NATAL PRESS

Consagra-me na loucura da tua boca
Molhada nos desejos de meus beijos.
Aperta-me quando chegar ao teu colo
O êxtase de meus dias arrebatados
Para o oceano azul de teus olhos.
Aprisiona-me na quietude das palavras
Caladas na vastidão por onde passa
O aroma das noites de cantiga e ternura.
Não te peço a eventualidade de um beijo.
Vejo-te comigo na dimensão eterna do amor.

E não me quis assim no derradeiro olhar.
E nem te quis para espera de cais nesse porto
Onde a partida é sempre um abandono.
Quero contigo colher o orvalho da manhã
Naquele jardim onde a rosa do teu nome
E o riso de teu rosto são meus olhos
Cheios de noites nessa luz líquida
De teu corpo se derramando em amor.

Demoro-me no sentimento de tudo o que dizes.
Detenho-me no silêncio quando te falta a palavra.
E me trazes num sereno olhar as indagações tardias.
A minha mudez devolve ao tempo eventual resposta.
Nessa hora, a ternura líquida desce o rosto de ontem.
E o orgulho vai se desfazendo pouco a pouco em soluços.
Encontramo-nos bem tarde, sabemos, para o perdão.
Mas, não posso negar, à tua boca sedenta, meu último beijo.


Renunciei o outono que me deste.
A dor se cansou de tantas descidas.
Nas folhas caídas, a meia-luz do adeus.
Renunciei as veredas - eram a extensão
Da luz dos teus olhos nos meus iluminados.
Renunciei o ontem. Não queria as mágoas
Acordando as manhãs de outros sonhos.
Renunciei os instantes das lembranças.
Só não consigo renunciar a saudade
Daquele olhar de espanto e umedecido de dor,
E daquele rosto indagando numa voz serena:
Por quê? Se eu tanto te quero, meu amor...

O meu barco é chegada no porto.

O mar me disse que a tempestade se foi.

Trago-te as mãos cheias de ternura.

Essas espumas de cantiga que aprendi.


Quero de volta a batida louca de meu coração pulsando,
O encanto do primeiro encontro, a eternização de teu olhar,
Quando a sua luz trazia a ternura de um mundo desconhecido.
Quero, novamente, a noite com o luar nascendo em tua boca.
Quero que volte o horizonte com o alvor da estrela da manhã,
Quando a quase claridade erguia a aurora das nossas carícias.
Quero ver as marcas de teu corpo maduro porque só o amor
Há de beijar a graça de cada estação e dela sentir o seu aroma.
Só não quero de volta a dor amarga e sentida em toda partida.

 

É irreal o entardecer aquietando a ausência
Quando escolhemos as cores do que sentimos.
Em todo pôr de sol se esconde um antigo cais.
E o ocaso é esse porto no horizonte do olhar
Aonde as jangadas silenciosas vêm ancorar.
Uma a uma vão chegando antes do sol posto.
Voltam sempre. E ao cais eu volto também.
Aqueles barcos por razão de ofício retornam.
Eu, para um dia encontrar neles a concha do mar
Que guarda aquela calma do amor de antigamente.

Assim começou. O lugar por onde ias passar
Vinha me buscar. E comigo dizia: é por aqui
Que ela vem deixar a vida que vai nos levar.
Depois, era a graça de tua vinda. E todo dia
Minha esperança ia te ver, feliz, chegando.
E as nossas mãos foram tecendo o silêncio
Dos nossos desejos. E a noite era a ventura
Das nossas bocas beijando com os beijos
De tantos vinhos. E a vida era sempre assim.
E hoje me dizes ter esquecido aquele lugar;
Que não te lembras do bailar do vinho na taça;
Negas às tuas mãos a recordação das minhas;
E ao teu corpo, as serenas madrugadas do meu.
Ainda assim és encantadora. Pois essa mentira
Que contas, na verdade, são contas de tua saudade.

Não é tua sombra. Nesta eu sentiria a calma.
Não é tua voz. Esta seria meu acalanto habitual.
Não é tua pele. O teu cheiro me devolveria a vida.
Não é teu olhar. Este me traria os castelos de ontem.
Não é teu corpo. Este estaria no horizonte possível.
Extasia-me a tua sutileza quando me dás o bálsamo
Da sombra, a cantiga do tempo da gente, o tesouro
De tuas mãos macias em prece. E me olhas lentamente
Com a âncora deste mar azulado me pedindo porto.

Vi no teu olhar o silêncio me negando.
A mim, a boca dos beijos antes minha.
A ti, as noites dos meus dias te querendo.
Engana-te, amada, outra vez o teu orgulho.
E este quando se desmanchar em saudade,
Não saberei te dizer se aqui ainda estarei.
Ou se me restará do antigo jardim a razão
Para umedecer a flor destinada ao outono.
A despeito de tudo, encanta-me, o teu jeito,
Tão particular, de sentir saudades de mim!



Twitter