NATAL PRESS

"...Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta; que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda..." (Cecília Meireles, in "Romanceiro da Inconfidência")

A conversa de hoje tem foco no provável (?) colapso da "sociedade de mercado".

A pergunta que não quer calar é: "é possível combinar a sociedade complexa, urbanizada, que necessita de regulamentação e controle para sobreviver, com a liberdade individual? "

A ficção da "sociedade de mercado autorregulada" que desmorona agora na Grécia, na Espanha e em outros países europeus, é resultado de um processo que vem de vários anos. Talvez suas primeiras manifestações tenham surgido nas periferias do sistema capitalista.

Há algo da "promessa" do ideário liberal que, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial, parece estar desvanecendo-se no ar: suas instituições fundamentais atravessam uma fase de muito desprestígio, o que antecipa um próximo período de rearranjos organizacionais, culturais e ideológicos de diversas magnitudes, sem que possa especular-se ainda sobre seus tempos de desenvolvimento nem sobre suas direções.

O que está em debate é, no fundo, que a sociedade não fique como refém exclusivo do mercado, ou seja, que exista alguma forma de "intervenção social" sobre o mesmo, de regulação: que, na escala de prioridades, a sociedade venha antes que o mercado, e não o contrário.

Se agora, esta falácia da "sociedade de mercado autorregulada" se fratura na Grécia e na Espanha, esse movimento é resultado de um processo que vem de vários anos e de outros países.

Uma crise econômica, que não anula o sistema de um instante para outro, muito pelo contrário; mas que afeta a legitimidade e a autoridade de suas instituições no médio e longo prazo.

O liberalismo/neoliberalismo dá mais um passo em direção ao colapso; como modelo organizador da sociedade volta a evidenciar sua incapacidade de modo contundente.


Nisso consiste, a atual crise do capitalismo: a sucessão de "indignados" não faz mais do que exibir o fracasso de sua proposta civilizatória, a inconsistência de seus princípios, a contradição de suas instituições.

Todavia, é fundamental que as demandas de intervenção e regulação desta crise não se resolvam autoritariamente; que se preserve os governos sob regimes democráticos de Direito.

Nunca é demais relembrar que, assim como o fascismo, o socialismo foi também um resultado da incapacidade da economia de mercado em estabelecer ligações entre todos os países.

A Revolução de 1917, foi uma saída imposta à Rússia mais pela situação mundial, do que pela convicção dos revolucionários vitoriosos. Prova disso é que o estabelecimento do socialismo em um só país era contrário à própria teoria marxista.

É, portanto, fundamental que se busquem soluções econômicas que preservem a Democracia, ainda que eivada de defeitos.

Mais do que isso. A meu ver, o ser humano deve ter consciência de que a liberdade de que pode desfrutar é a liberdade possível, isto é, limitada pela sociedade.

Este conhecimento deve ser algo similar ao conhecimento da morte.

Diante do inevitável, a solução é não gastar energias contra o impossível, mas usá-las para obter tudo o que seja positivo e realisticamente possível.

Para terminar, fica aqui um grito de alerta: a Democracia depende de uma sociedade civil educada e bem informada cujo acesso à informação lhe permita participar tão plenamente quanto possível na vida pública da sua sociedade e criticar funcionários do governo ou políticas insensatas e tirânicas; depende de acesso mais amplo possível a ideias, dados e opiniões não sujeitos a censura.

A conversa de hoje corre atrás de uma saída para o "imblóglio" que estamos todos emaranhados. Uma tentativa de encontrar um caminho iluminado para o conjunto de nossa sociedade.

Assuntando cá no meu canto, descobri que o patropi é o país mais parecido com os Estados Unidos.

Embora não se reconheça esse fato em nenhum dos dois países. São de tamanho quase idêntico, fundados na mesma base, de povoamento europeu e de escravidão africana.

Cada um é o mais desigual de seu tipo: os EUA, dos países ricos; o Brasil, dos países emergentes. Paradoxalmente, nesses dois países muito desiguais, a maior parte das pessoas comuns (não falo dos governos) continua a acreditar que, apesar de tudo, ainda é possível construir um mundo melhor.

Essa orientação esperançosa, peregrina e aventureira representa o vínculo mais importante entre as duas nações, feitas, cada uma, de muitas nações.

No bojo da crise financeira internacional, há tudo para que se acelere tanto no Brasil como nos EUA o que já se prenunciava antes da crise: a busca de um conjunto de experimentos na maneira de organizar nossas sociedades que amplie, em proveito dos homens e das mulheres comuns, as oportunidades econômicas e educativas.

E que dê braços, asas e olhos à energia humana, frustrada e dispersa, que fervilha em nossos países.

Em vez de pedir ajuda, dada de cima para baixo, proponhamos construir juntos iniciativas exemplares, que têm tudo para contar com a simpatia e com a participação de muitos países latino-americanos.

Entre as áreas mais propícias, três merecem atenção especial.

1. Desenvolver as alternativas de energia renovável. Em vez de ficarmos vidrados nos interesses imediatos que nos dividem, é melhor construir as possibilidades futuras que podem nos unir. Trabalhar juntos para transformar os agrocombustíveis nas commodities que ainda não são. E para obter os avanços científicos e técnicos que permitirão mobilizar o potencial energético da biomassa - até que se possa mobilizar melhor o potencial das energias solar e eólica, diretamente.

2. Soerguer milhões de empreendimentos emergentes e pôr as finanças a serviço da produção. A crise financeira de agora impõe-nos tarefa mais importante do que a de regular os mercados financeiros: a de aproveitar melhor, mais objetivamente, o potencial produtivo do dinheiro reunido nos bancos e nas Bolsas.

O cumprimento dessa tarefa começa no esforço de dar às pequenas e médias empresas condições para ganhar acesso ao capital e para qualificar-se em tecnologias, conhecimentos e boas práticas.

3. Tomar as medidas necessárias para garantir, em todo o ensino público, um padrão mínimo e universal. O avanço de nossas sociedades passa pela efetivação de um princípio singelo: cuidar para que a qualidade da educação que uma criança recebe não dependa do acaso ou do lugar onde ela haja nascido.

Duas iniciativas, a se desdobrarem no Brasil e em todo o nosso hemisfério, podem abrir o caminho.

A primeira é desenhar uma escola média que reúna e que renove o ensino geral e o ensino técnico, com fronteira aberta entre os dois. Ensino geral focado em análise verbal e numérica, não em informação enciclopédica. Ensino técnico dedicado a capacitações práticas flexíveis, não ao domínio de ofícios rígidos.

A segunda iniciativa é providenciar a gestão local das escolas pelos Estados e municípios com padrões nacionais de investimento e de qualidade. Não basta avaliar nacionalmente as escolas e redistribuir recursos de lugares mais ricos para lugares mais pobres. É preciso também recuperar redes de escolas locais que tenham caído abaixo do patamar mínimo aceitável de qualidade.

Parte da solução é associar os três níveis da Federação em órgãos conjuntos, vocacionados para apoiar, socorrer e reparar as escolas ineficientes. É o rumo da federalização de todas as escolas brasileiras, associada a uma Lei de Responsabilidade Educacional. "É o caminho, a verdade e a vida".

O que unifica e orienta todas essas propostas é a disposição de reorganizar a economia de mercado em proveito da maioria trabalhadora. Hora de reconstruí-la, não apenas de contrabalançar suas desigualdades por meio de transferências sociais. Chega de bolsas e cotas!

Alvissareiramente, longe do falso conflito entre "nós" e "eles" pregado pelo PT; há no Brasil um grande, muito grande, conjunto de pessoas (do bem) dispostas a se mobilizarem em torno de ideias generosas.

A hora é essa. É a hora das ideias - mais luz que calor - para que o patropi encontre rumo outra vez.

Opinião política, por Rinaldo Barros

Andar sozinho pelas ruas à noite, parar no farol vermelho de madrugada, ser abordado por estranhos, sair de casa com objetos de valor. O que poderia ser definido como hábitos comuns se torna práticas de risco diante dos atuais índices de violência.

A presença do medo da violência tem profundo impacto sobre a vida social, cultural, econômica e política. Reduz a disposição das pessoas para ações coletivas, aumentando a desconfiança entre elas.

O medo da violência tem ainda impacto sobre a política, visto que se atribui aos governantes a maior parte da responsabilidade por sua redução; entrando, assim, na agenda política, quer como bandeira em campanhas eleitorais, quer como exigência da população - e pode ser manipulado para se justificar a adoção de medidas arbitrárias, contanto que deem a "sensação de segurança".

Um dos grandes desafios que o medo da violência apresenta é que, uma vez instalado em uma sociedade, ele não desaparece com a simples melhora das estatísticas oficiais.

As estatísticas oficiais podem apresentar uma forte queda, como ocorreu em São Paulo no caso dos homicídios (que teriam se reduzido à metade do que eram em 2000), sem que o medo sofra uma redução semelhante. O medo não é consequência só da experiência de ter sido vítima da violência, mas também nos espaços onde há sinais de degradação, desordem, lixo e abandono; da ausência do Estado, enfim.

O medo, combinado com a sensação de ausência de um poder público capaz de prover segurança coletiva e com a impotência dos cidadãos frente à criminalidade; estimula a adoção de estratégias individuais para diminuir o risco. Vivemos, num clima do "salve-se quem puder", com muito medo.

O medo da violência torna-se, desse modo, endêmico, banalizando a vida e tornando o ato de viver apenas um instrumento de segurança privada. De forma simultânea, as mortes violentas começam a se tornar toleráveis, e não provocam mais indignação, e são até mesmo defendidas como forma de redução das ameaças.

Cá no meu canto, fico assuntando se, de certa forma, não estamos sendo induzidos a temer mais estórias fantasiosas do que fatos reais. Explico com a seguinte tese.

Sentimos tantos medos, grande parte deles infundados, também porque boa parte da mídia nos bombardeia diariamente com estórias sensacionalistas publicadas para aumentar os índices de audiência. Os estudiosos chamam essa tese de "teoria dos efeitos da mídia".

De fato, a cobertura jornalística sensacionalista tem efeitos marcantes na mente e no emocional dos leitores e espectadores: "deu no jornal" tem a força de uma parábola evangélica.

A violência ocupa o espaço deixado pela fragmentação dos valores sociais em uma sociedade em processo de mudanças profundas nas esferas comportamentais e caminhando para um individualismo "selvagem" como modo de vida, já que as normas e referências sociais não se encontram claras para as novas gerações. A competição e o consumismo ocupam o lugar da solidariedade.

Os valores que deveriam forjar a identidade dos indivíduos estão pulverizados, parecem colocar-se de forma frágil e transitória, ampliando a solidão de cada um de nós, e amplificando o imaginário social do outro como concorrente, como estranho ou, pior, como inimigo.

Os contornos sociais de onde se visibilizam as interações entre indivíduos para esse caráter banalizado da violência, expresso pela mídia - forma o imaginário dos cidadãos, gera no conjunto da sociedade uma enorme obsessão pelo medo. Estamos todos com muito medo.

A questão da segurança é vital para a vida social e até para a consolidação da Democracia. Além disso, é preciso destacar que quase todas as vítimas da violência urbana são jovens negros, pobres, moradores de favelas e de periferias urbanas. O povo não deveria ser visto como inimigo da polícia. Mas, ainda o é.

O Estado e sociedade precisam, isso sim, mostrar aos criminosos potenciais que a vida após o crime é mais dura do que antes da sua prática. O bandido é quem deveria ter medo de ser preso.

O sistema policial, penitenciário e judiciário precisa urgentemente tornar-se mais visível; para reduzir a impunidade. O povo precisa ser respeitado para aprender a respeitar e colaborar, sem ter medo da polícia.

Será necessário um reordenamento radical das atuais prioridades, se realmente quisermos livrar o Brasil do fardo da pobreza, da violência e do medo. E não estou certo se os responsáveis atuais pelos destinos do patropi estão se dando conta das implicações e das consequências da violência na vida pública brasileira.

Resumo da ópera: é possível enfrentar a questão do medo da violência, com inteligência, devolvendo a polícia ao povo, despertando a corresponsabilidade da sociedade civil e da imprensa, entendendo que a criminalidade deve ser enfrentada, objetivamente, sem sensacionalismo e sem medo.

Opinião política por Rinaldo Barros

Esta conversa pretende alumiar a questão da proteção social, ou do Estado do Bem-estar ("Welfare state"), consolidado desde o início do século passado.

Quando o Fórum Econômico Mundial promoveu sua 43ª reunião anual, em janeiro de 2013, em Davos, reunindo líderes políticos e empresariais de todo o mundo; o Brasil esteve sub-representado no evento.

Dos mais de 2.500 participantes do fórum que constavam da lista oficial, apenas 09 nomes do Brasil - incluindo os de sete jornalistas brasileiros escalados para cobrir o encontro. Do governo, apenas 02 representantes: Luciano Coutinho do BNDES e Alexandre Tombini, presidente do Banco Central.

A Índia compareceu com a delegação mais numerosa, com 109 nomes, incluindo os de quatro ministros. A China teve um pouco menos - 86 representantes, contando também os 24 participantes de Hong Kong. A Rússia com 82 nomes e África do Sul com 69 nomes.

Cito esses números apenas para que o caro leitor possa avaliar o pouco interesse do PT governo no debate mundial das grandes questões econômico-sociais, num mundo globalizado e em plena crise envolvendo algumas potências, como os EUA e a União Europeia.

Podemos estar assistindo ao fim de um sistema de proteção social que foi a base lógica e estrutural da busca de bem-estar humano no sistema internacional do século XX. A proteção social, levada a cabo por meio de políticas sociais e de direitos sociais, com perspectiva de longa duração e sistêmica.

O gasto social consolidou-se no século XX como um dos principais pilares da economia política dos Estados nacionais. Do ponto de vista político, a Revolução Francesa foi um marco na capacidade das massas gerarem demandas sociais crescentes, que passaram a ser atendidas por meio do gasto público.

Do ponto de vista econômico, o gasto público, de forma geral, se tornou parte fundamental do sistema capitalista. Infraestrutura e trabalhadores educados e saudáveis passaram a ser uma necessidade do capital. Criou-se uma tensão política, de certa forma virtuosa para o sistema, entre Estado, capital e trabalhadores.

Com a construção de sistemas de educação e saúde voltados para formação de trabalhadores e de novas tecnologias; de sistemas de previdência, que sustentaram o consumo interno; e da expansão na arena internacional, que garantiu mercados e matérias primas. Alguns países europeus conseguiram até mesmo se aproximar da universalização do bem estar social.

Todavia, a partir de 1990, muitos países foram pressionados a reduzir o padrão de vida, interrompendo um ciclo de expansão que durou décadas.

Outro sinal de estancamento do processo de universalização foi o aumento da informalidade no mercado de trabalho, após um longo período de incorporação de trabalhadores à formalidade - que significa para o indivíduo um novo patamar de direitos de cidadania. O desemprego aumentou.

Pior: não havia (ainda não há) políticas sociais para contornar o problema, que foi agravado pela adoção de políticas macroeconômicas contracionistas (reduzir a oferta de moeda, aumentando juros e reduzindo investimentos). O desemprego tornou-se um problema permanente.

Entre os principais desafios teóricos elencados em relação à pobreza e exclusão estão: 1) erradicar pobreza infantil; 2) promover inclusão social e no mercado de trabalho dos grupos mais vulneráveis; 3) prover moradia decente a todos; 4) reduzir a exclusão financeira e o endividamento excessivo das famílias.

Nos países da América do Sul, as políticas de proteção social predominam, mas todos usam transferência de renda. São políticas compensatórias, tipo Bolsa família. Antes de servir de rede de proteção social, visam, na verdade, manter a situação de dependência para perpetuar no poder os atuais governantes.

Aqui no patropi, não há alternativas econômicas para enfrentar a informalidade, especialmente no ambiente urbano; não há políticas públicas para os que ficam de fora do mercado, e as famílias dos trabalhadores estão endividadas, porque o PT governo incentiva o consumismo e o crédito fácil. Vivemos um desbalanceamento entre oferta e demanda com ameaça inflacionária. Somado a isto, temos a desindustrialização, a queda do emprego formal e a perda da credibilidade externa.

O PT governo colhe os frutos das suas decisões erradas.

Resumo da ópera: os que vivem do seu próprio trabalho correm risco iminente e crescente de perder conquistas essenciais à dignidade do ser humano.

O mundo do trabalho encontra-se em crise; com impactos assustadores no aumento da violência e da criminalidade.

Opinião política por Rinaldo Barros

"Só é digno da liberdade, como da vida, aquele que se empenha em conquistá-la". (Goethe)

A conversa de hoje é uma ousada caminhada na trilha de alguns conceitos pouco debatidos em nossa sociedade: política, democracia, cidadania e liberdade. Para tanto, valho-me do trabalho do professor Gustavo Bertoche in "Democracia, Cidadania e Liberdade", publicado em 2007; conceitos com os quais concordamos.

Para que se compreenda as ideias de Democracia e Cidadania, devemos antes compreender isto que se chama Política. Todos imaginamos saber o que é Política.

Todos os dias lemos os jornais e ouvimos a televisão que nos dizem várias coisas sobre políticos profissionais: o que o Presidente da República fez, o que o Deputado de tal partido comentou, o que o Prefeito de tal cidade construiu. No entanto, isto é realmente Política?

Será que Política é apenas o conjunto de ações e palavras dos políticos profissionais?

Do mesmo modo, não nos perguntamos em que exatamente consiste nossos direitos de Cidadania.

O que faz de cada um de nós um cidadão?

Às vezes, basta-nos saber utilizar um ou outro direito; e talvez mesmo imaginemos que estes direitos são benefícios concedidos pelo governo. A ingenuidade em relação aos princípios da Democracia e aos princípios da Cidadania é fonte de inúmeras confusões, e impede as pessoas de lutar pelos seus direitos.

Relembremos. A política nasceu na Grécia. A Pólis era o centro da vida grega.

A Pólis era o centro da vida do cidadão grego: era onde ele nascia, vivia e esperava morrer; era onde ele realizava seus negócios; era sua casa, seu templo, sua comunidade. A política, portanto, é originalmente toda atividade realizada pelos cidadãos, e que concorre para o bem da própria Pólis. Mas, o que é um cidadão?

Cada cidadão, em uma Democracia, tem direitos que não são apenas os direitos de votar e ser votado e de escolher como guiará sua vida particular: os cidadãos têm o direito de derrubar o governo pelo qual não se sintam representados; se esse for o desejo da maioria. O leitor já havia pensado nisso?

Na construção do conceito moderno de Cidadania, portanto, foi operante o conceito de Liberdade individual; a qual pode ser Liberdade negativa (ausência de coerção) ou Liberdade positiva, pela qual um governo existe a partir de um consentimento dos cidadãos.

Portanto, os direitos da Cidadania moderna incluem, além dos direitos de votar e ser votado e de guiar a própria vida particular; os direitos naturais do homem: o direito à vida, o direito à propriedade, direito de ir e vir, direito à livre expressão e o direito à resistência, à oposição ao governo.

Além disso, a principal característica da Cidadania moderna passa a ser o consentimento do cidadão ao governante. A Cidadania moderna incorpora a Liberdade política. No Estado democrático, o destino do povo está nas mãos do próprio povo. Mas, repito, a Democracia não se resume apenas em seus cidadãos votarem.

Será que as pessoas têm medo de ser livres?

Aliás, no patropi, vivenciamos uma contradição entre a existência de uma Democracia representativa e a desigualdade brutal, que permanece alimentando a miséria e a violência.

A maioria da população brasileira ainda é composta por analfabetos funcionais (lê, mas não entende); e essa dificuldade a impede que seja livre para fazer as escolhas capazes de construir uma sociedade de cidadãos, no pleno gozo dos seus direitos e deveres. Onde todos seriam iguais porque todos seriam livres. Onde cada cidadão disporia de seus recursos materiais, intelectuais e espirituais com completa liberdade.

Houve um avanço relativo ao aumento da capacidade de consumo, nos últimos anos, em razão do avanço da ajuda assistencialista que o governo proporciona aos mais necessitados. Entretanto, para alcançarmos a Liberdade política, a plena Cidadania, muitas coisas precisam ainda mudar.

Existem outras formas de aumentar o bem-estar das pessoas, sem precisar se prolongar indefinidamente com os programas assistenciais. É urgente superar a visão assistencialista, fundada no monetarismo especulativo, tal qual ocorre atualmente no Brasil. Do jeito que está, nunca alcançaremos a Cidadania.

É possível implementar uma outra política econômica, desenvolvimentista (fortalecendo a produção, e não o consumismo) e universalizar a educação técnica pública de qualidade, incentivar o empreendedorismo e fortalecer as micro e pequenas empresas, na cidade e no campo, para gerar mais trabalho e renda; do que resultará uma sociedade de cidadãos, com uma vida digna voltada para as próximas gerações.

Resumo da ópera: um Estado será democrático apenas caso respeite a Liberdade e os direitos primários das pessoas, como o direito à vida, o direito à propriedade, direito de ir e vir, direito à livre expressão e o direito à resistência e à oposição política, com a possibilidade clara de alternância no poder.

Opinião política por Rinaldo Barros


Perfil do Autor:
Rinaldo Barros é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, desde 1988. Até recentemente ocupou a Diretoria Científica da FAPERN – Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Norte, onde busca contribuir para que a disseminação do conhecimento científico e a prática da pesquisa se tornem mecanismos de desenvolvimento do Rio Grande do Norte. Atualmente, é consultor em Desenvolvimento Urbano e presidente municipal do ITV - Instituto Teotônio Vilela,, em Natal (RN).

"O sono da razão gera monstros" (Antonio Gramsci)

Logo após o reinado de momo, serão abertas campanhas eleitorais em todos os Estados ao longo do patropi e, também, no Congresso Nacional. Não será apenas mais uma legislatura, dezenas de senadores estão com seus mandatos em risco.

Estamos assistindo aos primeiros clarões da alvorada de uma nova era política em terras crioulas.

Com a mundialização da economia, com o advento do Mercosul, com a nova geopolítica internacional (o mundo multipolar), com eleições em todos os Estados brasileiros, com a crise na economia estadunidense ainda renitente, necessariamente teremos uma nova realidade política no Brasil, em toda América Latina e Caribe, como de resto em todo o planeta.

É palpável a evanescência de muitos outrora importantes movimentos sociais (como o de mulheres, por exemplo). É visível o declínio da força do sindicalismo, como conseqüência do novo padrão de acumulação do sistema e do desaparecimento de postos de trabalho e profissões, por força da automação.

Preocupa-me também a tentativa governamental de censurar ou desqualificar o papel da imprensa e da internet enquanto pilares da Democracia, em meio a generalizada sensação de impunidade.

É igualmente muito preocupante a despolitização das novas gerações, às voltas com um individualismo estéril, terreno fértil e perigoso para as manipulações de todos os tipos.

Nosso sistema educacional nem de longe está preparado para orientar nossa juventude nos caminhos da vida, nossos professores estão ainda em busca da compreensão acerca dessa novíssima realidade e, lamentavelmente, ainda sem o indispensável apoio conceitual.

Nossos mestres estão desarmados em pleno campo de batalha, uma loucura sem igual.

Ninguém está preparado ainda para lidar com essa novíssima realidade. Trata-se de uma série de especificidades, eivada de ambigüidades, tecendo uma rede complexa e fragmentada de novos conceitos e novos paradigmas, a qual vai se redefinindo junto a cada movimento do real, a uma velocidade alucinante.

No contexto local, o lulodilmismo levou o País ao retrocesso político e moral ao não punir e até defender e incentivar a corrupção com o dinheiro público, ao lotear cargos técnicos com apadrinhados despreparados e mal-intencionados, ao interferir politicamente em funções do Estado que existem para servir ao cidadão, e não aos interesses do governo.

Além de não fazer nenhuma das reformas fundamentais para a modernização da nossa sociedade.

Todavia, é forçoso reconhecer os méritos do governo atual: a economia cresceu e milhares de novos empregos foram criados, a área social ganhou impulso, e surpreendentemente o País saiu (?) da crise antes do esperado. Em que pese a desigualdade social ainda inaceitável e o câmbio atrapalhar as exportações, o futuro econômico do Brasil é promissor e o PT governo ajudou a construí-lo; a partir da sábia manutenção da política econômica do governo anterior e da preservação do Plano Real, criado em 1994.

Entretanto, tudo se passa como se o PT governo houvesse descoberto uma forma de agir como ditador fingindo estar numa Democracia. Com a "aprovação" da maioria desinformada da população.

Por falar nisso, acho muito estranho quando vejo a quantidade de "medidas provisórias" editadas, melhor, ditadas pelo governo federal; temos a impressão de que o nosso sistema democrático é uma fraude.

Que democracia é esta em que a maioria das leis é feita pelo Executivo e não pelo Legislativo?

É assustador o crescimento da violência urbana, ao lado do consumo endêmico de drogas e, talvez um claro indício de que estamos na barbárie: parte da população – cansada de esperar – começa a fazer justiça com as próprias mãos, promovendo linchamentos de assaltantes em via pública.

É preocupante também a omissão em relação à formação dos militares brasileiros; o que tem garantido a perpetuação, quase intacta, da doutrina de segurança nacional dentro dos quartéis. É mesmo muito estranho.

E, agora, o PT governo anuncia "Estado de Exceção" na Bahia e que vai colocar o Exército nas ruas para reprimir manifestações durante a Copa; quando se sabe que as Forças Armadas não são treinadas para conter multidões, mas estão preparadas para matar e destruir.

Será que estão querendo jogar a opinião pública contra as forças armadas?

Será mais uma pedra no quebra-cabeça da "revolução bolivariana", novo cenário político para a América Latina? Será o início da fórmula da "pós-democracia" (superação da democracia representativa)?

Será que a frágil Democracia verde-amarela está correndo perigo de novo retrocesso?

A dedução é privilégio do caro leitor.

Opinião política por Rinaldo Barros

"Se você acha que o conhecimento custa caro, experimente optar pela ignorância!". (Abraham Lincoln)

A conversa de hoje é um contraponto entre dois temas, contraditórios e imbricados um no outro.

A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em novembro de 2005, distribuiu um documento (Rumo às Sociedades do Conhecimento), coordenado por Jérôme Bindé, o qual "incita as autoridades governamentais a investir em uma educação de qualidade para todos, a multiplicar os locais de acesso comunitário às tecnologias da informação e da comunicação, e a encorajar o compartilhamento do saber científico entre os países afim de reduzir as diferenças numéricas e cognitivas que separam o Norte do Sul e também abrir o caminho para uma forma "inteligente" de desenvolvimento humano sustentável".

Para os autores, não deveriam existir excluídos nas sociedades do conhecimento, posto que o conhecimento é um bem público que deveria estar disponível para todos nós.

Desde então, venho assuntando cá no meu canto: como poderemos entender a explosão de revoltas sem causas, sem bandeiras e sem lideranças, envolvendo jovens e adultos, auto-convocadas via redes sociais, e promovendo o vandalismo contra tudo o que representa o poder; movimentos fermentados nas periferias das áreas urbanas degradadas? Qual a origem real deste fenômeno?

A propósito dessa questão, um dos principais pensadores da esquerda norte-americana, Michael Hardt, considera que, hoje, qualquer país europeu reúne condições para a eclosão de distúrbios similares aos que ocorrem em Los Angeles, no Brasil, no Egito ou no México. Já ocorreram em Paris, em Madrid, em Atenas...

E eu ouso acrescentar que qualquer país reúne as mesmas condições, desde que pratiquem modelos econômicos excludentes e opressores; semelhantes ao que vivenciamos aqui no patropi.

A meu sentir, os acontecimentos atuais não são uma luta contra qualquer governo que eventualmente esteja de plantão, mas contra a estrutura de pobreza e exclusão. E acrescento, estrutura sustentada pela manipulação, pela propaganda, pela repetição sistemática de mentiras e ilusões. Em contraste com a realidade.

São os pobres se rebelando contra sua exclusão e subordinação na sociedade. É por isso que a comparação com as revoltas de Los Angeles e Paris ajuda a compreensão.

Sim, há diferenças culturais e raciais que demarcam a linha dos conflitos nos dois casos. Mas o essencial nos dois casos é a existência de pobreza e exclusão social. Não é surpresa que esse tipo de conflito chegue na era da globalização e da internet.

Esse tipo de pobreza e exclusão é resultado do modelo econômico, que tem o "deus mercado" (o consumismo) como regulador de todas as questões, igualmente no Rio de Janeiro, na cidade do México, em Paris, Nova Orleans ou São Paulo. Ou, como diria Zé Ninguém, Oropa, França e Bahia.

Para Hardt, nos tempos atuais não há mais sentido em falar apenas em dominação de um Estado nacional sobre o outro, mas, sim, de uma nova forma de soberania: um "poder em rede" formado por instituições supranacionais, grandes corporações capitalistas dominando o mundo inteiro.

Acrescento que o grande capital internacional (volátil) é essencialmente especulativo. Sua estratégia tem um único foco: o lucro máximo. Sem compromisso com o desenvolvimento ou com evolução do ser humano.

Face a essa realidade cruel que nos agride perigosamente, e para recarregar as baterias da esperança, é importante conhecer e divulgar o documento da UNESCO "Rumo às Sociedades do Conhecimento".

A UNESCO propõe que os governos, o setor privado e os parceiros sociais devem, no século 21, introduzir uma "dotação por tempo de estudo" que dê aos indivíduos o direito a educação continuada, até mesmo após o término do tempo da instrução formal. Aponta a educação como a única saída para evitar a barbárie.

Ao mesmo tempo em que se aumentem investimentos em pesquisa, é preciso promover novas formas de partilhar o conhecimento. Também é preciso promover a diversidade lingüística e as culturas locais.

Nada assombroso, nem revolucionário. Apenas um dever de casa que todos já deveríamos ter feito.

Doloroso é constatar que, apesar de tudo o que fizemos, e após um rosário de decepções - no ano em que comemoramos 25 anos da Constituição cidadã, o povo brasileiro ainda sonha com sua libertação do jugo secular.

Sonhar é de graça ou, mais realisticamente, de ilusão também se vive.

Opinião política por Rinaldo Barros

A conversa de hoje é um contraponto entre dois temas, contraditórios e imbricados um no outro.

A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em novembro de 2005, distribuiu um documento (Rumo às Sociedades do Conhecimento), coordenado por Jérôme Bindé, o qual "incita as autoridades governamentais a investir em uma educação de qualidade para todos, a multiplicar os locais de acesso comunitário às tecnologias da informação e da comunicação, e a encorajar o compartilhamento do saber científico entre os países afim de reduzir as diferenças numéricas e cognitivas que separam o Norte do Sul e também abrir o caminho para uma forma "inteligente" de desenvolvimento humano sustentável".

Para os autores, não deveriam existir excluídos nas sociedades do conhecimento, posto que o conhecimento é um bem público que deveria estar disponível para todos nós.

Desde então, venho assuntando cá no meu canto: como poderemos entender a explosão de revoltas sem causas, sem bandeiras e sem lideranças, envolvendo jovens e adultos, auto-convocadas via redes sociais, e promovendo o vandalismo contra tudo o que representa o poder; movimentos fermentados nas periferias das áreas urbanas degradadas? Qual a origem real deste fenômeno?

A propósito dessa questão, um dos principais pensadores da esquerda norte-americana, Michael Hardt, considera que, hoje, qualquer país europeu reúne condições para a eclosão de distúrbios similares aos que ocorrem em Los Angeles, no Brasil, no Egito ou no México. Já ocorreram em Paris, em Madrid, em Atenas...



E eu ouso acrescentar que qualquer país reúne as mesmas condições, desde que pratiquem modelos econômicos excludentes e opressores; semelhantes ao que vivenciamos aqui no patropi.

A meu sentir, os acontecimentos atuais não são uma luta contra qualquer governo que eventualmente esteja de plantão, mas contra a estrutura de pobreza e exclusão. E acrescento, estrutura sustentada pela manipulação, pela propaganda, pela repetição sistemática de mentiras e ilusões. Em contraste com a realidade.

São os pobres se rebelando contra sua exclusão e subordinação na sociedade. É por isso que a comparação com as revoltas de Los Angeles e Paris ajuda a compreensão.

Sim, há diferenças culturais e raciais que demarcam a linha dos conflitos nos dois casos. Mas o essencial nos dois casos é a existência de pobreza e exclusão social. Não é surpresa que esse tipo de conflito chegue na era da globalização e da internet.

Esse tipo de pobreza e exclusão é resultado do modelo econômico, que tem o "deus mercado" (o consumismo) como regulador de todas as questões, igualmente no Rio de Janeiro, na cidade do México, em Paris, Nova Orleans ou São Paulo. Ou, como diria Zé Ninguém, Oropa, França e Bahia.

Para Hardt, nos tempos atuais não há mais sentido em falar apenas em dominação de um Estado nacional sobre o outro, mas, sim, de uma nova forma de soberania: um "poder em rede" formado por instituições supranacionais, grandes corporações capitalistas dominando o mundo inteiro.

Acrescento que o grande capital internacional (volátil) é essencialmente especulativo. Sua estratégia tem um único foco: o lucro máximo. Sem compromisso com o desenvolvimento ou com evolução do ser humano.

Face a essa realidade cruel que nos agride perigosamente, e para recarregar as baterias da esperança, é importante conhecer e divulgar o documento da UNESCO "Rumo às Sociedades do Conhecimento".

A UNESCO propõe que os governos, o setor privado e os parceiros sociais devem, no século 21, introduzir uma "dotação por tempo de estudo" que dê aos indivíduos o direito a educação continuada, até mesmo após o término do tempo da instrução formal. Aponta a educação como a única saída para evitar a barbárie.

Ao mesmo tempo em que se aumentem investimentos em pesquisa, é preciso promover novas formas de partilhar o conhecimento. Também é preciso promover a diversidade lingüística e as culturas locais.

Nada assombroso, nem revolucionário. Apenas um dever de casa que todos já deveríamos ter feito.

Doloroso é constatar que, apesar de tudo o que fizemos, e após um rosário de decepções - no ano em que comemoramos 25 anos da Constituição cidadã, o povo brasileiro ainda sonha com sua libertação do jugo secular.

Sonhar é de graça ou, mais realisticamente, de ilusão também se vive.


Opinião política por Rinaldo Barros


Rinaldo Barros é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, desde 1988. Até recentemente ocupou a Diretoria Científica da FAPERN – Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Norte, onde busca contribuir para que a disseminação do conhecimento científico e a prática da pesquisa se tornem mecanismos de desenvolvimento do Rio Grande do Norte. Atualmente, é consultor e presidente municipal do PSDB, em Natal (RN).

As últimas pesquisas, realizadas após o início da importação de médicos, apontam na direção do que este escrevinhador vem assuntando ultimamente: o discurso recheado de acusações de corrupção não está pegando contra o PT governo. Aliás, como de resto, não está pegando para os mensaleiros, nem para qualquer político envolvido com a corrupção, da oposição ou governista.

Tenho alertado que existem causas estruturais, objetivas, formadas historicamente, para explicar este fenômeno. É preciso perceber que, neste caso, o problema é duplo: com o mensageiro e com a mensagem.

Em relação ao mensageiro, o leitor há de convir que a imagem de todas as instituições políticas brasileiras (partidos, congresso nacional, governos, prefeituras, câmaras municipais), em matéria de cuidado com a ética, não é exatamente a melhor, nem a mais desejável. Sua credibilidade é zero.

Em relação à mensagem (o governo é corrupto e incompetente), relembro Mário de Andrade, em sua constatação sobre a metáfora do brasileiro como Macunaíma, o retrato cultural do povo brasileiro: índio branco, feiticeiro, mau caráter, preguiçoso, mentiroso, egoísta, gozador, capaz de rir de si próprio e de nunca perder uma piada. A acusação de corrupto nada significa para a maioria da população, até porque mente com frequência e vivencia pequenas desonestidades em suas relações do cotidiano: o jeitinho brasileiro.

Terreno bastante fértil para, frente à impunidade, florescer atos de corrupção, praticados com naturalidade, sem que sejam vinculados com a questão da ética ou com a moral vigente.

Um passo para aceitar e praticar a corrupção em geral. "Que todos nos locupletemos!"

O povo brasileiro capacitou-se a conviver "espertamente" com situações adversas de exploração, violência, corrupção, miséria moral, discriminação, desemprego, analfabetismo, utilizando-se das armas ou mecanismos psicológicos os mais diversos.

Gilberto Freire ensinou que a família patriarcal determinou toda nossa estrutura social e as relações com o poder público. Formou-se sociologicamente "uma invasão do público pelo privado, do Estado pela Família".

Ou seja, o nepotismo, o patrimonialismo e a corrupção eleitoral são culturalmente aceitos pela imensa maioria da população, como algo "natural", são instituições antropológicas da nossa mestiçagem.

Acrescente-se a isto o fato de que mais de 70% (setenta por cento) do eleitorado é formado por analfabetos funcionais (lê, mas não entende), e ainda que os milhões de excluídos possuam apenas um único compromisso, que é consigo mesmo, com sua sobrevivência cotidiana.

Lamentavelmente, a maioria do povo brasileiro é formada por lúmpens (vá ao dicionário), facilmente corruptível. A desigualdade social, no Brasil, continua sendo ainda considerada uma das mais altas do mundo.

E, sob outra ótica, relembro que a história contemporânea nos levou ao término da onda industrial, à universalização da sociedade da informação (dominada pelo grande capital internacional), aos lucros astronômicos das grandes instituições financeiras, fenômeno que fez explodir o estoque de recursos financeiros, dos quais uma boa parte tem se destinado a perigosas especulações de curtíssimo prazo.

Explico melhor: onde houver juro alto (entenderam agora o porquê dos juros altos?) o capital financeiro estará lá, apoiando o governo da hora.

Prestem atenção ao que vem agora!

Lula (e sua presidente-adjunta), muito espertamente, conseguiu obter o apoio dos dois pólos que decidem uma eleição: 1) "conquistou" grande parte dos milhões de pobres e excluídos, com políticas compensatórias, tipo bolsa-família, prouni, mais médicos, entre outros e; 2) obedeceu direitinho aos ditames da banca internacional, coordenadora da especulação; ganhando a confiança da Avenida Paulista e das grandes redes de comunicação.

Resumo da ópera: está provado que Macunaíma continua vivo e atuante, como candidato (a) ou como eleitor (a). Vai votar a favor do vento, até porque miséria não gera consciência.

Somente parte da classe média, mais bem informada, empobrecida e endividada, votará contra tudo isso.

Temo constatar que: 1) o gigante não acordou e; 2) chegou a hora da decrepitude dos sonhos e do fim das esperanças.


Perfil do Autor:
Rinaldo Barros é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, desde 1988. Até recentemente ocupou a Diretoria Científica da FAPERN – Fundação de Apoio à Pesquisa do Rio Grande do Norte, onde busca contribuir para que a disseminação do conhecimento científico e a prática da pesquisa se tornem mecanismos de desenvolvimento do Rio Grande do Norte. Atualmente, é consultor e presidente municipal do PSDB, em Natal (RN).
Opinião política por Rinaldo Barros

Esta é uma tentativa de entender como o contexto histórico atual do nosso mundo consegue gerar fenômenos do tipo manifestações autoconvocadas pelas redes sociais, com misteriosos grupos de mascarados, autodenominados "Black Bloc", impulsionando milhares de pessoas em direção à fuga da realidade, através da "brincadeira de faz de conta", na busca de um sonho impossível (?).

Desconfio que se trate de um processo embutido no "inconsciente coletivo" (se é que isso existe) de nossa população, notadamente dos mais jovens. Processo que possui suas bases na nossa dura realidade, injusta, feia, sórdida, violenta, e eivada de decepções e frustrações políticas; tudo embalado na mesmice do cotidiano e no vazio dos discursos dos poderosos.

Tudo isso gera uma incontrolável vontade de "fugir" desse mundo cruel e caótico: "pára o mundo que eu quero descer".

Como encontrar o acesso à magia, ao reencantamento do mundo, à utopia, a uma razão para viver? Através da poesia, dos sonhos mirabolantes, do amor louco, do escândalo, da zombaria, do humor, do protesto no espaço público, do vandalismo contra os símbolos do poder, da disponibilidade para o humano, enfim.

É lógico: se a realidade é amarga, e eu não me identifico com ela, crio em minha mente um mundo diferente, da cor e do tamanho do meu devaneio: "Passagem gratuita para todos os transportes públicos, já". A tentação é grande.

Teoricamente, é possível dizer, longe do que pensam alguns "críticos" racionalistas, que o surrealismo nada tem de "irreal" sendo, ao contrário, a busca intransigente de uma supra-realidade. Seu ponto de partida é o próprio cerne do que há de mais elevado e sublime no coração de cada ser humano: o surrealismo busca atingir e expressar a transparência do sonho.

Por outro lado, constata-se que nossos jovens estão confusa e profundamente afetados pela desesperança, pelo descrédito nas instituições e nas autoridades, sem bússola e sem horizonte. Qual a saída?

Construir o mais lindo dos castelos de sonhos, unindo poesia e transformação social, a mover céus e terras para dar-lhe expressão no mundo real. Esta a motivação maior dos surrealistas de todos os tempos e Nações.

Aliás, fronteiras, pátrias, governos, espaço, tempo, tudo isso é considerado ilusório, questionável pelos surrealistas.

Nada mais fácil de entender, principalmente para os jovens, a atitude surrealista de imaginar que pode tentar transformar a vida na cidade onde vivem como num sonho, ainda que seja mirabolante louco ou grotesco. É o novo dentro da mesmice. Lamentavelmente.

As passeatas de protestos com inúmeras bandeiras de luta, ao sabor das relações virtuais entre os jovens desencantados com os políticos profissionais e com as instituições, no Brasil e no mundo; expuseram algumas lideranças políticas ao ridículo, todos assustados e com medo de segurar a lanterna nas próximas eleições.

Dilma, por exemplo, perdeu a chance histórica de - com o apoio do povo nas ruas - exigir dos aliados o compromisso programático (aprovado pelo seu partido em Congressos Nacionais) com as grandes questões sociais do povo brasileiro, como as reformas indispensáveis (tributária, urbana, política, agrária, universitária), as quais o governo do PT nunca sequer discutiu com o parlamento nem com a sociedade.

Todavia, a presidente optou pelo pragmatismo, de olho em 2014. Esse erro pode custar caro.

É a hora e a vez de mudar o compromisso diante da vida, resgatar e transmitir, através de exemplos e atitudes, os valores sobre os quais foi erigida a civilização: verdade, justiça, honestidade, beleza, dignidade, pais e mães da esperança de se construir um futuro melhor para a Humanidade.

Bem que os atuais potenciais candidatos poderiam, de imediato, utilizar o seu poder de comunicação com o eleitorado para alertar acerca da responsabilidade de cada um na hora de votar. Seria uma ótima oportunidade de colaborar com uma forma concreta de contribuir para a construção da cidadania.

Brincar de faz de conta é muito bom, mas somente com muito estudo e trabalho é possível transformar o mundo. E, na hora de votar, não adianta tirar onda. É bom analisar quem tem "papo reto" com as novas gerações.

Votar é papo sério!


Opinião política por Rinaldo Barros



Twitter