NATAL PRESS



Em 1965 o poeta beatnik Allen Ginsberg foi expulso de Cuba. Na véspera de uma palestra que iria ministrar na “Casa de las Americas”, Ginsberg foi acordado no Hotel que estava hospedado por soldados uniformizados e posto em um avião para Praga. Quando perguntou porque estava sendo deportado, os sujeitos disseram que ele estava “quebrando as leis de Cuba”.

Na verdade ele já estava “dando trabalho” às autoridades revolucionárias há algum tempo. Segundo consta teria dito diversas vezes em público que achava que Raul Castro era gay e que Che Guevara era uma espécie de “pároco de aldeia”. Mas suas posições públicas em relação à política repressiva do governo comunista contra a maconha e contra a liberação sexual (ele havia sido informado que alguns artistas homossexuais haviam sido enviados para campos de reeducação cortar cana de açúcar) o colocaram na berlinda. Para coroar sua estadia na ilha de Castro, chegaram às autoridades informações de que ele havia sido visto fumando maconha e que ainda teria ido pra cama com um jovem poeta cubano.

Motivos fortes os suficiente para um “convite de retirada” da Ilha, sob o argumento de que o poeta estaria “quebrando as leis de Cuba”.

Por isso, amigo velho, fico meio constrangido quando ouço pessoas criticando uma suposta “ditadura-comunista-gayzista-petista- etc etc etc” que estaria dominando o Brasil. A julgar pelo modo, digamos, “sexualmente ortodoxo” que vários regimes de socialismo realmente existente trataram a questão da homossexualidade, me parece uma contradição entre termos propor algo desse tipo.

Mas não vou pedir demais. Exigir coerência argumentativa no falatório retórico das redes sociais parece hoje uma espécie muito pouco elegante de “corta foda”. Apesar disso não deixo de me espantar quando vejo gente exaltada afirmando, por exemplo, que a decisão da suprema corte norte americana, seguindo cortes de países juridicamente mais desenvolvidos, como o Brasil por exemplo (calma, não babe! É só uma provocação); fechando questão em torno da constitucionalidade do casamento igualitário, é um “atentado contra a tradicional família cristã”.

Ora, pense comigo. Não há indicie mais evidente nos dias de hoje de que a tradicional família cristã ganhou a guerra contra as propostas libertárias dos anos sessenta de amor livre; do que o casamento igualitário.

Não se luta hoje pelo direito de se viver em comunidades LGBTs abertas onde os conceitos da monogamia burguesa do século XIX são lançados na fogueira da libertação dos sentidos e da exploração livre do próprio corpo. Essa utopia perdeu-se lá por Woodstock, na volta pra casa, quando o pessoal resolveu dar uma paradinha no Studio 54 em Nova York pra esperar a década de oitenta chegar.

O que casais do mesmo sexo buscam hoje é o direito de casar, ter filhos, pagar seus impostos, arrumar um emprego legal, contribuir pra previdência, ir à igreja e comungar junto com todos. Quer coisa mais careta do que isso?

Confesso amigo velho, minha hermenêutica anda pouca pra compreender porque danado alguém acha que estender direitos civis a casais do mesmo sexo pode comprometer as bases da sociedade e da família. Nada mais fora de tempo do que arrazoar um argumento desses apelando para leituras amalucadas de Gramsci e Marcuse.

A época da revolução está ficando perigosamente pra trás e o que se descortina no horizonte futuro desses anos é o retorno desse conservadorismo político que assombra as sociedades sempre que as revoluções fracassam; como diagnosticava Walter Benjamin.

Se por um lado é preciso mesmo pintar o perfil de arco-íris para celebrar a vitória dos valores do liberalismo laico, que buscam ampliar os direitos civis a comunidade LGBT; por outro é de se pensar um pouco pra frente e imaginar que quando esse processo estiver concluído a tradicional família monogâmica burguesa (essa ficção ideológica) vai triunfar de todo modo, eliminando do horizonte político espaços de dissidência e experimentação sexual.

Se você não entende o que eu digo basta assistir um show do Eduardo Dusek. Assisti um em que, numa determinada passagem ele dizia assim: “Gay? Gay é um negócio que inventaram agora. Nos anos setenta não tinha esse negócio de gay, não. Todo mundo comia todo mundo e ninguém era gay”. E para complementar o cantor, saudoso de um tempo que não volta mais afirma: “Aliás… era uma falta de educação virar para a pessoa que você estava comendo e perguntar – ‘Ei? Qual é mesmo o seu sexo?’”.



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