NATAL PRESS

Ninguém consegue explicar quando ele surge. Primeiro, porque é mal-educado. Chega sem avisar, entra sem bater na porta do nosso coração e vai alma adentro. Assim como se fosse um morador antigo, ele vai, sem cerimónias, até ao nosso âmago. Aos poucos, esse intruso, sem que a gente perceba, começa a tomar conta do nosso pensamento. E nós, na medida em que nos sentimos dominados, mais gostamos de senti-lo encravado nas nossas profundezas. Ele carrega consigo uma sensação tão boa que jamais queremos que ele saia.
Ele é singular. Não tem preconceitos de nenhuma espécie. Cor, raça, género, idade, seja o que for, inesperadamente ele pode chegar.
Não há dia nem hora, mas é sempre certeiro e fulminante! Qualquer um, desde que tenha um mínimo de sentimento, está sujeito a receber tal visita.

Mas, cuidado! Não o trate mal porque ele não gosta. Qualquer sintoma de descaso é suficiente para que ele, da mesma forma que veio, faça seu caminho de volta. Para nunca mais retornar.


Às vezes, quando estamos meio sossegados, achando que a vida é assim mesmo, que as emoções são coisas do passado, ele nos surpreende, chega e, como se fôssemos um automóvel sem combustível, ele nos reabastece. E a vida, até então sem prazer, ganha novos e lindos contornos.


É assim que nos sentimos quando apaixonados. Tanques cheios de amor e dispostos a percorrer os caminhos que nos conduzam até o coração da pessoa amada. E aí, juntos, pode-se fazer grandes viagens para um futuro que agora nos parece palpável. Até onde vai dar, ninguém sabe. Pouco importa, aliás. Importa, sim, o que sentimos.

Deixemos que ele nos guie por essa nova estrada. São, como todas, plenas de retas e curvas, e devemos ter cuidado para que o trajeto seja feito em paz.
E então, na penumbra e no silêncio do nosso quarto descobrimos coisas que sequer sabíamos que existiam. As peles, ao menor contato com a outra, nos leva viajar por um mundo de sonhos. Uma delícia! Cabelos que se assanham, olhos que se cruzam e bocas que se unem, enchem nossos peitos de sentimentos nunca antes experimentados. Aí, o nosso amor se torna legítimo e gostoso como só dois seres que se amam são capazes de sentir.

Quando os nossos corpos estão banhados em suor, a sensação é de entrega total. Sem limites, como deve ser. São completamente um do outro. Corpos e almas. Que continuemos assim. Cada vez mais alimentando esse forasteiro que queremos que fique para sempre dentro de cada um de nós.

Ele é assim. Ninguém consegue explicar quando surge. Extremamente mal-educado, chega sem avisar, entra sem bater na porta do nosso coração e vai alma adentro. Assim, como se fosse um morador antigo, ele vai, sem cerimônias, até ao nosso âmago. Aos poucos, esse intruso, sem que a gente perceba, começa a tomar conta do nosso pensamento e nos deixa à sua mercê. E nós, viventes, na medida em que nos sentimos dominados, mais gostamos de senti-lo encravado nas nossas profundezas. Ele carrega consigo uma sensação tão boa que jamais queremos que ele saia.

Ele é singular. Tem vontade própria e não tem preconceitos de nenhuma espécie. Cor, raça, gênero, idade, seja o que for, inesperadamente ele pode atingir a quem quer que seja. Não há dia nem hora, mas é sempre certeiro e fulminante! Qualquer um, desde que tenha um mínimo de sentimento, está sujeito a receber tal visita.

Às vezes, quando o rio das nossas vidas já correu um pouco e estamos até meio sossegados, julgando que a vida é assim mesmo, que as emoções são coisas do passado, ele nos surpreende. Chega e, como se fôssemos um automóvel sem combustível, nos reabastece. Num repente, a vida ganha novos e lindos contornos.

É assim que eu me sinto, meu amor. Tanque cheio e disposto a percorrer os caminhos que me conduzam até seu coração. E aí, juntos, poderemos fazer grandes viagens para um futuro que agora nos parece palpável. Até onde vai dar, ninguém sabe. Pouco importa, aliás. Importa, sim, o que sentimos.

Deixemos que ele nos guie por essa nova estrada que é, como todas, plena de retas e curvas. Por isso, devemos ter cuidado para que o trajeto seja feito em paz. Sempre! Sabemos que ele é muito sensível e que não vê com bons olhos quem o maltrata. Se o tratarmos bem, como o fazemos, ele é até capaz de fixar residência nos nossos corações. Que continuemos assim. Cada vez mais alimentando esse forasteiro que queremos que fique para sempre dentro de cada um de nós.

O nosso amor é legítimo, como legítimos são os mais simples momentos que passamos. Só quem ama é capaz de entender o que digo. Quando estou ao seu lado, corações juntos pelas mãos entrelaçadas, entrego-me a esse sentimento e sou completamente seu. Corpo e alma.

Amo você. Definitivamente!

Do seu amor,

Minervino Wanderley

Happiness, felicità, felicidad, glück, bonheur, seja em que língua for, em qualquer lugar do mundo, as pessoas a buscam com sofreguidão. Uns se sentem felizes pela quantidade de dinheiro nas suas contas bancárias. Outros, pela aquisição de um bem ou até pela recuperação de um objeto perdido. Claro que há exceções, mas a regra, creio eu, é mais ou menos essa.

Observo que ela é procurada como se fosse um bem físico, que se pudesse comprar num supermercado ou numa loja de conveniência. Tenho a absoluta certeza de que muitos gostariam que ela fosse adquirida como um plano oferecido pelas redes de TV ou telefone/internet. Eles ligariam num 0800 e pediriam:

- Por favor, faça uma recarga de três anos de felicidade. Pode colocar no mesmo cartão que está cadastrado.

Alguns, mais afoitos, diriam:

- Quero o plano ilimitado.

É verdade. As pessoas não sabem que a felicidade não é uma “coisa”. Nem é perene. Quem descreve bem o assunto é Odair José, que num momento de rara inspiração disse: “Felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes. ” Acertou na mosca!

Por que não se sentir feliz quando podemos ver o multicolorido do nosso mundo? É um quadro que ninguém conseguiu pintar. E ouvir uma bela música? O coração agradece. Ter e apertar entre suas mãos as mãos da pessoa amada? Bom demais! Fechar os olhos e deixar que olfato identifique aquele perfume que lhe transporta pelo tempo e espaço? Uma autêntica viagem. O gosto de um beijo apaixonado? Não tem igual!

Infelizmente, a dureza do mundo vem crescendo e deixando as pessoas mais céticas com relação à felicidade. As emissoras de TV – sem exceção – e que possuem o poder de mexer com o íntimo da população, só nos trazem mazelas, desigualdades, maldades, etc. Isso influencia, em muito, esse comportamento. A violência faz mais sucesso do que o amor. É lamentável, mas é crua verdade.

Se assim é, convoco você, que ainda não foi contaminado por tudo isso, a fazer sua parte. Está sem motivação? Ouça “Epitáfio”, com Titãs, e você compreenderá o que quero dizer. Ame mais, trabalhe menos. Sorria mais, se irrite menos. Não economize seu amor. Nunca! Deixe as contas bancárias, objetos, para aqueles que jamais entenderão que a grande razão de estarmos aqui é justamente o amor. Pode até ser sozinho. Cada um sabe o seu jeito. Eu, particularmente, sou do time de João Gilberto: “É impossível ser feliz sozinho”.

Se está amando agora, vá fundo e não queira saber de mais nada. Que a pessoa amada seja sua prioridade. Não a perca a troco de pouca coisa. Desacertos? Existirão sempre. Vale a pena? Ouça Altemar Dutra cantando “Brigas” e você vai mudar de ideia.

Por fim, digo a vocês, apaixonados: ame seu parceiro por inteiro. Inclusive com seus erros e defeitos. É mais fácil consertar um erro do que encontrar um novo amor. Disso eu tenho certeza!

É comum as pessoas temerem chegar à chamada “terceira idade ou melhor idade” – ambas de péssimo gosto, por sinal. Acham que o ocaso da vida se aproxima e, junto a isso, as doenças serão mais frequentes. Mas, nada apavora mais o homem do que, no meio dessas mazelas todas, do que o desejo sexual vá se extinguir, a libido vai desaparecer, etc.

Ledo e lamentável engano. Isso está dentro da cabeça de cada um. Tem tanta gente nova que já perdeu o interesse pelo “negócio”. Creio que muitos desses equívocos acontecem quando esses sessentões – homens e mulheres - partem em busca de pessoas bem mais jovens, saradas, frequentadores de academias. Tudo numa reles esperança de o tempo vai parar e, ao contato de uma pele mais jovem, o “cidadão” ou a “perseguida” vão se animar.

Ora, caros colegas. O tesão é da pele, do olhar, não tem nada a ver com longevidade. A parceria ideal é exatamente formada por aqueles que tem mais ou menos a mesma idade. Viveram épocas comuns, as lembranças são similares e, por conseguinte, a convivência é ótima, a conversa flui naturalmente.

Imaginemos um(a) coroa namorando uma figura de 30 anos. O cara ou a moça, barriga tanquinho, coxas duras como armaduras, cheio de energia, chegam em casa e, ao deitar, creio que os diálogos seriam mais ou menos assim:
- Fez quantos abdominais hoje? – ela responde:
- Mais de 100! Meu personal é show! E você, como foi o jogo de buraco? Ganhou alguma?

Porra! Não tem nada a ver. Papo furado! O bom mesmo é caminhar juntos, almoçar um olhando para o outro, e, na tão conhecida cama, ficar deitado lado a lado, olhos nos olhos e trocando palavras de amor. Puxa, que coisa boa um alisado de cabelos um do outro. E essa troca de carinhos continua. Até que, de repente, como num passe de mágica, as mãos ficam mais ousadas e começam a explorar seus corpos.

E o interessante é que toda vida é como se fora a primeira vez. E o amor se faz. Puro, olho no olho e o prazer é inigualável.

Essa idade é fantástica. Todo dia surge algo a motivar os corações. Pena que muitos resistam a isso e achem que a vida se encerra quando – exatamente – ela está começando. Quando chegamos nessa idade somos recém-nascidos. Tem um novo mundo a ser descoberto. Mãos à obra!



“Palavras são palavras, e a gente
nem percebe o que disse sem querer...”

Demorei um pouco a entender o verdadeiro significado para castelos de areia. Quando criança, achava que eram aquelas “construções” que fazíamos na beira da praia. Sempre que estávamos próximos a terminar vinha uma antipática onda e derrubava tudo, transformando a obra em areia. A solução era subir para um local no qual a maré ainda não ameaçava chegar. Mas a rotina era implacável. Quantos castelos fossem erguidos, tantos eram reduzidos a areia pelas ondas.

Com o andar da vida, percebi que esses castelos de areia guardavam muita similaridade com nossos sonhos. Criamos ou imaginamos situações de vida agradáveis, repletas de felicidade, mas vinha a realidade da vida – tal qual a onda – e nos trazia à realidade, transformando nossos devaneios em fumaça. E, da mesma forma, passamos a elaborar novos sonhos e, agora mais espertos, feitos de pensamentos mais resistentes, que pudessem resistir à força desta chata e, às vezes, cruel realidade.

Assim é o amor. Conhecemos a pessoa, sentimos a atração, vamos para as conversar até que, num tácito acordo, ficamos namorados um do outro. A partir de então, tendo o amor como matéria-prima, começamos a construir nossos castelos. Apaixonados, a planta fica rápida num piscar de olhos. Esse castelo é mais ou menos assim: terminar a faculdade, arranjar um trabalho bem remunerado, comprar uma casa, casar, ter filhos, netos, bisnetos...

Muitos edificam os seus sonhos bem alicerçados e alcançam o objetivo traçado. Outros, muito embora se amando, não conseguem atingir o alvo. Surgem coisas no trajeto da vida e desistem desse sonho juntos. Separam-se e cada qual vai em busca de um outro parceiro em busca desse sonho. O implacável tempo passa e, às vezes, já cansados de insucessos na tentativa de conseguir encontrar essa alma gêmea, uns param de lutar e simplesmente se entregam à vida. Viram espectadores da vida.

Mas, existe uma classe de pessoas que, mesmo considerado “coroas”, continuam com obstinação seu caminho em busca da construção de seu castelo. Com sorte, encontram e, pelo traquejo da vida, percebem que ali está a companhia do resto dos seus dias. Então a vida se transforma. O sol volta a brilhar, a luz do luar mexe com as almas dos apaixonados e eles se entregam a essa dádiva.

Por outro lado, lamentavelmente, há “coroas” que encontram seus pares e, por motivos bestas como ciúmes, insegurança, incompreensão, deixam que as ondas do mar da vida destruam seus castelos. Bastava um pouco só de paciência, de entender as fraquezas um do outro, de parceria, e essas ondas seriam rechaçadas. Como não são flexíveis, ambos perdem nesse embate e a vontade de reconstrução fica comprometida. Uma pena. A vida ainda tinha tanto para oferecer, mas optaram por um orgulho que nada mais é do que a ferrugem que destrói o ferro; não passa de cupim dizimando a madeira reduzindo tudo a pó. Uma pena mesmo.

É um final no qual todos perdem. Um final de vida digno e feliz trocado por uma solidão só amenizada por um gato ou um cachorro. Visitas esporádicas e rápidas de filhos e netos. Isso não é vida.

“Coroas”, ainda é tempo! Deixem esse orgulho de lado e se entreguem de corpo e alma a esse amor – quem sabe o melhor e o último. Vocês jamais se arrependerão de ter tentado. Lutem pela felicidade!

Numa praia. Final de tarde. Você chegou à minha vida

 

Primeiro, o olhar promissor. Depois,  o sorriso que fez a noite virar dia

 

A voz, rouca e sensual, emitiu sons que só meu coração decifrou

 

Éramos tantos naquele momento, mas, para mim, estávamos sós

 

Eles, pobres mortais, eram meros coadjuvantes do início de uma história de amor

 

E assim foi. Outra tarde, outra praia, os mesmos olhares

 

Uma singela tapioca, um café com leite, o toque ansioso de minha mão na sua

 

A doçura da sua boca fez inveja ao mel que agora apenas decorava a mesa

 

A lua , sempre cúmplice dos que se amam, surgiu mais cedo para nos apreciar

 

O mar, à nossa frente, transmitia a paz tão desejada

 

Sem palavras

 

Nos aproximamos e, num abraço, nosso corações se fizeram em um só

 

Nossos corpos se uniram e entramos no mundo um do outro

 

Felizes, não ligávamos para o que havia lá fora. Se é que havia algo

 

Assim começou nosso romance.

 

Aliás, está sempre começando, pois a cada dia meu amor se renova

 

Tudo como se fosse a primeira vez

 

Assim, como  disse o Poeta, que seja infinito enquanto dure.

Hoje é aniversário de Mamãe. Mais um ano que se passa e sua presença continua mais forte do que nunca. Nem poderia deixar de assim ser. Pessoas do quilate de Martha Wanderley Salem nunca morrem. Simplesmente se cansam das tolices do cotidiano e se mudam para outro lugar.

Como filho, amigo e admirador, sempre estou em contato com ela. Não da forma convencional, mas daquele jeito que quem ama conhece. Não é verdade, mamãe?

Transcrevo, abaixo, carta que enviei para ela:

Olá, frau Martha!

Inútil dizer o quanto a senhora representa para seus filhos, parentes e incontáveis amigos. Não há palavras. Para as "meninas" das tardes de pintura ou para aquele sem número de alunos/amigos de alemão, a senhora foi, e é, a grande Mestre.

Seu ombro amigo e suas palavras de conforto serviram, de forma incontestável, de apoio para quem a procurasse em momentos difíceis da vida. Sua inteligência, bem acima da média, foi voltada para coisas boas. Sei que a senhora tentou, de todas as maneiras, contribuir para a construção de um mundo melhor, mais justo e mais lindo, como eram suas pinturas.

Por falar nisso, Mamãe, sua arte singular com os pincéis é exaltada por todos aqueles que tem o privilégio de conhecer suas obras, sabia? E serão mais pessoas que terão acesso à sua expressão da Vida. É verdade, Mamãe. Em novembro, se Deus quiser, graças à generosidade da professora Isaura Rosado, da disponibilidade de Iaperi Araújo, Dione Caldas, Geruza Câmara, entre outros, haverá uma grande exposição na Pinacoteca do Estado. Estamos todos juntando os quadros para compartilhar com os demais.

Passados os dias de visitação, faremos a doação de um quadro para que lá, junto a outras figuras ilustres das artes do RN, a senhora ocupe um lugar que há muito lhe pertencia.

Adoraria conversar mais, mas o dia é difícil. A emoção de mais uma vez lhe escrever no seu aniversário me invade. Não estou triste. As lágrimas que pingam no papel dessa carta são um misto de orgulho, de agradecimento e, por que não dizer, de saudade. Como já lhe disse em outra oportunidade, estou em paz com a vida, feliz e tentando fazer uso da verdadeira herança que a senhora me deixou, com seus ensinamentos, que foi a capacidade de transmitir aos outros a felicidade interior.

De seu filho, que a senhora chamava de Mané, até um dia. Aliás, auf wiedersehen!

Não sei se me precipito na avaliação, mas creio que, às vezes, há uma banalização de tal honraria. A escolha de alguém deveria ser mais criteriosa, passar por setores pelos quais o homenageado fez algo, mostrar o porquê da deferência. Não tenho a fórmula para se chegar a esse consenso, mas existem entidades que representam os mais diversos segmentos da sociedade, como Fiern, CDL, CRM, OAB, etc. 

Dificilmente uma proposição de um vereador será rejeitada pelos demais. Claro, já que, um dia, será a vez de cada um apresentar seu candidato e ele contará com o "sim" dos outros colegas. Temos que ampliar essa escolha. Natal é nossa e não me convence o fato de que os vereadores "representam a vontade povo". É minha opinião.

Faz um bocado de tempo, mas nunca esqueci. Eu tinha exatos 14 anos quando a vi pela primeira vez. Eu, no “muro” da minha casa, e você, no outro lado da rua. Elegante, magra e extremamente séria, ia no rumo do colégio. Um braço carregava os livros. O outro servia para dar mais charme ao balanço do seu andar. Sua saia plissada balançava como se fosse um pêndulo e me deixava hipnotizado. Nunca tinha visto coisa igual. Marquei a hora e toda manhã cedinho eu ia assistir a deusa passar.

No final da manhã, pertinho da hora do almoço, era o momento da volta para casa. Lá estava eu a admirar a garota que enchia a menina dos meus olhos. Seu rosto, com o lindo nariz empinado, não se dignava a dar uma virada para os lados. Seus cabelos lisos, movidos pela brisa que cerca os anjos, teimavam em cair sobre seus olhos. E você os afastava com aquela graça que Deus, tão generoso, lhe presenteou. Um retrato lindo e inesquecível! Por muitos e muitos dias eu me alimentava dessa ilusão.

Onde anda você, menina?

Ora, você nunca poderá me responder. Sequer trocou um simples olhar comigo. Você andava flutuando nas nuvens e eu, pobre mortal, tinha apenas o direito de admirá-la. Só conversamos nos meus sonhos, verdadeiros devaneios, só testemunhado pela escuridão do quarto. Imaginava mil maneiras de abordá-la, de ficar frente à frente e lhe dar um buquê das flores mais lindas que pudessem existir. Pensei, também, num cesto de jambos, numa nítida homenagem à cor da sua pele. Sei lá. Só queria que você soubesse que eu existia. Mas tudo ficava nos sonhos. Como diz a bela canção: “Nada além de uma ilusão”.

Esse “namoro unilateral” durou dias, semanas, meses, até que um dia você não passou. Nem no dia seguinte, nem nunca mais. Fiquei triste como fica triste o apaixonado abandonado. Era essa a sensação. Mas, um belo dia, saí da intenção para o gesto. Como sabia onde você morava decidi ir até sua casa. Queria vê-la, ouvir sua voz e, quem sabe, desfrutar de um sorriso seu. No jantar, estava sem apetite. A ansiedade me tomava o corpo e a alma. Tomei coragem, botei minha melhor roupa, passei uma generosa dose de uma boa colônia e parti para a batalha.

No caminho, com passadas seguras, ensaiava o que iria lhe dizer. Quando me aproximei deu para ver que você estava na calçada. O coração traiçoeiro acelerou as batidas. “É hoje ou nunca!”, dizia-me. Mas, algo inesperado aconteceu. Um carro parou na frente da sua casa. Um cara desceu e você foi ao encontro dele e o beijou. Fiquei estático. Apertei com força o “Serenata de Amor” que seria para você. Que decepção. Melhor seria viver a ilusão.

Dei meia-volta e saí andando à toa. Sem destino. Fui bater na Praça Pedro Velho. Sentei-me num banco e duas sentidas lágrimas rolaram pelo meu rosto. Deixei que o vento frio da noite se encarregasse de enxugá-las. Mais calmo, comi o chocolate e resolvi lutar por você. “Vou crescer, trabalhar, comprarei um carro melhor do que o daquele cara e vou atrás dela.”, pensei. Assim foi. Cresci, trabalhei, comprei o carro, mas o tempo – sempre ele – cuidou de arrefecer meu “amor”. Ficaram as lembranças, nada mais. Puras e legítimas.

Escrevo esse registro hoje para que você, meu amigo ou minha amiga, não esqueça o quanto é linda a vida. Por essas coisas, por esses puros sentimentos. Ela nos dá isso. Vamos aproveitar. Esse episódio fez de mim um homem. Despertou em mim o amor, sofri por essa gostosa e surpreendente sensação e lutei por ele. O que um homem precisa mais para viver senão apaixonar-se e deixar que isso o conduza? Creio que mais nada.

Quanto a você, meu primeiro “amor”, cujo nome eu nunca soube, onde quer que se encontre, espero que esteja feliz. Eu estou!(MW)

Vocês já foram à Tambaba? Aquela praia de nudismo que tem na Paraíba? Pergunto principalmente aos homens. Se já foram, vão entender o que vou relatar. Se nunca estiveram por lá, não vão. É o conselho que dou. Querem saber por quê? Vejam o que me confidenciou um amigo, cuja identidade fica sob total sigilo. Conta ele:

Caro amigo Minervino:

Há uns cinco anos, tive uma namorada daquelas que pensavam que ainda estavam em Woodstock, toda liberal, paz e amor e tinha um desejo quase incontido: passar um fim de semana nessa praia de nudismo. “Quero ficar em pleno contato com a Natureza”, dizia. Depois de muita insistência, resolvi me aventurar nessa, literalmente, nua missão. Pegamos o carro num sábado de manhã e partimos em busca de novas descobertas. Se é que podemos classificar um bando de gente pelada de novas descobertas.

Era isso que até então eu pensava, velho amigo. Chegamos, tiramos a roupa, colocamos numa sacola e fomos expor nossos virgens corpos inteiros à luz do sol. Caminhamos um pouco e nada de diferente. As mulheres não eram lá essas coisas. Na sua maioria feias de doer. Em algumas, os peitos mais pareciam suspensórios. Todas tinham bundas. Se bem que em umas só se via o projeto, tamanha era a falta de carne. Outras, a celulite deixava dúvidas quanto à existência de uma região glútea. Na parte da frente, era um matagal só. Umas tinham mais cabelos “lá” do que na cabeça. Ali sim, merecia um desmatamento. É sério! Passou uma mulata que eu juro que vi saguis pulando de um lado pro outro. Foi então que eu entendi o que era mata virgem. Nada entrava por ali. Isso eu garanto!

Dante de tamanha visão, olhei para a namorada e comecei a achar que ela era a mulher mais bonita que existia. “Sou um cara de sorte”, fiquei pensando, enquanto puxava ela mais pra perto e dava dois beijos no seu cangote. Estava bem de amor!
Mas, meu amigo Minerva, a minha então musa não correspondeu às minhas carícias. Estranhei e percebi que ela estava fazendo o que eu fazia. Ou seja, apenas uma análise dos corpos nus. Só que, no caso dela, os objetos de estudo eram homens. Tudo bem. Olhei à minha volta e não vi nada demais. Tudo do meu “tope” ou menores. Estava tranquilo com relação a isso.

De repente, percebi que ela estava quase que paralisada. Nem pestanejava. Acompanhei seu olhar e vi que, lá na frente, para onde a minha(?) namorada estava com olhos grudados, havia chegado um ônibus cheio de africanos. Era um time de futebol que estava em excursão no Nordeste. Isso soube depois. Estavam todos nus. Continuamos a caminhada e foi aí que entendi o verdadeiro significado da célebre frase: “Uns com tanto e outros com tão pouco”.

Me aproximei e, quando consegui distinguir o que eram as pernas e os “membros” dos caras, puxei a mulher pela mão e disse que “o sol estava muito forte e que era melhor a gente voltar para Natal”. Nem em João Pessoa queria ficar.

Ela parou, olhou-me de cima até aqui embaixo, virou-se para um daqueles camaradas, e, sem cerimônia, soltou minha mão. Assim como se dissesse: “Tá vendo?” Tentei argumentar que eles eram bem dotados porque pertenciam a uma tribo na qual as mães amarravam um coco na cabeça das pirocas dos meninos e por isso elas ficavam desse tamanho. Sua resposta doeu:

- Se é assim, sua mãe deve ter amarrado uma goiaba em você. – foi o que disse aquela ingrata.

Diante de tal afronta e humilhação, disse que ia voltar para casa. Ela respondeu com um balançar de ombros. Puto da vida, dei as costas – o que era um perigo! – e me mandei, deixando, a seu pedido, suas coisas. Fiz o percurso para Natal em menos de duas horas. Queria distância daqueles troços.

Pois é, meu amigo. Sete anos se passaram e nunca mais tinha ouvido falar na tal criatura. Até que fui assistir a uma sessão de cinema de arte e encontrei uma amiga comum. Depois de conversar sobre o filme, ousei perguntar sobre a fulana. Sua resposta:

- Menino! Tá morando numa comunidade quilombola na Bahia. A região é conhecida como “Coqueiros”. Ela me contou que os costumes são os mesmos que foram trazidos da África por um time de futebol que esteve jogando por lá.

- Dei um risinho sem gosto, me despedi e fui tomar um sorvete.

A moça da sorveteria, muito gentil, disse:

- Só tem de coco e goiaba. – respondi em cima da hora:

- Não posso nem ver coco que passo mal. Me dê um duplo de goiaba! (MW)



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