NATAL PRESS

A conversa de hoje é uma reflexão em defesa da nossa jovem Democracia, duramente conquistada; uma espécie de alerta sobre um fenômeno político ainda em gestação aqui no patropi, mas com raízes já fincadas em alguns países da América Latina: o surgimento de uma nova Autocracia. Vejamos.
Estamos assistindo o alvorecer de uma nova era política em terras crioulas.

Com a mundialização da economia, com a crise na União Europeia, com o enfraquecimento do Mercosul, com novo governo federal à vista, necessariamente, teremos uma nova realidade política em toda América Latina e Caribe, como de resto em todo o planeta.
Todavia, o impeachment presidencial é necessário, mas não é suficiente.

Nossos governantes e parlamentares, assim como, todos os homens de boa vontade, estão obrigados a repensar o nosso tempo. Como já tive oportunidade de lembrar aqui, o sucesso de rótulos como “pós-moderno” e “pós-industrial” evidenciam a incapacidade de os nossos dirigentes e intelectuais pensarem a partir do nosso próprio tempo.
Temos tentado pensar a partir do que já foi, e já não é mais.

Como se não bastasse, é lamentável a palpável cooptação de muitos outrora importantes movimentos sociais (como o sindical, o de mulheres e o de estudantes, por exemplo). É igualmente preocupante a despolitização das novas gerações, às voltas com um individualismo estéril, terreno fértil e perigoso para as manipulações. E somente os dinossauros ainda não perceberam a força descomunal da internet, revelando inusitadas formas de comunicação social.

Ninguém está preparado ainda para lidar com essa novíssima realidade. Trata-se de uma série de especificidades, eivada de ambiguidades, tecendo redes complexas e fragmentadas de conceitos e paradigmas, as quais vão se redefinindo, por sua vez, junto a cada movimento do real, a uma velocidade alucinante.
É uma espécie de entrelaçamento de novas reflexões que envolvem a arte, a cultura, a pedagogia, a tecnologia, a política, a economia, a produção de conhecimento, a internet e, como não poderia deixar de ser, os pressupostos filosóficos. Há um silêncio ensurdecedor da “intelligentsia” sobre o nosso tempo.

Acredito que o próprio papel de intelectual está igualmente se redefinindo, da mesma forma que cabe o questionamento dos conceitos do que antes se entendia como sendo “esquerda” e “direita”.
Não se trata, é bom que fique claro, de afirmar o fim da história. Muito pelo contrário.
Trata-se, mais do que nunca, de reencontrar um Novo Iluminismo, como continuidade do processo histórico, das manifestações do novíssimo fazer humano.

Esta reflexão tem a influência direta das minhas releituras, notadamente de um dos livros de Cornelius Castoriadis, filósofo francês (Encruzilhada do Labirinto), a partir do qual ousei intitular este texto.
O cenário atual do patropi é composto por partidos fracos e sem novas lideranças, Congresso desmoralizado, corrupção endêmica, sindicalistas que viraram banqueiros, fundos de pensão (milionários) atraindo sócios privados privilegiados. Ressalte-se que, no Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas são gestores que controlam os conselhos de grandes empresas. Uma baita fonte de corrupção.

O fato é que – devagarinho, o vírus da Autocracia minou o espírito da nossa Democracia constitucional; a qual pressupõe regras, informação, participação, transparência, representação, deliberação consciente e controle social. Nada disso existe em nossa República Surrealista dos Trópicos (Mestre Walter, sua bênção!)

Em verdade, continuamos a ser uma República sem povo.
Trata-se de um processo de desmoralização das instituições, combinada com o incessante culto à personalidade, a um só tempo autoritário e popular. Uma espécie de “fulanização” da política.
A meu ver, o Brasil vivenciava com o PT (e ainda corre o risco) um processo de criação de um novo e duradouro bloco de controle da máquina estatal, capaz de se manter por algumas décadas. (Aliás, este sempre foi o projeto do PT: conquistar o poder e governar para transformar, autocraticamente, o Brasil numa “potência” bolivariana.

Por trás desse “imbróglio” gigantesco, há toda uma camada de valores a ser estudada pelos analistas sociais. Com um problema: seu estamento intelectual – e aí se incluem os políticos – não pensa como a maioria do povo. Pior: nem sabe como essa maioria pensa.
E não adianta maldizer a realidade. Ela não deixará de ser real por isso. Estes são os fatos!

Trincou. O cristal está trincado, e a maioria da população brasileira pode até não saber ainda o que deseja, mas tem cada vez mais claro em seus corações e mentes o que definitivamente não quer para o Brasil.

Refrescando a memória, lembro que, ao chegar ao Governo Federal - além de renunciar aos princípios do seu partido no documento "Carta ao povo brasileiro" (22.06.2002) - o governo Lula preencheu considerável parcela das mais de 20 mil funções administrativas com a nomeação de militantes do PT e aliados, líderes de movimentos sociais e sindicais; fenômeno conhecido como "aparelhamento do Estado".

O mérito e a competência não foram considerados, o que - em parte - explica a incompetência e a corrupção.

Afastados de suas bases, essas lideranças estão hoje perfeitamente adaptadas às benesses do poder, sem o menor interesse em retomar o "trabalho de base". Instados a se manifestar, são a voz do governo junto às bases, e não o contrário. Ou seja, contrariando os princípios do PT original, o PT governo optou por uma governabilidade baseada numa política clara de beneficiar o capital financeiro e as grandes empresas, (com crédito fácil, juros altos e isenção de impostos) e; na outra ponta, políticas compensatórias para os excluídos, dominados e subalternos, com milhões de famílias endividadas, iludidas pelo crédito fácil e juros altos; sem perspectiva de alforria.

Os lucros astronômicos dos bancos, empreiteiras e grandes montadoras de veículos assim o comprovam.

Lula ou Dilma poderiam ter assegurado sua sustentabilidade política em duas pernas: 1) o Congresso Nacional e; 2) os movimentos sociais. Poderiam, mas não o fizeram. Julgando-se espertos, tornaram-se reféns (voluntários) de forças políticas tradicionais, oligárquicas, reacionárias, conservadoras; que ora integram o grande arco de alianças de apoio ao PT governo; a exemplo do Sarney, Collor, Maluf, Renan e Cunha.

Paralelamente, o PT adotou uma política para os excluídos, sem a mediação dos movimentos sociais, como é o caso do programa "Bolsa Família", que ocupou o lugar do fracassado "Fome Zero", o qual se apoiava em comitês gestores integrados por lideranças da sociedade civil, que controlavam e fiscalizavam a iniciativa.

É óbvio também que tal prática enfraqueceu e imobilizou os movimentos sociais e, ao mesmo tempo, pôs o núcleo governante voltado unicamente ao seu próprio projeto de perpetuação no poder.

Este projeto de poder, em seu desvario, gerou monstros como o mensalão e petrolão; tenebrosas transações que colocaram em risco o próprio Regime Democrático de Direito.

Ou seja, o fenômeno do lulopetismo se descolou do petismo histórico. A direção nacional do PT, por sua vez, aceitou restringir-se ao jogo do poder. Em outras palavras, o lulopetismo mantém um falso discurso neopopulista de esquerda ou, pior ainda, fazendo-se de vítima das "zelites".

O Brasil é hoje um Estado obeso, depredador do meio ambiente, com crescimento zero, com alta carga tributária, juros altos, infraestrutura precária, obras estruturantes paralisadas ou atrasadas, sem planejamento, sem capacidade de poupança, nem de inovação, nem de competitividade. E continua a ser o campeão da concentração de renda e da desigualdade social; com ignorância, analfabetismo, miséria urbana e violência crescente.

Registre-se que questões maiores da pauta histórica da esquerda, como as Reformas agrária, fiscal, urbana, política e universitária foram relegadas a um futuro incerto. Um retrocesso histórico lamentável.

Em nome da governabilidade (com menos habilidade e menos astúcia que o Lula), Dilma está refém de forças políticas e econômicas descompromissadas com o desenvolvimento sustentável de nossa sociedade.

Resumindo, o PT está no governo, mas não exerce o poder de fato; apenas o serve como preposto.

Daí a obsessão com o controle da imprensa, uma ideia fixa do PT que, envergonhado, diminuído, esmagado, na contramão da história; imagina ser possível disfarçar suas contradições.

Termino citando Frei Betto, em seu artigo "A pasteurização da esquerda", publicado no Le Monde Diplomatique, dez. 2008: "o Projeto civilizatório da Nação brasileira foi descartado em benefício apenas de um projeto de poder de um grupo dominante.

O resultado aí está: mesmo sem ter ainda desaparecido, o PT é uma sombra do que foi no passado. Trata-se de um enigma saber que estrutura política substituirá o governo Dilma, no pós-impeachment (que virá!). A conclusão é privilégio do caro leitor.

“Conhece o inimigo, e conhece a ti mesmo”

(Sun Tzu, in A arte da guerra)

Hoje, acordei mais triste do que o normal. Com um sentimento difuso, com uma tristeza indignada.
Dada a gravidade excepcional desta crise no Brasil, seria uma bênção que o poder retornasse logo ao povo para escolhermos um governo com legitimidade; para promover reformas e salvar o país do caos.
Constato que a verdade para o PT está tão distante que eles nem sabem mais o que significa isso.
Aliás, tem um livro novo – já nas livrarias – cuja leitura é imperdível para quem quiser compreender melhor a história recente do nosso país, com ênfase no surgimento do PT e do fenômeno Lula.

Falo do livro “Do PT das lutas sociais ao PT do poder”, de José de Souza Martins, Editora Contexto.
Martins lembra que, diferentemente do que muita gente pensa, o PT surgiu no ABC paulista como uma alternativa ao comunismo. Há quem diga que foi ideia do General Golbery do Couto e Silva – 1911 a 1987), um dos principais teóricos da doutrina de segurança nacional.
Explica Martins: “Não que fosse ideologicamente contra os comunistas, mas nunca chegou a ser um partido de esquerda. Tratava-se, do ponto de vista formal, de um partido católico”.

A charada é: se o PT não é de esquerda, por que tende a demonizar tudo o que é divergente como sendo de direita?
Isso vem do dualismo Deus e o diabo, o bem e o mal. Segundo Martins, como aprenderam a pensar a política em termos dicotômicos, os petistas têm, em grande parte, dificuldade para lidar com a diversidade, com a democracia. Para eles, se o PT é de esquerda e a esquerda é o PT, qualquer coisa que difira disso é direita.
É possível entender o PT como uma espécie de seita. Quem não é filiado ou simpatizante do PT é infiel ou inimigo, da elite branca opressora; a ser eliminado.
Martins segue ensinando que “a direita de que falam os petistas é urna invenção. Nós não temos direita e esquerda no Brasil. A maioria da população nem sabe o que é isso. O povo só quer viver, trabalhar e ser feliz.

Embora Lula seja mais aberto a ideias de fora, o partido é totalmente intolerante a qualquer ponto de vista que não seja o dele. Essa é a característica do PT”.
Agora, dá para entender o discurso do “eles” contra “nós”. Discurso da intolerância.
Na verdade, esclarece Martins, existem no mínimo três PTs, e não me refiro às suas facções organizadas internas. Existe o PT operário, que é o do Lula; o PT dos intelectuais, que vem de uma certa crítica ao Partido Comunista; e o PT popular, ligado às pastorais católicas. Este saco de gatos chegou ao governo há treze anos.
É importante também entender porque parte da esquerda embarcou nessa junto com o PT.

Como diria Jorge Castañeda (escritor mexicano), “o maior erro da esquerda foi crer que não seria corrompida (no governo) pelo simples fato de que vinha do povo. E o povo seria – supostamente – honesto.
Ledo engano! E o Lula, dá para entender o mito Lula?
Mais uma vez, Martins nos ensina. Existem dois Lulas. Existe o Lula de extração popular, que tem uma compreensão da realidade do país muito maior do que a da maioria dos outros líderes políticos. E existe o Lula do poder. Este último se utiliza dessa linguagem polarizada, dicotômica (pode ir ao dicionário). Para Lula, a política é uma performance, como se fora um teatro.

Por sua vez, Francisco de Oliveira (professor da USP e fundador do PT), ao sair do PT, tornou pública sua experiência com a opinião de que o Lula seria “sem caráter”, explicando que o Lula age como camaleão, assumindo as cores que lhe convêm em cada momento e para cada plateia.
Lula é mestre numa coisa. Desce o sarrafo no poder como se não tivesse nada a ver com ele. Isso confunde o povão e muita gente bem informada, enquanto Lula ganha tempo para articular nos bastidores.

Da política maniqueísta do PT temos hoje um país dividido, dois Brasis antagônicos.
Os petistas construíram a ideia (falsa) de que o povo brasileiro é separado por ricos e poderosos que desde sempre exploram o povo, de um lado, e por uma massa de pobres e oprimidos, de outro. Os opressores são, dizem eles, todos aqueles que não são petistas.
Trata-se, é claro, de uma visão simplista, e enganosa, do nosso país. O Brasil é muito mais complexo.
Prova disso é que muitos integrantes da elite (empreiteiros), alguns dos quais estão entre os mais ricos do Brasil, são visceralmente ligados ao PT, como ficou comprovado nas investigações da operação Lava Jato.
Diante desse labirinto, todos almejamos saber como será o nosso futuro, no curto prazo. Desprovido de minha bola de cristal, não consigo enxergar a luz no final do túnel. Meus sonhos estão na lata do lixo.
Resta apenas confessar ao caro leitor minha profunda tristeza indignada.

(*) Rinaldo Barros é professor – Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Dia desses, escrevi aqui uma análise sobre o caráter do povo brasileiro. Busquei âncora no personagem "Macunaíma", o herói sem nenhum caráter, criação máxima de Mário de Andrade para simbolizar a essência psicológica que compõe a argamassa histórica e social do povo brasileiro.

Ou, como diria Freud (1856 a 1939), pai da Psicanálise: "instaura o superego coletivo que dá origem à cultura e à identidade de uma nação".

Pois bem. Nestes tempos perigosos, com a corrupção endêmica e numa sociedade sem governo; um amigo pediu-me para escrever sobre a atual realidade das relações entre os políticos, no afã de consolidarem as "alianças" para as próximas eleições. "Alianças", nas quais a desconfiança mútua reina absoluta. Sabem do que são capazes…

Sem querer ofender nem atacar quem quer que seja, apresento hoje uma pesquisa qualitativa do IBOPE, cujo resultado constata que Macunaíma, disfarçado de "jeitinho" ou de "lei do Gerson", povoa o mundo político, aqui no patropi.

Não é à toa que as CPIs quase sempre acabam melancolicamente em pizza, e sem provocar qualquer comoção na sociedade. Tudo está dentro da "normalidade", com exceção da Operação Lava Jato.

Pois bem. Uma pesquisa inédita do IBOPE revela que o eleitor brasileiro é conivente com a corrupção política e que a falta de ética não é um problema apenas da classe dirigente: 75 (setenta e cinco) por cento dos brasileiros afirmam que cometeriam um dos atos de corrupção listados na pesquisa se estivessem no lugar dos políticos denunciados.

Ora, "ao imaginar que poderia cometer um desses atos, o eleitor provavelmente é tolerante com o político que o fizer", explica a cientista social Sílvia Cervellini, diretora de Atendimento do Ibope Opinião, responsável pelo trabalho.

O estudo revela também que a transgressão de leis para obter benefícios materiais pessoais é praxe na sociedade. Essas infrações ocorrem na sociedade como um todo.
"É importante deixar de demagogia e parar para pensar no que é preciso fazer para aumentar a ética no país", lamenta Silvia.

Apesar de amplamente disseminada na sociedade, a tolerância à corrupção é menor entre as mulheres, os mais velhos e os de menor escolaridade; o que nos aponta um caminho, uma luz.

As mulheres seriam mais honestas que os homens. Os pouco letrados seriam mais honestos que os doutores. E os da melhor idade seriam mais honestos que os jovens. Será? Se assim o for, como será o futuro?

Mas, a pesquisa também alerta para a tragédia da contaminação da juventude mais escolarizada, pelo vírus da ausência de valores morais. Lamentável! Este é um tema a ser mais aprofundado: o que, ou quais valores, estamos ensinando em nossas escolas e universidades?

Voltando à pesquisa, os eleitores entrevistados têm uma reação dúbia em relação à corrupção. Ao mesmo tempo em que condenam as irregularidades, reconhecem que cometeriam atos ilícitos se tivessem oportunidade.

Registro que Luís Carlos Prestes dizia sempre, lamentando: "esse é o povo que temos! ".

Paralelamente a tudo isso, com os partidos políticos em estado de agonia ética e em processo de esfacelamento, as circunstâncias históricas apontam para o surgimento – nas ruas e nas redes sociais – de um novo populismo no Brasil; acima dos partidos e das coligações. Falta brotar uma liderança da geração "X".

É possível afirmar que, nas eleições municipais de 2016, a maioria dos eleitores será pragmática. As razões do voto serão ditadas pelos benefícios que cada um recebeu ou poderá receber. E a visão do que é melhor para o município dependerá da ótica que cada um tem da sua Aldeia e será filtrada pelos próprios interesses.

Resumo da ópera: Tirante uma ínfima minoria, seria utópico pensar que, aqui no patropi, a maioria do eleitorado vota pensando no interesse coletivo. O individualismo é muito mais forte. O Ego é maior que a Polis.

Pergunto: o eleitor é cúmplice ou vítima?

Cá do meu canto, desconfio que tudo isso seja apenas o início de um novo ciclo histórico inusitado, uma espécie de populismo de alta tecnologia, combinado com o poder diabólico da Mídia e da Internet.

Maktub.

Opinião política por Rinaldo Barros

“Nenhuma paz entre as nações até que haja paz entre as religiões” (Hans Küng, teólogo católico dissidente)

O rumo da prosa é uma tentativa de apresentar um desenho sobre a natureza da política e do comportamento dos agentes públicos (políticos e burocratas).

Ainda que o ser humano tenha defeito de fabricação, o que o Gênesis chama de “pecado original”, há que se criar uma institucionalidade político-social capaz de assegurar direitos e impedir ameaças à Liberdade.

No Brasil, além da corrupção endêmica, o peso da burocracia estrangula a economia e escancara a necessidade urgente de modernização do Estado.

É indispensável e urgente retomar a reforma do Estado, com novo pacto federativo – seja para controlar a corrupção, aprimorar políticas públicas e incentivar investimentos públicos (em parceria com o setor privado) em infraestrutura, mas, principalmente, para minimizar o patrimonialismo do capitalismo crioulo, tal como ocorre na “república surrealista dos trópicos”.

Penso que o grande desafio ético atual é “como criar – no Brasil – instituições capazes de assegurar direitos universais”.
Isso supõe uma ruptura com a atual visão (pós-moderna) de fragmentação do mundo e exacerbação egolátrica, individualista; tipo “primeiro Eu e os meus, o resto que se exploda”.

Isso implica suscitar uma nova cultura. O leitor já percebeu que essa transformação vai demorar…
De onde tirar os valores éticos universalmente aceitos? Como levar as pessoas a se perguntarem por critérios e valores? Como levar o homem comum a entender que o dinheiro público pertence aos cidadãos?
Mudar primeiro a sociedade ou as pessoas? O ovo ou a galinha?

Inútil dar um passo atrás e fixar-se na utopia do controle do Estado como precondição para transformar a sociedade. É preciso, antes, transformar a sociedade através de conquistas dos movimentos sociais, e de gestos e símbolos que acentuem as raízes antipopulares do modelo atual.
Combinar as contradições de práticas cotidianas (empobrecimento progressivo da classe média, desemprego, disseminação das drogas, banalização da vida, degradação do meio ambiente, preconceitos e discriminações), ainda assim, combinar com grandes estratégias políticas.
Esclareço que entendo como equivocado admitir que o Estado seja o único lugar onde reside o poder.

O poder se alarga pela sociedade civil, redes sociais, movimentos populares, ONGs, pela esfera da arte e da cultura, e de todos que incutem novos modos de pensar, de sentir e de agir, e modificam valores e representações ideológicas, inclusive religiosas. Há vida inteligente fora do Estado. É possível evoluir.

Hoje, na sociedade contemporânea, na sociedade da informação; a luta não é mais de uma classe contra a outra, mas de toda a sociedade contra um modelo perverso que faz da ganância e da acumulação da riqueza a única razão de viver.
A luta é da humanização contra a desumanização, da solidariedade contra a competição, da vida contra a morte. Constato que a crise do pensamento crítico é teórica e prática.

Teórica, de quem enfrenta o desafio de construir o futuro sem dogmatismo, e sem sacralização de líderes. E prática, de quem sabe que não há saída sem reinventar a estrutura sindical (nas cidades e no campo), reativar o movimento estudantil, incluir na pauta de luta as questões urbanas, indígenas, étnicas, feministas e ecológicas; principalmente, gestão e a preservação da água.
Neste mundo desesperançado, apenas a imaginação e a criatividade dos inconformados serão capazes de livrar a juventude da inércia, a classe média do desalento, e os excluídos do sofrido conformismo.

Isso requer uma ideologia que resgate a ética humanista. Não é pouco.
Em verdade, como queria Agostinho, teimosamente, apenas permaneço com a Esperança e suas duas filhas lindas – a Indignação e a Coragem; tudo por um novo Iluminismo, uma nova Utopia.

Urbi et Orbi (pode ir ao dicionário).

“O Ovo da Serpente” é o nome de um filme de Ingmar Bergman que mostra os conflitos e a desordem que antecederam a ascensão do nazismo. Dizem que a história só se repete como farsa. Todavia, refrescando a memória dos mais desligados, relembro:

No início da década de 1930, a Alemanha tinha a economia extremamente turbulenta.

A crise econômica mundial que havia se iniciado em 1929 havia atingido o país em cheio e milhões de pessoas estavam desempregadas. Na memória de muitos ainda estava fresca a humilhante derrota alemã frente à França, quinze anos atrás, na Primeira Guerra Mundial, e os alemães não confiavam em seu governo, fraco, conhecido como República de Weimar.

De inflação, o Brasil entende. Mesmo assim é difícil imaginar o que aconteceu na Alemanha do começo do século 20. No círculo vicioso da inflação, os preços sempre sobem antes dos salários, levando as famílias ao desespero.

Aquelas condições propiciaram o surgimento de um novo líder, Adolf Hitler e seu Partido (Nacional Socialista) dos Trabalhadores Alemães.
Hitler era um orador eloquente e ardiloso que atraía um grande número de seguidores desesperados por mudanças. Ele prometia uma vida melhor aos desiludidos e uma nova e gloriosa Alemanha. Os nazistas atraíam principalmente os desempregados, jovens e membros da classe média baixa, tais como donos de pequenos negócios, funcionários administrativos, artesãos e fazendeiros.

Antes da depressão econômica, os nazistas eram praticamente desconhecidos, recebendo apenas 3% dos votos ao Reichstag (Parlamento Alemão) nas eleições de 1924. Em 1932, no entanto, os nazistas tiveram 33% dos votos, mais do que qualquer outro partido. Em janeiro de 1933, Hitler foi nomeado chanceler, o líder do governo alemão, e os alemães acreditaram que haviam encontrado o salvador de sua pátria.

Fecha o pano sobre o passado.
Atualmente, no patropi, vivemos um momento complicado de violência e deboche, em que quase todos os conflitos degeneram em agressões. A Democracia, frágil e jovem, não anda bem em nosso país.

As mediações políticas estão cada vez mais raras. A Democracia brasileira é um veículo sem o jogo de molas, que anda aos solavancos, ameaçado pelo perigo de empacar. Carece de um lubrificante essencial: o diálogo.
Os idos de junho de 2013 aprofundaram o abismo entre os partidos políticos e a sociedade. Apesar da retórica populista, os políticos mergulharam no seu mundo, perdidos nas transações fisiológicas.

Quando o PT governo, ao tentar solucionar um problema, cria um novo e complicado enredo, é sinal de que não funciona como timoneiro, apenas indica que perdemos o rumo.
O discurso não é só o de Dilma descrevendo o melhor dos mundos. Quando os falsos argumentos se esgotam, servem de pretexto para explicar as lacunas da nossa política surreal: “não há corrupção no meu governo”. Por outro lado, não vejo como possíveis grandes mudanças na economia. Nem creio que Dilma, diante do princípio de caos, fará mais do que convocar reuniões, que resultam em comissões e novas reuniões.
O veículo democrático brasileiro está condenado aos solavancos. Mas o filme de Bergman mostra algo importante. Acostumar-se com a violência cotidiana é perigoso, pois esses fatos tendem a desembocar em algo pior.

Um adolescente no Flamengo, no Rio, preso por um cadeado foi mais um episódio revelador do nível de intolerância que vivemos. Justiça pelas próprias mãos, combates armados na rua, incêndios de ônibus – tudo isso vai sucedendo sem nenhum nexo com uma visão de mudança do País. Os que sonham em apenas manter-se no poder se arriscam a perder, mesmo na vitória eleitoral. Isso pode acender a centelha irracional do ódio.

Tem havido uma polarização exacerbada nos grandes debates brasileiros. É sempre fácil enxergar as posições nos dois extremos do espectro político-ideológico.
Como diria Luís Fernando Veríssimo, “Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela, mas – mesmo assim, defende fazer justiça como as próprias mãos, como se fosse certo enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição”.
Que País vai emergir desses confrontos cotidianos? Será governável apenas distribuindo cargos aos aliados? Ou, pior. Será que estamos assistindo ao despertar da serpente?

A conversa de hoje nasce ante a absurda interdição de dois teatros, na capital da terra de Poti: o Teatro de Cultura Popular e o centenário Teatro Alberto Maranhão. Teatros - patrimônios culturais e históricos - interditados por falta de segurança, por irresponsável ausência de manutenção. "Oh! Tempora, oh! Mores! "

Desconfio que o crime tem como pecado original a ignorância de alguns dirigentes sobre o estreito vínculo entre a vida cultural e o processo de Desenvolvimento sustentável. Senão, vejamos.

Qualidade de vida não é um bem durável que possa ser estocado para consumo futuro. Nem uma conquista definitiva da sociedade. Trata-se, antes de tudo, de um bem público altamente perecível, que se deteriora ao menor descuido.

Os bens públicos têm como características básicas: a não-exclusividade e a não-rivalidade. Nenhuma pessoa pode ser privada ou excluída de usufruí-los. Se a qualidade de vida tem essa natureza de bem público, então deve ser garantida igualmente a todos.

Natal é uma das cidades que oferece (ainda) boa qualidade de vida aos seus habitantes. Mas apenas uma parte dos natalenses (a menor) desfruta hoje dessas condições privilegiadas que se aproximam dos padrões do Primeiro Mundo.

No entanto, nossa cidade continua reproduzindo o mesmo quadro de profundas desigualdades que divide o Brasil. São abundantes os estudos acadêmicos que acentuam o caráter dual da sociedade brasileira, virtualmente cindida em duas nações: uma muito rica, formada por uma minoria com padrões de consumo altamente sofisticados; outra muito pobre, que reúne a maioria da população, excluída dos benefícios do desenvolvimento e do consumo dos bens básicos da cidadania.

Nas últimas décadas, Natal experimentou um processo de acelerado desenvolvimento. No entanto, ao lado das inegáveis realizações urbanísticas desse período, é preciso reconhecer que ainda é preciso avançar muito mais na área sociocultural.

A prioridade dos governos municipal e estadual deveria ser a universalização de bens e serviços sociais de qualidade (planejamento, cidade limpa, qualificação profissional, saúde, educação, tecnologia, transporte público de massa, esporte, lazer e muito investimento no fortalecimento da identidade cultural de nossa gente).
Significa, em outras palavras, ter como meta assegurar a todos o padrão de qualidade de vida que hoje é desfrutado pela classe média alta e pela elite.

A atual modernidade excludente levará inevitavelmente ao esgarçamento dos vínculos de solidariedade e ao recrudescimento da violência urbana, sintomas que já estão evidentes em todos os quadrantes do nosso país.

O outro caminho que Natal pode (e deve) escolher, para ingressar - de fato - no Terceiro Milênio, pressupõe uma "nova forma de modernização", que tenha como seu objetivo central o fim da exclusão social, econômica, política e, principalmente, cultural, integrando sua população em uma única sociedade.

Essa opção implica em reinventar a própria idéia de modernidade.

Sob esta nova ótica, modernidade será, por exemplo, levar saneamento básico para todos os domicílios de Natal que ainda não dispõem de rede de esgoto nem tratamento sanitário, assistir aos milhares de crianças e adolescentes que ainda se encontram em condições de risco, disseminar a prática da solidariedade e da Cultura da Paz em todos os segmentos e combater a exclusão por todos os meios.

Entretanto, não se trata de uma escolha qualquer que possa ser feita sem maior responsabilidade cívica.

Sem menosprezar o que já foi conquistado, advogamos que, para não sacrificar estas conquistas, é preciso ampliá-las de tal forma que toda sociedade seja beneficiada.

A universalização das condições mínimas de bem-estar é o desafio que Natal e o Rio Grande do Norte têm no presente e do qual depende o seu futuro. Neste desafio, é preciso compreender a importância fundamental da dimensão cultural para a construção da cidadania.

Permitir a interdição de teatros é não compreender que Cultura é a alma da cidade, a alma do povo; é cometer um crime de lesa-humanidade, a ser punido com o esmagamento do nosso futuro.

"...Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta; que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda..." (Cecília Meireles, in "Romanceiro da Inconfidência")

A conversa de hoje tem foco no provável (?) colapso da "sociedade de mercado".

A pergunta que não quer calar é: "é possível combinar a sociedade complexa, urbanizada, que necessita de regulamentação e controle para sobreviver, com a liberdade individual? "

A ficção da "sociedade de mercado autorregulada" que desmorona agora na Grécia, na Espanha e em outros países europeus, é resultado de um processo que vem de vários anos. Talvez suas primeiras manifestações tenham surgido nas periferias do sistema capitalista.

Há algo da "promessa" do ideário liberal que, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial, parece estar desvanecendo-se no ar: suas instituições fundamentais atravessam uma fase de muito desprestígio, o que antecipa um próximo período de rearranjos organizacionais, culturais e ideológicos de diversas magnitudes, sem que possa especular-se ainda sobre seus tempos de desenvolvimento nem sobre suas direções.

O que está em debate é, no fundo, que a sociedade não fique como refém exclusivo do mercado, ou seja, que exista alguma forma de "intervenção social" sobre o mesmo, de regulação: que, na escala de prioridades, a sociedade venha antes que o mercado, e não o contrário.

Se agora, esta falácia da "sociedade de mercado autorregulada" se fratura na Grécia e na Espanha, esse movimento é resultado de um processo que vem de vários anos e de outros países.

Uma crise econômica, que não anula o sistema de um instante para outro, muito pelo contrário; mas que afeta a legitimidade e a autoridade de suas instituições no médio e longo prazo.

O liberalismo/neoliberalismo dá mais um passo em direção ao colapso; como modelo organizador da sociedade volta a evidenciar sua incapacidade de modo contundente.


Nisso consiste, a atual crise do capitalismo: a sucessão de "indignados" não faz mais do que exibir o fracasso de sua proposta civilizatória, a inconsistência de seus princípios, a contradição de suas instituições.

Todavia, é fundamental que as demandas de intervenção e regulação desta crise não se resolvam autoritariamente; que se preserve os governos sob regimes democráticos de Direito.

Nunca é demais relembrar que, assim como o fascismo, o socialismo foi também um resultado da incapacidade da economia de mercado em estabelecer ligações entre todos os países.

A Revolução de 1917, foi uma saída imposta à Rússia mais pela situação mundial, do que pela convicção dos revolucionários vitoriosos. Prova disso é que o estabelecimento do socialismo em um só país era contrário à própria teoria marxista.

É, portanto, fundamental que se busquem soluções econômicas que preservem a Democracia, ainda que eivada de defeitos.

Mais do que isso. A meu ver, o ser humano deve ter consciência de que a liberdade de que pode desfrutar é a liberdade possível, isto é, limitada pela sociedade.

Este conhecimento deve ser algo similar ao conhecimento da morte.

Diante do inevitável, a solução é não gastar energias contra o impossível, mas usá-las para obter tudo o que seja positivo e realisticamente possível.

Para terminar, fica aqui um grito de alerta: a Democracia depende de uma sociedade civil educada e bem informada cujo acesso à informação lhe permita participar tão plenamente quanto possível na vida pública da sua sociedade e criticar funcionários do governo ou políticas insensatas e tirânicas; depende de acesso mais amplo possível a ideias, dados e opiniões não sujeitos a censura.

A conversa de hoje corre atrás de uma saída para o "imblóglio" que estamos todos emaranhados. Uma tentativa de encontrar um caminho iluminado para o conjunto de nossa sociedade.

Assuntando cá no meu canto, descobri que o patropi é o país mais parecido com os Estados Unidos.

Embora não se reconheça esse fato em nenhum dos dois países. São de tamanho quase idêntico, fundados na mesma base, de povoamento europeu e de escravidão africana.

Cada um é o mais desigual de seu tipo: os EUA, dos países ricos; o Brasil, dos países emergentes. Paradoxalmente, nesses dois países muito desiguais, a maior parte das pessoas comuns (não falo dos governos) continua a acreditar que, apesar de tudo, ainda é possível construir um mundo melhor.

Essa orientação esperançosa, peregrina e aventureira representa o vínculo mais importante entre as duas nações, feitas, cada uma, de muitas nações.

No bojo da crise financeira internacional, há tudo para que se acelere tanto no Brasil como nos EUA o que já se prenunciava antes da crise: a busca de um conjunto de experimentos na maneira de organizar nossas sociedades que amplie, em proveito dos homens e das mulheres comuns, as oportunidades econômicas e educativas.

E que dê braços, asas e olhos à energia humana, frustrada e dispersa, que fervilha em nossos países.

Em vez de pedir ajuda, dada de cima para baixo, proponhamos construir juntos iniciativas exemplares, que têm tudo para contar com a simpatia e com a participação de muitos países latino-americanos.

Entre as áreas mais propícias, três merecem atenção especial.

1. Desenvolver as alternativas de energia renovável. Em vez de ficarmos vidrados nos interesses imediatos que nos dividem, é melhor construir as possibilidades futuras que podem nos unir. Trabalhar juntos para transformar os agrocombustíveis nas commodities que ainda não são. E para obter os avanços científicos e técnicos que permitirão mobilizar o potencial energético da biomassa - até que se possa mobilizar melhor o potencial das energias solar e eólica, diretamente.

2. Soerguer milhões de empreendimentos emergentes e pôr as finanças a serviço da produção. A crise financeira de agora impõe-nos tarefa mais importante do que a de regular os mercados financeiros: a de aproveitar melhor, mais objetivamente, o potencial produtivo do dinheiro reunido nos bancos e nas Bolsas.

O cumprimento dessa tarefa começa no esforço de dar às pequenas e médias empresas condições para ganhar acesso ao capital e para qualificar-se em tecnologias, conhecimentos e boas práticas.

3. Tomar as medidas necessárias para garantir, em todo o ensino público, um padrão mínimo e universal. O avanço de nossas sociedades passa pela efetivação de um princípio singelo: cuidar para que a qualidade da educação que uma criança recebe não dependa do acaso ou do lugar onde ela haja nascido.

Duas iniciativas, a se desdobrarem no Brasil e em todo o nosso hemisfério, podem abrir o caminho.

A primeira é desenhar uma escola média que reúna e que renove o ensino geral e o ensino técnico, com fronteira aberta entre os dois. Ensino geral focado em análise verbal e numérica, não em informação enciclopédica. Ensino técnico dedicado a capacitações práticas flexíveis, não ao domínio de ofícios rígidos.

A segunda iniciativa é providenciar a gestão local das escolas pelos Estados e municípios com padrões nacionais de investimento e de qualidade. Não basta avaliar nacionalmente as escolas e redistribuir recursos de lugares mais ricos para lugares mais pobres. É preciso também recuperar redes de escolas locais que tenham caído abaixo do patamar mínimo aceitável de qualidade.

Parte da solução é associar os três níveis da Federação em órgãos conjuntos, vocacionados para apoiar, socorrer e reparar as escolas ineficientes. É o rumo da federalização de todas as escolas brasileiras, associada a uma Lei de Responsabilidade Educacional. "É o caminho, a verdade e a vida".

O que unifica e orienta todas essas propostas é a disposição de reorganizar a economia de mercado em proveito da maioria trabalhadora. Hora de reconstruí-la, não apenas de contrabalançar suas desigualdades por meio de transferências sociais. Chega de bolsas e cotas!

Alvissareiramente, longe do falso conflito entre "nós" e "eles" pregado pelo PT; há no Brasil um grande, muito grande, conjunto de pessoas (do bem) dispostas a se mobilizarem em torno de ideias generosas.

A hora é essa. É a hora das ideias - mais luz que calor - para que o patropi encontre rumo outra vez.

Opinião política, por Rinaldo Barros

Andar sozinho pelas ruas à noite, parar no farol vermelho de madrugada, ser abordado por estranhos, sair de casa com objetos de valor. O que poderia ser definido como hábitos comuns se torna práticas de risco diante dos atuais índices de violência.

A presença do medo da violência tem profundo impacto sobre a vida social, cultural, econômica e política. Reduz a disposição das pessoas para ações coletivas, aumentando a desconfiança entre elas.

O medo da violência tem ainda impacto sobre a política, visto que se atribui aos governantes a maior parte da responsabilidade por sua redução; entrando, assim, na agenda política, quer como bandeira em campanhas eleitorais, quer como exigência da população - e pode ser manipulado para se justificar a adoção de medidas arbitrárias, contanto que deem a "sensação de segurança".

Um dos grandes desafios que o medo da violência apresenta é que, uma vez instalado em uma sociedade, ele não desaparece com a simples melhora das estatísticas oficiais.

As estatísticas oficiais podem apresentar uma forte queda, como ocorreu em São Paulo no caso dos homicídios (que teriam se reduzido à metade do que eram em 2000), sem que o medo sofra uma redução semelhante. O medo não é consequência só da experiência de ter sido vítima da violência, mas também nos espaços onde há sinais de degradação, desordem, lixo e abandono; da ausência do Estado, enfim.

O medo, combinado com a sensação de ausência de um poder público capaz de prover segurança coletiva e com a impotência dos cidadãos frente à criminalidade; estimula a adoção de estratégias individuais para diminuir o risco. Vivemos, num clima do "salve-se quem puder", com muito medo.

O medo da violência torna-se, desse modo, endêmico, banalizando a vida e tornando o ato de viver apenas um instrumento de segurança privada. De forma simultânea, as mortes violentas começam a se tornar toleráveis, e não provocam mais indignação, e são até mesmo defendidas como forma de redução das ameaças.

Cá no meu canto, fico assuntando se, de certa forma, não estamos sendo induzidos a temer mais estórias fantasiosas do que fatos reais. Explico com a seguinte tese.

Sentimos tantos medos, grande parte deles infundados, também porque boa parte da mídia nos bombardeia diariamente com estórias sensacionalistas publicadas para aumentar os índices de audiência. Os estudiosos chamam essa tese de "teoria dos efeitos da mídia".

De fato, a cobertura jornalística sensacionalista tem efeitos marcantes na mente e no emocional dos leitores e espectadores: "deu no jornal" tem a força de uma parábola evangélica.

A violência ocupa o espaço deixado pela fragmentação dos valores sociais em uma sociedade em processo de mudanças profundas nas esferas comportamentais e caminhando para um individualismo "selvagem" como modo de vida, já que as normas e referências sociais não se encontram claras para as novas gerações. A competição e o consumismo ocupam o lugar da solidariedade.

Os valores que deveriam forjar a identidade dos indivíduos estão pulverizados, parecem colocar-se de forma frágil e transitória, ampliando a solidão de cada um de nós, e amplificando o imaginário social do outro como concorrente, como estranho ou, pior, como inimigo.

Os contornos sociais de onde se visibilizam as interações entre indivíduos para esse caráter banalizado da violência, expresso pela mídia - forma o imaginário dos cidadãos, gera no conjunto da sociedade uma enorme obsessão pelo medo. Estamos todos com muito medo.

A questão da segurança é vital para a vida social e até para a consolidação da Democracia. Além disso, é preciso destacar que quase todas as vítimas da violência urbana são jovens negros, pobres, moradores de favelas e de periferias urbanas. O povo não deveria ser visto como inimigo da polícia. Mas, ainda o é.

O Estado e sociedade precisam, isso sim, mostrar aos criminosos potenciais que a vida após o crime é mais dura do que antes da sua prática. O bandido é quem deveria ter medo de ser preso.

O sistema policial, penitenciário e judiciário precisa urgentemente tornar-se mais visível; para reduzir a impunidade. O povo precisa ser respeitado para aprender a respeitar e colaborar, sem ter medo da polícia.

Será necessário um reordenamento radical das atuais prioridades, se realmente quisermos livrar o Brasil do fardo da pobreza, da violência e do medo. E não estou certo se os responsáveis atuais pelos destinos do patropi estão se dando conta das implicações e das consequências da violência na vida pública brasileira.

Resumo da ópera: é possível enfrentar a questão do medo da violência, com inteligência, devolvendo a polícia ao povo, despertando a corresponsabilidade da sociedade civil e da imprensa, entendendo que a criminalidade deve ser enfrentada, objetivamente, sem sensacionalismo e sem medo.

Opinião política por Rinaldo Barros



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