NATAL PRESS

“como é cansativo ser mau”

Bertold Brecht

É preciso evitar duas reações ideológicas automáticas diante dos ataques realizados em Paris na última sexta feira.

A primeira consiste no patrulhamento contra aqueles que se solidarizam com as vítimas dos atentados. A segunda, na ideia de que os atentados são a expressão de mais um capítulo da luta histórica da “civilização” contra a “barbárie”.

No primeiro caso temos aquela reação padrão que diz: “Você agora se comove com a morte dos franceses em Paris, mas porque não se comoveu quando os aviões americanos bombardeiam hospitais no Afeganistão, ou quando o Boko Haram sequestrou estudantes na Nigéria ou quando as pessoas foram soterradas pela lama da Samarco em Minas etc etc etc?”. Na verdade esse patrulhamento não se propõe a buscar um padrão universal e irrestrito de solidariedade com todas as vítimas das catástrofes do mundo. Ele representa uma proibição. O que esse discurso na verdade diz é: “você não pode se comover com a morte de franceses porque os franceses são opressores colonizadores e não as vítimas oprimidas”.
Por trás dessa proibição moral há a noção subliminar de que membros de um grupo islamofascista como o Estado Islâmico, ao metralhar pessoas em um show de Death Metal ou explodir bombas pela cidade de Paris, estaria, na verdade, realizando um ato de justiça divina.

No segundo caso temos aquela reação padrão que diz: “Esses terroristas assassinos são psicóticos, enlouquecidos por uma ideologia selvagem e obscurantista. São representantes da barbárie medieval do Islã que busca destruir o legado iluminista da civilização europeia”. O que na verdade esse discurso diz é: ‘A violência terrorista do Estado Islâmico não faz parte do nosso mundo. Ela eclode de maneira espontânea em ambientes ideologicamente deteriorados e se contrapõe ao nosso modo de vida como uma força alienígena poderia se contrapor à vida racional no planeta terra”. Por trás dessa construção ideológica de choque de civilizações (ou entre civilização e barbárie) se escondem outros sentidos do discurso ideológico. O mal é tomado como uma substância estranha, que emerge milagrosamente no nosso cotidiano. A violência do terror é vista assim, a partir dessa confortável e fantasiosa construção ocidental, que vê o terror como um sintoma de um desvio estrangeiro, como um resíduo de uma creatio ex nihilo que vem do oriente e que não tem nenhuma ligação com a nossa cultura, nossos valores, nosso modo de vida nem como nosso modelo de economia global.

Apenas superficialmente esses dois discursos são opostos. Na verdade eles são variações de uma mesma ideia que liberta, curiosamente, as vítimas da sua suposta culpa coletiva. No primeiro caso, tendo havido o ato de justiça que pune o colonizador opressor, o crime da colonização se expia, e a Europa pode se libertar do próprio sentimento de culpa por sua história de invasões, guerras, massacres de povos indígenas, escravidão etc etc etc. Neste sentido, punidos por seus pecados, os europeus estão livres para pecar de novo e repetir mais uma vez as condições que geraram a própria violência que supostamente os castiga.

No segundo caso, a tomada do terrorismo como um fenômeno de geração espontânea, fora do horizonte da civilização europeia, exclui os europeus da responsabilidade por enfrentar os mecanismos concretos, políticos, econômicos e sociais, que criam o ambiente propício para que grupos como o Estado Islâmico possam frutificar. Assim, o combate ao sintoma (violência terrorista) se justifica sem que as causas da violência (a guerra por procuração travada na Síria entre Rússia e EUA, por exemplo) sejam enfrentadas. Essa postura mantem o padrão de violência estrutural que gera o terror islamofascista, bem como alimenta seu oposto complementar, o nacionalismo de direita Europeu.

Retornamos deste modo ao sintoma neurótico da falsa oposição que tomou conta das redes sociais, quando as tags #JeSuisCharlie e #JeNeSuisPasCharlie invadiram nossa TL menos de um ano atrás. O único caminho terapêutico viável nesse momento me parece ser o de abandonar a escolha. Não se trata de oscilar entre esses dois discursos (o da justiça divina contra o opressor, ou da loucura alienígena da barbárie islâmica). A terapia crítica dessa fantasia ideológica necessita da negação radical dessas duas posturas e da adesão intransigente á uma solidariedade ao povo francês e à defesa dos valores comunitários de justiça e liberdade; bem como a negação radical de explicações que eximam a dita “civilização ocidental” da responsabilidade pelas causas que geram o terror.

É preciso retirar a máscara ideológica do mal para que possamos desconstruir sua face obscena. Como poetizou certa vez, de maneira sarcástica, Bertold Brecht:
“Em minha parede há uma escultura de madeira japonesa/ Máscara de um demônio mau / coberta de esmalte dourado / Compreensivo observo/ as veias dilatadas da fronte / indicando / como é cansativo ser mau”.



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