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Todos sabem ser muito sério o problema do analfabetismo no Brasil. Governo após governo, essa chaga social vem se eternizando, apesar dos programas, projetos, intenções e pacotes os mais diversos divulgados ao longo do tempo. E tudo isso acontece por uma questão muito simples: falta priorização das autoridades para enfrentar o monstrengo. Pode crer. É isso mesmo. Mentalmente, psicologicamente, intelectualmente, materialmente, governamentalmente o assunto educação, no Brasil, é semelhante à escolha do goleiro, tempos atrás, no futebol da meninada. Quando, nas peladas de rua, ou nos rachas dos terrenos baldios, se apresentava um garotão que não dava certo em nenhuma posição do time, era enquadrado naturalmente como goleiro. Não tinha apelação: ao gajo reconhecido e declarado como “perna de pau”, se quisesse mesmo jogar, não restava outra alternativa senão defender o gol.

Ao longo do tempo, essa desvalorização do goleiro, imposta pela visão infantil, alterou-se radicalmente, a ponto de termos hoje atletas consagrados, no Brasil e no exterior, defendendo as cores de seus times embaixo dos três paus – como os jornalistas esportivos qualificam também o território entregue à responsabilidade dos goleiros. Mas, afinal de contas, o que tem de comum entre o futebol, com seus naturais “pernas de pau”, e a educação? E, mais especificamente ainda, entre o futebol e o analfabetismo? Historicamente, também se assistiu o mesmo fenômeno atingindo o sistema educacional. Quando, num grupo político dominante, algum correligionário não se enquadra em nenhum posto, é logo lembrado para assumir a pasta da educação. Não por mérito, reconheça-se, mas por injunções políticas. “Vai cuidar das professorinhas!”, jogavam-lhe, de pronto, na cara, em tom de gozação.

Enquanto isso, na Bolívia – vejam bem, na Bolívia, li recentemente – o tema educação é tido como de altíssima prioridade, se constituindo numa verdadeira devoção das autoridades o cuidado com o assunto. Isso também ocorre na China, nas Coréias, no Vietnam do Sul, do Norte, no Canadá, no Japão, no... Afinal, em qualquer país que queira ser levado a sério. Já por aqui vi, dias atrás nos jornais, declaração do Ministro da Educação se dizendo alarmado com o índice de analfabetismo no Nordeste. Ôxente, Ministro! E só agora sua Excelência enxergou isso? Afinal, quem não sabe que aqui a taxa de analfabetos atinge mais de 15% da população dos 15 anos para cima? E que, dos estatisticamente alfabetizados, 76% (isso mesmo, cara pálida, 76%) não sabem escrever? Quem não sabe? Ou será que o Ministro de Educação é o goleiro do sistema político encabeçado pela Presidente Dilma?

Longe de mim criticar aqui gratuitamente as autoridades educacionais. Mas isso tudo revolta. E como! Afinal, nenhum país pode atingir um patamar de desenvolvimento social, pelo menos razoável, com uma taxa de analfabetismo como a brasileira – e, pior ainda, como a nordestina. Feitas as contas, chegaremos a um número assustador de analfabetos. No Brasil é um contingente superior a 20 milhões de pessoas; no Nordeste de 4,5 milhões; no Rio Grande do Norte de 450 mil pessoas. Estes números, além de desonrarem a memória das autoridades educacionais que já se foram, e das que estão aí, nos condenam, inexoravelmente, a ocupar um posto de irrelevância no contexto global. Ou será que, no campo da educação, por absoluta incapacidade de atingirmos outros objetivos, somente nos estará reservada a posição de goleiro? Quando estaremos em condição de lutar pela ponta-de-lança?