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Uma das piores chagas sociais que atinge a humanidade é o analfabetismo. E seus efeitos se tornam ainda mais dolorosos porque o analfabetismo não escandaliza a mais ninguém. Ao longo do tempo tornou-se um cadáver insepulto, um tipo de paciente que perdeu a capacidade de tocar as pessoas, de fazê-las reagir aos seus pedidos de socorro. Na verdade, o analfabetismo é como um local putrefato no qual as pessoas que nele estão já se acostumaram com o odor que impera no ambiente. As narinas já não reagem mais à acidez que domina o lugar. E, com o passar dos dias, e diante dos atuais avanços tecnológicos, mais se acentua a distância que separa o analfabeto dos demais seres viventes deste mundo. Por outro lado, os esforços aplicados na sua solução têm apresentado, até o presente, resultados muito aquém do esperado, enquanto suas conseqüências se alastram feito pingo de tinta no papel.

A UNESCO já na quarta edição do Relatório Global de Monitoramento da Educação para Todos atentava para o caráter doloroso do tema. O documento de nome bonito e pomposo objetiva alertar governos e entidades civis a respeito da gravidade da situação. Lamentável, para nós brasileiros, é a posição ocupada pelo Brasil no citado documento. Lá está registrado: no Brasil, e em mais outros onze países, é onde se concentram três quartos de todos os analfabetos do mundo. Independente das mazelas apontadas no Relatório Global de Monitoramento da UNESCO, o grande estigma que dilacera o analfabetismo é a leitura piegas, desfocada, piedosa, meramente assistencialista que governos e entidades civis fazem do problema. Insistem em alfabetizar por um ato de misericórdia, como uma esmola, quando a alfabetização representa, de fato, um fator inerente à economia de uma região.

E estão nesse rumo as conclusões finais do documento da UNESCO. Lá está consignado que “o analfabetismo prejudica os esforços globais para reduzir pela metade a pobreza no mundo dentro de uma década”. Pela leitura vê-se, então, que o analfabetismo termina por ser causa e efeito de sua própria desgraça, pois, além de carregar em si mesmo a cruz da separação, da segregação, da dificuldade do analfabeto em existir como elemento profissional, ainda impede que a ação governamental se interne nos guetos para a erradicação da pobreza. Não é à toa, portanto, que o documento ainda arremata: “A poderosa ligação existente entre a alfabetização de adultos e uma melhor saúde, maior renda, uma cidadania mais ativa e a educação das crianças, deveria funcionar como forte incentivo para que governos e doadores sejam mais pró-ativos”. Porque?

Porque alfabetizar faz bem, gera renda, diminui a marginalidade, eleva a auto-estima individual e melhora os índices de qualidade de vida onde sua ação é implementada. No entanto, as estatísticas, ao contrário, e por enquanto, são de estarrecer: cerca de 20% da população mundial, segundo o relatório, ainda são constituídos de analfabetos e mais de 100 milhões de crianças em idade escolar estão fora das salas de aula. O Brasil, por sua vez, tem presença assegurada, de forma negativa, nesse ranking, fazendo companhia a países como Índia, China, Bangladesh, Paquistão, Nigéria, Etiópia, Indonésia, Egito, Irã, Marrocos e República Democrática do Congo. Sinal de que, em se tratando de alfabetização, nossas prioridades estão bem próximas das metas estabelecidas por esses países. Ou por outra: pobres dos nossos analfabetos. Continuarão, por longo tempo, em péssima companhia.