NATAL PRESS

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A narração bíblica e a conteúdo histórico nos colocam a par dos acontecimentos que dizem respeito à vida de Judas. (Falo do Iscariotes, o que traiu Jesus. A Bíblia cita vários deles, inclusive o Judas irmão de Jesus). Sua trajetória tem um início fascinante, embora o desfecho tenha sido trágico. De modo geral, sabe-se que Judas traiu Jesus em troca de 30 moedas, passando à História como um assassino frio e calculista. Esse estigma levou até alguns estudiosos a traduzir Iscariotes como assassino, mas essa tentativa esfumou-se com o tempo por falta de consistência semântica. O mais provável é que o termo Iscariotes se refira à localidade onde Judas nasceu, da mesma forma que Maria Madalena (antigamente escrito Magdalena), leva o segundo nome por ter nascido em Magdala (ou Magadã – outra forma de grafia) povoação de localização incerta, provavelmente próxima ao Mar da Galiléia.

Voltemos ao Iscariotes. Detentor de um dos postos mais importantes do ministério de Jesus, destacou-se desde o início por se situar bem acima dos demais do ponto de vista intelectual. Era o tesoureiro do grupo, escolha que comprova o reconhecimento do seu talento e a confiança nele depositada. Ao que tudo indica, os problemas de Judas tiveram início a partir da conceituação, feita para si, da missão de Jesus. Para os apóstolos de cunho messiânico, ou seja, de forte lastro espiritual; já para a massa judaica – Judas entre estes – o messianismo do Cristo compreendia fortes tons de atividade político-militar, daí derivando para a sonhada reconquista do território pátrio – e a conseqüente expulsão do invasor romano. Aparentemente inócua de início, tal disparidade cresceu sorrateiramente, e em tal dimensão, que levou Jesus e Judas a caminhos totalmente opostos, culminando com o desfecho da irremediável traição.

O fato de ter recebido dinheiro para indicar a localização de Jesus – àquela hora buscando isolamento e proteção para si e para os apóstolos em razão das crescentes ameaças da cúpula judaica – não indica uma simples busca pela vantagem financeira. O dinheiro foi o último empurrão a ferir, num lance de morte, um contexto há muito carregado de desânimo, decepção, frustração e revolta. Seu gesto, na realidade, foi um ato de vingança e a tentativa última de trazer Jesus ao ponto original, quando esquentava corações e mentes com a promessa da vinda de um novo reino. Para Jesus espiritual; para Judas – e a maioria – um reino tomado pelo sangue derramado aos romanos. E o dinheiro? Foi muito? Foi pouco? Numa atualização aproximada, as trinta moedas de prata que Judas recebeu (equivalente a cinco meses do salário mínimo de então) totalizariam hoje em torno de três mil e cem reais.

Como se vê, quantia de valor baixo para a dimensão do serviço prestado por Judas aos sacerdotes judeus, motivo que certamente – após uma profunda reflexão – levou-o a cultivar o remorso intermitente que redundou na sua morte. Hoje, quando se presencia as barbaridades cometidas em troca de milhões e milhões de reais pelos larápios de plantão, principalmente na seara política, dos quais o Brasil é produtor privilegiado, vê-se o quanto foi franzino o valor recebido por Judas. Por mais inflação que se enxerte nas estimativas, a conclusão é que, se o homem de hoje não evoluiu espiritualmente, se não aprendeu a cultivar princípios e hábitos que Jesus pregou, soube “crescer e se multiplicar” nos valores cobrados para se corromper, para cometer os crimes mais abjetos. Coitado de Judas. Ficaria estupefato ao descobrir que, hoje, na cena do crime, seria fichinha, aprendiz de aprendiz de meliante de quinta categoria.



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