NATAL PRESS

Não sei se me precipito na avaliação, mas creio que, às vezes, há uma banalização de tal honraria. A escolha de alguém deveria ser mais criteriosa, passar por setores pelos quais o homenageado fez algo, mostrar o porquê da deferência. Não tenho a fórmula para se chegar a esse consenso, mas existem entidades que representam os mais diversos segmentos da sociedade, como Fiern, CDL, CRM, OAB, etc. 

Dificilmente uma proposição de um vereador será rejeitada pelos demais. Claro, já que, um dia, será a vez de cada um apresentar seu candidato e ele contará com o "sim" dos outros colegas. Temos que ampliar essa escolha. Natal é nossa e não me convence o fato de que os vereadores "representam a vontade povo". É minha opinião.

Faz um bocado de tempo, mas nunca esqueci. Eu tinha exatos 14 anos quando a vi pela primeira vez. Eu, no “muro” da minha casa, e você, no outro lado da rua. Elegante, magra e extremamente séria, ia no rumo do colégio. Um braço carregava os livros. O outro servia para dar mais charme ao balanço do seu andar. Sua saia plissada balançava como se fosse um pêndulo e me deixava hipnotizado. Nunca tinha visto coisa igual. Marquei a hora e toda manhã cedinho eu ia assistir a deusa passar.

No final da manhã, pertinho da hora do almoço, era o momento da volta para casa. Lá estava eu a admirar a garota que enchia a menina dos meus olhos. Seu rosto, com o lindo nariz empinado, não se dignava a dar uma virada para os lados. Seus cabelos lisos, movidos pela brisa que cerca os anjos, teimavam em cair sobre seus olhos. E você os afastava com aquela graça que Deus, tão generoso, lhe presenteou. Um retrato lindo e inesquecível! Por muitos e muitos dias eu me alimentava dessa ilusão.

Onde anda você, menina?

Ora, você nunca poderá me responder. Sequer trocou um simples olhar comigo. Você andava flutuando nas nuvens e eu, pobre mortal, tinha apenas o direito de admirá-la. Só conversamos nos meus sonhos, verdadeiros devaneios, só testemunhado pela escuridão do quarto. Imaginava mil maneiras de abordá-la, de ficar frente à frente e lhe dar um buquê das flores mais lindas que pudessem existir. Pensei, também, num cesto de jambos, numa nítida homenagem à cor da sua pele. Sei lá. Só queria que você soubesse que eu existia. Mas tudo ficava nos sonhos. Como diz a bela canção: “Nada além de uma ilusão”.

Esse “namoro unilateral” durou dias, semanas, meses, até que um dia você não passou. Nem no dia seguinte, nem nunca mais. Fiquei triste como fica triste o apaixonado abandonado. Era essa a sensação. Mas, um belo dia, saí da intenção para o gesto. Como sabia onde você morava decidi ir até sua casa. Queria vê-la, ouvir sua voz e, quem sabe, desfrutar de um sorriso seu. No jantar, estava sem apetite. A ansiedade me tomava o corpo e a alma. Tomei coragem, botei minha melhor roupa, passei uma generosa dose de uma boa colônia e parti para a batalha.

No caminho, com passadas seguras, ensaiava o que iria lhe dizer. Quando me aproximei deu para ver que você estava na calçada. O coração traiçoeiro acelerou as batidas. “É hoje ou nunca!”, dizia-me. Mas, algo inesperado aconteceu. Um carro parou na frente da sua casa. Um cara desceu e você foi ao encontro dele e o beijou. Fiquei estático. Apertei com força o “Serenata de Amor” que seria para você. Que decepção. Melhor seria viver a ilusão.

Dei meia-volta e saí andando à toa. Sem destino. Fui bater na Praça Pedro Velho. Sentei-me num banco e duas sentidas lágrimas rolaram pelo meu rosto. Deixei que o vento frio da noite se encarregasse de enxugá-las. Mais calmo, comi o chocolate e resolvi lutar por você. “Vou crescer, trabalhar, comprarei um carro melhor do que o daquele cara e vou atrás dela.”, pensei. Assim foi. Cresci, trabalhei, comprei o carro, mas o tempo – sempre ele – cuidou de arrefecer meu “amor”. Ficaram as lembranças, nada mais. Puras e legítimas.

Escrevo esse registro hoje para que você, meu amigo ou minha amiga, não esqueça o quanto é linda a vida. Por essas coisas, por esses puros sentimentos. Ela nos dá isso. Vamos aproveitar. Esse episódio fez de mim um homem. Despertou em mim o amor, sofri por essa gostosa e surpreendente sensação e lutei por ele. O que um homem precisa mais para viver senão apaixonar-se e deixar que isso o conduza? Creio que mais nada.

Quanto a você, meu primeiro “amor”, cujo nome eu nunca soube, onde quer que se encontre, espero que esteja feliz. Eu estou!(MW)

Vocês já foram à Tambaba? Aquela praia de nudismo que tem na Paraíba? Pergunto principalmente aos homens. Se já foram, vão entender o que vou relatar. Se nunca estiveram por lá, não vão. É o conselho que dou. Querem saber por quê? Vejam o que me confidenciou um amigo, cuja identidade fica sob total sigilo. Conta ele:

Caro amigo Minervino:

Há uns cinco anos, tive uma namorada daquelas que pensavam que ainda estavam em Woodstock, toda liberal, paz e amor e tinha um desejo quase incontido: passar um fim de semana nessa praia de nudismo. “Quero ficar em pleno contato com a Natureza”, dizia. Depois de muita insistência, resolvi me aventurar nessa, literalmente, nua missão. Pegamos o carro num sábado de manhã e partimos em busca de novas descobertas. Se é que podemos classificar um bando de gente pelada de novas descobertas.

Era isso que até então eu pensava, velho amigo. Chegamos, tiramos a roupa, colocamos numa sacola e fomos expor nossos virgens corpos inteiros à luz do sol. Caminhamos um pouco e nada de diferente. As mulheres não eram lá essas coisas. Na sua maioria feias de doer. Em algumas, os peitos mais pareciam suspensórios. Todas tinham bundas. Se bem que em umas só se via o projeto, tamanha era a falta de carne. Outras, a celulite deixava dúvidas quanto à existência de uma região glútea. Na parte da frente, era um matagal só. Umas tinham mais cabelos “lá” do que na cabeça. Ali sim, merecia um desmatamento. É sério! Passou uma mulata que eu juro que vi saguis pulando de um lado pro outro. Foi então que eu entendi o que era mata virgem. Nada entrava por ali. Isso eu garanto!

Dante de tamanha visão, olhei para a namorada e comecei a achar que ela era a mulher mais bonita que existia. “Sou um cara de sorte”, fiquei pensando, enquanto puxava ela mais pra perto e dava dois beijos no seu cangote. Estava bem de amor!
Mas, meu amigo Minerva, a minha então musa não correspondeu às minhas carícias. Estranhei e percebi que ela estava fazendo o que eu fazia. Ou seja, apenas uma análise dos corpos nus. Só que, no caso dela, os objetos de estudo eram homens. Tudo bem. Olhei à minha volta e não vi nada demais. Tudo do meu “tope” ou menores. Estava tranquilo com relação a isso.

De repente, percebi que ela estava quase que paralisada. Nem pestanejava. Acompanhei seu olhar e vi que, lá na frente, para onde a minha(?) namorada estava com olhos grudados, havia chegado um ônibus cheio de africanos. Era um time de futebol que estava em excursão no Nordeste. Isso soube depois. Estavam todos nus. Continuamos a caminhada e foi aí que entendi o verdadeiro significado da célebre frase: “Uns com tanto e outros com tão pouco”.

Me aproximei e, quando consegui distinguir o que eram as pernas e os “membros” dos caras, puxei a mulher pela mão e disse que “o sol estava muito forte e que era melhor a gente voltar para Natal”. Nem em João Pessoa queria ficar.

Ela parou, olhou-me de cima até aqui embaixo, virou-se para um daqueles camaradas, e, sem cerimônia, soltou minha mão. Assim como se dissesse: “Tá vendo?” Tentei argumentar que eles eram bem dotados porque pertenciam a uma tribo na qual as mães amarravam um coco na cabeça das pirocas dos meninos e por isso elas ficavam desse tamanho. Sua resposta doeu:

- Se é assim, sua mãe deve ter amarrado uma goiaba em você. – foi o que disse aquela ingrata.

Diante de tal afronta e humilhação, disse que ia voltar para casa. Ela respondeu com um balançar de ombros. Puto da vida, dei as costas – o que era um perigo! – e me mandei, deixando, a seu pedido, suas coisas. Fiz o percurso para Natal em menos de duas horas. Queria distância daqueles troços.

Pois é, meu amigo. Sete anos se passaram e nunca mais tinha ouvido falar na tal criatura. Até que fui assistir a uma sessão de cinema de arte e encontrei uma amiga comum. Depois de conversar sobre o filme, ousei perguntar sobre a fulana. Sua resposta:

- Menino! Tá morando numa comunidade quilombola na Bahia. A região é conhecida como “Coqueiros”. Ela me contou que os costumes são os mesmos que foram trazidos da África por um time de futebol que esteve jogando por lá.

- Dei um risinho sem gosto, me despedi e fui tomar um sorvete.

A moça da sorveteria, muito gentil, disse:

- Só tem de coco e goiaba. – respondi em cima da hora:

- Não posso nem ver coco que passo mal. Me dê um duplo de goiaba! (MW)

Gonçalo, Leninha & Filhos.

Enquanto isso, tudo corria às mil maravilhas no sítio de Gonçalo e Leninha. O nome do local já tinha sido mudado para “Nosso Ninho”. Gonçalo achou meio afrescalhado, mas cedeu aos gostos da mulher. Pedro, o primogênito, era um menino grande, saudável parecia com o pai. Eles adoraram a chegada dele, mas, como a tesão dos dois era grande, a prole foi aumentando de forma absurda. Para se ideia, teve um ano que Leninha pariu em janeiro um casal de gêmeos – Leno e Lilian – e, quando foi em dezembro, pariu de novo. Dessa vez era uma menina chamada Da Luz. Leninha achava lindo esse nome. “Perfeito para uma dona de um salão de beleza”, sonhava. A casa sempre cheia de gente. Era um Deus nos acuda com tanto menino para dar conta. A mãe de Leninha veio de Campina Grande para ajudar a criar a penca de meninos.

Diante de tanto trabalho, tinham resolvido parar de ter filhos. Foram até um posto de saúde pra ver como faziam. “Parar de trepar, nem pensar”, impôs logo Gonçalo, coisa que Leninha também concordou. O médico, conhecido como dr. JR, disse para Gonçalo que ele deveria usar uma tal de camisinha. Mostrou uma amostra grátis, disse aonde e como colocava. Gonçalo achou a bicha pequena, mas ficou calado. “Deve esticar”, pensou. Depois de tudo dito, ele concordou. Mas, no meio do caminho, uma dúvida surgiu e ele voltou para tirá-la com o doutor:

- Quer dizer que uso essa camisinha e só tiro pra mijar e xamegar com a mulher?

Doutor JR conteve o riso e explicou que era para usar exatamente quando fosse fazer sexo. Gonçalo não aprovou muito a ideia ideia. Para ele era como se fosse chupar confeito sem tirar o papel. Perdia o gosto.

Pois bem. Antes de resolver se Gonçalo iria usar essa camisinha ou não, eles resolveram ter outro bruguelo. Encomendaram naquela noite. Ressalte-se que, quando era pra fazer menino tinha que ser papai e mamãe. Tinham medo de algum castigo. Naquela noite, porém, Gonçalo tomou umas lapadas de cana e a sacanagem correu solta. A última posição foi carrinho de mão.
Nove meses depois, Leninha pariu. Era um menino. Não tinham o nome ainda e ela – que era metida a estudiosa – sugeriu:

- Gongon, porque a gente não bota o nome de um presidente? – Gonçalo ficou olhando pra ela sem entender e ela explicou:

- Um presidente do Brasil. Um que fez um bocado de coisas pelo trabalhador. – ele perguntou:

- E como é o nome desse cabra?

- Getúlio Vargas. Mas fica só Getúlio. Não é bonito? - foi o jeito ele aceitar.

E Getúlio foi batizado e começou a crescer com uns hábitos meio diferentes dos outros irmãos. Gonçalo olhava e não entendia. O menino gostava mais de brincar com as bonecas de Ellis do que com a bola ou aqueles carrinhos dos irmãos. “Danado é isso?”, perguntava-se Gonçalo. Quando ele estava para completar quatro anos, Leninha viu Getúlio escondido vestido com a roupa da irmã. Ela também ficou de orelhas em pé. Meses depois, quando chegaram da feira, lá estava Getúlio penteando os cabelos dos irmãos. Gonçalo foi direto pra capela rezar e Leninha foi até o improvisado salão para dizer alguma coisa sobre aquilo. Mas, quando se aproximou, viu que os penteados tinham ficados cada um mais bonito do que o outro. Ela correu para dar a boa nova ao marido.

- Gonçalo, ele vai ser barbeiro!

– Graças a Deus, - suspirou o pai diante dessa perspectiva.

Ledo engano! Com o passar do tempo, pai e mãe perceberam que Getúlio gostava das meninas só como amigas. Já para os meninos, o olhar era outro. Conversaram com o padre, o pastor protestante e até com uma rezadeira para saber se tinha sido castigo porque ele não fora feito na mesma posição sexual dos outros. Depois de muito ouvir, eles entenderam que existia uma outra opção sexual que também era abençoada por Deus. Foi difícil no começo, mas, aos poucos, eles foram se acostumando e perceberam que o amor que sentiam por Getúlio era igualzinho ao que eles sentiam pelos outros. Ele sempre se mostrou responsável, estudioso e excelente filho.

Assim seguiu a vida do casal. Gonçalo virou empresário, Leninha mostrou-se uma perfeita esposa, mãe e dona de casa. Com relação aos filhos, Pedro, o mais velho, fez Medicina. Os gêmeos, Leno e Lilian, trilharam a carreira musical. Ellis era uma administradora de empresas e Getúlio seguiu sua vocação e tornou-se um dos melhores cabeleireiros do Brasil, tendo rejeitado várias propostas para trabalhar nas novelas da Globo.

Todos felizes, graças a Deus! (MW)

Obs.: todos os nomes dos personagens citados são meras obras de ficção, nada tendo a ver com a vida real.

Segunda-feira, dez horas da manhã. Debaixo de um calor de janeiro, a Feira das Rocas fervilhava de gente. A gritaria dos vendedores misturava-se ao som estridente das músicas que saíam pelos alto falantes dos comerciantes de CD/DVD e outras milacrias. Nas casas, antes conhecidas como “suspeitas”, a oferta era variada. As meninas, que desde oito horas já estavam a postos, exibiam suas roupas coloridas e maquiagens idem. As radiolas de fichas tocavam músicas convidativas para todos os gostos: de corno a “pegador” de mulher; de bêbado sonhador ao prático vendedor. A feira também era local de diversão, ora bolas!

Alheio a isso tudo, Gonçalo contava seu apurado. Tinha vendido as vinte garrafas de mel de jandaíra bem ligeiro. Mercadoria legítima! Tinha herdado do pai a profissão de criador desse tipo de abelha. Dava um trabalho da gota colher o mel e encher as garrafas, mas valia a pena. O riso no canto da boca do sertanejo dizia isso. Embora satisfeito com o trabalho, Gonçalo era um homem triste hoje. Sua expressão de alegria não passava disso. Sério, botou o dinheiro no bolso e pensou: “Agora vou tomar uma de cana com um pescoço de galinha caipira pra espalhar o sangue.”

E saiu em busca da barraca de Silvana “Fiofó”. O apelido era uma alusão à sua descomunal bunda! Era uma mulher braba. A turma podia olhar para esse atributo físico, mas ninguém encostava ou dizia nada. Contam que ela só deixa uma pessoa mexer ali, que é um funcionário do Banco do Brasil. “Cabra de sorte!”, pensavam os invejosos. Pois bem. Lá chegando, respeitoso, Gonçalo nem precisou pedir. Silvana já tinha colocado a lapada num copo americano e o pescoço de galinha - já misturado com farinha de Brejinho - num pires.

Gonçalo tomou uma, duas, três. Pediu que a quarta viesse com a moela e pimenta malagueta. Passou tudo pra dentro. Mais esperto, levantou-se do banco de madeira bruta, espanou um resto de farinha da roupa, passou o pente Flamengo pelos cabelos ainda pretos e partiu imaginando: “Vou dar uma passada em meu amigo Zeca da Rapadura e trocar dois dedos de prosa com ele. Depois vou lá em Tia Chica. Ouvi dizer que tinha chegado mulher nova de Campina Grande”. A “animação” lá embaixo veio na hora.

Quando chegou, Zeca abriu um sorriso de amigo há mais de trinta anos e recebeu-o com um aperto de mão. Forte como só o sertanejo sabe dar. Depois dos cumprimentos, Zeca percebeu que os olhos do seu amigo deixavam à mostra uma tristeza profunda. Foi em cima da ferida.
- Tem notícias de Rosa?” - perguntou. Os pensamentos Gonçalo foram longe e respondeu:
- Nunca mais, Zeca. Desde que aquela tratante me deixou por aquele vendedor de remédio que não sei por onde anda. Ingrata! - respondeu ele, agora carrancudo. - Fiz tudo que podia pra agradar aquela mulher. No São João, fazia fogueira e me casava com ela todo ano, tendo o Santo como testemunha. Dançava tanto forró com ela que a poeira subia. Imagine que cheguei a gastar uma alpercata e meia de tanto arrastar os pés com Rosa num salão lá em Pureza. No carnaval, comprava aquela roupa de cigana que ela tanto gostava. E ficava linda com aqueles enfeites. Tinha noite que dava três sem tirar de dentro. De nada valeu. Chegou o vendedor de remédio num fusca e levou Rosa e um pedaço de mim. - agora, um misto de saudade e raiva tomava conta de Gonçalo.
Zeca percebeu que tinha despertado a dor do amigo e tentou amenizar a situação com uma sugestão.
- Arranje outra, meu amigo. O mundo não se acabou. Largue de ficar sozinho no seu sítio. Bote uma “nêga” dentro para animar sua vida. - Gonçalo deu um riso sem graça e só não mandou ele tomar no c... porque o tempo de amizade era grande.
- Vou em Tia Chica. - respondeu, seco, e foi-se.

Na calçada do brega ele deu uma geral para ver se tinha rosto novo, mas não viu nenhum. “Puta merda! Sé tem veterana. Aí não vende nem cana. Só Conhaque Dreher, que é caro, e cerveja, que é bebida de mulher. Vou tomar umas de Dreher e depois vou embora”. Entrou, sentou-se numa mesa do canto e ficou olhando o tempo e ouvindo as músicas que saíam da radiola de fichas. “Engenharia da porra!”, dizia para ele mesmo. A máquina era um mistério para Gonçalo, que sabia contar bem e ler e escrever mais ou menos. Mal tinha terminado a cartilha. “Como o cara canta só a gente colocando uma ficha e apertando o botão?”, indagava-se.

Logo chegou a garçonete, gorda que parecia uma balão, metida num vestido verde arrochado e um baton vermelho forte. A visão deixou Gonçalo descrente que fosse comer alguém naquele dia. Pediu uma lapada com buxada bem ligeiro, só pra se livrar daquela imagem. Quis pensar em Rosa, mas enfiou o conhaque goela abaixo e ficou observando uma turma da Malandros do Samba que acabva de chegar e ensaiava um enredo feito pelo genial Debinha. “Cabra inteligente e das letras esse Debinha”, pensou. Gostou tanto do samba que até aprendeu uma parte bem curtinha. Animou-se um pouco. A música e o conhaque tinham feito bem a Gonçalo. Ele pensou: “Só falta uma quenga que dê pra gente ir pra cima.”

De repente, entra uma menina toda num vestidinho quadriculado de vermelho e branco, com um diadema lindo que tinha até uma rosinha de lado. Sem falar que ela não tinha um pingo de pintura. A boca era vermelhinha, carnuda, e contrastava com a pele branca como leite. Os olhos, apertadinhos, eram uma promessa. O “homem” Gonçalo despertou. “Com essa eu vou pro melhor quarto daqui e pago o que ela pedir”, pensou, decidido. Botou os olhos nela e recebeu como resposta o sorriso mais encantador que já tinha visto.

Chamou-a com um olhar e ela atendeu imediatamente. Gislene, esse era seu nome, também tinha gostado daquele homem educado, moreno do sol do Sertão e olhar sincero e triste. “Deixo até ele me chamar de Leninha”, pensou ela já caída pelo caboclo. Assim que ela sentou-se, Gonçalo perguntou:
- Quer o quê? - Leninha fez cara de dengosa e impôs:
- Só bebo Campari.
O conceito dela subiu muito para Gonçalo. “É uma dama! Fosse outra ia querer cerveja”. Beberam e ele foi direto ao assunto:
- Quanto é? Quero ficar duas horas. - indagou. Ela fez um beicinho e disse:
- Vou logo avisando: só faço sexo normal e não beijo na boca. Duas horas fica por cem reais.
- Vamos logo. - disse Gonçalo.
Quando Leninha tirou a roupa, ele quase se acaba. Só fez encostar naquelas coxas brancas que jorrou de prazer. Ela também nunca tinha sentido nada parecido com outro homem. Tava “prontinha”. Abraçada naquele corpo musculoso, a sensação de apertá-lo bateu fundo nela. Ficaram um tempo agarrados, ainda lambuzados de amor.

Ele, muito carinhoso, deitou-se com ela e conversou umas lorotas enquanto brincava com seu umbigo. Ela ria e falava coisas que nunca pensou que fosse capaz. Mais atrevida, desceu a mão e percebeu que o “negócio” do homem apontava pra cima. Arriscou um olhar e a visão deixou-a molinha. Trouxe-o para cima dela alisando o rosto dono dos olhos tristes e profundos. Nunca vira igual. E, pela primeira vez, Leninha gozou. Nunca tinha imaginado como era bom aquele momento que parece que o corpo sai flutuando e fica nas nuvens. Então, sentindo o macho dentro dela e ainda com os olhos caídos, disse no ouvido dele: “Basta pagar a metade”. Aquilo animou ainda mais Gonçalo que botou suas habilidades pra fora. Quando partiram para a terceira, já foram se beijando na boca. Sem falar que já tinham feito uma coisa um no outro que Leninha só tinha ouvido falar. Mas gostou muito! E aí, no meio do vai e vem, ela, com a voz trêmula, disse: “Basta pagar só o quarto”. Gonçalo beijou-a na boca de olhos fechados. E ela correspondeu.

Estavam ainda ligados quando uma voz de mulher – era a garçonete gorda e feia – gritou batendo na porta. “Duas horas já e tem gente na fila.”
- Mulher chata! Não fode nem deixa os outros foderem. – disse, fazendo Leninha cair na risada e repreendê-lo com doçura.
- Que é isso, menino? Tenha modos.
Vestiram-se sem tirar os olhos um do outro. Na saída, sem palavras, ficou combinado o encontro para a segunda-feira que vem.

FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO

Não sei aonde ouvi essa história ou estória. Também não sei se é um cordel ou uma música comprida. Só sei que ficou gravada e, confesso, teimosas lágrimas escapuliam toda vida que pensava nela. É mais ou menos assim:

Numa região do nordeste, debaixo de uma seca braba, uma família de retirantes sofre com a falta de água e de comida. O dono das terras já não pode ajudar. O gado, magro e fraco, vai sendo dizimado. Um cenário de horror.

Pois bem. Um dia, já cansado de esperar a chuva que nunca vinha, o pai resolveu pegar a família e ir atrás dela. Assim o fez. Numa madrugada, sol ainda ameaçando nascer, eles juntaram o que puderam e partiram. O pai, na frente, desbravava a terra seca, livrando os demais dos espinhos e do leite de aveloz. A mulher, logo atrás, puxava um bruguelo pela mão enquanto segurava a barriga de seis meses. Em seguida, numa “escadinha”, outros quatro filhos. Por último, com o bucho encostando nas costelas, vinha Rex, o leal vira-latas. Imagem perfeita para as lentes de Sebastião Salgado.

Depois de muita caminhada eles avistaram uma fazenda. Viram que tinha uma cacimba e a água era franca. O pai falou com o fazendeiro e propôs trabalho em troca de comida e água. Negócio feito! Alegria na família de Jonleno. Esse é o nome do nosso herói. Jonleno, dezesseis para dezessete anos e não conhece nada do mundo, a não ser uns pedaços de novela que ele brechava na casa do patrão.

E é exatamente aí que começa a epopeia. Na bendita fazenda tinha uma caboclinha que foi a coisa mais linda que Jonleno já tinha visto. “Nem nas novelas”, pensava ele. Caiu de amor na hora. E a menina também foi tomada pelo mesmo sentimento. Bastou uma cruzada de olhar. Tiro e queda!

À noite depois de muito trabalho, Jonleno costumava dizer: “Uma noite depois de um dia duro. Trabalhei como um cachorro”. Mas, tinha Madonalva Cristina. Essa era a graça da princesa. Nada mais importava e o cansaço ficava para trás. Dia após dia o romance ficava cada vez mais roxo. Ele já tinha até arranjado coragem para dizer a Madonalva: “Quero segurar sua mão”. Ela deixou.

Começaram a encurtar os nomes para ficar tudo mais romântico. Para Jonleno, ela era Madona! E para Madona ele era Jon!
Dormiam e acordavam pensando um no outro. Cada dia a coisa melhorava. Beijos intermináveis na sombra do pé de Juá que, cúmplice do amor, ainda os escondia com seus galhos. E Jon pensou que aquilo era para sempre. Por que não? O amor libera a mente e o sonho toma formas maravilhosas. Assim como eram maravilhosos os dias de Jonleno. “Imagine todas as pessoas vivendo em paz”, sonhava ele. “O mundo seria um só”. Ou “Podem até dizer que sou um sonhador, mas não sou o único”, divagava.

Os sonhos de Jonleno só eram interrompidos pelo capataz da fazenda, um tal de Sargento. Tinha um detalhe: sempre que o Sargento chegava perto, todo mundo espirrava ou ficava com os olhos vermelhos. Parece que era o cheiro do homem. Pimenta, talvez.

Como curiosidade, contam que numa montanha perto da fazenda tinha um louco que, dia após dia, sozinho, gritava que via o mundo girar. Ninguém queria saber dele. Achavam que era apenas um louco. Mas ele via o sol se por e seus olhos eram capazes de ver a terra girando. Dizem que continua até hoje por lá.

Mas, voltemos à nossa história. Tudo corria às mil maravilhas até que, um belo dia, inesperadamente, surge ele, o Destino. Cruel, veio para acabar com os sonhos dos apaixonados. E ele apareceu em forma de chuva. Para Jonleno e Madonalva era a última coisa que poderia acontecer naquele momento. Mas aconteceu e o dono da fazenda chamou o pai de Jonleno e disse que agora eles podiam ir de volta à sua terra. Eles iriam pegar a longa e tortuosa estrada que os conduzirá de volta. A chuva era abundante. Como abundantes eram as lágrimas que agora caíam dos olhos de Jon e Madona.

Com a chegada da maldita chuva vinha a triste e dura realidade. Os dois sabiam que nunca mais se veriam e isso era terrível. Jon pediu “socorro” a Deus. Chegou a pensar em construir um daqueles bichos que andam debaixo d’água. Pintava de amarelo, botava Madona dentro e fugiriam daquele pesadelo. “Ontem, todos os meus problemas pareciam tão distantes”, queixava-se.

Na manhã seguinte, a família de Jonleno iniciou o caminho da volta. O corpo de Jon obedecia às ordens do pai, mas seu coração e seus olhos se recusavam. A distância foi aumentando e o vestido de chita branca de Madona era só o que ele ainda enxergava. Até que sumiu. Neste momento, ele olhou para os céus e, de coração, pediu a Deus: “Não me deixe tão triste!”. Depois, sem resposta, amaldiçoou a antes tão desejada chuva. Suas lágrimas se misturavam aos pingos da chuva que agora gelava seu coração. Pobres Jon e Madona.

Jonleno cresceu e foi ser músico. Chamou uns amigos do povoado e fizeram uma banda. Ele, Paulo, Jorge e outro cara do nariz grande. Sucesso total nas feiras da região. Como o sucesso incomoda, disseram até que Jonleno fumava uma erva esquisita. Tudo fofoca. Jon nem ligava. Arrumou uma namorada dos olhos apertados e saíram sertão adentro pedindo paz e amor.

Infelizmente, num nublado dia de dezembro, um rapaz que adorava suas músicas perdeu a cabeça e, sem explicação, deus três facadas em Jonleno que morreu na hora. Dizem que nem esboçou defesa. Triste fim. Ele era uma cara da paz. Por onde andava espalhava o amor. Pedia até para darem chance à Paz. O povo chorou muito sua partida.

Por uma estranha coincidência, Madonalva também foi ser do ramo. Pintou o cabelo de amarelo, e virou uma cantora de sucesso. Dizem que fez até aqueles teatros de feira. Era talentosa, Madonalva. Com o coração ainda cheio de amor por Jonleno, mudou seu nome para Madonna. Do jeito que ele a chamava. Dizem que ela sofreu muito para alcançar o sucesso. Foi até “usada” por inescrupulosos empresários. Mas o destino não ajudou e eles nunca se encontraram. Ela ainda fez uma música para Jon que dizia “Fui usada, fiquei triste, mas quando lhe encontrei me senti como uma virgem”. Tudo era vaga lembrança. E ela esqueceu Jon e nunca mais se encontraram.

Bela, porém triste história de amor. Mas, como diz o ditado: quem está na chuva é pra se molhar. O consolo que resta é pensar que com Romeu e Julieta o final foi bem pior. Será que foi?

*Jornalista

Há, em todos nós, uma incurável doença chamada nostalgia. É fogo! À medida que o tempo vai passando, as pessoas mais ficam saudosas. É comum ouvir em rodas coisa do tipo “Naquele tempo é que era bom!”, “Se fosse antigamente vocês iam ver o que era um carnaval!”, “Os bons tempos voltaram! Teremos Colombinas, Pierrôs, tudo como antigamente!”, “Duvido que esse descaso do governo acontecesse na minha época!”. Tem umas assim: “Isso é uma vergonha! Aquele casal se beijando na frente de todo mundo. Por isso que os casamentos não dão certo. É tudo muito fácil!”. E por aí vai. Seria como o passado fosse um mar de rosas, o presente uma completa desordem, e o futuro, uma mistura de Babel com Sodoma e Gomorra, à espera do Armagedon.

Mas é explicável. Essas pessoas ficaram presas a um passado que foi bom e não querem, sob nenhuma hipótese, dar esse passo à frente. “Era tão bom, pra que mudar?”, pensam elas, inseguras. Cá pra nós, tivemos momentos no passado que, se fosse possível “salvá-los” para vivermos outras vezes, nós o faríamos. Não tenho dúvidas. Porém, temos que ter em mente que a vida segue inapelavelmente na sua rotina e temos que acompanhá-la. Caso não o façamos, ficamos numa espécie de limbo. Nem lá, nem cá.

Por que não pensarmos no presente, que é algo que estamos vivendo agora e, a partir daí, construir nosso futuro? O ontem se foi. O presente está aqui, fazemos parte dele. O futuro, ao contrário do dito popular, pertence a Deus até certo ponto. Calma! Ele nos dá as ferramentas para que forjemos essa estrada, a inteligência para que a utilizemos nessa construção, a saúde para podermos levar à frente nossos projetos. Enfim, Ele nos dá tudo. Isso de ficar flanando e deixar tudo por conta d’Ele é deixar de lado a sua vida. Nada disso. Mãos à obra!

O presente, se enxergado com bons olhos, pode proporcionar momentos deliciosos. Nada de se queixar de governo, de taxa de juros, do trânsito, isso é outra coisa. Tem a sua hora – ou quinze minutos, no máximo. Vamos viver um amor que está em plena ebulição! Isso é momento único! Vamos ver as coisas que a Mãe Natureza nos deixou. Não é frescura, não. Isso é sensibilidade. Vamos beijar nossas pessoas amadas. Vamos perdoar eventuais falhas. Vamos ser solidários. Vamos dar bom dia, boa tarde, boa noite, por favor, obrigado. Vamos sorrir, mesmo quando o tempo está carrancudo. Vamos ligar para os amigos. Vamos visitar nossos familiares com mais frequência. Vamos dar menos valor ao vil metal que a gente se liberta de muita coisa. Vamos ser felizes. Afinal, estamos aqui pra isso. É ou não é?

*Jornalista

Essa vida de meu Deus nos reserva cada surpresa! Vejam só: quis a vontade Dele que mamãe partisse ao seu encontro exatamente na véspera de completar 100 anos. Nasceu em 29 de agosto e partiu 28 de agosto. Por que não aos 100? Fiquei encucado com isso até que uma bem humorada amiga, chamada Aldair, disse que o calendário do Céu estava programado só com dois dígitos nesse dia e, por isso, Dona Martha subiu com 99 anos. Gostei disso.

Faz sete anos que não encontro mais a grande amiga, conselheira, um verdadeiro infindável poço de inteligência e, acima de tudo, a grande reserva de bondade e solidariedade que já vi por estas plagas. Ela era isso e um pouquinho mais. E que artista, hein? Que o digam suas alunas de pintura. Era poliglota e tinha o alemão como seu xodó. Ensinava alemão aos brasileiros e português aos alemães sem cobrar nada. Era sua contribuição para um mundo melhor, dizia. Para ela, a inteligência era o maior bem que uma pessoa possuía. Já o dinheiro não tinha valor e, com sabedoria, costumava dizer “Neste mundo nada regula”. Ou seja, nada segue uma regra preestabelecida.

Faz sete anos que não exista um só dia em que não pense nela! Que falta ela me faz. Sei que o ciclo da vida tem essa rotina e que mamãe, como aliada Dele, ultrapassou a média de vida dos demais. É um consolo, nada mais. Resta-me a certeza de afirmar que ela continua entre nós. A sua presença pode se sentida onde quer que haja uma manifestação cultural ou onde aconteça uma grande reunião de família. Ou, ainda, em qualquer roda de grandes amigos. Seu espírito conciliador sempre estará por perto exalando a paz tão desejada.

Faz sete anos. O tempo passa, mas é como se fosse ontem. As lembranças ainda vivas me transportam para lugares do passado. Sei que devemos olhar em frente, procurar novos horizontes e construir a cada dia o nosso futuro. Tudo isso eu sei. Sei, também, que jamais poderia encarar esse presente e esperar o futuro se não tivesse um passado vivido ao lado de minha mãe. Devo a ela a aceitação das adversidades como obstáculos da nossa caminhada sem, contanto, sucumbir ante elas. Só não aprendi alemão. Pensar que ela insistia – e muito – para que eu aprendesse e eu não me dediquei como deveria me corrói de arrependimento. Tinha dias que ela só falava comigo em alemão. “Não faça isso, menino!” “Vá estudar!” e por aí vai. Guardei muitas frases comigo, principalmente essa que está acima desse texto: “Eu amo você!”. Tem nada não. Vamos em frente.

Bem. Um dia, de acordo com a vontade Dele, estaremos juntos outra vez. E dessa vez não vou deixar escapar nenhum dos seus ensinamentos. Faremos grandes salas de pintura e estudo de línguas. Casa sempre cheia. Ela, à cabeceira, dará as coordenadas. Será uma mistura do Louvre com uma Babel organizada.

Papai assistirá a tudo sentado na sua cadeira de balanço e um jornal à mão. Emilinho, sempre de branco, continuará a visitá-la para um cafezinho e contar suas histórias engraçadas e falar de Ione e dos meninos; Maninha inventará um novo prato a cada dia e parece que dessa vez o casamento vai sair; Bebete me chamará para discutir teses sociais que ela desenvolveu e resolveremos os problemas do mundo. Vai ser bacana!

Calma. Tudo no tempo Dele! Apesar da saudade, não tenho a menor pressa de reencontrá-los. Ainda tem muita coisa boa pela frente. Igual a uma frase que ouvi sobre esse papo de idade: O melhor ainda está por vir! Se Deus quiser.

Auf wiedersehen, mein mutter!


A Lava Jato agiu com o Brasil tal qual um cirurgião à frente de um paciente agonizante, prostrado na mesa, apresentando graves sinais de uma terrível doença.
Vejamos:
Ao fazer a incisão e abrir o corpo, o cirurgião depara-se com um quadro, no mínimo, aterrorizante. Há um tumor. Enorme, maligno e devastador e que, tudo indica, teve seu nascedouro na parte central do corpo. Pior: a julgar pelas metástases, é provável que o mal tenha se estendido às mais distantes extremidades. Ele, então, olha por sobre os óculos para seus auxiliares e transmite toda sua preocupação. Os demais também têm a mesma sensação.
Normalmente, diante da situação, fechar o corpo e deixar morrer com o auxílio de anestésicos seria o caminho mais prático para evitar dores lancinantes no tão novo e tão mal cuidado paciente. Mas, como bom médico, partiu em busca de soluções. Extirpar o tumor de uma vez, neste momento, levaria o paciente a óbito, ele sabe disso. Começa, então, a tentar evitar o crescimento do já megatumor.

Na sua avaliação, é preciso afastar uma célula que, embora não seja responsável pelo surgimento do mal, deu-lhe alimentação para que ele chegasse a tal proporção. Trata-se de uma dilmaesceupt. Trabalho foi bem sucedido. Mas, essa era uma célula-mãe do corpo e, como tal, precisava de reposição. Substituição bem sucedida. Implantaram-lhe uma temerospmdb. Agora, é necessário eliminar as células malignas menores e substituir por outras sadias. É uma árdua missão. Os esforços até agora não deixam ver boas perspectivas. Algumas já foram substituídas, mas as que vieram estavam também doentes. Situação preocupante.

Para piorar o quadro, a nova célula-mãe – temerospmdb - perdeu o controle e ordenou uma transferência de sangue para outras partes do corpo que não precisavam disso. É assim mesmo. Às vezes a célula-mãe tem uma espécie de receio de perder o comando do corpo e libera esses “mimos” para partes da engrenagem que lhe dão sustentação. Foi uma ação perigosa, pois o sangue vem sendo tirado há muito tempo e é preciso recompor e não fazer doações.

O paciente agoniza. Seus milhões de filhos, principalmente os saudáveis, fazem preces e pedem para Deus ajudá-lo a sair dessa situação moribunda. É difícil, já que dentro dos seus dois mais importantes órgãos, células completamente cheias de mazelas se unem para, num gesto desesperado, salvarem-se uns aos outros, nem que para isso o pior aconteça. Segundo um boletim, parece que uma das mais importantes já se foi, a edcunha171. Resta outra, fortíssima, a calheirospropinus. O quadro é de septicemia. Cogita-se que seja necessária a busca por uma nova célula-mãe saudável para salvar o quase-morto. Ouvi numa fila de banco que uma tal de generalis estava sendo procurada. Se não me engano, essa já esteve por aqui. Hummm.

Não sei como vai ficar, mas, por precaução, estou procurando meu passaporte. Sei lá, pode ser que precise dele para não ser contaminado. Igual a uma vacina.
Ora, em terra de Zika, quem tem gripe é sortudo. Fui!

*Jornalista

Esse foi um lema que adotei durante grande parte da vida. A qualquer insucesso, qualquer tropeço, mais que depressa, atribuía a culpa a alguém. Não importava o que fosse, sempre era mais cômodo tirar a minha da seringa.

Se acontecesse no trabalho, a culpa era do chefe que “Não sabe de nada. Só sabe cobrar!” Partisse para o campo sentimental, usava o chavão: “Aquela mulher era chata demais! Uma incompreensiva!” No esporte, diante de qualquer fracasso, disparava: “O treinador não entende de porra nenhuma!”. Nos estudos, olhando um boletim que mais parecia um guarda-roupa de torcedor do América, dizia: “Meus Deus, até onde vai parar esse baixo nível de ensino?”, esbravejava. Assim era eu. Nem minha família escapou. Também pus culpa: “São uns ultrapassados. Não acompanham minha evolução”, me gabava. E por aí, ia.

Até que um dia, num raro momento de inteligência, pensei: “Porra, bicho, será há uma conspiração mundial contra você? Ou será que essa terrível culpa está em você?” Difícil de aceitar, mas havia uma brecha.

Pensando nisso, mas, ainda com certa relutância, resolvi mudar a estratégia. Procurei olhar para dentro de mim (sem ser endoscopista) e vi que talvez o caminho a seguir fosse outro. Assumir os erros, por que não? Conviver com as limitações? Posso. Admitir não ser o melhor numa porrada de coisas? Claro! Nem bonito, nem feio. Nem gênio, nem burro. Um cara normal, simplesmente.

Essa mudança de comportamento trouxe-me uma visão mais clara do mundo. Principalmente a de que eu não era o único a carregar esse transtorno. Percebi que muitas pessoas faziam uso dessa fuga. Uns, assim como eu, por pura ignorância. Outros, por esperteza. Esses, infelizmente, são aqueles que passam pela vida sem vivê-la, já que o erro nos transforma ou nos mantém como pessoas perfeitamente normais.

Cansamos de ver pessoas dizerem: “Porra, se não fosse Beltrano eu não estaria nessa situação”. Ou: “Se dependesse de mim a coisa seria outra, mas Siclano esculhambou tudo”. E por aí vai.

Melhor seria, para todos nós, que seguíssemos os ensinamentos de Jesus que nos mostrou a nunca omitir nossos erros nem muito menos negar nossos defeitos. Acreditem: são exatamente essas coisas que nos tornam mais humanos, mais pacientes, mais solidários e nos coloca, cada vez mais, perto Dele!

Jornalista



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