NATAL PRESS

Quando o império romano do ocidente caiu, por volta do século IV da era cristã, levas e levas de tribos germânicas migravam para o sul. Nos livros de história aqui no Brasil, influenciados provavelmente por autores franceses, nos acostumamos a estudar esse período como o das “invasões germânicas”. Nos livros didáticos alemães, o período é identificado com outra expressão: Völkerwanderung (algo como “migração populacional”). Essa mudança aparentemente sutil diz muito sobre como os alemães enxergam o fenômeno de massas que deu origem a Europa moderna.

Se no passado foram os povos germânicos que se lançaram em direção ao sul fugindo da guerra e de fenômenos climáticos que alteraram o ciclo de chuvas na Ásia central; hoje, Berlim é a nova Roma para milhares de refugiados sírios, iraquianos, libaneses, sudaneses. Uma multidão ainda se move fugindo da guerra, da miséria e da crise global.

A imagem trágica dos corpos azuis de crianças afogadas, levadas pela maré do mediterrâneo até as paradisíacas praias da Grécia, Itália e da Riviera Francesa, não parece estar sendo suficiente para apaziguar o pavoroso espírito de condomínio que toma conta dos governos europeus e de uma parte substancial de sua opinião pública.

Assim como os modernos condomínios fechados das grandes cidades capitalistas ao redor do globo, a Europa hoje sofre com sentimentos divergentes. De um lado a culpa de sua própria crise, da aceitação de uma agenda global de desmantelamento do Estado de Bem Estar Social e de um passado de colonialismo e exploração; de outro o sofrimento estruturante de duas narrativas fundamentais, muito bem expostas pelo psicanalista Christian Ingo Dunker no seu livro Mal Estar, sofrimento e sintoma (Boitempo, 2015).

Para Dunker, a vida em condomínios fechados apresenta narrativas tão sólidas e aparentemente intransponíveis quanto os muros e as cercas elétricas que separam essas ilhas da fantasia do resto de um mundo em convulsão. De um lado, os condôminos sofrem com o medo de ver sua equilibrada e higienizada ordem social destroçada pelo objeto intrusivo. O elemento “de fora”, que vem do caos do mundo que se estende para lá da muralha. Eliminar a ameaça dessa presença intrusiva através da repressão policial e militar é a primeira reação que os condôminos normalmente têm diante da massa de excluídos posta em frente à seus muros como sombras ameaçadoras. Por outro lado, os condôminos sofrem porque sentem que há algo de “mal feito” de “mal ajustado” nos pactos que constituem a fundação de seu próprio condomínio. Há um desajuste de base, uma desestrutura normativa, política, uma ambiguidade de intenções dentro do próprio espaço comum que parece fragilizar a sensação de segurança e estabilidade.

Hoje, o condomínio Europa, no auge de sua crise de legitimidade, acossada pela culpa histórica, pelo medo do outro e pelo mal estar causado pela sensação de que a há algo de errado no pacto que a criou, se movimenta diante da tragédia humana de pessoas esmagadas nas fronteiras, sufocadas em caminhões e containers, morrendo à deriva no antigo mar que um dia foi um grande lago romano.

A questão fundamental que se põe hoje é como a Europa vai reagir a essa catástrofe humanitária. Erguer muros maiores e adotar leis mais repressivas, ou assumir a utopia de tratar a humanidade como um valor supremo e acolher os refugiados? A esperança civilizatória a essa pergunta parece hoje estar muito mais concentrada na solidariedade da sociedade civil europeia do que na ação de seus governos, a julgar pelas notícias que desfilam aqui pela minha TL.

O fato é que vinte e seis anos depois da queda do muro que separava a cidade de Berlim em duas, o mundo continua dividido. A utopia liberal de um livre mercado globalizado (rota supostamente mais curta para a prosperidade planetária) naufragou em crises financeiras, guerras econômicas e colapso ambiental. A ideologia liberal e suas utopias do século XVIII espatifaram-se diante de um capitalismo real que movimenta o planeta no sentido de um crescimento exponencial da desigualdade, de mudanças climáticas que remodelam a geografia dos povos e do acirramento do discurso de ódio que amplia a guerra e o genocídio. Velhos fantasmas da humanidade que continuam a assombrar os moradores dos condomínios fechados do globo, em tempo de completa hegemonia política do capital.

O que parece cada vez mais claro, depois de quase três décadas é que a verdadeira diferença entre capitalismo e comunismo era mesmo o muro. No comunismo construíam-se muros para quem estava dentro não sair; no capitalismo constroem-se para quem está lá fora não entrar.

O muro do comunismo já ruiu na Europa. Resta saber por quanto tempo o muro do capitalismo sustenta a pressão de suas próprias contradições.



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