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Não é nossa pretensão atiçar aqui uma onda de sentimento saudosista. Afinal, no modernismo em que vivemos muitos acontecimentos são passivos de comemoração; conquistas surgiram e merecem celebração. A Tecnologia, por exemplo. Seus avanços trouxeram progresso inestimável às Telecomunicações, Medicina, Aeronáutica, Automobilística, Agricultura... Enfim, em todos os ramos da atividade humana. A exceção, mesmo com tais avanços, fica por conta da Política, seara na qual hábitos e costumes estão contaminados pelo lado perverso da Tecnologia, que lhes facilita a corrupção e a roubalheira. Nisso tudo chama a atenção a falta de patriotismo que impregna o brasileiro de todos os níveis, ou, para não sermos rigorosos demais, do pouco patriotismo que impera por aqui. Diferente de décadas atrás, não é verdade? Aliás, no Brasil, postura patriótica passou a ser exceção, quando deveria...

Analistas, pensadores, sociólogos, jornalistas e demais entendidos no assunto nomearam como patrióticas as manifestações que ocorreram Brasil afora recentemente. Olhando-se superficialmente as tais manifestações, vê-se que elas não deixaram de conter em seu âmago algum resquício de patriotismo, porém desprovido de um foco nítido, visível, concreto, palpável. E, deixando-se de lado o quebra-quebra e as agressões gratuitas a prédios de instituições e de empresas privadas (que podem e devem ser vistas como ira irracional, irrefletida, sem sentido e, portanto, passivas de punições no âmbito da Justiça), veremos que as massas que saíram às ruas não se revestiram de ardor patriótico em função do conteúdo difuso e impraticável de muitas de suas reivindicações. Ora, é patriotismo sair por aí bradando um corolário de centena de coisas, umas conflitantes com outras, e várias de adoção impossível? 

Por outro lado, não é justo taxar os movimentos de rua simplesmente de improdutivos e impatrióticos. Não. Alguns frutos foram gerados. Porém, por falta de visão patriótica, de objetividade patriótica, é certo que, do que se viu, fique muito pouco. Interessante se notar que os dicionários são econômicos quando conceituam o termo patriotismo: “sentimento de amor e devoção à pátria” – enunciado que deveria ser complementado: “e ao seu povo”. Pois, uma pátria não é simplesmente seu chão, seus símbolos, seus mares, rios e oceanos. Patriotismo verdadeiro é aquele que se manifesta em amor e devoção à pátria de modo a trazer benefícios e bem estar ao seu povo. Assim, trazendo o assunto para o âmbito pessoal, num exemplo prático de amor, é oportuno indagar se é amor o ato de entulhar-se o ente amado com propostas, além de numerosas em excesso, conflitantes, impraticáveis, descabidas?

Imagine o maridão exigindo da amada: “querida, voe até o Pólo Norte e, de lá, me traga gelo em abundância”; ou “quero que essa feijoada fique pronta em dois minutos”. Isso é amor? Semelhantemente não é amor, nem tão pouco patriotismo, bradar slogans e palavras de ordem que não levam a lugar algum. Patriotismo, além dos grandes gestos que resultam mudanças concretas, se traduz também em coisas simples do dia a dia: respeitar fila; não furar sinal de trânsito; não subornar – nem receber suborno; não ocupar vaga destinada a idoso/deficiente; cumprir as obrigações profissionais; não sonegar impostos... Por acaso, houve mudanças dessa ordem no Brasil? Foi decretado o fim do jeitinho brasileiro? Os líderes das ruas passaram a ostentar conduta diferente da que mantinham? De concreto, até aqui ficou apenas a algazarra. Patriotismo? Ainda fumaça. À espera de cabeças de melhor conteúdo.


Públio José – jornalista