NATAL PRESS

Heriberto Gadê, funcionário aposentado do BB, consultor administrativo/financeiro de empresas e cronista. Blog: heribertogade.blogspot.com/

O nosso País, há algum tempo, em matéria de gestão política, é o mesmo. Temos a enganosa ideia de que algo mudou, mas logo nos deparamos com alguns quadros já pintados no passado. Vários partidos e políticos se alternam prometendo mudanças e mais mudanças e, até agora, muito pouca coisa mudou. Continuamos com os mesmos problemas políticos, econômicos, e de qualidade no serviço público. Em determinada ocasião o povo brasileiro acreditou que era possível dar uma guinada em tudo que estava posto. A mudança para um governo que se situava em uma posição menos liberal e contra todos os desmandos que aconteciam até aquele momento parecia ser a única solução.

Passado o tempo, depois de idas e vindas, notamos pouca diferença nas atitudes. Recentemente os brasileiros foram bombardeados por notícias de corrupção, como, aliás, já sabia existir desde o descobrimento desse País. A revolta da população, agora, não é por que acusam e punem integrantes de um segmento político. A revolta é que o segmento alvo dessas denúncias tinha sido o mesmo que todos acreditavam agir de forma completamente diferente dos demais grupos políticos que dominaram os destinos do País por tanto tempo. O sentimento é de que voltamos à “estaca zero”.

Acredito que, no desejo desesperado de um país melhor, somos levados a acreditar que as soluções mirabolantes serão a nossa libertação de tudo de errado que nos afeta. O que era, para nós, a redenção, se transforma no que sempre combatemos. É incoerente, mas é o que vemos por aí. Ora, quem é bandido ou quem é mocinho? A confusão e a alternância entre essas duas figuras tem sido algo constante em nossos julgamentos.

Então, o que nos faz cometer esses equivocos? O principal motivo, na minha opinião, é a ausência de tempo e cuidado para o aprofundamento da análise sobre as soluções postas à mesa. Vejam que o brasileiro é reconhecido como um povo que lê muito pouco. Segundo a ABDL – Associação Brasileira de Difusão do Livro, o brasileiro está colocado em 27º lugar entre os 30 países pesquisados. Essa situação, que repercute nos índices brasileiros de educação e prejudica a formação crítica de opinião, talvez, seja a principal causa para as análises tão superficiais sobre tão importantes assuntos.

O outro problema, consequência da falta de análise de cenário, é o da falta de equilíbrio que as nossas decisões eleitorais e políticas proporcionam. Somos levados a pender totalmente para um lado, sem considerar que um poder absoluto permite que pessoas e grupos cometam absurdos e que as conveniências das pessoas que integram esse poder sejam atendidas de forma exagerada ou, muitas vezes, indecente. Ninguém é necessariamente é anjo ou demônio. O equilíbrio é a solução, sempre.

Vemos, assim, pessoas sendo levadas a seguir o movimento da massa, assim como fazem as águas do rio. Porém, nós não podemos nos deixar levar como essas águas. Precisamos estar atentos para que a emoção não tome conta das nossas vidas e nos faça enveredar por caminhos cuja volta é mais difícil que a ida. Quando estamos insatisfeitos com uma determinada situação, queremos resolvê-la de forma rápida e absoluta, o que não é possível, principalmente, quando esse problema é fruto de toda uma história que firmou cultura. Se puxarmos pela memória lembraremos de alguns movimentos como: “abaixo a ditadura”, “diretas já”, “os fiscais do Sarney”, “caçador de marajás”, “fora Collor”, “Lula-lá”, “fora PT”, “fora Dilma”, “fora Temer”, “pela intervenção militar”, além do “somos todos Moro” e “eu apoio o MP”, entre outros.

Em todas essas ocasiões nos posicionamos, quase que cegamente, pelo som de um grupo de pessoas, bradando palavras de ordem que foram construídas sabe-se lá por quem e com qual interesse. Nesses momentos, na ânsia de vermos atendidos nossos imediatos desejos, bradamos alto, já que todos gritavam o mesmo. Muitas vezes nem avaliamos quais repercussões que adviriam de tão exacerbado e pulsante comportamento.

Minha santa avó já dizia que “descer uma ladeira pode ser muito mais perigoso que subi-la. A velocidade com que se desce, principalmente quando embalado pela multidão que nos empurra, faz com que a queda no final da ladeira seja quase que inevitável. E tem mais uma questão, que não acontece na descida lenta e gradual, é que não se consegue apreciar a paisagem que existe pelos arredores. Quando descemos velozmente, e descer é muito fácil, deixamos de registrar o que está em volta, o risco que existe no final da ladeira e, especialmente, o tamanho dos obstáculos que teremos que enfrentar quando tivermos que subir novamente.

Precisamos aprender com os nossos erros. Devemos estar atentos a tudo que acontece em nossa volta, sem paixões nem exageros. O ato de “separar o joio do trigo” é fundamental para que não nos arrependamos por termos dado apoios incondicionais a esse ou àquele segmento. Como disse, tudo na vida tem, obrigatoriamente, dois lados, o bom e o ruim, e é primordial que consigamos distinguir qual é o tamanho e os efeitos causados por um e pelo outro.

Tenho convicção de que é o apoio cego que gera e concede, indevidamente, poderes absolutos. Sendo assim, cuidado para não alimentar a cobra que poderá vir a mordê-lo. A cobra é importante para o equilíbrio do nosso ecossistema e precisa ser preservada, porém, precisamos estar atentos aos controles que tivermos sobre ela, pois isso é o que fará com que ela não nos domine nem nos morda... É fundamental ter em mente que “nem tudo que parece ser, realmente é”.


HERIBERTO GADÊ
10/01/2017

As divergências, especialmente as políticas, são algo que sempre estiveram aí. Às vezes, de forma leve e quase imperceptível e, em outras, bem acirrada. Sempre que me defronto com posicionamentos políticos do tipo que aparecem atualmente no nosso País, lembro da minha querida avó.

Apesar de ser mulher simples e essencialmente “do lar”, Dona Fausta trazia uma sabedoria inata. Lembro de ela falando mansa e pacíficamente, mas com olhos bem vivos, que a divergência é algo fundamental para que nós possamos gerar novos conceitos e firmar convicções.

Ela tinha uma receita bem interessante. Dizia ela que devemos sempre ouvir as partes contrárias com atenção e captar bem o que cada um está querendo dizer. Feito isso, devemos fazer o seguinte:

Passo 1: Pegar a essência das opiniões das duas partes e colocar na Peneira do Excesso. Devemos mexer muito essa peneira, que tem uma malha bastante aberta. Ela vai reter na malha tudo que é bobagem, ódio e sandice. O resto passa;

Passo 2: Coloque o que passou na Peneira da Vaidade e Presunção. Essa tem uma malha mais estreita. Chacoalhe bem para tirar todos os resquícios de complexos, vaidade e presunção que possam estar interferindo nas opiniões;

Passo 3: O que passar, mexa bem e coloque na terceira peneira, que é a Peneira do Contexto. Essa deverá reter os resíduos que não estão em sintonia com o contexto vivenciado na ocasião da emissão das opiniões;

Passo 4: O que sobrar, deve ser colocado na Peneira da Formação. Essa, de malha bem mais apertada, irá eliminar vícios culturais históricos que possam estar contaminando a essência das opiniões;

Passo 5: É chegada a hora mais importante. De posse do que restou, adicione o resíduo a sua opinião, construída a partir das suas informações, ponderadas todas as peneiradas que foram feitas e misture bem;

Passo 6: Coloque a mistura, então, na última peneira, que é a Peneira da Sua Verdade. Essa tem uma malha finíssima. Ela só deixará passar a essência do que você concorda e acredita. Essa é a sua verdade, e se constituirá na sua convicção.

Experimente fazer isso sempre. Você vai ver que ninguém deve refutar, eliminar ou ignorar as diversas opiniões sobre um determinado assunto. A sua opinião depende dos diversos posicionamentos, por mais absurdos que pareçam, e, principalmente, das informações que adquirir. Certamente a sua opinião não será exatamente igual à opinião das outras pessoas. Pode ser até semelhante, igual, nunca.

Pensamento: Esse negócio que a cultura não pode ser desenvolvida dentro do Ministério da Educação e Cultura e que precisaria de um Ministério próprio, me fez pensar como um casal que tem 10 filhos distribui a atenção, igualmente, a todos eles. Será que um filho tem que ter um pai ou uma mãe exclusiva para que receba atenção, orientação, carinho e segurança? Na verdade, o que é preciso para dar atenção a cada um deles, de forma igualitária, é a competência, ou seja, é a qualidade e não a quantidade.



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