NATAL PRESS

Segunda-feira, dez horas da manhã. Debaixo de um calor de janeiro, a Feira das Rocas fervilhava de gente. A gritaria dos vendedores misturava-se ao som estridente das músicas que saíam pelos alto falantes dos comerciantes de CD/DVD e outras milacrias. Nas casas, antes conhecidas como “suspeitas”, a oferta era variada. As meninas, que desde oito horas já estavam a postos, exibiam suas roupas coloridas e maquiagens idem. As radiolas de fichas tocavam músicas convidativas para todos os gostos: de corno a “pegador” de mulher; de bêbado sonhador ao prático vendedor. A feira também era local de diversão, ora bolas!

Alheio a isso tudo, Gonçalo contava seu apurado. Tinha vendido as vinte garrafas de mel de jandaíra bem ligeiro. Mercadoria legítima! Tinha herdado do pai a profissão de criador desse tipo de abelha. Dava um trabalho da gota colher o mel e encher as garrafas, mas valia a pena. O riso no canto da boca do sertanejo dizia isso. Embora satisfeito com o trabalho, Gonçalo era um homem triste hoje. Sua expressão de alegria não passava disso. Sério, botou o dinheiro no bolso e pensou: “Agora vou tomar uma de cana com um pescoço de galinha caipira pra espalhar o sangue.”

E saiu em busca da barraca de Silvana “Fiofó”. O apelido era uma alusão à sua descomunal bunda! Era uma mulher braba. A turma podia olhar para esse atributo físico, mas ninguém encostava ou dizia nada. Contam que ela só deixa uma pessoa mexer ali, que é um funcionário do Banco do Brasil. “Cabra de sorte!”, pensavam os invejosos. Pois bem. Lá chegando, respeitoso, Gonçalo nem precisou pedir. Silvana já tinha colocado a lapada num copo americano e o pescoço de galinha - já misturado com farinha de Brejinho - num pires.

Gonçalo tomou uma, duas, três. Pediu que a quarta viesse com a moela e pimenta malagueta. Passou tudo pra dentro. Mais esperto, levantou-se do banco de madeira bruta, espanou um resto de farinha da roupa, passou o pente Flamengo pelos cabelos ainda pretos e partiu imaginando: “Vou dar uma passada em meu amigo Zeca da Rapadura e trocar dois dedos de prosa com ele. Depois vou lá em Tia Chica. Ouvi dizer que tinha chegado mulher nova de Campina Grande”. A “animação” lá embaixo veio na hora.

Quando chegou, Zeca abriu um sorriso de amigo há mais de trinta anos e recebeu-o com um aperto de mão. Forte como só o sertanejo sabe dar. Depois dos cumprimentos, Zeca percebeu que os olhos do seu amigo deixavam à mostra uma tristeza profunda. Foi em cima da ferida.
- Tem notícias de Rosa?” - perguntou. Os pensamentos Gonçalo foram longe e respondeu:
- Nunca mais, Zeca. Desde que aquela tratante me deixou por aquele vendedor de remédio que não sei por onde anda. Ingrata! - respondeu ele, agora carrancudo. - Fiz tudo que podia pra agradar aquela mulher. No São João, fazia fogueira e me casava com ela todo ano, tendo o Santo como testemunha. Dançava tanto forró com ela que a poeira subia. Imagine que cheguei a gastar uma alpercata e meia de tanto arrastar os pés com Rosa num salão lá em Pureza. No carnaval, comprava aquela roupa de cigana que ela tanto gostava. E ficava linda com aqueles enfeites. Tinha noite que dava três sem tirar de dentro. De nada valeu. Chegou o vendedor de remédio num fusca e levou Rosa e um pedaço de mim. - agora, um misto de saudade e raiva tomava conta de Gonçalo.
Zeca percebeu que tinha despertado a dor do amigo e tentou amenizar a situação com uma sugestão.
- Arranje outra, meu amigo. O mundo não se acabou. Largue de ficar sozinho no seu sítio. Bote uma “nêga” dentro para animar sua vida. - Gonçalo deu um riso sem graça e só não mandou ele tomar no c... porque o tempo de amizade era grande.
- Vou em Tia Chica. - respondeu, seco, e foi-se.

Na calçada do brega ele deu uma geral para ver se tinha rosto novo, mas não viu nenhum. “Puta merda! Sé tem veterana. Aí não vende nem cana. Só Conhaque Dreher, que é caro, e cerveja, que é bebida de mulher. Vou tomar umas de Dreher e depois vou embora”. Entrou, sentou-se numa mesa do canto e ficou olhando o tempo e ouvindo as músicas que saíam da radiola de fichas. “Engenharia da porra!”, dizia para ele mesmo. A máquina era um mistério para Gonçalo, que sabia contar bem e ler e escrever mais ou menos. Mal tinha terminado a cartilha. “Como o cara canta só a gente colocando uma ficha e apertando o botão?”, indagava-se.

Logo chegou a garçonete, gorda que parecia uma balão, metida num vestido verde arrochado e um baton vermelho forte. A visão deixou Gonçalo descrente que fosse comer alguém naquele dia. Pediu uma lapada com buxada bem ligeiro, só pra se livrar daquela imagem. Quis pensar em Rosa, mas enfiou o conhaque goela abaixo e ficou observando uma turma da Malandros do Samba que acabva de chegar e ensaiava um enredo feito pelo genial Debinha. “Cabra inteligente e das letras esse Debinha”, pensou. Gostou tanto do samba que até aprendeu uma parte bem curtinha. Animou-se um pouco. A música e o conhaque tinham feito bem a Gonçalo. Ele pensou: “Só falta uma quenga que dê pra gente ir pra cima.”

De repente, entra uma menina toda num vestidinho quadriculado de vermelho e branco, com um diadema lindo que tinha até uma rosinha de lado. Sem falar que ela não tinha um pingo de pintura. A boca era vermelhinha, carnuda, e contrastava com a pele branca como leite. Os olhos, apertadinhos, eram uma promessa. O “homem” Gonçalo despertou. “Com essa eu vou pro melhor quarto daqui e pago o que ela pedir”, pensou, decidido. Botou os olhos nela e recebeu como resposta o sorriso mais encantador que já tinha visto.

Chamou-a com um olhar e ela atendeu imediatamente. Gislene, esse era seu nome, também tinha gostado daquele homem educado, moreno do sol do Sertão e olhar sincero e triste. “Deixo até ele me chamar de Leninha”, pensou ela já caída pelo caboclo. Assim que ela sentou-se, Gonçalo perguntou:
- Quer o quê? - Leninha fez cara de dengosa e impôs:
- Só bebo Campari.
O conceito dela subiu muito para Gonçalo. “É uma dama! Fosse outra ia querer cerveja”. Beberam e ele foi direto ao assunto:
- Quanto é? Quero ficar duas horas. - indagou. Ela fez um beicinho e disse:
- Vou logo avisando: só faço sexo normal e não beijo na boca. Duas horas fica por cem reais.
- Vamos logo. - disse Gonçalo.
Quando Leninha tirou a roupa, ele quase se acaba. Só fez encostar naquelas coxas brancas que jorrou de prazer. Ela também nunca tinha sentido nada parecido com outro homem. Tava “prontinha”. Abraçada naquele corpo musculoso, a sensação de apertá-lo bateu fundo nela. Ficaram um tempo agarrados, ainda lambuzados de amor.

Ele, muito carinhoso, deitou-se com ela e conversou umas lorotas enquanto brincava com seu umbigo. Ela ria e falava coisas que nunca pensou que fosse capaz. Mais atrevida, desceu a mão e percebeu que o “negócio” do homem apontava pra cima. Arriscou um olhar e a visão deixou-a molinha. Trouxe-o para cima dela alisando o rosto dono dos olhos tristes e profundos. Nunca vira igual. E, pela primeira vez, Leninha gozou. Nunca tinha imaginado como era bom aquele momento que parece que o corpo sai flutuando e fica nas nuvens. Então, sentindo o macho dentro dela e ainda com os olhos caídos, disse no ouvido dele: “Basta pagar a metade”. Aquilo animou ainda mais Gonçalo que botou suas habilidades pra fora. Quando partiram para a terceira, já foram se beijando na boca. Sem falar que já tinham feito uma coisa um no outro que Leninha só tinha ouvido falar. Mas gostou muito! E aí, no meio do vai e vem, ela, com a voz trêmula, disse: “Basta pagar só o quarto”. Gonçalo beijou-a na boca de olhos fechados. E ela correspondeu.

Estavam ainda ligados quando uma voz de mulher – era a garçonete gorda e feia – gritou batendo na porta. “Duas horas já e tem gente na fila.”
- Mulher chata! Não fode nem deixa os outros foderem. – disse, fazendo Leninha cair na risada e repreendê-lo com doçura.
- Que é isso, menino? Tenha modos.
Vestiram-se sem tirar os olhos um do outro. Na saída, sem palavras, ficou combinado o encontro para a segunda-feira que vem.

FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO



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