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“Incitatus”, o cavalo de Calígula, entre outras regalias, tinha 18 servidores e colar de pedras preciosas no pescoço. Foi incluído pelo imperador no rol de senadores (ou seja, para todos os efeitos, para Calígula, “Incitatus” era uma personalidade senatorial), além de cogitado para cônsul. A História não esclarece os artifícios utilizados pelos homens da alta cúpula do governo romano para demover o Imperador de seu extravagante projeto político. O fato, porém, é que “Incitatus”, por muito pouco, não foi alçado à condição de alto executivo da máquina administrativa de Roma. Outro cavalo, “Mossoró”, vencedor do Primeiro Grande Prêmio Brasil, em 6 de agosto de 1933, quase foi carregado no colo pela vitória e virou ídolo no Brasil daquele tempo. “Botafogo”, na Argentina de 1920, assim chamado pela estrela na testa, era uma instituição nacional a ponto de ser tido como “El caballo Del pueblo”.

A História também registra a importância que “Bucéfalo”, o cavalo de Alexandre, o Grande, representou na vida do conquistador. Seu nome provinha do agigantado formato de sua cabeça e significava cabeça grande ou cabeça de boi. Com ele, Alexandre mantinha um relacionamento todo especial, em reconhecimento à robustez e às proezas que realizava, em batalha, como animal de alto desempenho. “Baloubet Du Rovet”, montado por Rodrigo Pessoa, foi alçado à condição de estrela de primeira grandeza do turfe pelo tricampeonato mundial conquistado em 1998, 1999 e em 2000, além de campeão olímpico em 2004. São inúmeros, portanto, os exemplos de cavalos famosos, admirados, reverenciados, mimados em função do apego de seus donos ou por admiráveis atributos demonstrados nas mais diversas competições. Já acerca do jumento não consta nenhuma celebração, nenhuma pompa semelhante.

Com seu passado ligado a conquistas militares e a demonstrações de poder, autoritarismo e esquisitices de seus proprietários, o cavalo herdou o estigma da força, da arrogância, ao contrário do jumento – visto como símbolo de humildade e docilidade devotado ao trabalho. É sintomática, assim, a opção feita por Jesus pelo jumento todas as vezes que necessitou de animal de montaria, ao contrário de Saulo, chamado assim antes da conversão. Segundo a Bíblia, “Saulo, montado em seu cavalo, assolava os cristãos, invadindo suas casas, oprimindo-os e enviando-os para a prisão”. Temos, então, de um lado, Jesus e o seu evangelho – em um jumento; e, de outro, Saulo – a cavalo – cruel no cumprimento de sua missão de caçador de cristãos, despótico, intransigente e arrogante no plano pessoal. Entre outros fatores, pelo fato de ser, entre os fariseus, um dos mais profundos conhecedores da Lei – O Velho Testamento.

A opção pelo jumento não é tão singela quanto parece – e está muito longe de registrar uma mera escolha de animais de montaria. Sem proferir nenhuma palavra, Jesus propôs o caráter, a visão espiritual, o procedimento ministerial que pretende dos seus seguidores, ao se utilizar de um símbolo ligado à humildade para impregnar suas mentes com a essência da sua mensagem. Seu gesto representa também o desejo de ver acontecer no íntimo dos homens um processo de mudança que os faça priorizar o despojamento, a simplicidade, o altruísmo, a desambição. E Saulo é forte exemplo: em viagem de perseguição aos cristãos, caiu do cavalo e converteu-se. De Saulo perseguidor, passou a ser Paulo, o perseguido; de intransigente defensor da Lei, a incansável e memorável pregador do Evangelho – o do amor, do perdão, da salvação, da misericórdia, da graça. O Evangelho de Jesus. Em jumento.

Públio José – jornalista