NATAL PRESS

A CIDADE DOS ARTISTAS SEM NOME. Acho que esse deveria ser o título da biografia não autorizada de Natal. Digo isso não só porque e eu não vi passar o carnaval (estava viajando no estrangeiro, no sul do continente, um lugar em que a palavra “Carnaval” é apenas uma fantasia distante de terras exóticas cortadas pela selvageria tropical).

Pensei no título para essa biografia (talvez alguém um dia possa usa-lo) quando voltei por aqui na terça feira gorda, pegando um restinho da folia. Assisti meio sem querer um repórter da TV Cabugi entrando ao vivo na programação da Globo News.

Ele, que parecia estar na Ribeira, anunciou que a animação era grande pelas ruas do centro histórico e que todos aguardavam o show de Margareth Menezes (se a minha memória não falha); mas que diversas atrações de peso já haviam passado pelo carnaval de Natal esse ano, como: Neguinho da Beija Flor; Alceu Valença, Elba Ramalho e… “Vários artistas locais”.

Sim.

Eles estavam lá.

Os artistas locais.

Na desconcertante taxionomia estética da imprensa de província os artistas são classificados em função de sua localização geográfica. Eles não são músicos, atores, poetas, escultores, quadrinistas. Eles são artistas internacionais, nacionais, regionais e “locais”.

Nesta divisão, os músicos potiguares  curiosamente não tem nome.

Não tem identidade, estilo, história, obra.  São reconhecidos apenas pela nebulosa alcunha de “artistas locais”.

Sem a dignidade do nome, que marca sua individualidade, eles sofrem uma curiosa sabotagem ontológica por parte de seus próprios conterrâneos.

Não são pessoas, bandas, orquestras, indivíduos. São uma categoria. São radical e simplesmente: “artistas locais”.
A exclusão de seu nome (muitas vezes patrocinada pela própria propaganda oficial da prefeitura) me faz pensar que talvez eu tenha razão quando penso que o Rio Grande do Norte não é um estado da federação, mas sim, um bom lugar para se esconder.

“como é cansativo ser mau”

Bertold Brecht

É preciso evitar duas reações ideológicas automáticas diante dos ataques realizados em Paris na última sexta feira.

A primeira consiste no patrulhamento contra aqueles que se solidarizam com as vítimas dos atentados. A segunda, na ideia de que os atentados são a expressão de mais um capítulo da luta histórica da “civilização” contra a “barbárie”.

No primeiro caso temos aquela reação padrão que diz: “Você agora se comove com a morte dos franceses em Paris, mas porque não se comoveu quando os aviões americanos bombardeiam hospitais no Afeganistão, ou quando o Boko Haram sequestrou estudantes na Nigéria ou quando as pessoas foram soterradas pela lama da Samarco em Minas etc etc etc?”. Na verdade esse patrulhamento não se propõe a buscar um padrão universal e irrestrito de solidariedade com todas as vítimas das catástrofes do mundo. Ele representa uma proibição. O que esse discurso na verdade diz é: “você não pode se comover com a morte de franceses porque os franceses são opressores colonizadores e não as vítimas oprimidas”.
Por trás dessa proibição moral há a noção subliminar de que membros de um grupo islamofascista como o Estado Islâmico, ao metralhar pessoas em um show de Death Metal ou explodir bombas pela cidade de Paris, estaria, na verdade, realizando um ato de justiça divina.

No segundo caso temos aquela reação padrão que diz: “Esses terroristas assassinos são psicóticos, enlouquecidos por uma ideologia selvagem e obscurantista. São representantes da barbárie medieval do Islã que busca destruir o legado iluminista da civilização europeia”. O que na verdade esse discurso diz é: ‘A violência terrorista do Estado Islâmico não faz parte do nosso mundo. Ela eclode de maneira espontânea em ambientes ideologicamente deteriorados e se contrapõe ao nosso modo de vida como uma força alienígena poderia se contrapor à vida racional no planeta terra”. Por trás dessa construção ideológica de choque de civilizações (ou entre civilização e barbárie) se escondem outros sentidos do discurso ideológico. O mal é tomado como uma substância estranha, que emerge milagrosamente no nosso cotidiano. A violência do terror é vista assim, a partir dessa confortável e fantasiosa construção ocidental, que vê o terror como um sintoma de um desvio estrangeiro, como um resíduo de uma creatio ex nihilo que vem do oriente e que não tem nenhuma ligação com a nossa cultura, nossos valores, nosso modo de vida nem como nosso modelo de economia global.

Apenas superficialmente esses dois discursos são opostos. Na verdade eles são variações de uma mesma ideia que liberta, curiosamente, as vítimas da sua suposta culpa coletiva. No primeiro caso, tendo havido o ato de justiça que pune o colonizador opressor, o crime da colonização se expia, e a Europa pode se libertar do próprio sentimento de culpa por sua história de invasões, guerras, massacres de povos indígenas, escravidão etc etc etc. Neste sentido, punidos por seus pecados, os europeus estão livres para pecar de novo e repetir mais uma vez as condições que geraram a própria violência que supostamente os castiga.

No segundo caso, a tomada do terrorismo como um fenômeno de geração espontânea, fora do horizonte da civilização europeia, exclui os europeus da responsabilidade por enfrentar os mecanismos concretos, políticos, econômicos e sociais, que criam o ambiente propício para que grupos como o Estado Islâmico possam frutificar. Assim, o combate ao sintoma (violência terrorista) se justifica sem que as causas da violência (a guerra por procuração travada na Síria entre Rússia e EUA, por exemplo) sejam enfrentadas. Essa postura mantem o padrão de violência estrutural que gera o terror islamofascista, bem como alimenta seu oposto complementar, o nacionalismo de direita Europeu.

Retornamos deste modo ao sintoma neurótico da falsa oposição que tomou conta das redes sociais, quando as tags #JeSuisCharlie e #JeNeSuisPasCharlie invadiram nossa TL menos de um ano atrás. O único caminho terapêutico viável nesse momento me parece ser o de abandonar a escolha. Não se trata de oscilar entre esses dois discursos (o da justiça divina contra o opressor, ou da loucura alienígena da barbárie islâmica). A terapia crítica dessa fantasia ideológica necessita da negação radical dessas duas posturas e da adesão intransigente á uma solidariedade ao povo francês e à defesa dos valores comunitários de justiça e liberdade; bem como a negação radical de explicações que eximam a dita “civilização ocidental” da responsabilidade pelas causas que geram o terror.

É preciso retirar a máscara ideológica do mal para que possamos desconstruir sua face obscena. Como poetizou certa vez, de maneira sarcástica, Bertold Brecht:
“Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa/ Máscara de um demônio mau / coberta de esmalte dourado / Compreensivo observo/ as veias dilatadas da fronte / indicando / como é cansativo ser mau”.

Quando o império romano do ocidente caiu, por volta do século IV da era cristã, levas e levas de tribos germânicas migravam para o sul. Nos livros de história aqui no Brasil, influenciados provavelmente por autores franceses, nos acostumamos a estudar esse período como o das “invasões germânicas”. Nos livros didáticos alemães, o período é identificado com outra expressão: Völkerwanderung (algo como “migração populacional”). Essa mudança aparentemente sutil diz muito sobre como os alemães enxergam o fenômeno de massas que deu origem a Europa moderna.

Se no passado foram os povos germânicos que se lançaram em direção ao sul fugindo da guerra e de fenômenos climáticos que alteraram o ciclo de chuvas na Ásia central; hoje, Berlim é a nova Roma para milhares de refugiados sírios, iraquianos, libaneses, sudaneses. Uma multidão ainda se move fugindo da guerra, da miséria e da crise global.

A imagem trágica dos corpos azuis de crianças afogadas, levadas pela maré do mediterrâneo até as paradisíacas praias da Grécia, Itália e da Riviera Francesa, não parece estar sendo suficiente para apaziguar o pavoroso espírito de condomínio que toma conta dos governos europeus e de uma parte substancial de sua opinião pública.

Assim como os modernos condomínios fechados das grandes cidades capitalistas ao redor do globo, a Europa hoje sofre com sentimentos divergentes. De um lado a culpa de sua própria crise, da aceitação de uma agenda global de desmantelamento do Estado de Bem Estar Social e de um passado de colonialismo e exploração; de outro o sofrimento estruturante de duas narrativas fundamentais, muito bem expostas pelo psicanalista Christian Ingo Dunker no seu livro Mal Estar, sofrimento e sintoma (Boitempo, 2015).

Para Dunker, a vida em condomínios fechados apresenta narrativas tão sólidas e aparentemente intransponíveis quanto os muros e as cercas elétricas que separam essas ilhas da fantasia do resto de um mundo em convulsão. De um lado, os condôminos sofrem com o medo de ver sua equilibrada e higienizada ordem social destroçada pelo objeto intrusivo. O elemento “de fora”, que vem do caos do mundo que se estende para lá da muralha. Eliminar a ameaça dessa presença intrusiva através da repressão policial e militar é a primeira reação que os condôminos normalmente têm diante da massa de excluídos posta em frente à seus muros como sombras ameaçadoras. Por outro lado, os condôminos sofrem porque sentem que há algo de “mal feito” de “mal ajustado” nos pactos que constituem a fundação de seu próprio condomínio. Há um desajuste de base, uma desestrutura normativa, política, uma ambiguidade de intenções dentro do próprio espaço comum que parece fragilizar a sensação de segurança e estabilidade.

Hoje, o condomínio Europa, no auge de sua crise de legitimidade, acossada pela culpa histórica, pelo medo do outro e pelo mal estar causado pela sensação de que a há algo de errado no pacto que a criou, se movimenta diante da tragédia humana de pessoas esmagadas nas fronteiras, sufocadas em caminhões e containers, morrendo à deriva no antigo mar que um dia foi um grande lago romano.

A questão fundamental que se põe hoje é como a Europa vai reagir a essa catástrofe humanitária. Erguer muros maiores e adotar leis mais repressivas, ou assumir a utopia de tratar a humanidade como um valor supremo e acolher os refugiados? A esperança civilizatória a essa pergunta parece hoje estar muito mais concentrada na solidariedade da sociedade civil europeia do que na ação de seus governos, a julgar pelas notícias que desfilam aqui pela minha TL.

O fato é que vinte e seis anos depois da queda do muro que separava a cidade de Berlim em duas, o mundo continua dividido. A utopia liberal de um livre mercado globalizado (rota supostamente mais curta para a prosperidade planetária) naufragou em crises financeiras, guerras econômicas e colapso ambiental. A ideologia liberal e suas utopias do século XVIII espatifaram-se diante de um capitalismo real que movimenta o planeta no sentido de um crescimento exponencial da desigualdade, de mudanças climáticas que remodelam a geografia dos povos e do acirramento do discurso de ódio que amplia a guerra e o genocídio. Velhos fantasmas da humanidade que continuam a assombrar os moradores dos condomínios fechados do globo, em tempo de completa hegemonia política do capital.

O que parece cada vez mais claro, depois de quase três décadas é que a verdadeira diferença entre capitalismo e comunismo era mesmo o muro. No comunismo construíam-se muros para quem estava dentro não sair; no capitalismo constroem-se para quem está lá fora não entrar.

O muro do comunismo já ruiu na Europa. Resta saber por quanto tempo o muro do capitalismo sustenta a pressão de suas próprias contradições.



Em 1965 o poeta beatnik Allen Ginsberg foi expulso de Cuba. Na véspera de uma palestra que iria ministrar na “Casa de las Americas”, Ginsberg foi acordado no Hotel que estava hospedado por soldados uniformizados e posto em um avião para Praga. Quando perguntou porque estava sendo deportado, os sujeitos disseram que ele estava “quebrando as leis de Cuba”.

Na verdade ele já estava “dando trabalho” às autoridades revolucionárias há algum tempo. Segundo consta teria dito diversas vezes em público que achava que Raul Castro era gay e que Che Guevara era uma espécie de “pároco de aldeia”. Mas suas posições públicas em relação à política repressiva do governo comunista contra a maconha e contra a liberação sexual (ele havia sido informado que alguns artistas homossexuais haviam sido enviados para campos de reeducação cortar cana de açúcar) o colocaram na berlinda. Para coroar sua estadia na ilha de Castro, chegaram às autoridades informações de que ele havia sido visto fumando maconha e que ainda teria ido pra cama com um jovem poeta cubano.

Motivos fortes os suficiente para um “convite de retirada” da Ilha, sob o argumento de que o poeta estaria “quebrando as leis de Cuba”.

Por isso, amigo velho, fico meio constrangido quando ouço pessoas criticando uma suposta “ditadura-comunista-gayzista-petista- etc etc etc” que estaria dominando o Brasil. A julgar pelo modo, digamos, “sexualmente ortodoxo” que vários regimes de socialismo realmente existente trataram a questão da homossexualidade, me parece uma contradição entre termos propor algo desse tipo.

Mas não vou pedir demais. Exigir coerência argumentativa no falatório retórico das redes sociais parece hoje uma espécie muito pouco elegante de “corta foda”. Apesar disso não deixo de me espantar quando vejo gente exaltada afirmando, por exemplo, que a decisão da suprema corte norte americana, seguindo cortes de países juridicamente mais desenvolvidos, como o Brasil por exemplo (calma, não babe! É só uma provocação); fechando questão em torno da constitucionalidade do casamento igualitário, é um “atentado contra a tradicional família cristã”.

Ora, pense comigo. Não há indicie mais evidente nos dias de hoje de que a tradicional família cristã ganhou a guerra contra as propostas libertárias dos anos sessenta de amor livre; do que o casamento igualitário.

Não se luta hoje pelo direito de se viver em comunidades LGBTs abertas onde os conceitos da monogamia burguesa do século XIX são lançados na fogueira da libertação dos sentidos e da exploração livre do próprio corpo. Essa utopia perdeu-se lá por Woodstock, na volta pra casa, quando o pessoal resolveu dar uma paradinha no Studio 54 em Nova York pra esperar a década de oitenta chegar.

O que casais do mesmo sexo buscam hoje é o direito de casar, ter filhos, pagar seus impostos, arrumar um emprego legal, contribuir pra previdência, ir à igreja e comungar junto com todos. Quer coisa mais careta do que isso?

Confesso amigo velho, minha hermenêutica anda pouca pra compreender porque danado alguém acha que estender direitos civis a casais do mesmo sexo pode comprometer as bases da sociedade e da família. Nada mais fora de tempo do que arrazoar um argumento desses apelando para leituras amalucadas de Gramsci e Marcuse.

A época da revolução está ficando perigosamente pra trás e o que se descortina no horizonte futuro desses anos é o retorno desse conservadorismo político que assombra as sociedades sempre que as revoluções fracassam; como diagnosticava Walter Benjamin.

Se por um lado é preciso mesmo pintar o perfil de arco-íris para celebrar a vitória dos valores do liberalismo laico, que buscam ampliar os direitos civis a comunidade LGBT; por outro é de se pensar um pouco pra frente e imaginar que quando esse processo estiver concluído a tradicional família monogâmica burguesa (essa ficção ideológica) vai triunfar de todo modo, eliminando do horizonte político espaços de dissidência e experimentação sexual.

Se você não entende o que eu digo basta assistir um show do Eduardo Dusek. Assisti um em que, numa determinada passagem ele dizia assim: “Gay? Gay é um negócio que inventaram agora. Nos anos setenta não tinha esse negócio de gay, não. Todo mundo comia todo mundo e ninguém era gay”. E para complementar o cantor, saudoso de um tempo que não volta mais afirma: “Aliás… era uma falta de educação virar para a pessoa que você estava comendo e perguntar – ‘Ei? Qual é mesmo o seu sexo?’”.

Sempre achei que em política, a pior coisa que alguém pode fazer é torcer. Certo é Chico de Oliveira ao apontar para o fato de que em política não cabe paixão, cabe análise. Mas é difícil, amigo velho, num país apaixonado por futebol, pedir que o militante de rede (social) analise alguma coisa. Mais fácil é vestir a camisa de seu bloco político como se fosse a do seu clube de coração.


Digo isso porque achei curioso demais uma página que apareceu na minha TL. Era um perfil no FB que se propunha a ser uma espécie de espaço para “Ex-esquerdopatas”. A página tem 1769 curtidas (ao menos enquanto digito essas linhas) e tem um subtítulo: “Esquerdismo tem cura”.

Já topei por aí com alguns conhecidos submetidos ao tipo de tratamento que essa espécie de página virtual propõe. Muitos desses renascidos se apresentam como adictos em grupos de auto ajuda. Às vezes confessam sua ideologia passada como se estivessem imbuídos de uma missão divina: curar a humanidade de sua “doença esquerdista”.

Na verdade me entedio profundamente quando assisto, no mundo analógico ou virtual, uma disputa entre “esquerdopatas” e “direitofrênicos”. Sinto uma aridez argumentativa e uma imensa impressão de perda de tempo quando visualizo algumas dessas pelejas virtuais. Depois que cruzei a casa dos 40, ando seletivo. O relógio digital do meu computador não marca horas a mais; ele conta o tempo a menos que me resta antes que o anjo do mistério cale minha boca, separe pra sempre meus dedos do teclado e meus olhos das frases postas nas páginas dos livros que ainda não li.

Mesmo assim achei curiosíssimo que uma página dessas se propunha a tratar ideologia como doença. Especialmente em se tratando de uma página de direita. Digo isso porque é muito provável que boa parte desse povo tenha conhecido Marx e Lênin através das preleções de Olavo de Carvalho na internet. Se tivessem se debruçado um pouco mais nos livros talvez tivessem encontrado uma carta de Lênin direcionada à Máximo Gorki, datada do Outono de 1913 onde o pai da revolução bolchevique condena a adesão do amigo a um certo “humanismo teológico”, ele diz assim: “Talvez eu não tenha entendido bem? Talvez estivesse brincando quando escreveu ‘por enquanto’? Quanto à ‘Construção de Deus’ talvez não tenha escrito à sério? Céus, cuide-se um pouco melhor! Ps .: Cuide-se mais seriamente, para não viajar no inverno sem se resfriar (no inverno é perigoso)”.

A ideia de que o desvio ideológico pode ser um sintoma de algum distúrbio orgânico, como uma doença ou uma patologia é um elemento presente por todo período stalinista. A dissidência geralmente era tratada como portadora de alguma patologia e tratada, muitas vezes, a partir de uma nomenclatura médica que implicava o uso da psiquiatria como uma ferramenta de ajuste ideológico (igual aos países liberais, diga-se de passagem, com sua química da felicidade embalada em cápsulas de farmácia).

Trotsky mesmo, em suas anotações de 1935, tem um sonho em que Lênin aparece depois de morto pra ajustar algumas interpretações políticas equivocadas e lhe dá conselhos: “Ele me interrogava ansioso sobre minha doença: ‘Parece que está com fadiga nervosa. Você precisa descansar’”. Então Lênin passa uma lista de nomes de médicos que Trotsky precisaria procurar.

É sintomático que parte da militância virtual de direita peça emprestado da antiga esquerda soviética, essa conexão entre ideologia e doença. Há um automatismo futebolístico na discussão política contemporânea aqui no Brasil. Uma carência de analise e de senso crítico que permita, nesse delírio digital, um pouco de rigor e solidez argumentativa. Mas o que esperar de uma geração educada politicamente por Olavo de Carvalho e Paulo Henrique Amorim?

O fato é que retrocedemos. Fomos obrigados a cultivar nossa covardia do futuro. Por isso mergulhamos em um delírio retroativo, buscando em retoricas passadas, os significados para a luta política presente. A politica agora virou doença. “Coxinhas” versus “Petralhas”; “Esquerdopatas” contra “direitofrênicos”: patologias ideológicas embaçando a viseira do país.

Não estamos mais em 1964 nem em 1989, mesmo assim, na disputa em torno do palácio do planalto, a desesperança do novo faz avançar uma onda conservadora que sonha em desconstruir o tempo e reverter a história. Uma onda que busca no passado os significados do presente, pra que o futuro, com suas incertezas e seus desafios, não venha, como em 2013, nos apavorar com a imagem projetada de nossa própria liberdade.

Sempre achei que em política, a pior coisa que alguém pode fazer é torcer. Certo é Chico de Oliveira ao apontar para o fato de que em política não cabe paixão, cabe análise. Mas é difícil, amigo velho, num país apaixonado por futebol, pedir que o militante de rede (social) analise alguma coisa. Mais fácil é vestir a camisa de seu bloco político como se fosse a do seu clube de coração.

Digo isso porque achei curioso demais uma página que apareceu na minha TL. Era um perfil no FB que se propunha a ser uma espécie de espaço para “Ex-esquerdopatas”. A página tem 1769 curtidas (ao menos enquanto digito essas linhas) e tem um subtítulo: “Esquerdismo tem cura”.

Já topei por aí com alguns conhecidos submetidos ao tipo de tratamento que essa espécie de página virtual propõe. Muitos desses renascidos se apresentam como adictos em grupos de auto ajuda. Às vezes confessam sua ideologia passada como se estivessem imbuídos de uma missão divina: curar a humanidade de sua “doença esquerdista”.

Na verdade me entedio profundamente quando assisto, no mundo analógico ou virtual, uma disputa entre “esquerdopatas” e “direitofrênicos”. Sinto uma aridez argumentativa e uma imensa impressão de perda de tempo quando visualizo algumas dessas pelejas virtuais. Depois que cruzei a casa dos 40, ando seletivo. O relógio digital do meu computador não marca horas a mais; ele conta o tempo a menos que me resta antes que o anjo do mistério cale minha boca, separe pra sempre meus dedos do teclado e meus olhos das frases postas nas páginas dos livros que ainda não li.

Mesmo assim achei curiosíssimo que uma página dessas se propunha a tratar ideologia como doença. Especialmente em se tratando de uma página de direita. Digo isso porque é muito provável que boa parte desse povo tenha conhecido Marx e Lênin através das preleções de Olavo de Carvalho na internet. Se tivessem se debruçado um pouco mais nos livros talvez tivessem encontrado uma carta de Lênin direcionada à Máximo Gorki, datada do Outono de 1913 onde o pai da revolução bolchevique condena a adesão do amigo a um certo “humanismo teológico”, ele diz assim: “Talvez eu não tenha entendido bem? Talvez estivesse brincando quando escreveu ‘por enquanto’? Quanto à ‘Construção de Deus’ talvez não tenha escrito à sério? Céus, cuide-se um pouco melhor! Ps .: Cuide-se mais seriamente, para não viajar no inverno sem se resfriar (no inverno é perigoso)”.

A ideia de que o desvio ideológico pode ser um sintoma de algum distúrbio orgânico, como uma doença ou uma patologia é um elemento presente por todo período stalinista. A dissidência geralmente era tratada como portadora de alguma patologia e tratada, muitas vezes, a partir de uma nomenclatura médica que implicava o uso da psiquiatria como uma ferramenta de ajuste ideológico (igual aos países liberais, diga-se de passagem, com sua química da felicidade embalada em cápsulas de farmácia).

Trotsky mesmo, em suas anotações de 1935, tem um sonho em que Lênin aparece depois de morto pra ajustar algumas interpretações políticas equivocadas e lhe dá conselhos: “Ele me interrogava ansioso sobre minha doença: ‘Parece que está com fadiga nervosa. Você precisa descansar’”. Então Lênin passa uma lista de nomes de médicos que Trotsky precisaria procurar.

É sintomático que parte da militância virtual de direita peça emprestado da antiga esquerda soviética, essa conexão entre ideologia e doença. Há um automatismo futebolístico na discussão política contemporânea aqui no Brasil. Uma carência de analise e de senso crítico que permita, nesse delírio digital, um pouco de rigor e solidez argumentativa. Mas o que esperar de uma geração educada politicamente por Olavo de Carvalho e Paulo Henrique Amorim?

O fato é que retrocedemos. Fomos obrigados a cultivar nossa covardia do futuro. Por isso mergulhamos em um delírio retroativo, buscando em retoricas passadas, os significados para a luta política presente. A politica agora virou doença. “Coxinhas” versus “Petralhas”; “Esquerdopatas” contra “direitofrênicos”: patologias ideológicas embaçando a viseira do país.

Não estamos mais em 1964 nem em 1989, mesmo assim, na disputa em torno do palácio do planalto, a desesperança do novo faz avançar uma onda conservadora que sonha em desconstruir o tempo e reverter a história. Uma onda que busca no passado os significados do presente, pra que o futuro, com suas incertezas e seus desafios, não venha, como em 2013, nos apavorar com a imagem projetada de nossa própria liberdade.

Para onde vai a trajetória política dos tiros que mataram Charb, Wolinski e Ahmed? Para onde vai a trajetória política dos tiros que mataram Charb, Wolinski e Ahmed?

Quando os terroristas atacaram a redação do jornal Charlie Hebdo na última quarta, atiraram pra matar. Mas não atiraram a esmo, fuzilando o ambiente sem ordem, com aquela selvageria dos amadores. Eles foram seletivos. Chamaram as pessoas pelo nome e acertaram alguns dos mais importantes chargistas franceses com tiros precisos, calculados.

Mas se a bala, esse artefato inexpugnável dos covardes, encontrou o alvo no corpo das vítimas de 07 de Janeiro, o tiro político dos terroristas, pelo menos por enquanto, ainda não completou sua trajetória.

Apesar dos danos claros à noção de liberdade de expressão, uma das poucas coisas realmente valiosas que o liberalismo burguês nos legou, não foi esse o alvo dos terroristas. O ataque ao Charlie Hebdo tem um objetivo mais específico: desconstruir o discurso de tolerância do liberalismo europeu.

Existe uma grande tentação hermenêutica que circunda esse atentado. A tentação de reerguer os mitos de origem que fundamentam as ideologias políticas do ocidente. Essa parece ser a grande tarefa a que a extrema direita europeia se impõe. Reproduzir na narrativa política contemporânea a ideia de um combate cultural que separa civilizações, retomando velhos tropos poéticos de Heródoto, Torquato Tasso ou da Canção de El Cid e seu mito da reconquista ibérica. Segundo essa noção há uma guerra cultural sendo travada. De um lado as forças do ocidente cristão liberal, de outro as forças da ameaça sarracena, que se levantam contra o continente Europeu para devastar a herança ocidental.

É justamente esse mito de origem, construído pela consolidação de um imaginário poético de combate da Europa contra o mundo oriental, que aparece como pano de fundo narrativo para a “solução final do problema judaico” empreendida pelos nazistas nos anos quarenta.

O mais curioso é ver como certos setores da esquerda, especialmente a latino americana, reforçam essa chave hermenêutica da extrema direita, acreditando, com uma ingenuidade desoladora, a estarem combatendo.

O ato radical de liberdade do artista é melhor que o ato radical do terror. O ato radical de liberdade do artista é melhor que o ato radical do terror.

Ao se relativizar os ataques ao Charlie Hebdo com o argumento que “a despeito da barbaridade injustificada dos atos terroristas e blá blá blá” o jornal contribuía para a construção de uma visão estereotipada de uma minoria cultural oprimida e que a ação de grupos como Al Qaeda e Isis podem ser explicados como reações “equivocadas” a ação imperialista das potências ocidentais em sua opressão contra o “povo muçulmano”; a esquerda fortalece a noção de que está em jogo uma luta cultural entre ocidente e oriente e cai na armadilha da chave hermenêutica que alimenta o delírio político da extrema direita europeia.

A imagem do muçulmano como membro de uma “minoria cultural oprimida” é o outro lado da moeda da imagem do muçulmano como membro de uma “minoria cultural ameaçadora”.

Para a esquerda se libertar da chave interpretativa que a direita construiu na Europa, precisa reformular seus próprios conceitos e submeter à crítica esse modelo que lê o fenômeno do terrorismo fundamentalista dentro da dicotomia consensual de: “choque de civilizações” ou “imperialismo ocidental”.

Relativizar a ação de grupos fascistas como a Al Qaeda e o Isis, que fuzilam anarquistas, socialistas e liberais na Síria com a mesma desenvoltura com que degolam jornalistas ou assassinam cartunistas é oferecer mais carvão para a caldeira do inimigo.

Oui, Je suis charlie et aussi Charb, Wolinski, Arhmed, Satrapi, Ginsberg, Rumi...Oui, Je suis charlie et aussi Charb, Wolinski, Arhmed, Satrapi, Ginsberg, Rumi…


Daí é preciso se propor uma desconstrução radical da ideia de que há qualquer combate cultural por trás desses atentados. É por isso, que a França, mais do que nunca, precisava de um Sartre hoje.

Sartre provavelmente teria dito aos franceses que a mais eficaz forma se oferecer uma chave hermenêutica alternativa ao mito do grande combate cultural entre oriente e ocidente é recolocando na pauta a questão da liberdade.

Não se trata de entender a ação dos terroristas como uma monstruosidade inumana de psicopatas assassinos. Esse tipo de leitura cria uma cortina de fumaça sobre o fenômeno do terror, sacralizando-o em uma loucura transcendente que o joga em uma esfera para lá de qualquer possibilidade de entendimento.

O que está em jogo é a liberdade radical do ato que se transfigura na escolha do sujeito diante de suas próprias circunstâncias. Temos um confronto entre duas “liberdades”: a liberdade da arte em seu extremismo militante que desmonta sem tréguas as mitologias culturais e a liberdade do ato extremo do terror que assassina o artista, vingando o mito contra a ofensa iconoclasta da arte.

Nesse sentido, não estamos diante de uma guerra do islã contra o ocidente nem de uma reação extrema de grupos oprimidos pelo imperialismo ocidental, mas de uma escolha radical acerca das possibilidades expressivas da arte, que não se circunscreve a culturas específicas ou civilizações determinadas, mas cada um de nós enquanto sujeitos que atuam na liberdade radical do ato.

Nessa nova dicotomia, a gente tem que fazer nossa escolha.

Eu fiz a minha.

Je suis Charlie, Wolinski, Charb, Ahmed, Marjane Satrapi, Ginsberg, Muhammad Rumi…

Em uma sociedade de consumidores, votar é também um ato de consumo.Em uma sociedade de consumidores, votar é também um ato de consumo.

Não adianta, em uma sociedade de consumidores, votar é sempre um ato de consumo.

Você seleciona o canal, observa a propaganda e é seduzido por algum aspecto do produto político que quer comprar. Depois que o desejo se instala, já era… você empacota seu candidato predileto na embalagem ideológica que mais te apetece e o assume como seu. O preço é barato. Cada candidato vale um voto e você tem a vantagem de devolver o produto quatro anos depois e poder pegar outro, mesmo que seja mais do mesmo.


O único defeito é que não tem garantia. Se o produto vier bichado, é difícil devolver ates do prazo.

O mais espantoso nisso tudo é que essa feitiçaria que alguém algum dia chamou de marketing atua tão bem no mercado consumidor do voto que além de convencer o sujeito a levar o produto eleitoral ainda transforma o consumidor em revendedor imediato. Como em uma grande pirâmide financeira, o comprador passa ser um parceiro do fornecedor, divulgando para outros consumidores titubeantes, as vantagens do produto que adquiriu.

Amigo velho, se Hegel ou Marx, estiverem mesmo certos, e a história caminhar nessa onda de dialética, eu e você estamos vivendo agora um momento de síntese. As velhas oposições do século XIX e XX, que afastavam em espaços divergentes burgueses e proletários dissolveram-se em um imenso campo nevoento; em que habita um raso “consumetariado” partilhante de desejos, sonhos, taras e fantasias de consumo.

A grande mistificação ideológica desses tempos de síntese consumerista aparece na velha crença metafísica liberal que os sujeitos são “Eus” transcendentais, boiando fora do mundo. Eles acreditam mesmo nisso. Os liberais de boa fé juram de pés juntos que os indivíduos podem escolher racionalmente, a partir de uma perspectiva individual privilegiada, movidos pelos imperativos da razão e fundamentados pelo cálculo de vantagens e desvantagens de suas próprias escolhas. Coisas do velho Kant… vale salientar.

É quase um dogma religioso. Uma crença que alimenta o discurso ideológico da eleição como uma opção livre do cidadão em busca do “melhor produto” para seu país, sua cidade, seu estado.

Como qualquer ato de consumo, o voto, nesses tempos de nova síntese, tem ligações fortes com o ato sexual. O prazer do gozo, travestido da euforia do período eleitoral, vem sempre acompanhado da culpa que o endividamento produz quando a reflexão pós-orgástica chega e te faz pensar “que merda eu fiz!”.

Por isso, amigo velho, vamos aproveitar esse período eleitoral para curtir nossa ilusão de transcendência, porque ano que vem, o banco chega pra cobrar a fatura do cartão.

Fiquei preocupado esses dias, quando comecei a perceber a quantidade de perfis nas redes sociais clamando por intervenção militar no país. O argumento da parte desses ativistas é bastante curioso e merece uma análise um pouco mais cuidadosa.

Muitos defendem que o Brasil está se transformando em uma ditadura comunista após doze anos de governo do PT (assertiva que, por si só, já é um sintoma psiquiátrico evidente). Entendem que não há alternativa partidária (à direita) viável, capaz de causar mudanças profundas no país (o que é um fato político mais ou menos óbvio) e que por isso seria necessário uma medida de força que evitasse uma catástrofe maior. Essa medida, afirmam, se daria da seguinte forma: (1) os militares seriam convocados para derrubar o governo do PT; (2) eles ocupariam o poder por seis meses; (3) colocariam ordem na casa (prenderiam os corruptos e acabariam com a “bandidagem”); (4) convocariam eleições gerais após isso e voltariam para os quarteis alegres pelo dever cumprido e o serviço desinteressado à nação.

Parece sério, mas é uma falácia política mesmo, dessas que alimentam ingenuidades pouco afeitas a uma análise mais criteriosa acerca das sutilezas da história e das complexidades do poder.

Meu amigo Marcelo Melo comentou comigo segunda à tarde, durante um bate papo agradável em um café da cidade, que esse tipo de argumento é semelhante a falácia pre-orgiástica em que o púbere masculino, em pleno desespero produzido pela contenção sexual que a idade impõe, promete, com todo fervor que vai botar “só a cabecinha”.

Rupturas na ordem democrática só se justificam quando servem para implantar uma radicalização maior da própria democracia. Quando nascem com um conteúdo moralista e reacionário, destinado a combater abstrações como “os corruptos” ou “a bandidagem” e defender medidas retoricas vazias como “colocar ordem na casa”; escondem na verdade uma pulsão autoritária recalcada, que traz as marcas de regimes de força que se sucederam de modo miseravelmente constante na história nacional.

Há algo de anacrônico nessa utopia regressiva de um regime militar que poria a sociedade brasileira “em ordem”. Esse anacronismo, típico das nostalgias fascistas, é certamente uma resposta à crise de representação democrática que nos levou a perceber as limitações atávicas da democracia liberal. A questão é que, como todo anacronismo fascista, esse tipo de proposta de um retorno a uma “era de ouro” onde a ordem e o progresso reinavam no país, denota não apenas um esgotamento da possibilidade de se pensar o futuro, mas uma profunda náusea diante das possibilidades democráticas reais. Além do mais, nunca é demais lembrar, como pensava Hannah Arendt, que a pior maneira de responder a uma crise é usar respostas antigas.

Agora, o grande índice sintomático do movimento pro-intervenção militar capitaneado pelos neo-salazarismo brasileiro é realmente a ideia da “ameaça vermelha”.

Acreditar que um governo do PT ensaia qualquer tipo de movimento na direção de um regime socialista, ou mesmo no esteio de preparar a implantação de uma ditadura comunista bolivariana cubana ou o que quer que seja; no país, é dar uma grande bandeira acerca da própria incapacidade de se fazer uma leitura racional das circunstâncias econômicas e políticas. Seria realmente um caso psiquiátrico se não fosse apenas um recurso ideológico.

O que está por trás do delírio da “ameaça vermelha” é um recurso mistificador bastante usado pelos liberais para contornar a terrível pergunta que todo mundo nesse mundão de meu deus alguma vez já se fez: “Se o capitalismo é assim tão maravilhoso, porque minha vida é uma merda?”.

A melhor maneira de negar o fracasso de um sistema é dizer que ele não existe ou que está ameaçado por forças que o sabotam. Esse é o recurso usado pelos liberais ao afirmar que o capitalismo real não é o capitalismo utópico do livre mercado justamente porque a “ameaça vermelha” sabota o projeto liberal. Curiosamente esse era o mesmo argumento usado pelos stalinistas para justificar os Gulags: “não conseguimos implantar ainda o comunismo como prometemos porque a ameaça pequeno burguesa está sabotando nosso projeto, por isso precisamos de um regime de força”.

Encontrar inimigos, internos ou externos, que sirvam como recurso retórico para desviar a percepção das pessoas acerca dos fracassos das próprias utopias é uma estratégia velha, usada pela esquerda e pela direita. Talvez seja sintoma de um delírio coletivo esse desejo nutrido por alguns, do retorno de um regime autoritário que proteja a democracia de si mesma. Mas, como dizia o poeta, tem muito método nessa loucura.

Por isso, amigo velho, fique esperto, pra depois não ser surpreendido na curva da esquina.
Agora é a hora de mostrar de que lado você samba.

Quinze anos depois de ter pisado pela primeira vez em solo europeu, volto às terras frias do norte na companhia de Ana. Pela terceira vez nessa encarnação cruzo o Atlântico em direção à terra velha. A curiosidade é que, assim como na primeira vez, quinze anos atrás, essa estação tem o cheiro de guerra no velho mundo.

Em 1999, quando descemos no aeroporto de Frankfurt, vindo de São Paulo, havia no ar a ameaça de bombardeio da OTAN à Sérvia em função dos conflitos em Kossovo.

Hoje, o tema da vez é a Ucrânia.

É difícil não pensar na Europa e não se lembrar de uma guerra. Nos últimos 500 anos nossos irmãos do norte não passaram um século sequer sem se envolver em uma guerra generalizada. A língua, a cor da pele, a religião, o dinheiro, alguma velha mitologia de origem… muitos são os motivos que levam os povos das terras frias ladeira abaixo nas suas conflagrações. Por isso mesmo, sempre pensei no norte como um lugar em que a terra tem cheiro de sangue. Talvez seja mesmo esse sangue, de guerras periódicas; tão fundamental pra construção da Europa moderna quanto suas tradições que se perdem num emaranhando articulado de narrativas e personagens antigos: reis, cavaleiros, papas, artistas e filósofos. Uma fauna que parece compor um grande zoológico de ideologias e mitologias políticas costuradas em torno de um conceito vazio, nomeado por alguns com o rótulo de “civilização ocidental”.

Dessa vez, como em 2006, a porta de entrada para a Europa foi Lisboa, nossa velha capital colonial. Infelizmente, apesar das quatro horas de intervalo entre um vôo e outro, não seria viável sair do aeroporto e fazer comparações com a cidade que conhecemos no verão de 2006. Queria ter a oportunidade de sentir os efeitos da crise em Portugal já que quando estivemos por lá, durante a copa da Alemanha, ainda se vivia a euforia narcótica, patrocinada pela festa do capitalismo financeiro global. Agora, com a ressaca que aparece do dia posterior aos excessos coletivos, talvez Lisboa estivesse diferente, tomada por aquela dolorosa reflexão pós-orgástica que toma conta dos povos quando o delírio bipolar do capitalismo abandona a sua fase maníaca.

Ao menos o aeroporto me pareceu maior e incomensuravelmente mais agradável do que os aeroportos brasileiros, diga-se de passagem. Estivemos no aeroporto do Rio de Janeiro no final do ano passado (2013) e saímos com a sensação de que algumas rodoviárias de província são bem mais organizadas.

Pra mim, particularmente, o que mais se nota nesses aeroportos europeus é a qualidade higiênica dos vasos sanitários.

Não há indicie mais poderoso de civilidade do que um banheiro público em que se possa defecar decentemente. Acho que a situação dos banheiros nos aeroportos brasileiros é um sintoma psicanalítico de uma fase anal coletiva mal resolvida, que talvez contribua para um certo grau de “menoridade civilizatória”.

Se as fezes são a expressão simbólica mais intensa de nossa própria substância interior, e de nossa inexorável e radical intimidade (a prova disso é aquela olhadinha no papel higiênico que todo mundo dá após a conclusão dos trabalhos excetivos), o modo como se trata da bosta coletiva é um sintoma significativo para se entender uma cultura.

Há algo de iluminismo nos banheiros públicos da Europa. Há uma certa assepsia cidadã, representada pela vassourinha de lavar vaso, posta ao lado do sanitário, esperando para que o usuário do assento, após seu ato primal de evacuação biológica, limpe a própria sujeira; a fim de que suas particularidades intestinais não perturbem o próximo.

Esse distanciamento fecal, em certo sentido, é sintoma dessa utopia moderna de assepsia e higiene da razão. Uma utopia europeia, que equaciona a ordem das terras frias, a partir de um sistema de funcionamento do mundo onde cada um faz a sua parte para não perturbar o sossego do outro e, de certo modo, manter o outro a uma distância segura de si mesmo.

No Brasil, a promiscuidade tropical acaba nos deixando mais descuidados e desatentos em relação a nossa própria bosta. Em um ato narcisista de exposição de nossas próprias vísceras, nos contentamos (na melhor das hipóteses) em apenas dar uma “descarguinha básica” e torcer para que o sistema hidráulico dê conta de nossa intimidade intestinal. Caso contrário, paciência… que é que eu tenho a ver com isso?!? Alguém vai aparecer para limpar o banheiro, senão, problema do próximo!

Os banheiros dos aeroportos europeus parecem indicar à primeira vista, com seus signos de higienização, apenas o respeito à dignidade humana que as terras do norte insistem em afirmar como principio ideológico (afinal, o direito de defecar em paz e em condições ideais de higiene e assepsia também deveria ser uma expressão dos direitos fundamentais). Na verdade, esse signo é um sintoma mais interessante da própria utopia moderna de um mundo regulado pela racionalidade e pelo controle dos impulsos biológicos primais. Se você parar para pensar, esse mesmo sintoma aparece também na utopia kantiana da construção de uma “Federação de Estados Independentes” que permitiria a humanidade encontrar a definitiva paz perpétua em outro espaço que não o do “calmo e silencioso cemitério do gênero humano”.

Talvez a guerra civil na Ucrânia, que cada vez mais parece uma realidade, seja o indício de que a mesma racionalidade que limpa os banheiros, também cria as segregações entre povos e línguas. A mesma separação higiênica em um continente que praticamente cabe no Brasil (se retirarmos a Rússia, é claro) e que tem uma língua e um dialeto separando pessoas em tribos, a cada 200 quilômetros.

A mesma higiene dos banheiros públicos do norte, que permite o respeito pela dignidade fecal da humanidade, transformada na higiene financeira da troika ou na assepsia étnica neo fascista, produz sua própria barbárie particular. Talvez um sintoma, um escape, um deslize. Resíduo histérico travestido em guerras sazonais.

Confesso que não consegui deixar de especular se, caso essa utopia federalista naufrague (como alguns vaticinam em função dos próprios impasses da União Europeia); os povos do norte conseguirão manter seus banheiros públicos impecáveis ou retrocederão ao estado de barbárie sanitária dos aeroportos brasileiros.

Quem viver verá.



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