NATAL PRESS

Não sei se quero te falar das varandas.
Daquelas, quando o silêncio vinha nas noites
Trazendo a luz de céus distantes. Tão serena.
E era irreal a hora porque assim será sempre
O tempo votivo à colheita das nossas afeições.
Guarda-me, amada, contigo no colo das ilusões.
O tempo não passou. E não passarão aquelas.
E quando no campanário de cada um, plangente,
Dobrar o sino do entardecer, verás ter passado
O vulto de nós dois. Mas, no teu olhar derradeiro
Ainda refletirão os alpendres de antigamente.

alt

Caminha devagar a noite sobre a rua deserta.
A ausência se abandona nas janelas fechadas.
Dobra na esquina o lamento da sobra do vento.
A cidade, lentamente, no seu sono, se acalma.
Nessa hora, o amanhã comigo vem conversar.
Oferece-me, a sua mão, um cálice do passado.
Nele, os erros diluídos nas lágrimas do tempo.
Não demoramos. E logo se vê novo caminho.
Somos nós dois, amada, sem nenhum fardo
Cantando para sempre a ventura da gente.

alt

À minha rainha IEMANJÁ

Não. Não é apenas o desejo.
Fosse apenas uma vontade,
Fosse tão só chama eventual,
Não me arderia o fogo do beijo
Que nunca senti, nem queimaria
Em mim a ilusão das glândulas
Loucas porque enlouquecidas
Nessa dança de longa espera.
E esperar-te, amada, será sempre
Estender o lençol branco do amor
No leito das areias vestidas de lua.
Onde, silenciosa, a aragem vem do mar
Cantando as cantigas que embalam
Esses nossos segredos - essas pérolas
Nessas conchas por nós adormecidas.

Inauguras o mar que veste a manhã.
O sol molha o olhar quando tua pouca roupa
Diz ao teu corpo cansado o desenho da nudez.
E minha voz se cala. E minhas ilusões voam.
E me levas, amada, nessas águas de barco.
Nesse oceano onde se vê apenas o começo
De bocas sedentas no cais do porto do beijo.
E me prendes tanto e assim te quero tanto,
Que preso à praia desse sublime encanto,
Só te peço não me deixar nas distantes
Areias onde moram as pegadas da solidão.

A ti, entrego os momentos do meu dia.
Manhã - quando a seiva escorre livre
No céu do teu corpo.
Noite - quando me alongo nessas estrelas do teu olhar;
Quando os teus olhos apenas confirmam o começo;
E fechados, apenas se abrem à madrugada.
Mas há um instante do qual não me esquecerei:
Levarei comigo sempre esse teu hino de êxtase,
Quando me disseste num recital de alcova:
"Venha, estou pronta para o amor" !

Meu rio. Tão grande. E antes com norte.
Meu rio grande. Meu sítio sentimental.
Meu torrão que ouviu ao longe o vagido.
De que jardim brotou a rosa da má sorte?

Na lousa, o giz de sangue firmou a desilusão.
Corpos esticados são contados no chão.
As lágrimas caem na vala aberta da morte.
Gritam: mil homicídios! A saúde agonizante.

A criança traz no peito ferido o triste recado.
Em casa, assiste aos pais falarem do passado.
O mestre de ontem morreu e o de hoje agoniza.

A tristeza invade o nosso rio grande por todo canto.
Atabalhoada a rosa louca só mostra o seu espinho.
E o homem vai morrendo um pouco em cada pranto.

Francisco de Sales Felipe
Manhã, 23 de agosto de 2013.

A música: http://www.youtube.com/watch?v=jpGm5aDZIAk&;feature=youtube_gdata_player

Acauã, vou dormir nos teus braços de pedra. Quero alpendrar meus devaneios. Balançar a rede para me encantar e arcordar no teu tecido orvalhado. E sentir o incenso das flores ainda não colhidas. 

E te quero ao entardecer quando ouvir o plangente de teu cântico. Nós nos queremos pela razão da melancolia de teu cantar: tu me queres como ouvinte; eu, por saber que anuncias a noite quando a amada me traz o orvalho bem antes da aurora.


aos que resistem.

Meu rio. Tão grande. E antes com norte.
Meu rio grande. Meu sítio sentimental.
Meu torrão que ouviu ao longe o vagido.
De que jardim brotou a rosa da má sorte?

Na lousa, o giz de sangue firmou a desilusão.
Corpos esticados são contados no chão.
As lágrimas caem na vala aberta da morte.
Gritam: mil homicídios! A saúde agonizante.

A criança traz no peito ferido o triste recado.
Em casa, assiste aos pais falarem do passado.
O mestre de ontem morreu e o de hoje agoniza.

A tristeza invade o nosso rio grande por todo canto.
Atabalhoada a rosa louca só mostra o seu espinho.
E o homem vai morrendo um pouco em cada pranto.


Tua beleza me leva quando passas.
E vou no meu olhar desenhando devagar
Os carinhos dessas linhas de seda.
Tão minhas quando o meu olhar se desmaia
Em viagens por onde a manhã era só minha
Porque a tua presença me exilava dos presentes.
E assim me demoro nessas horas de espera.
Até que outro sonho me diga suavemente:
Ela vem! vem novamente trazendo a manhã...

aos que resistem.

Meu rio. Tão grande. E antes com norte.
Meu rio grande. Meu sítio sentimental.
Meu torrão que ouviu ao longe o vagido.
De que jardim brotou a rosa da má sorte?

Na lousa, o giz de sangue firmou a desilusão.
Corpos esticados são contados no chão.
As lágrimas caem na vala aberta da morte.
Gritam: mil homicídios! A saúde agonizante.

A criança traz no peito ferido o triste recado.
Em casa, assiste aos pais falarem do passado.
O mestre de ontem morreu e o de hoje agoniza.

A tristeza invade o nosso rio grande por todo canto.
Atabalhoada a rosa louca só mostra o seu espinho.
E o homem vai morrendo um pouco em cada pranto.



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