NATAL PRESS


Quando nasci, meu pai, ansioso, perguntou ao médico:
- É macho?
O doutor, coitado, não pôde responder na hora. Primeiro ele queria saber o que era aquilo. Depois de muito analisar, disse:
- Acredito que sim, ‘seu’ Emílio.
E assim foi o meu, digamos, nascimento.

Quando as visitas chegavam, minha mãe pegava aquele troço magro, seco, parecendo uma lambisgóia e perguntava às amigas:
- Ele não é uma gracinha?
As senhoras, muito educadas, olhavam-se e, com o mesmo pensamento (que bicho feio danado!), concordavam. Afinal, elas se queriam muito bem, embora ao saírem da Maternidade Januário Cicco conversassem entre si:
- Até agora eu não sei quando o menino tá de costas ou de frente! - Dizia uma.
- De que será que ele se alimenta? - Perguntava outra. E tome gargalhadas.

O tempo passou e a coisa nada de melhorar. Começava pelo nome: Minervino. Isso não é um nome, isso é marca de remédio ou de sabão em pó, me disseram uma vez. E eu calado. Também, o que é que eu ia dizer? Eu mesmo me olhava no espelho e pensava:
- Valha-me Deus, tô lascado. Qual vai ser a mulher que vai querer um xamego com cara feio desses? Só me restava fazer promessas. E não era para um santo só, não. Era para TODOS OS SANTOS.

Mas, como toda promessa que se faz com fé se alcança, um dia, já tinha uns 15, 16 anos, quando aconteceu o fenômeno Ojuara, aquele herói que nos foi apresentado por Nei Leandro. Eu tava na fila do cinema Rex, quando um engraçadinho disse:
- Ei, galera, tem um ET aqui fora. - E isso na frente das meninas, que deram aquele risinho de canto de boca. Foi a última coisa que o engraçadinho falou na sua vida, tamanha foi a porrada que lhe dei pegando boca, queixo e nariz. A última notícia que tive dele, foi que ele estava procurando emprego num circo.

Pois bem, desse dia em diante, os meninos passaram a me respeitar, transei com as filhas das amigas de mamãe que riram de mim, e ainda fui chamado para trabalhar numa peça no Colégio Marista. Tá legal, não era uma grande peça, mas já era um progresso descomunal.
Comecei, também, a explorar alguns dotes que vieram com a força das promessas. E que dotes! Basta dizer que quando fui fazer uma determinada cirurgia, a pele que sobrou serviu pra duas empanadas de circo, deu pra fazer 12 surdos, 16 pandeiros e 30 tamborins pra a Malandros do Samba, sem contar com dois tamancos, um pra Diva Cunha e outro pra Valéria Queiroz.

E hoje, minha vida é essa que vocês conhecem: um sucesso! Participo do Jet da terrinha, dinheiro não falta, vivo nas colunas e blogs sociais, e são incontáveis os convites para peças publicitárias. Mulheres à vontade e tudo o mais.

Epa!!! O despertador tocou. Vou voltar à minha vidinha de sempre. Feliz por estar vivo e com saúde. É isso o que vale. O resto, o vento ou a vida se encarrega de levar.

*Jornalista


Saudade, por que não me deixas?

Saudade, por que resolvestes ancorar no meu peito?
Chegastes abarrotada de lembranças amargas e reabristes os armazéns da memória.
Eles que estavam fechados há tempo à espera de cargas de amor. Por menor que elas fossem.
Vá embora!
Por que não procuras outro porto?
Há tantos por aí. Talvez até uns que nunca te abriram as portas.
Será que viestes guiada pela luz amarela da recordação?
Maldito farol!

Esse pensamento surgiu depois que soube que uma menina de quinze anos colocou silicone nos seios para “dar uma turbinada” e não aprovei a atitude. Puxa! Não é cedo para isso? O corpo dela não está ainda em transformação? É culpa da televisão que mostra a atividade sexual cada vez mais precoce? Ou será culpa da mãe, que concordou com isso? Estou falando concordar, porque pode ser até que a mãe incentive. É verdade. Tem mães que são assim. Querem que as filhas sejam o que elas não conseguiram ser.

Sei lá! Não me considero um cara preso às regras do passado. De forma alguma. Do passado, só guardo as boas lembranças para, vez por outra, dar uma viajada no tempo. Guardo também algumas más lembranças. Essas, somente para que eu me lembre e não cometa os mesmo erros. Só. Com relação às mudanças do nosso cotidiano, adaptei-me perfeitamente. Vivo em paz com isso. O que me deixa encucado – palavrinha antiga, né? – é ver que a infância e adolescência estão cada vez mais se unindo. Do jeito que vai a criança sai da infância direto para as boates e shows da vida. Não tem mais bonecas, nem peladas, nem sonhos de ser uma princesa, nem de ser o galã da rua. Nada.

Porra! Como é bom passar por aquelas fases. Ser criança e não ligar pra porra nenhuma. Ser adolescente e se ligar “naquelas coisas”. Ir para a faculdade e sentir a vida de adulto acenando. Bom demais! Namoros escondidos, beijos roubados - nem sempre -, cinemas, praia, a família em casa, era tudo muito bom. Dei uma volta ao passado danada, não é verdade? Eu sei. Mas é para registrar o quanto é bom lembrar-se disso.

Nos dias de hoje, vejo meninas de quatorze, quinze anos, com corpos cada vez maiores que tentam ficar escondidos por roupas cada vez menores. Vejo, também, meninas que mal chegaram à adolescência já com um bebê no colo. O pai, uma criança também. Esse filho vai ser criado pela avó, é claro. Pois quando se casam, o tempo de casado é menor que o tempo que passaram fazendo a encomenda. Ora, a menina vai querer sair para as baladas e o pai vai por aí em busca de novas mães. Ou mães novas.

Tive um treinador - quando ainda jogávamos futebol de salão – chamado Bel, que dizia quando um zagueiro se metia a sair driblando: “Não adianta forçar a natureza!”. O que Bel queria dizer era que tudo tem seu tempo, sua hora, e seu lugar. Não podemos atropelar a vida. Por mais que se tente, mais na frente vem a resposta. Às vezes muito dura. Portanto, vamos viver de acordo com nossos instintos e criar nossos filhos nessa linha de pensamento. Caso contrário, vamos criar netos.

Isso aconteceu mesmo!

Era um domingo como outro qualquer e fui para o Clube de Engenharia assistir ao jogo Flamengo X Corinthians, na espera de uma vitória do rubro-negro. Cheguei e fiquei numa mesa na qual estavam, entre outros, Léo Sodré, Wilson Cardoso ,à época presidente do Clube, Mário Galvão e Josué Teixeira.

Estava sem beber e não precisa dizer o quanto o papo foi ficando chato. Ex- biriteiro é assim. Exigente nas conversas. Bem, como o jogo só começaria às 18h, resolvi dar uma navegada na net, pra ver o que estava acontecendo, consultar e-mails, redes sociais, esses babados. Acontece que, ao sair do computador, deixei aberta, num grave vacilo, minha página do Facebook.

Vocês não imaginam o que me aconteceu por este erro.

Léo Sodré, como sempre brincalhão, percebeu o descuido e, fazendo-se passar por mim, postou um novo perfil para este inocente usuário. Neste novo Minervino, constava que eu “Tinha assumido minha preferência sexual e ia sair do armário.”

Até aí, sem saber de nada, assisti ao jogo e, depois, fui ao Kopenhagen do Midway Mall encontrar a namorada que demonstrara, pelos momentos vividos, estar apaixonada. Assim como eu, confesso. 

Ao chegar, estranhei sua frieza quando me sentei ao seu lado. Recusou um carinhoso beijo e inventou uma esfarrapada desculpa para ir embora. “Que porra é essa?”, pensei. Ora, tínhamos combinado de ir jantar num motel, do mesmo jeito como tinha sido no domingo passado. Eu tinha gostado muito do slogan COMA DUAS E PAGUE UMA. Não comi nada, paguei o café e fiquei com aquela cara de idiota frustrado e fui pra casa.

Convenhamos: domingo à noite, sozinho em casa, é de lascar. Fui direto para o computador me distrair e pensar sobre a atitude da minha - ainda - amada.

Amigos, quando abri o facebook fiquei pasmo, desorientado, e com saudades de mamãe. Também pudera! Tinha um monte de mensagens de homens (?) me elogiando e me fazendo convites nada agradáveis, tipo “Parabéns por sua coragem”, ou “Unidas jamais seremos vencidas” e outras desse naipe. Mas, o que me deixou boquiaberto foi o fato de que algumas mensagens vinham de conhecidos meus que eu julgava serem machos até a alma. Tudo querendo marcar encontro, convidando para festas “alegres”, etc.

Foi aí que me deu o estalo. Lembrei-me do Clube e de que tinha saído abruptamente do computador e não havia fechado todas as páginas. Quando vi, o estrago estava feito. Tive que refazer o perfil, responder aos e-mails relatando o fato e jurando que jamais contaria a ninguém os emissores e seus respectivos teores.

Ficou chato pra caramba isso. Até hoje, quando passo por um “daqueles”, vejo em seus olhares a pergunta: “Arrependeu-se?”. A namorada só voltou pra mim depois que Léo confessou de joelhos a ela o que tinha feito e eu, à custa de um Cialis, tive que provar, várias vezes numa mesma noite,  que gostava da fruta.

Fica o conselho: ao sair de um computador, deixe tudo fechado, sob a pena de passar o que passei. Principalmente se Léo estiver por perto. Você corre o risco de receber uma mensagem dele. (MW)

O sucesso e o fracasso andam de mãos dadas. Assim, como se namorados fossem, tamanha é a proximidade. Não são raras as histórias que ouvimos sobre pessoas que conheceram a glória e foram merecedores de respeito, muitas vezes pelo mundo inteiro, e que depois, num átimo, desaparecem. Ninguém fala nelas, ninguém sabe onde andam, sequer sabem se ainda estão vivas, tamanho é o desinteresse.

Com Marinho ocorreu esse fenômeno. Surgiu do nada e se transformou no melhor lateral esquerdo da Copa do Mundo de 1974. Foi endeusado pelos homens, adorado e desejado pelas mulheres. Sua fama corria o mundo e a mídia não lhe poupava elogios. Digo isso com certeza porque minha mãe, Martha Wanderley Salem, era professora de alemão e Jair Paiva, então o “padrinho” de Marinho, levava revistas alemães para que ela traduzisse as matérias sobre o “Diabo Louro” – como na Alemanha era conhecido. Isso tudo porque houve uma negociação com Shalke 04 e o fato virou notícia principal nos jornais e revistas germânicas especializadas em esporte.

Marinho foi cidadão do mundo. Jogou nos Estados Unidos, ganhou dinheiro e lá sentiu a sensação de ser rico e poderoso. Mas Marinho era simples e não tinha a exata ideia do que agora representava para o esporte. Continuou jogando seu futebol e esbanjando o dinheiro que ganhava. Não se preocupou em fazer investimentos, pé de meia, essas coisas, por que se julgava imortal. Imune às mazelas da vida. Infelizmente, veio a conhecer e conviver com isso quando parou de jogar. roda de aproveitadores, biriteiros e por aí vai.

Para piorar sua situação, Marinho foi procurar num amigo o ombro e os conselhos para a vida. Pobre Marinho. O amigo que ele escolhera era o seu pior inimigo, pois se fazia de amigo e quando era usado deixava nosso jogador mais perto do buraco que, sem saber, tinha começado a cavar. Esse amigo, que é facilmente encontrado em qualquer birosca é conhecido por muitos nomes: Branquinha, Água que passarinho não bebe, Caninha, etc. Seu nome mesmo era Álcool. E Marinho abusou de fazer uso dele.

Várias internações, visitas nobres, como Platini, Beckenbauer, nada fez com que ele criasse forças e driblasse esse inimigo. Foi inapelavelmente batido pelo álcool. O mundo do esporte perdeu um gênio. Os pais perderam um filho. Os verdadeiros amigos ainda choram de saudade. O RN perdeu seu maior nome do meio esportivo. Nós, que gostamos de futebol, ficamos órfãos.

Tem nada não, Marinho. Lá em cima você deve ter encontrado amigos de verdade e a bola rola outra vez. Para a alegria de Garrincha, que era como você. Tudo sob o olhar complacente Dele, que era, sem dúvidas, seu fã.

*Jornalista

É fato que a violência cresce a passos largos no Brasil e no mundo. É fato, também, que nós, neste antes tranquilo pedaço de rincão passamos por uma situação de criminalidade que beira o descontrole. Cenas de brutalidade só aconteciam em lugares distantes. Não passava pela cabeça de ninguém que essas coisas aparecessem por aqui. Quando ouvíamos – ou assistíamos – a qualquer noticiário, ficávamos arrepiados com os fatos narrados. “Ainda bem que não é por aqui”, pensávamos com alívio.

Porém, devagar e sem alarde, a violência se instalou entre nós. Hoje, assaltos, arrastões, assassinatos, tráfico, tudo está banalizado. Achamos até bom quando uma pessoa é assaltada e o marginal surrupia “apenas” seus pertences. Isso é muito ruim. É sinal de que a indignação está dando lugar ao “deixa pra lá”. Quase que dizendo: “Não foi comigo, tá bom demais”. É, amigos, estamos entregues aos marginais. Não temos gabinetes a nos proteger, nem casas cercadas por atentos vigilantes. Temo muito que a situação chegue ao ponto em que a população comece a pensar que a solução deverá ser a justiça com as próprias mãos. As ruas virarão campos de batalha. Cada um por si! Triste, isso.

Mas, o que nos levou a chegar nesse ponto? O governo apregoa que a vida dos brasileiros está melhor e que a pobreza está desaparecendo. Isso deveria baixar a criminalidade, não é? Pura balela! Na verdade, enquanto se distribui bolsa disso, bolsa daquilo, auxílio daqui, ajuda dacolá, os marginais afanam as bolsas dos trabalhadores. A impunidade motiva o crime e os “menores” agem com toda crueldade sempre protegidos pelo falso escudo da maioridade.

Reforçando isso, ouvi no “Jornal da 96 FM”, um áudio sobre um assalto cometido por duas “menores”. A maneira como elas trataram o crime foi absurdamente chocante. Diziam: “Se não desse o celular era faca na caveira!” E tome gargalhadas. O repórter perguntou se elas não estavam preocupadas com as consequências e a resposta foi a mais revoltante possível: “Somos de menor, dotô. Depois nós vai para casa”. E vão! E nossa luta é em vão!

Diante desse quadro, defendo a adoção de uma medida radical! Tipo assim: TOLERÂNCIA ZERO! Ora, se deu certo em Nova Iorque, vai dar certo aqui também. Só há um porém e a fábula de La Fontaine serve de moldura para o caso: quem vai colocar o guizo no pescoço do gato?

*Jornalista

Saudade, por que não me deixas?

Saudade, por que resolvestes ancorar no meu peito?
Chegastes abarrotada de lembranças amargas e reabristes os armazéns da memória.
Eles que estavam fechados há tempo à espera de cargas de amor. Por menor que elas fossem.
Vá embora!
Por que não procuras outro porto?
Há tantos por aí. Talvez até uns que nunca te abriram as portas.
Será que viestes guiada pela luz amarela da recordação?
Maldito farol!

Cheguei no consultório médico na hora prevista. Prevista de besta. Isso não existe. Quando chega a nossa hora o cara nem aparteceu ainda. Ninguém conhecido para uma prosa. Peguei uma revista e era a IstoÉ, de 10.11.2010. Na página 72, uma matéria chamou-me a atenção. Assinada por Wilson Aquino, tem o seguinte título: “A influência estética de Lampião”. No texto, Aquino quase que chega chamar Capitão Virgulino de gay. Vejamos alguns trechos:

- “Mas quando não estava praticando crimes, o cangaceiro se atracava com agulhas e linhas para costurar e bordar, lindamente, roupas e lenços que usava ao estilo Jacques Leclair.”
- “Ele não era apenas o executor do bordado. Era também um estilista.”
- “FRESCURAS NO CANGAÇO. O lenço dos cangaceiros era feito de seda inglesa ou de tafetá francês. A jabiraca de Lampião era em seda vermelha e contava com 30 alianças de ouro.”
- “Se tivesse escolhido a profissão de costureiro, Lampião (até hoje constantemente revisitado pela indústria fashion) certamente teria tido uma carreira brilhante.”

Durma-se com um barulho desses. Esse camarada não sabe que Lampião era tão hábil com a espingarda que conseguia dar tantos tiros consecutivos que clareavam a noite. Por isso, Lampião. Se essa figura dissesse essas coisas há 80 anos ele iria ver que o Capitão Virgulino costurava mesmo era com uma 44 Papo Amarelo.

Aquino com certeza não conhece a história da quadrilha junina que o Capitão organizou numa fazenda e que seu bisavô (De Aquino) participou. Só que esse fuzuê, além de ter Lampião como marcador, era diferente num aspecto: todo mundo nuzinho. Agora, quem conta a história é um dos participantes dessa “festa”:
- O Capitão mandou fazer as fileiras e mandou todo mundo tirar a roupa. Ordem rapidamente obedecida. No meio da quadrilha, Lampião gritou:

- Todo mundo com um dedo na boca e outro “lá” (vocês sabem aonde). Ordem imediatamente obedecida. - Daqui a pouco ele disse:
- Trocar de dedo! O dedo que tava na boca vai pra “lá” e o outro vai pra boca.
Foi aí que o bisavô de Aquino caiu na besteira de dizer:
- Mas isso, Capitão?
O Capitão deu um olhar de matar cobra venenosa e gritou:
- Isso o quê, cabra?
O camarada afroxou e, gemendo, disse:
- Isso é bom demais, Capitão!

Esse recado é pra você, Wilson Aquino.


*Jornalista

Entra governo, sai governo. Entra desgoverno, sai desgoverno. A rotina já completa 36 anos, desde que Wilma de Faria criou o Movimento de Integração e Orientação Social – Meios. A propósito, nunca entendi o significado deste “e” na sigla. Seria “Estadual”?. Pode ser.

A verdade é que o Meios começou como uma verdadeira Ong. Atendia crianças carentes aqui, idosos desencantados com a vida acolá, com poucos funcionários e sem essa dependência intestina das verbas do Governo do Estado. Coisa voltada para social.

Depois, na medida em que os governadores iam mudando, mudava também a presidente (com o perdão de d. Dilma) da Ong. Era uma questão já definida. Acredito que, a partir de então, os olhos gulosos dos políticos viram que poderiam fazer do Meios um imenso curral eleitoral. E tome gente a “trabalhar em prol dos carentes e daqueles que vivem à margem da sociedade”. Pura conversa. Papo furado!

Quando lá fui trabalhar, há cinco anos, acreditava que estava inserido em uma entidade que tinha como finalidade trazer conforto para os mais necessitados. Ledo engano. Ao longo da sua existência, o Meios contabiliza, hoje, 1.843 entre pessoas e fantasmas que recebiam salários através da “ong”.

Quando Wilma passou o governo para Iberê, e este nunca procurou ninguém do Meios, eu entendi. Percebi claramente que não havia interesse por parte de Iberê em se envolver com o órgão. Estranho. Muito estranho. Será que ele já sabia do desmantelo? Mesmo assim, ele continuou a pagar os salários até agosto, quando começou o desastre. Redução das gratificações, falta de pagamento de salários, das obrigações sociais e por aí vai.

Por fim, quando chegou o primeiro dia de 2011, o Movimento de Integração e Orientação Social não possuía mais diretoria. Nem uma pessoa sequer para nos dizer uma palavra sobre o que o futuro nos reservava. Atitude vil e covarde. Por que os líderes desapareceram? Se não tinham nada a temer, deveriam estar juntos aos demais mortais.

Passado o mês de janeiro, o outrora fervilhante de gente Meios, não passava de uma repartição fantasma, protegida por alguns abnegados que, mesmo sem salários, tocaram a nau já desgovernada.

Num gesto de necessidade mútua, os funcionários procuraram o Sindicato, Ministério Público, Promotoria, políticos, o que viesse pela frente. Todos correndo atrás do pão para alimentar a família.

Tenho certeza de que aqueles que estiveram à frente do Meios não passaram nem passam por isso. Alguns abandonaram o navio antes do iminente naufrágio.

Mas a Justiça agiu. E rápido. Como primeira ação, nomeou um administrador provisório, Marcos Lael. O segundo passo foi conseguir o pagamento dos salários de novembro e dezembro, além do 13º para alguns que não haviam recebido. Rosalba pagou. Ela agiu certo.

O terceiro capítulo é o mais dramático: dar aviso prévio a 1.843 pessoas sem caixa para pagar os direitos trabalhistas quando chegar o momento da rescisão.

Agora, a Justiça faz uso do argumento mais lógico para que os trabalhadores recebam o que lhes é devido: a dívida não é de Iberê, nem de Wilma, nem de Garibaldi, nem de José Agripino, nem de Fernando Freire, nem de Geraldo Melo, nem de Radir Pereira, nem de Rosalba, nem de Robinson. A dívida é do GOVERNO DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE.

Não há consistência em dizer: “Não tenho nada com isso”. Ora, se retirávamos os contracheques através da página http://www.rn.gov.br/, não precisa se dizer mais nada. A vinculação é cristalina.

Deve, sim, e a Justiça e o Homem vão cobrar – e receber – tenho certeza.


*Jornalista e ex-coordenador de Comunicação do falecido Meios.

A população católica do RN recorda no feriado religioso do dia três de outubro, o massacre dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, quando no ano de 1645, cerca de 70 colonos foram cruelmente assassinados pelos índios janduís e potiguares a mando dos holandeses. O motivo: não aceitarem a imposição da sua religião - protestante calvinista. "Os mártires foram escolhidos como padroeiros do Rio Grande do Norte devido à importância do fato. Eles foram os primeiros mártires do Brasil, por isso o nome protomártires", explica padre Antônio Murilo de Paiva, Capelão dos Mártires.

Mas, para relatar essa página trágica da História, é necessário trazer à tona um personagem que tomou posição de destaque neste contexto: o alemão Jacob Rabbi, comandante da tropa de índios e holandeses. Inicialmente, era apontado como intérprete entre os holandeses e os tapuias, uma vez que ao chegar ao Brasil permaneceu durante quatro anos vivendo entre aqueles indígenas e assimilou os costumes nativos, num verdadeiro processo “indianização”. Rabbi vivia com uma nativa janduí de nome Domingas, num sítio de sua propriedade, chamado "Ceará". Ele é considerado pelos historiadores como uma das figuras mais sinistras, abomináveis e hediondas do domínio holandês no Nordeste do Brasil.

Jacob Rabbi e um grupo de índios janduís e potiguares, além de soldados holandeses, chegaram ao engenho Cunhaú, atual município de Canguaretama, em 15 de julho de 1645. Ele se apresentou como emissário do Supremo Conselho Holandês de Recife e convocou a população para uma reunião, após a missa do dia seguinte, dia 16, um domingo, na capela de Nossa Senhora das Candeias. 

Os historiadores estimam que 70 fiéis estivessem presentes no lugar, cumprindo apenas o preceito religioso, não portando armas. Durante a celebração, após a elevação da hóstia, os soldados holandeses trancaram todas as portas da igreja. A um sinal de Rabbi, os índios invadiram o local e chacinaram os colonos.
Relatos posteriores, alguns deles de emissários do governo holandês que investigaram o episódio, descrevem cenas de violência, atrocidades e requintes de crueldade contra os fiéis. Desarmados, os colonos não tinham como resistir e se resignaram à morte. Atendendo à exortação do padre André de Soveral, que celebrava a missa, muito foram executados em meio às orações. O próprio padre foi morto a punhaladas.

Três meses depois da tragédia de Cunhaú, no dia 03 de outubro, aconteceu o martírio de mais 80 pessoas, na Comunidade de Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante, também sob o comando de Rabbi, ajudado pelo chefe da tribo Potiguar Antônio Paraopeba, “educado” pelos holandeses.
Depois do massacre em Cunhaú alguns moradores influentes, liderados pelo padre Ambrósio Ferro, que exercia as funções de vigário de Natal, pediram abrigo no Castelo Keulen, nome dado a Fortaleza dos Três Reis Magos, em Natal. Os que não foram, construíram uma paliçada para proteger a localidade conhecida como Potengi.

Pesquisas em documentos holandeses e portugueses mostram que o cerco à paliçada do Potengi durou 16 dias. Não há comprovação dessa ordem, mas o fato é que no dia seguinte, 03 de outubro de 1645, foram levados para Uruaçu: Antônio Vilela, Cid, seu filho, Antônio Vilela Júnior, João Lostau Navarro, Francisco de Bastos, José do Porto, Diogo Pereira, Estevão Machado de Miranda, Francisco Mendes Pereira, Vicente de Souza Pereira, João da Silveira, Simão Correia e o próprio padre Ambrósio Francisco Ferro, e foram todos executados. À morte deles, segue-se a chacina dos que estavam refugiados em Potengi, depois de terem sido retirados da paliçada e levados para o mesmo porto. Aponta-se que o lugar do morticínio ficava a aproximadamente 1 km de distância do povoado e era denominado “Tinguijada”, área onde hoje abriga o Monumento dos Mártires de Uruaçu.

Em reconhecimento ao feito dos Mártires de Uruaçu, em 16 de junho de 1989 o processo de beatificação foi concedido pela Santa Sé. Em 21 de dezembro de 1998 o papa João II assinou o decreto reconhecendo o martírio de 30 brasileiros, sendo dois sacerdotes e 28 leigos.A celebração de beatificação aconteceu na Praça de São Pedro, no Vaticano, no dia 5 de março de 2000. A cerimônia religiosa foi presidida pelo papa João Paulo II.
São, hoje, destinos de romarias e peregrinações, a Capela dos Mártires de Cunhaú e Uruaçu, em São Gonçalo do Amarante; o Santuário dos Mártires, no bairro Nossa Senhora de Nazaré, em Natal; e a capela de Nossa Senhora das Candeias, no antigo engenho de Cunhaú.

Homilia de João Paulo II na missa de Beatificação em 05 de março de 2000:
“São estes os sentimentos que invadem nossos corações, ao evocar a significativa lembrança da celebração dos quinhentos anos da evangelização no Brasil, que acontece este ano. Naquele imenso País, não foram poucas as dificuldades de implantação do Evangelho. A presença da igreja foi se afirmando lentamente mediante a ação missionária de várias ordens e congregações religiosas e de sacerdotes do clero diocesano. Os mártires, que hoje são beatificados, saíram, no fim do século XVII, das comunidades de Cunhaú e Uruaçu, do Rio Grande do Norte. André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro – presbíteros e 28 companheiros leigos pertencem a esta geração de mártires que regou o solo pátrio, tornando-o fértil para a geração de novos cristãos. Eles são as primícias do trabalho missionário, os protomártires do Brasil. Um deles, Mateus Moreira, estando ainda vivo, foi-lhe arrancado o coração das costas, mas ele ainda teve forças para proclamar a sua fé na Eucaristia, dizendo: Louvado seja o Santíssimo Sacramento”.

Fontes de consulta:
http://www.cnagitos.com/index.php/noticias/item/1384-entenda-os-massacres-de-cunha%C3%BA-e-urua%C3%A7u-data-que-%C3%A9-feriado-no-rio-grande-do-norte
http://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2013/10/conheca-historia-dos-martires-de-cunhau-e-uruacu-no-rn.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rtires_de_Cunha%C3%BA_e_Urua%C3%A7u
*Jornalista



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