NATAL PRESS

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“Estado ainda democrático precisa contratar urgentemente, em número ilimitado, pessoas de indiscutível lastro moral, defensoras intransigentes da legalidade, da ética, da honestidade, da transparência, da liberdade de expressão, dos direitos humanos; que sejam administradoras rigorosas das contas públicas; priorizem investimentos em educação, saúde, segurança e infraestrutura; apresentem formação de estadista para enfrentamento de dificuldades, conflitos e turbulências; e saibam executar com senso patriótico, sem determinismos partidários e ideológicos, a política externa de um país de reconhecida liderança regional, priorizando parcerias plurais que resultem em benefícios concretos para todos. Pessoas com tais aptidões deverão se apresentar no escritório do Coração do Povo, à Avenida da Democracia, S/N – Bairro Pátria Amada, para admissão imediata, portando documentos que comprovem as exigências do presente edital”.

Logicamente que o texto que você está lendo manifesta uma pura utopia. Aliás, já deu para perceber que o classificado acima produzido nunca será publicado. Entretanto, está expresso, nele, grande parte de tudo que o povo brasileiro defendeu nos últimos dias e que tem procurado passar às autoridades constituídas através das manifestações, protestos, marchas e passeatas Brasil afora. Talvez as colocações nas faixas, cartazes e gritos de guerra não expressem exatamente o que acima está redigido, mas não resta a menor dúvida de que as aptidões, vocações e posturas desejadas pelo povo nos homens públicos sejam as aqui descritas e enumeradas. Mas, atenção, atenção!!! Tomados de surpresa pelas manifestações, os tais saíram a proclamar não entenderem o que sinalizava, o que pretendia o “grito das ruas”. Ora, ora, meus senhores! Serão vocês marcianos, por acaso? Ou obtusos em demasia?
Qual a dificuldade em decifrar as pretensões coletivas veiculadas nas ruas, praças e avenidas se o berro popular afunila o tempo todo para estas questões: ética, lisura, transparência, brasilidade, gerenciamento zeloso dos haveres e deveres públicos? Afirmar não entender o que o povo quer expressar significa duas situações: ou os tais homens públicos são cínicos o suficiente para não querer auscultar o coração do povo – com o único intuito de priorizar apenas seus próprios interesses; ou, o que é pior, são eles incompetentes demais por não saberem tornar concretas as medidas universais e objetivas que o povo espera que eles adotem. De uma forma ou de outra, por mais rasa que seja a análise, a conclusão a que se chega sobre o comportamento dos homens públicos brasileiros (graças a Deus exceções existem) é que a nação está carente, fragilizada, apequenada e prejudicada com a presente safra.

De preocupar – segundo especialistas no assunto, permanecendo este divórcio entre a prática política e os anseios do povo – são as conseqüências do vácuo produzido pela imperícia e insensibilidade das autoridades e lideranças. A primeira onda de protestos praticamente já passou, restando apenas algumas marolas promovidas pelos mais renitentes – principalmente baderneiros e arruaceiros sem maiores compromissos. Mas, diante das tentativas dos vários níveis do Legislativo, do Executivo e do Judiciário de empurrar com a barriga a atual realidade nacional – que revolta e machuca – o que ocorrerá quando vier a segunda onda, como apregoado por comentaristas e redes sociais? Aonde irá desaguar o mar de gente duplamente revoltada pelo vazio a que foram destinadas suas primeiras insatisfações? É bom não brincar com os sentimentos do povo. Líderes, com “L” maiúsculo, não agem assim.


Públio José – jornalista



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