NATAL PRESS

Quinze anos depois de ter pisado pela primeira vez em solo europeu, volto às terras frias do norte na companhia de Ana. Pela terceira vez nessa encarnação cruzo o Atlântico em direção à terra velha. A curiosidade é que, assim como na primeira vez, quinze anos atrás, essa estação tem o cheiro de guerra no velho mundo.

Em 1999, quando descemos no aeroporto de Frankfurt, vindo de São Paulo, havia no ar a ameaça de bombardeio da OTAN à Sérvia em função dos conflitos em Kossovo.

Hoje, o tema da vez é a Ucrânia.

É difícil não pensar na Europa e não se lembrar de uma guerra. Nos últimos 500 anos nossos irmãos do norte não passaram um século sequer sem se envolver em uma guerra generalizada. A língua, a cor da pele, a religião, o dinheiro, alguma velha mitologia de origem… muitos são os motivos que levam os povos das terras frias ladeira abaixo nas suas conflagrações. Por isso mesmo, sempre pensei no norte como um lugar em que a terra tem cheiro de sangue. Talvez seja mesmo esse sangue, de guerras periódicas; tão fundamental pra construção da Europa moderna quanto suas tradições que se perdem num emaranhando articulado de narrativas e personagens antigos: reis, cavaleiros, papas, artistas e filósofos. Uma fauna que parece compor um grande zoológico de ideologias e mitologias políticas costuradas em torno de um conceito vazio, nomeado por alguns com o rótulo de “civilização ocidental”.

Dessa vez, como em 2006, a porta de entrada para a Europa foi Lisboa, nossa velha capital colonial. Infelizmente, apesar das quatro horas de intervalo entre um vôo e outro, não seria viável sair do aeroporto e fazer comparações com a cidade que conhecemos no verão de 2006. Queria ter a oportunidade de sentir os efeitos da crise em Portugal já que quando estivemos por lá, durante a copa da Alemanha, ainda se vivia a euforia narcótica, patrocinada pela festa do capitalismo financeiro global. Agora, com a ressaca que aparece do dia posterior aos excessos coletivos, talvez Lisboa estivesse diferente, tomada por aquela dolorosa reflexão pós-orgástica que toma conta dos povos quando o delírio bipolar do capitalismo abandona a sua fase maníaca.

Ao menos o aeroporto me pareceu maior e incomensuravelmente mais agradável do que os aeroportos brasileiros, diga-se de passagem. Estivemos no aeroporto do Rio de Janeiro no final do ano passado (2013) e saímos com a sensação de que algumas rodoviárias de província são bem mais organizadas.

Pra mim, particularmente, o que mais se nota nesses aeroportos europeus é a qualidade higiênica dos vasos sanitários.

Não há indicie mais poderoso de civilidade do que um banheiro público em que se possa defecar decentemente. Acho que a situação dos banheiros nos aeroportos brasileiros é um sintoma psicanalítico de uma fase anal coletiva mal resolvida, que talvez contribua para um certo grau de “menoridade civilizatória”.

Se as fezes são a expressão simbólica mais intensa de nossa própria substância interior, e de nossa inexorável e radical intimidade (a prova disso é aquela olhadinha no papel higiênico que todo mundo dá após a conclusão dos trabalhos excetivos), o modo como se trata da bosta coletiva é um sintoma significativo para se entender uma cultura.

Há algo de iluminismo nos banheiros públicos da Europa. Há uma certa assepsia cidadã, representada pela vassourinha de lavar vaso, posta ao lado do sanitário, esperando para que o usuário do assento, após seu ato primal de evacuação biológica, limpe a própria sujeira; a fim de que suas particularidades intestinais não perturbem o próximo.

Esse distanciamento fecal, em certo sentido, é sintoma dessa utopia moderna de assepsia e higiene da razão. Uma utopia europeia, que equaciona a ordem das terras frias, a partir de um sistema de funcionamento do mundo onde cada um faz a sua parte para não perturbar o sossego do outro e, de certo modo, manter o outro a uma distância segura de si mesmo.

No Brasil, a promiscuidade tropical acaba nos deixando mais descuidados e desatentos em relação a nossa própria bosta. Em um ato narcisista de exposição de nossas próprias vísceras, nos contentamos (na melhor das hipóteses) em apenas dar uma “descarguinha básica” e torcer para que o sistema hidráulico dê conta de nossa intimidade intestinal. Caso contrário, paciência… que é que eu tenho a ver com isso?!? Alguém vai aparecer para limpar o banheiro, senão, problema do próximo!

Os banheiros dos aeroportos europeus parecem indicar à primeira vista, com seus signos de higienização, apenas o respeito à dignidade humana que as terras do norte insistem em afirmar como principio ideológico (afinal, o direito de defecar em paz e em condições ideais de higiene e assepsia também deveria ser uma expressão dos direitos fundamentais). Na verdade, esse signo é um sintoma mais interessante da própria utopia moderna de um mundo regulado pela racionalidade e pelo controle dos impulsos biológicos primais. Se você parar para pensar, esse mesmo sintoma aparece também na utopia kantiana da construção de uma “Federação de Estados Independentes” que permitiria a humanidade encontrar a definitiva paz perpétua em outro espaço que não o do “calmo e silencioso cemitério do gênero humano”.

Talvez a guerra civil na Ucrânia, que cada vez mais parece uma realidade, seja o indício de que a mesma racionalidade que limpa os banheiros, também cria as segregações entre povos e línguas. A mesma separação higiênica em um continente que praticamente cabe no Brasil (se retirarmos a Rússia, é claro) e que tem uma língua e um dialeto separando pessoas em tribos, a cada 200 quilômetros.

A mesma higiene dos banheiros públicos do norte, que permite o respeito pela dignidade fecal da humanidade, transformada na higiene financeira da troika ou na assepsia étnica neo fascista, produz sua própria barbárie particular. Talvez um sintoma, um escape, um deslize. Resíduo histérico travestido em guerras sazonais.

Confesso que não consegui deixar de especular se, caso essa utopia federalista naufrague (como alguns vaticinam em função dos próprios impasses da União Europeia); os povos do norte conseguirão manter seus banheiros públicos impecáveis ou retrocederão ao estado de barbárie sanitária dos aeroportos brasileiros.

Quem viver verá.

Essa estação de Oscar na academia de cinema norte americana nos legou, pelo menos, duas boas lições sobre o discurso ideológico do modelo liberal.

A primeira cena aparece no filme de Martin Scorsese, O Lobo de Wall Street. Nela, Leonardo Di Caprio, interpretando um jovem corretor da bolsa de valores que chega para tentar seu primeiro emprego no paraíso das finanças, conversa com um corretor mais velho e experiente. Como em um diálogo de formação, o mestre passa as dicas ao discípulo para sobreviver e ter sucesso no mercado financeiro. Duas são as regras básicas: masturbação e cocaína.

Como um mestre de yoga às avessas, o guru de Di Caprio explica que a masturbação deve funcionar como um mecanismo para manter a energia biológica sempre “fluindo pra baixo”; e que a cocaína ajuda a fazer subir essa mesma energia para fazer com que a mente, ativa, possa acompanhar o grande fluxo de informações financeiras que gira, gira, gira em uma imensa nuvem de nada 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano.

Fugaz, etéreo, evanescente. O sentido fundamental do capitalismo com dominância financeira, entre a masturbação e a cocaína, apresenta sua justificação ideológica em um budismo empresarial que mescla a confiança na ilusão da realidade (a sociedade de produção não é real, o trabalho, a vida das pessoas, a propriedade, tudo ilusão) com a ideia de que o mercado financeiro com sua rede de Indra virtual é o único fenômeno que podemos ter acesso.

A cena é genial, valeria por todo o filme, mas Scorsese e Di Caprio conseguem se superar no seu diagnóstico do capitalismo contemporâneo, em todo o seu esplendor maníaco depressivo.

Sempre achei a cocaína uma droga profundamente careta. Ela, e todos os seus derivados e possibilidades, é a grande “droga do mal” justamente por seu apego simbiótico ao sistema de mercado que nos reduz à commodities humanas e nos controla de dentro pra fora. A Cocaína é a grande metáfora bioquímica do capitalismo. O delírio de um sistema que se pensa superpoderoso, que infla e cresce sem parar em uma alucinação narcótica de grandeza que arrasta o mundo para a ruína sazonal é profundamente cocainômano. Como na gangorra em que o adicto costuma a cair, oscilando euforia simulada do pó com a depressão avassaladora que a ressaca da droga produz, o sistema que construímos joga o mundo pra cima e pra baixo, em uma ondulação sem fim, na qual o resíduo é sempre descartado para a periferia do sistema como lixo, dejeto.

A outra grande lição de Holywood nessa temporada aparece no filme “Doze Anos Como Escravo”, baseado no livro homônimo de Solomon Northup, um negro livre do norte, sequestrado e vendido como escravo na metade do século XIX, que passa doze anos cativo em uma fazenda de algodão na Georgia.
Doze anos como escravo

Em uma das cenas mais fortes do filme, o senhor de escravos, branco, de olhos claros, com a Bíblia nas mãos, chicoteia no tronco uma menina negra até que suas costas se abram em crateras de sangue e carne. O protagonista do filme, o ator Chiwetel Ejiofor, que faz o papel de Northup, grita contra o senhor, dizendo que “Deus o irá punir por estar cometendo tamanha injustiça”.

“Que injustiça? Deus deu ao homem o direito de fazer o que quiser com sua propriedade.” – responde o senhor, enquanto estoura o chicote nas costas da menina.

Essa é uma cena fundamental para se entender a violência subjacente à ideologia liberal. O caráter sagrado da propriedade, a crença metafísica em uma natureza humana egoísta, que busca sempre o próprio bem e o próprio prazer a partir do gozo dos direitos e da liberdade de negociar livremente com os outros, é um dos pilares fundamentais do liberalismo.

Essa utopia moderna que produziu o holocausto da diáspora africana e o massacre dos povos tradicionais da América; se manifesta de maneira obscena no modo como o senhor-proprietário abusa de seus objetos (escravos). Uma relação que mantém conexões na maneira como a nuvem financeira trata os consumidores de crédito bancário no capitalismo com dominância financeira.

As duas lógicas, a do cocainômano que não se vincula afetivamente a nada, a não ser o próprio gozo narcótico, travestido de nuvem financeira e pó branco; e do senhor cristão que usa a teologia bíblica para justificar o direito de usar sexualmente, enforcar, espancar, marcar com ferro outros seres humanos tratados como propriedade, são forças intrínsecas que ainda hoje movem o sistema de mercado.

A estrutura argumentativa e o conjunto de valores ainda aparecem nos traços cotidianos de nossos discursos, na fala ideológica de nossos mecanismos de propaganda, nas entrelinhas das notícias de jornais. Talvez você, sendo um liberal sincero, possa mesmo manter a fé nos pressupostos metafísicos de seu próprio discurso depois de assistir essas cenas na tela do cinema. O que não pode deixar de perceber, com algum constrangimento, é que a arquitetura ideológica que movimenta as catástrofes financeiras e a monstruosidade da escravidão, continua entre nós, firme, esperando apenas o movimento da história para retornar, ainda, como tragédia.

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Meu coração disparou e eu senti uma pressão na têmpora. Pensei que ia ter uma síncope, ou mergulhar na inconsciência, motivado pelos estranhos espasmos que me faziam visitar neurologistas em busca de algum conforto científico que me fizesse ter certeza de que não era epilético.


Na verdade eu já havia sentido aquilo antes. Quando me apaixonava (e eu me apaixonava muito naquele tempo) costumava a sentir essa pressão na têmpora. Uma vertigem sempre que via a garota, objeto das minhas fantasias, atravessar meu campo de visão, como se o amor fosse, acima de tudo, uma experiência de quase morte e não esse fast food hormonal de hoje em dia.

Mas, naquela tarde, no inverno de 1992, era um vinil que produziu minha vertigem. Alguém havia espalhado a notícia de que haviam chegado centenas de vinis no sebo do DCE, na UFRN. Essa foi a grande novidade daquele inverno em Natal. A coleção completa do The Smiths, Jane´s Adiction, New Order, Eco and The Bunnyman, Joy Division, Bauhaus, Pixies. Tudo lá. Espalhado pelas prateleiras do sebo com a embalagem quase intacta, cheirando ao forno. Eram tantos vinis, que correram pela cidade especulações sobre o motivo deles estarem dando sopa naquele sebo.

Um cocainômano deveria ter cheirado seus discos e eles foram parar no sebo, diziam uns. Alguma FM havia fechado as portas e sua coleção teria ido parar nas prateleiras do DCE para apurar alguma grana e quitar as dívidas da falência, juravam outros. Um colecionador endinheirado, obcecado por novidades eletrônicas, teria finalmente se rendido ao CD (a grande novidade da indústria musical da época) e esvaziado sua estante de vinis, defendiam os mais integrados.

Muitas eram as especulações, mas o fato é que eu estava lá, de pé, com o álbum duplo Still do Joy Division, finalmente em minhas mãos. Eu já tinha ouvido esse álbum em uma fita K7, mas ainda não o havia encontrado nas lojas, pra explorar sua materialidade. O disco era um extrato de gravações ao vivo que o Joy fez pouco tempo antes de Ian Curtis (o vocalista da banda pra quem não sabe) se enforcar. Eu percorri a lista com as músicas (na fita K7, gravada por alguém descuidado, não havia a referências às músicas) e me deparei com Sister Ray, que fechava o lado B do álbum duplo e era de longe, a maior faixa do disco.

A música original é assinada por Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Mo Trucker e está no segundo disco do Velvet Underground (White Light/White Heat). Se você é razoavelmente instruído na história do rock deve saber que o famoso “disco da banana”; em que o Velvet Underground contou com a produção de Andy Warhol e com os vocais de Nico, vendeu pouco. Mesmo porque hoje (depois que o finado Lou partiu em sua viagem para o Outro Lado, com seu corpo ainda quente no caixão), até Caetano Veloso anda fazendo referências ao primeiro disco do Velvet.



O que talvez você não saiba é que White Light/White Heat, Já sem Andy na produção, vendeu menos ainda, chegando ao vexatório 119º lugar na parada da Billboard. Talvez por isso, soasse para mim, tão absolutamente significativo, naquele inverno de 92, que Ian Curtis tenha apontado para Sister Ray nos seus shows de despedida. A banda que havia inventado os anos 80 estava mostrando uma de suas fontes, deixando para a meninada o recado de que o futuro seria noise, distorcido e soturno.

Mas não foi só Ian Curtis que apontou para White Light/White Heat. Outro famoso suicida da história do rock fez o mesmo.

Lembro de ter ouvido a primeira vez o cover que o Nirvana fez de Here She Comes Now (outra música do disco) no quarto de Alexandre Carvalho, no bairro de Candelária, na Zona sul de Natal, ainda naquele ano de 1992. Estamos reunidos para fazer um fanzine ou coisa que o valha, e Alexandre, que me foi apresentado por Renata Silveira, me mostrou uma fita gravada do programa Novas Tendências. Foi um programa só com covers. Tinha Sugar Cubes cantando Carpenters, E.M.F. tocando The Stooges, R.E.M cantando Suzane Vega e o Nirvana tocando uma do Velvet Underground. Imediatamente arrumei um jeito de copiar a fita e passei uns bons anos ouvindo aquelas raridades, em um tempo em que a meninada que vivia isolada nesse balneário pós-sertanejo chamado Natal, nem sonhava com as facilidades obscenas do youtube.

É significativo que duas das mais importantes figuras do rock, personagens que praticamente definiriam os rumos sonoros das décadas de 80 e 90, tenham feito referência ao segundo disco do Velvet.

Bem mais sujo e barulhento do que o disco com Wahrol e Nico, a experiência de se ouvir White Light/White Heat é bastante arriscada; a ponto de ainda hoje, quando me encontro afastado das estripulias bioquímicas de minha adolescência, me flagrar quase em transe, enquanto guio meu carro pelo caos urbano de uma Natal noturna ao som de Sister Ray.

O fato é que, marcado pelas perversidades poéticas e pelo experimentalismo sonoro da dupla Reed e Cale; White Ligth/White Heat, definitivamente, não é um disco para ouvidos sensíveis, nem para corações puritanos.


Mesmo hoje, quando violência, drogas e transexualismo são temas do cotidiano de qualquer menino buchudo de quinze anos, esse álbum mantem sua marca de radicalidade. Uma radicalidade que não se resume aos temas marginais ou às narrativas bizarras. Uma radicalidade que também mora no modo como as notas dissonantes de suas faixas navegam por aquelas longas ondas de feedback em meio a baterias secas, obsessivas, cruzadas por veios intrusivos de microfonia e distorção. Nem sonhe, amigo velho, que você ouviria My Bloody Valentine, Jesus and The Mary Chain ou Sonic Youth se a coragem estética do Velvet Underground não tivesse apostado suas fichas para lançar esse álbum comercialmente inviável.

Sabe… quando Walter Benjamin identificou que a aura da obra de arte havia sido definitivamente deslocada do horizonte da modernidade, mantinha ainda um certo otimismo de acreditar que a indústria cultural pudesse democratizar o acesso das massas às obras que antes estavam sobe a guarda da aristocracia europeia ou apenas acessíveis aos bolsos da burguesia industrial. Foi Theodor Adorno que, na contramão dessa intuição condescendente, percebeu a transformação do objeto estético em mercadoria, e a produção de uma arte mediana, vendida no varejo à preços populares para um publico igualmente mediano, forçado a assumir uma condição de menoridade estética. A transformação da arte em produto de consumo é a marca definitiva do século XX. Comprávamos discos, livros e fitas VHS como comprávamos shampoos, latas de cerveja e supositórios. Os produtos vinham embalados em modelos pré-moldados, prontos para atender os critérios de marketing necessários à manutenção da vida em condições de mercado.

O espantoso não é que isso tenha acontecido com a arte no século que morreu a quase duas décadas. O espantoso é que em meio a essas condições tão desfavoráveis, a arte, em sua radicalidade, em sua absoluta insubordinação, em sua ousadia sensorial e em seus desconcertantes níveis de ruptura e dissolução revolucionaria tenha sobrevivido. Como uma resistente fronteira a teimar em nos fornecer seus devaneios, que libertam e purificam na mesma medida em que enlouquecem.


Ps. : Esse texto é dedicado à Lou Reed (1942 – 2013) e todas as garotas e garotos perdidos das festas de anteontem.

Gilles Deleuze, em uma de suas últimas entrevistas para a TV falou sobre sua vida como professor. Em um tom meio nostálgico ele lembrou que começou a lecionar num tempo em que o professor de filosofia era visto como “o louco da aldeia”. Um sujeito estranho, com ideias um pouco suspeitas, mas que deveria ser “tolerado” e deixado “meio a vontade” para exercitar suas excentricidades em sala de aula.

Me senti assim quando comecei a dar aula, quinze anos atrás. Como Filosofia “não caía no vestibular” e tinha a carga horária semanal reduzida ao mínimo necessário para não se diluir no obsequioso silêncio do nada, me sentia livre para ludibriar o livro didático e a pressão dos “conteúdos programáticos” e tentar, na medida do possível, exercer minha autonomia criativa.

Sabe, já disse isso outras vezes e continuarei a dizer, não troco minha profissão por nenhuma outra ocupação (talvez com a honrosa exceção da de escritor ou de balconista de loja de CDs – se isso ainda fosse viável). Não gosto de reproduzir o discurso de vitimização que às vezes toma conta da minha categoria, como uma longa lamuria de sofrimento e auto piedade.

Também não quero ser herói. Não entro em uma sala de aula para salvar a humanidade. Se pra mim, ser professor é uma das mais significativas alegrias, não consigo mais ter (se é que tive alguma vez com sinceridade) a ilusão de que sou imprescindível e de que a civilização ruirá, caso meu ofício desapareça.

Na minha opinião nem toda educação é necessária. Existem modelos, formatos, perspectivas do que significa educar e muitas vezes essas perspectivas, esses formatos, esses modelos servem mais para manter o status quo de um sistema que já deu o que tinha de dar, do que para ajudar a promover uma emancipação real e radical dos sujeitos.

Agora, uma coisa que eu aprendi, nesses quinze anos de sala de aula, é que existe um campo aberto, no ofício do professor, para a inovação criativa. Às vezes é um campo estreito, limitado pelas demandas de um mercado que cada vez mais transforma a sala de aula em um cenário de reality show, com professores tentando alegrar a plateia agindo sobre a pressão de um paredão pedagógico que os ameaça sempre de eliminação. Às vezes, esse campo é limitado pelas exigências de uma tecnocracia que acostumou a pensar a educação a partir de metodologias estatísticas que nascem da economia política, com seus gráficos, suas tabelas, suas planilhas do Excel sempre cheias de números e quantificações. Tanto na escola pública, quanto na privada (com sua suposta “pedagogia de excelência”, vendida como banana no mercado) o ofício de professor é sempre cercado por circunstâncias que limitam sua autonomia didática e que esgotam sua força vital e sua energia criativa.

Mesmo assim, há um espaço possível, na fresta desses sistemas de controle operacionalizados por mecanismos burocráticos e fundamentados em teorias pedagógicas diversas, para a sabotagem criativa do sujeito.

É justamente aonde o contato entre professor e aluno se firma, na dobra em que se cruzam as vidas de quem um dia foi chamado de “mestre” e dos seus alunos, com seu contexto, seus anseios, seus sonhos, suas esperanças pessoais e suas misérias particulares, que a possibilidade de uma educação que transforme e emancipe se manifesta.

Nos anos cinquenta do século passado, quando pensava sobre o colapso do espaço público nas sociedades industriais, Hannah Arendt nos ofereceu uma intuição muito importante para que pudéssemos compreender o papel do professor e entender a natureza da desconstrução de sua imagem na pedagogia moderna.

O professor era aquele que apresentava o mundo aos alunos. Aquele que funcionava como um elo entre a tradição da tribo e o futuro das gerações que viriam. Não se tratava de uma mera questão de conhecimento (os arautos da autoeducação que me perdoem, mas nenhum google substituirá a relação entre um professor e um aluno). Essa apresentação era uma vivência que se situava no plano do mundo da vida, do Lebenswelt da filosofia alemã, da qual Hannah Arendt foi uma das mais intensas expressões.

Esse elo, que a civilização da técnica e as ideologias do capital tentam a todo custo romper, ainda se mantém, mesmo em ambientes precarizados e em circunstâncias desfavoráveis.

Nesse mês em que o povo do Rio de Janeiro se levantou para marchar ao lado dos professores e dos movimentos sociais; para mais uma vez fazer coro ao grito contra a violência policial, em favor de uma educação pública, social e de qualidade; eu lembro de Gilles Deleuze e de seu serrote.

Lembro do jovem professor de filosofia em sua sala de aula; o “louco da aldeia”, ensinando os alunos a extrair notas musicais de um serrote para que eles pudessem se aperceber das dobras, das curvas e das infinitas possibilidades que nascem de um movimento.

Eu penso em meu Bisavô, Professor Antônio Pedro Farias de Castro, lutando com seus livros e seu velho quadro negro nos sertões do Cariri paraibano no final do século XIX. Penso na minha mãe que abandonou a militância da OAB em troca da luta pela educação em um Brasil que não tem fim. Penso na minha sogra e seu sonho de formar uma escola em Felipe Camarão (um dos bairros mais carentes de Natal) para que as crianças daquele lugar pudessem ter uma educação em tempo integral. Penso em meus professores e meus colegas de profissão que, todos os dias contemplam a possibilidade de fazer a diferença na vida de alguém.

Penso em meus alunos e nesse tecer silencioso do espírito, que enseja multidões e que leva o povo às ruas, em seus sonhos loucos de mudança e seu delírio santo de emancipação.

Penso nisso e não consigo, por mais que tente; deixar de ter esperança.

Uma das intuições de Walter Benjamin que mais me agrada é a que diz que todo fascismo é sintoma de uma revolução que fracassou. Dentro das formas canônicas dos fracassos revolucionários temos pelo menos três grandes modelos: (1) os revolucionários são massacrados pelo regime que tentam transformar (como no 11 de Setembro chileno onde o governo socialista de Allende foi destroçado por um golpe militar); (2) o processo caí no terror revolucionário (a covardia contra revolucionária do stalinismo é o mais evidente desses exemplos); (3) os revolucionários fazem um acordo de cavalheiros com o sistema e são cooptados.


O que se viu pelo mundo após 1989 (em um movimento da história que tem suas raízes já em 1968) é que os programas da esquerda foram incorporados pela direita, forçando as forças ditas “revolucionárias” a realizar um movimento em direção ao centro. Como aponta Zizek, a esquerda abandonou em muitos casos a proposta do marxismo ocidental de construir um “socialismo de face humana” e trocou essa noção por a de um “capitalismo de face humana”.

Empurrados para o campo da cultura pela estranha ideia de um “marxismo cultural” (uma contradição em termos como, por exemplo “inteligência militar” ou “crescimento econômico sustentável”), o velho universalismo da luta contra a exploração se transformou em uma luta de partes específicas da sociedade (gays, índios, afro-descentes, funcionários públicos).

Em um mundo “líquido e flexível”, como escreve ainda Zizek, no livro Primeiro como tragédia, depois como farsa: “o inimigo tomou para si a dinâmica revolucionarizante: não podemos jogar o jogo da subversão da Ordem a partir da ‘parte de parte alguma’, porque a Ordem já traz em si, sua subversão permanente”.



Essa cooptação se manifesta muitas vezes como uma aceitação estoica da impossibilidade radical de qualquer mudança ou como a escandalosa fantasia de uma mudança iminente. No primeiro caso, os antigos revolucionários “jogam a toalha” e aceitam as concessões do sistema argumentando que “as coisas são assim”. No segundo caso, esses mesmos revolucionários, alimentados pelo discurso ideológico da própria direita, acreditam que, fazendo ajustes aqui e ali no funcionamento do modelo estão caminhando em direção a modificações profundas.

No Brasil esse segundo tipo de cooptação é bastante percebida na incapacidade do PT realizar um tipo mais profundo de autocrítica em relação ao governo Dilma. A fantasia alimentada pela Veja de que estamos caminhando para uma “ditadura petista neo stalinista” não serve apenas, curiosamente, para alimentar a retórica da direita, mas, fundamentalmente, para bloquear a autocrítica da esquerda.

Paradoxalmente, a esquerda acredita mais no PIG (uma fantasmagórica quadrilha mafiosa conservadora que dissemina ideias contra revolucionárias pela sociedade) do que na insuportável e obscena realidade de que os imperativos das políticas liberais dominam, hoje, quase que totalmente o cenário do país.

Essa reação de negação é típica dos eventos traumáticos. O trauma do fracasso do projeto revolucionário da esquerda leva os militantes que não caíram no estoicismo seco, a acreditar que estamos em meio a um combate épico no interior do Estado, contra o capitalismo selvagem, quando na verdade, o que estamos fazendo é justamente fornecer a esse mesmo capitalismo o alimento ideológico de sua própria manutenção.

O que a esquerda parece ter realmente esquecido é o caminho da sua própria radicalidade.

Radical vem de raiz. Raiz não é fundamento. O fundamento pode ser imóvel, fixo, uma longa linha de concreto afundada no chão para dar sustentação aos mais elaborados edifícios conceituais. A raiz é móvel, viva. Ela se entranha na terra em busca de água e alimento e se dobra sobre si mesma para alimentar a árvore.

A autocrítica é a mais mortal arma do radical. A capacidade de questionar os próprios fundamentos do discurso e submete-lo, dialeticamente, a uma paralaxe que leva a perceber os cenários do combate e tecer novas estratégias. Quando o inimigo se metamorfoseia e se torna um fantasma imaginário, projeção dos próprios sonhos e delírios daqueles que o combatem usar essa arma é um imperativo de sobrevivência. Por isso o fundamentalismo de esquerda mata a radicalidade do projeto político que busca defender.

A incapacidade da militância petista, (por fantasia, ceticismo ou conveniência) submeter seu governo a uma autocrítica consistente e forçar, de dentro para fora uma mudança no seu curso é hoje, a grande ameaça ao projeto político do PT.

Sem a autocrítica da esquerda, a direita já venceu essa batalha, sem nem precisar ganhar nas urnas em 2014.

Quem viver, verá.

Nos últimos anos tenho ouvido muita música boa em Pipa, sempre na companhia do jornalista Casciano Vidal e de sua amada Graça Matias, que por um capricho generoso dos deuses é tia de minha esposa. Lá de cima do chapadão a gente transita costumeiramente pelas veredas da alta música nordestina, ao som de Mestre Ambrósio, Beto Brito, Carlos Zens e Tico da Costa. Mas sempre sobra um lugar, em nossas aventuras sonoras para as largas avenidas do Jazz; da Old School de Sidnet Bechet, aos estilos modernosos de Thelonius Monk ou Miles Davis.


Os pássaros do chapadão, que tanto encantam os ouvidos de Casciano e Graça naquelas manhãs em que o mar aparece lento de vento leste com seu cheiro de verão, devem ter ficado assombrados com o tipo de experiência sonora que Pipa vivenciou no último sábado, dia 24 de Agosto desse ano da graça de 2013.

Sabe, amigo velho, uma das coisas mais fascinantes sobre o Jazz é que ele não é simplesmente um ritmo, um estilo de música ou uma marca sonora, dessas que catapultavam a venda de discos no tempo da finada indústria fonográfica. Muito mais do que uma técnica, o Jazz é um sentimento.

Quando Freddie Keppard foi convidado, no começo do século passado, para fazer a primeira gravação de Jazz, recusou de pronto. O velho trompetista do delta do Mississipi teve medo de ter seu estilo copiado por músicos brancos. Dizem que Keppard tocava seu trompete com um lenço cobrindo a mão para que ninguém gravasse o movimento de seus dedos e pudesse reproduzir seus solos.

Mas não era a técnica o grande trunfo de Keppar. O que tornava os músicos de Jazz diferentes era um sentimento da música, uma abordagem absolutamente pessoal da experiência de improvisação. É por isso que tocar Jazz é tão arriscado. A maioria dos brasileiros, quando entra por essa vereda, acaba ou fazendo Bossa Nova ou se rendendo a uma forma clássica, erudita demais, séria demais para dar conta da fragrância anárquica que embalou as noites de Count Basie, Willian (The Lion) Smith ou Buddy Boolden (o pai perdido do Jazz).

Posso dizer, amigo velho, que quem estava em Pipa na penúltima noite festival de Bossa & Jazz 2013, teve a oportunidade ímpar de ouvir ao vivo uma intensa experiência jazzística.

Stanley Jordan não é só um desses caras que criou uma técnica de tocar guitarra como se fosse piano. Ele é uma dessas presenças que, com sua leveza passarinha, transita entre o mundo dos vivos e as outras áreas sutis que só os ouvidos mais afeitos a magia sem forma da música conseguem sintonizar.

Diante de um público que se dividia entre os que se deixavam hipnotizar pelo som transcendente e aqueles que não tinham a mínima ideia do que estava acontecendo, Jordan flutuou por Pipa.

Ele foi gentil, como sempre é, apontando com sua melodia a música que tocava: Brasileirinho, Over the Rainbow, Starway to Heaven, Eleanor Rigby. Oferecendo a melodia costumeira, que anestesia os ouvidos em sua aventura arriscada pela estrada da música, Jordan nos convidava pra viagem que se seguia. Uma viagem que decompunha a melodia conhecida e rearranjava a música, como se todas as arquiteturas harmônicas possíveis coubessem em seu voo que unia Bach à Led Zeppelin.

Conversando com alguns amigos após o show me pareceu muito certo que tínhamos tido a rara oportunidade de ver um músico da estatura de um Coleman Hawkins ou de um Coltrane. Um sujeito que sabe, como o velho Charlie (Bird) Parker soube um dia, no tempo do be bop, flutuar entre as notas como aqueles passarinhos do chapadão, que voam sobre uma Pipa que não se acostuma a dormir antes do sol nascer.

O mais interessante de tudo aquilo, era aquele microfone, enfiado em um pedestal na frente de um Stanley Jordan que parecia ter descido de um disco voador na baía dos golfinhos para nos ensinar algo sobre o legítimo sentimento do jazz, hipnotizar os sintonizados e desentupir os ouvidos dessa aldeia de Poty. Ouvi boatos de que alguns sofisticados habitantes do jet set potiguar, frequentadores mais recentes da rua principal de Pipa (curiosamente cada vez mais parecida com o terceiro piso do Shopping Midway Mal) não haviam gostado muito do show porque “só tinha música instrumental” (SIC).

É amigo velho, é assim mesmo. Teve gente que não entendeu que aquele microfone, símbolo máximo da canção popular (grande gênero da segunda metade do século passado) era dispensável. Logo ele, o microfone, responsável por ter levantado a carreira de tantas estrelas pop e tantos vocalistas de rock performáticos e selvagens. Logo o microfone que dá à música um formato de poesia e a transforma em canção. Logo ele que oferece à irredutível abstração do pensamento musical o concreto conteúdo semântico da palavra.

No voo passarinho de Stanley Jordan pela praia de Pipa, o microfone ficou calado, porque, naquela noite, quem cantava era a guitarra.

Vi uma entrevista de Gilles Deleuze em que o filósofo, já no fim da vida, dizia que a grande literatura tem de ter a dimensão do universal. A vida de alguém, contada em sua cotidianidade, em suas particularidades mais esmiuçadas, não seria um tópico nem necessário, nem suficiente para se construir uma obra literária que passasse pelo teste do tempo.

Como o vento de Agosto, amigo velho, que faz subir as areias das dunas pelos tetos das casas na beira das praias dessa esquina do Brasil, a história arrastaria a vida da gente em direção aquele mar sem beiras, que tudo dilui, mistura e conforma; na maré silenciosa da memória.

Talvez Deleuze esteja certo, se sua arte é a prosa. Talvez ele esteja com a razão se sua tarefa é contar uma história que vença o tempo e faça com que o deserto da memória não desmanche sua linguagem, nem permita que seu nome seja logo esquecido, algum punhado de décadas após seu próprio funeral.

Mas, quando o negócio é poesia, aí, amigo velho, a coisa muda de figura. Porque a poesia pode ser também o lugar do pequeno, do particular, do fragmento da vida, tecida na sinuosa tapeçaria da língua, como um bordado.

E se é assim na poesia, o que dirá, no cinema!

O filme Elena, de Petra Costa é um poema. Uma carta de uma irmã viva, para uma irmã morta, um filme inesquecível (como disse Jorge Furtado em um debate na cidade de Porto Alegre no mês de Maio desse ano).

Ali, na sala escura, no lugar em que nossos desejos são construídos, no espaço simulado de nossa própria mente, onde nossa psique se constrói na imagem que o outro escolhe pra gente, o filme Elena ganha uma dimensão avassaladora.

Não se trata apenas da tragicidade dos temas (o suicídio, a perda, a memória), não se trata da verdade que se esconde atrás de uma história real, que parece ficção; não é apenas pela busca das cenas de nossa própria infância, que costumamos a reconstruir e recontar em nossas narrativas ou nas palavras que escolhemos para reinventar nossa vida a cada degrau do tempo que vivemos.

Há uma visualidade sem pudor no filme, que ultrapassa em muito a mera prosa cinematográfica. Na confluência de uma peça de auto ficção, onde as personagens reais interpretam a si mesmas; mãe, filha e irmã se misturam, em um estranho desdobramento de imagens, de vozes narrativas que se cruzam, de papeis que confluem. É como se houvesse uma única Elena, entre todas, unida definitivamente na síntese da arte.

A menina que se matou em 1990 com vinte anos, que gravou 50 horas de vídeos caseiros entre 1983 e 85, que sonhava ser atriz e que mergulhou na depressão da cisão entre uma Elena que observava a si mesma e se censurava e outra que realizava a vida; aparece ao mesmo tempo inteira e espalhada como uma ponte que liga uma mãe mais velha, a uma irmã mais nova.

Essa conexão trágica só aparece na arte. É só na arte que a vida é maior. Só na arte que a morte desaparece, só na arte que a memória engana o tempo e mente pra ele, fazendo com que a vida ressuscite, em meio à tristeza que fica esfarelada no deserto da lembrança.

Sou muito besta pra chorar em filmes. Acredito que a maior parte das lágrimas que já verti nesses meus quase quarenta anos (descontadas é óbvio, do meu tempo de criança), verteram-se em salas de cinema ou diante da tela da TV.

Curiosamente, não consegui chorar no filme de Petra Costa.

Sai do cinema com aquele gosto estranho de não entender o que havia acontecido comigo. Estaria eu ficando frio? Teria sido possuído pelo fantasma glacial de uma era sem lágrimas, que anunciaria a segunda metade dos meus dias? Teria me tornado um ser monstruoso, incapaz de me render à força poética daquele desconcertante lirismo que dominou minha vista dentro do cinema, quinta feira à noite?

Passei uma semana sem respostas. Até que comecei a sonhar com algumas imagens do filme. Elas começaram a invadir o território de meus sonhos, não como pautas narrativas, que indicavam os caminhos para meus próprios demônios e minhas próprias assombrações, que em si, já são muitas e varias. O filme de Petra estava lá como uma tessitura, como um contexto pictográfico, como uma pintura vestida de cinema a dar forma as minhas próprias narrativas imagéticas.

Na verdade, quando o cinema faz a vida ficar maior, é difícil não se render à beleza e chorar pra dentro.

Agora, uma semana depois de assistir o filme, tudo ficou mais claro para mim. Foi o alumbramento, amigo velho; esse assaltante dos sentidos, que secou minhas lágrimas.

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Na orelha da edição brasileira de A Guerra dos Tronos, primeiro livro da série “As crônicas de gelo e fogo” do norte americano Geogre R. R. Martin tem uma declaração de Marion Zimmer Bradley que me chamou atenção, a escritora de As Brumas de Avalon diz: “é, talvez, o melhor épico de todos os tempos”.


Só essa declaração, junto ao grande canigamento a que fui submetido por parte de pessoas por quem nutro afeto e respeito intelectual me instigando a assistir a série Game of Thrones do HBO, já seria motivo suficiente para comprar o livro.

Sabe, estou chegando aos quarenta e agora sei que vou morrer algum dia (antes eu tinha só uma leve suspeita); por isso preciso escolher bem o que vou ler. Afinal, a vida é miseravelmente curta e eu não lerei todos os livros.

Desconfio um bocado dos blockbusters literários, passo por eles com aquele cuidado de quem tem mais o que fazer, mas não sou um fundamentalista blooniano a ponto de renegar um texto pelo simples fato dele não ser clássico, ou cool o suficiente para ter uma resenha na revista CULT.

Então, após assistir em quatro fins de semana seguidos as três temporadas da série do HBO; resolvi me aventurar pelo texto. Queria sacar qual era a do cara, porque, pelo que havia visto na série, parecia haver algo interessante por baixo do sangue e do sexo (particularmente sempre preferi o sexo ao sangue, mas essa é outra história).

Na verdade, acho que é uma ironia sacana o fato de que o autor das Crônicas de Gelo e Fogo, se chame George R. R. Martin, quando o autor de Os Senhor dos Anéis se chamava J. R. R. Tolkien. Aqueles dois “Rs” no meio do nome soam como uma provocação.

Quanto mais eu olho pra literatura mais fico espantado ao perceber como a fórmula hermenêutica de Harold Bloom (o velho professor judeu de literatura em Yale) funciona bem.

Martin deve ser mais um desses casos de angústia da influência e, antes de tudo, um tipo bastante criativo de traidor literário. Se o foco de seu combate é contra Tolkien, o homem que ressuscitou o épico em um mundo dominado pelo romance burguês moderno, ele trava esse combate com as armas mais mortais que um escritor pode usar.

Tolkien, para quem não sabe, era um apaixonado por velhos textos épicos que remontavam a mitologia nórdica tipo a Edda, a Kalevala ou o Anel dos Nibelungos. Conhecedor profundo dos idiomas arcaicos da Europa germânica; reza a lenda que Tolkien costumava entrar na sala de aula recitando de cor, trechos inteiros em saxão antigo da epopeia de Beowulf.

O desprezo que Tolkien supostamente nutria por Shakespeare, faz sentido quando a gente pensa que foi justamente o gênio de Staford-upon-avon o grande coveiro do espírito épico na modernidade europeia.

Nas suas Preleções sobre Estética, Hegel ensinava que o épico é o gênero que está no núcleo de formação de um povo. Uma lenda básica que expressa o espírito originário de uma comunidade e que uma das características fundamentais desse modo literário é que os personagens que surgem de suas linhas são símbolos, sacos vazios sem profundidade subjetiva que permitem que o corpo coletivo de uma nação se projete em suas façanhas, em seus feitos extraordinários. Quando o herói morre, no épico, o sentido de sua morte é mítica, simbólica, profilática.

Shakespeare detonou com isso. Seus personagens tem autoconsciência. Eles se transformam no decorrer de suas peças na medida em que confrontam o próprio discurso. A morte, em Shakespeare, é trágica, e não mítica; é real e não simbólica. É por isso Shakespeare nos assombra bem mais do que nos consola.

R. R. Martin, a julgar pelos primeiros textos de sua série, não faz um épico (a não ser na superfície da sua linguagem de novela, pronta para ser decupada e transformada em série de TV). O filho de estivadores de Baynone, Nova Jersey, usa o mote intuitivo de Tolkien (criar um universo de fantasia para que o épico possa retornar, posto que ele não tem mais lugar no mundo moderno), e joga Shakespeare no cenário pra acabar com a brincadeira.

É o trágico, amigo velho, e não o épico a grande força de Game of Thrones. Ali, são as circunstancias do mundo, materializadas na própria tessitura narrativa do texto que levam os humanos, os personagens centrais da história, a contribuir com seu próprio destino. A luta dos personagens com os fatos que derivam shakespereanamente de suas próprias escolhas é o recurso narrativo mais quente da história. Mesmo os “malassombros” (zumbis, dragões, sombras negras saindo da vagina de feiticeiras ruivas, gigantes) que tanto marcaram as narrativas de fantasia como as de Tolkien, ou são instrumentalizados pela fatalidade das ações e escolhas humanas ou pairam como ameaças difusas na nevoa de um gênero posto a uma distância segura das narrativas centrais.

R. R. Tolkien e R. R. Martin estão em lados opostos da trincheira literária contemporânea. O sucesso de um é o sintoma do fracasso do outro na pretensão de subverter a regrinha de ouro de Hegel, que havia sepultado o gênero épico na modernidade.

Na verdade, essas são apenas algumas impressões iniciais que estou tendo do texto. A história é muito longa, com seus vários volumes e a minha curiosidade para saber como o velho R. R. Martin vai se desenrolar da arriscada teia literária que criou para si mesmo só aumenta na medida em que avanço na leitura.

O combate entre Tolkien e Martin no meu cânone particular está só começando, enquanto isso, se você é daqueles que prefere a TV aos livros, senta aí no sofá para aguardar a quarta temporada da série que eu vou seguindo aqui no meu percurso, caminhando na linguagem e me espantando em como a literatura pode ser pródiga em nos encantar. Lá na frente, a gente se encontra.

Não há melhor tradução para a maneira contemporânea de se experimentar o amor do que o rock. Na sua simplicidade radical, na sua autenticidade, na compreensão crua que nasce antes de qualquer interpretação racional, é o rock que nos ensina o que é amar em tempos tão sombrios. Se pudesse fazer uma lista das grandes canções de amor que encontraram no rock seu fermento, não acharia lugar nessa lauda.


Pra mim, que sou anacrônico, que me sinto cada dia mais antigo, que cresci em um tempo diferente daquele em que minha alma mora, que teimo em não me satisfazer com o mundo, fazia uma data que já havia perdido a esperança de que o rock pudesse me oferecer mais alguma coisa. Por isso me refugiei em CDs antigos e velhos discos de vinil, ouvindo meus retalhos, minhas significações sonoras, as memórias dos sons que compuseram minha vida.

Então, quando menos esperava, fui pego nessa lufada de um vento velho, daqueles de agosto, que vem com sua fúria bandoleira arrastando dunas e soterrando as casas na beira da praia. O som de Talma&Gadelha me pegou na covardia. Quando estava desajeitado e desatento, caminhando meio que a esmo pelas ruas de mão única desse tempo infestado de batidas eletrônicas e de experimentações pretensiosas.

Fazia tempo, desde que o Bugs laçou seu primeiro CD no começo da década passada, que eu não tinha tanta vontade de escrever sobre uma banda de rock como tive agora. Desde que ouvi o primeiro CD de Talma&Gadelha, já tinha essa sensação. Já padecia desse sentimento inusitado de saber que, na dicção do rock, ainda havia espaço para uma comunicação direta com esse meu coração antigo.

Sei que, como fenômeno social, como força estética de revolução, o rock já deu o que tinha de dar. O problema é que Talma&Gadelha teimaram em me lembrar, que a crônica de nossos sentimentos ambíguos ainda pode encontrar eco na pegada distorcida e densa das guitarras, na simplicidade falsamente ingênua daquele roquezinho antigo que fala no corte aberto, sempre quente, dessa avalanche de insanos devaneios que alguém batizou de amor.

É o amor, que são tantas coisas nestes tempos de pós-tudo. É o amor a armadilha fundamental que nos transporta em direção à origem. É o amor que rasga nosso verniz de modernidade e faz nascer aquela seiva demodê, aquele cortejo de esperanças loucas, aquela comunhão que nos liberta do mundo.

Sou anacrônico, amigo velho. Não acredito em amor que não seja uma ferramenta de transcendência. Não acredito em amor que não reapresente o mundo com uma força tectônica tão poderosa que move a vida de um sujeito por décadas, mesmo depois que o terremoto da paixão já tenha deixado de fazer seus estragos mais visíveis.

Pra mim, nesses dias em que se anuncia a metade da minha vida, foi “Saturno”, canção do disco Maiô, com sua vibração grunge, com sua melodia que desempacota a alma, que dá voz a nossa solidão; foi essa canção que me ofereceu uma visão desse amor sem cabimento que insiste em nos assombrar, mesmo quando pensamos estar seguros, bem longe de sua influência libertadora.

Saturno é o senhor do tempo, o mestre do karma. Ele ensina pela dor e cauteriza nossas fantasias. Ceifa o assombro de nossos sonhos, mas abre caminho para que a novidade surja, no meio das cinzas que o antigo deixa pelas margens do caminho. Quando um novo tempo quer nascer, e um tempo antigo não se deixa morrer, é Saturno que castiga os apegados com suas hostes de monstros.

Mas o amor, tal qual menino malcriado, é uma mentira contra o tempo.

Ele engana Saturno, reinventando o passado a partir de um presente tão intenso, que redimensiona as coordenadas de nosso futuro. Eu, que há mais de quinze anos insisto em amar a mesma mulher, sei que o amor nunca fracassa. Somos nós, desajeitados e desatentos, encantados pela banalidade do mundo, que o deixamos sorrateiramente se ocultar nas frestas da memória.

Até que uma canção o extraía de seus mais elaborados esconderijos.

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Dizem os que estudam a vida dos antigos, que no circo romano, ou mesmo em velhos anfiteatros do mundo grego, existiam lugares especiais destinados aos ricos. Eram assentos com buracos no meio, uma espécie de vaso sanitário público no qual a elite de Atenas ou de Roma, poderia urinar e defecar livremente enquanto assistia mais uma corrida de cavalos, uma luta de gladiadores ou mesmo a encenação de uma tragédia de Sófocles.


Havia um sentido catártico nesses eventos. Uma dimensão profilática, fisiológica, que permitia aos mais abastados, limpar suas impurezas interiores enquanto assistiam aos espetáculos.

Esse hábito sanitário, que parece chocante nos dias de moralidade pequeno burguesa, está hoje, ao menos em um nível simbólico, sendo repetido nas redes sociais.

Confesso, amigo velho, que já havia detectado a densidade profilática de muitas das mensagens que chegam na minha time line. Como nos tempos antigos, o espetáculo das redes é usado em muitos casos como um mecanismo de purificação. Exalamos nossas ideias e nossos discursos como se descarregássemos um conteúdo reprimido, sufocado, estagnado nas profundezas de nossa mente pela moralidade comum. Algo de nossa substância interior, de nossa particularidade íntima, algo de nossa mais fundamental privacidade eclode, nos 140 carácteres do twitter, em momentos de comoção social ou de devaneio estético.

Na media em que o surto cidadão da classe média brasileira vai arrefecendo, e os protestos pelo país voltam a sua configuração original, o discurso profilático da twittaria renasce. Retornamos ao estado original, anterior ao dia 13 de Junho, quando milhares de manifestantes foram vandalizados pela PM de São Paulo no episódio que já vai entrar para a história como “O massacre da paulista”; enquanto Arnaldo Jabour criminalizava, para deleite da fascistada brazuca, o Movimento Passe Livre. Também retornamos para o dia 15 de Maio, quando os 300 de Natal, estavam sofrendo com a repressão policial embaixo do viaduto do quarto centenário, em meio ao clamor de muitos usuários da rede por mais violência e repressão.

Entre o abuso de uma polícia criada para reprimir e o ludismo primitivo de manifestantes que expõe sua raiva pelas ruas, a fascistada twitteira executa sua profilaxia virtual, retirando o verniz do discurso democrático e clamando por mais violência.

Sim, eles anseiam a violência. Quando dizem que “são a favor de protestos pacíficos, mas se houver baderna é pra policia, BAIXAR O PAU!” deixam claro, tal qual a elite greco-romana em seus assentos sanitários, que precisam da tragédia para expor aquilo que guardam cuidadosamente sobre o discurso politicamente correto da normalidade democrática.

Então, quando a violência estoura nas ruas executa-se nas redes o ato higiênico pedindo o retorno da ditadura militar, mandando que policiais intimidem e prendam manifestantes sem que esses tenham cometido nenhum crime, clamando pelo fim da OAB, justificando tortura, brutalidade e autoritarismo para defender a ordem.

Diante de fantasmagóricas narrativas sem imagens, em que sofás importados são arrastados pelas ruas dos bairros de elite das capitais em meio aos vidros de vitrines apedrejadas, de lixeiras incendiando diante de portas de banco depredadas, a classe média brasileira, com a nebulosidade ideológica e o parco letramento que lhe é peculiar, clama por mais violência.

Vou lhe confessar, amigo velho, não tenho medo do policial mascarado e sem identificação que dá choque elétrico em meninas de quinze anos; não tenho medo de manifestantes de rosto coberto que jogam pedras nas vidraças, meu medo mesmo é dessa energia sombria que nasce no discurso do “homem de bem”, do cidadão comum, que grita para que a democracia seja sacrificada no altar de uma ordem que, ao invés de garantir a segurança, promove mais e mais violência.

É esse senso comum que alimenta o que Hannah Arendt chamou tão bem de “a banalidade do mal”. De seu sofá, da cadeira de seu restaurante, do banco de seu automóvel, o homem de bem digita no seu I-Phone a senha que libera os monstros de nosso tempo.

Nessa epoca de protestos globais, construímos poderosas fantasias. Temos as fantasias de emancipação e liberdade, que alimentam as massas na luta democrática; mas também temos poderosas fantasias obtusas, de violência e autoritarismo, que apontam para a possibilidade sempre presente de um terror que nasce quando a covardia social petrifica a ansiedade de mudança do povo.

Antônio Gramsci, enquanto aguardava o momento de sua própria morte em uma prisão de Mussolini, escreveu uma frase poderosa que dizia mais ou menos assim: “um velho mundo está morrendo, um novo luta pra nascer: agora é o tempo dos monstros”.

E aí? Quais são os seus monstros?

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