.

O bando

Estava bem indeciso

Duda Mendonça chamou

Para votar no PeTê

Lulinha paz e amor.

E tanta gente sofrida

Pensou livrar-se da dor

E foi votar no PeTê

Lulinha paz e amor.

O pobre diabo que não tinha dinheiro votou

O palanqueiro que contava vantagem contou

E quem sonhava com o Fome Zero

Votou para ver essa nova miragem

A marolinha que virou um tsunami cresceu

O Manteguinha os cordões da bolsa abriu

E a tigrada toda se assanhou

Votou na Dilminha

E então deu no que deu

O aposentado se esqueceu do cansaço e pensou

Que tinha vindo a bonança ... por isso dançou

A dona Dilma fechou as janelas

Pra não ouvir mais

O som das panelas

A coisa piorou mas o Guido insistiu

O rombo que estava escondido surgiu

A Economia toda enfeou

E foi a debacle que o governo causou

E pra total desencanto

O que era doce acabou

Agora vem o ajuste

Depois que o bando roubou.

Adeus as belas vitrines

Sem Minha casa melhor

Depois que o bando passou

Vejam o que sobrou.

Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de ´´Almanaque Anacrônico´´, ´´Versos Anacrônicos´´, ´´Apetite Famélico´´, ´´Mãos Outonais´´, ´´Sessão da Tarde´´, ´´Desespero Provisório´´, ´´Não basta sonhar´´, ´´Um Triângulo de Bermudas´´, ´´O Desmonte de Vênus´´,(Ed. Totalidade), ´´Plataforma G´´, ´´Bucareste´´ e ´´ A luta continua´´ (Ed. Letraviva). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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Percival Puggina (70), membro da Academia Rio-Grandense de Letras, é arquiteto, empresário e escritor e titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, integrante do grupo Pensar+

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Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/



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