NATAL PRESS

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Uma contradição. Especialmente no Natal. Tristeza, é o que sinto à respeito do Brasil. Otimista nato, sei que a esperança triunfará. Acredito firmemente em nosso país. Mas, o seu momento é desanimador.

Minha tristeza é com seus governos em todos os níveis, seus políticos. Toda vez que vejo uma noticiário na TV, ou leio os jornais, ou as revistas semanais, me cobre esse sentimento de tristeza, de desânimo, de pessimismo, que não encontra uma justificativa mais profunda do que essa – o país está se desmanchando, se auto destruindo, seus valores se esvaindo no ar, a seriedade e o bom senso se evaporando, desaparecendo como bolinhas de sabão.

Que diabo está acontecendo? Os valores mais caros, os ensinamentos mais básicos, de respeito aos outros, de comportamento ético, de humanidade, de convivência social, enfim, todos os valores que constroem e consolidam uma sociedade, se esvaem com uma rapidez inexplicável. Para qualquer lado, em qualquer setor, em todos os planos da vida, a degradação e a deterioração dos mínimos valores sociais se desmilinguinam, desaparecem, se esvaem.

Fico pensando comigo mesmo. Será que esse meu sentimento se deve ao fato de estar envelhecendo? Será que não sou eu mesmo que estou fora de época, fora de validade, como alguns gostam de dizer de forma depreciativa, esquecendo que, se tiverem sorte, poderão atingir esse mesmo prazo? Mas, quando penso melhor, vejo que não. E, quando olho para a forma como caminham outras sociedades, especialmente as européias, mais antigas e por isso mesmo mais civilizadas, vejo que não. Não sou eu que estou superado. O que se vê, por todos os lados, é a total insensibilidade e capacidade da “elite” (que uso aqui no sentido novo que querem dar ao termo, que procura qualificar, ou desqualificar, as elites verdadeiras como danosas, que confundem “elite” com ter dinheiro) em dirigir os destinos do país. Predominam a insensatez e falta de bom senso.

Os dirigentes de hoje têm uma preocupação premente e sempre presente. Auto-aproveitar as posições de que usufruem, criando ao redor de si um aparente interesse para os problemas do povo, mas sempre cuidadosos em defender a si próprios e os que lhes cercam.

O povo, mesmo, o que precisa de saúde, segurança, educação, transporte coletivo, que lhes é de direito pelos impostos que pagam aos governos – as necessidades essenciais para se viver um pouco melhor – é esquecido. E, quando se entrevistam os responsáveis por esses desastrosos serviços, com os poucos que ainda concordam em dar alguma satisfação, sejam de que partido forem, a resposta é sempre a mesma – as providências estão sendo tomadas e daqui a um mês, dois meses, seis meses, um ano, prazos que se transformam em muitos anos, estará tudo resolvido. E nada se resolve, e o povo continua sofrendo dos mesmo males, sem esperança.

Quando fui secretário de Educação, qualquer problema que surgia me fazia sentir mal. Ficava super preocupado, buscando uma solução rápida. Enquanto não resolvia o problema, não tinha sossego. Hoje, me martiriza ver a insensibilidade, que deve ser também incapacidade, de certos dirigentes, em não dar a menor atenção à problemas que urgem uma solução. Novos tempos, novos costumes; piores costumes, piores tempos. Tudo isso é lamentável.

Como acredito no Brasil e no seu futuro, empurro a tristeza para o lado e desejo à todos que me lêem, aos que fazem este JH, um Feliz Natal e um 2014 renovado. Que mude a cabeça de nossos dirigentes. Para melhor, pois, infelizmente, também pode mudar para pior.

Setenta e dois anos se passaram, desde 7 de dezembro de 1941, quando os japoneses atacaram, de forma traiçoeira, a base aeronaval de Pearl Harbor. Esse ato levou os Estados Unidos a se engajarem, de forma definitiva, na II Guerra Mundial. Morreram 2400 americanos e 1200 ficaram feridos. Mais uma data que passou em branco na nossa mídia. Pelo menos, não li nada sobre o assunto.

Roosevelt, que vinha mantendo um apoio decidido, mas não ostensivo, aos ingleses, pôde então levar o seu país a uma posição firme e decisiva no conflito. Em seu discurso ao Congresso, pedindo a declaração de guerra ao Japão, pronunciou palavras que ficaram para a história: “Ontem, 7 de dezembro de 1941, uma data marcada pela infâmia, os Estados Unidos da America foram, repentinamente e sem aviso, atacados pelas forças aeronavais do Império do Japão”. A resolução de declaração de guerra teve apoio de todos os senadores (82) e de 388 deputados, com um único voto contra, da deputada Jeannette Rankin, de Montana, uma pacifista intransigente que já havia votado assim quando da I Guerra Mundial.

Uma observação interessante é que, nesse momento, os EUA não declararam guerra à Alemanha e Itália. Esses países tomaram a iniciativa de declararem guerra aos Estados Unidos, três dias depois dessa data.

Há, ainda hoje, controvérsias sobre se Roosevelt sabia ou não da possibilidade do ataque e, para vencer a oposição e o isolacionismo militante contra o envolvimento do país em uma guerra, havia silenciado a respeito. Mas, mesmo que houvesse esse conhecimento, todos são unânimes em dizer que nunca se cogitou fosse esse ataque à Pearl Harbor.

E onde entra Natal nessa história? Claro que, com a entrada dos EUA na guerra, a posição estratégica de nossa cidade, especialmente depois da decisão dos americanos em derrotar primeiro Hitler, para só depois ocupar-se dos japoneses, tornou-se primordial. A necessidade de Parnamirim como apoio imprescindível a movimentação de pessoal e equipamentos tornou-se premente. Cresceram as pressões sobre Getúlio Vargas para um acordo permitindo o uso das bases aéreas e navais brasileiras. 

Com o ataque à Pearl Harbor, essa pressão foi crescente, e nosso governo, finalmente, concordou com a cessão das bases, o que trouxe os americanos para Parnamirim. Essa decisão contou com o apoio decisivo de Oswaldo Aranha, embora com a relutância de Góis Monteiro e Eurico Dutra, inclinados que sempre foram em favor dos alemães. Portanto, o ataque japonês levou o Brasil à guerra e Natal à ocupação americana.

Assim é o mundo. Um acidente longe de você pode transformar a sua vida. Foi o que aconteceu conosco nos idos dos anos quarenta. E que mudou Natal para sempre.

No último dia 22, cinqüenta anos transcorreram desde o assassinato de John Fitzgerald Kennedy. Desta vez, até pela importância do fato, a imprensa nacional noticiou o ocorrido. A revista Veja fez uma bela reportagem. Não se olvidaram, como normalmente fazem com as coisas do passado.

Já tive oportunidade de me manifestar sobre o assunto. Naquela ocasião, lembrei-me do que estava fazendo naquele momento. Trabalhava com meu pai e ensinava inglês na SCBEU. Estava tomando um cafezinho, no Café Globo, na Rua Dr. Barata, quando ouvi a notícia pelo rádio. Eram pelas três da tarde. Corri para a SCBEU, onde o diretor americano, Bob Lindquist, já estava sabendo das notícias, com o rádio ligado na “Voz da America”, e muito emocionado. Ficamos juntos até tarde, acompanhando as notícias, que eram continuas. Estávamos, como todo mundo, chocados com o ocorrido.

Tanto tempo depois, ainda hoje se diz que o atentado não foi um fato isolado. Há teorias e mais teorias de que tudo foi um complot, com origem das mais diversas – da esquerda radical e com apoio da USSR e de Fidel Castro, este ainda revoltado com a invasão da Baía dos Porcos, aos mais radicais de direita do pais, como os cubanos de Miami, que nunca perdoaram o que chamaram de “falta de apoio de Kennedy”, ou os contrários às políticas de Direitos Civis e contra a segregação. Por sinal, a Baía dos Porcos foi prato feito deixado por Eisenhower, que Kennedy não pôde desmanchar. Mas negou a sobremesa, que seria o apoio aéreo, o que condenou a invasão ao fracasso.

O governo de Johnson nomeou uma comissão, liderada pelo juiz da Corte Suprema Earl Warren. Apresentou um documento com 880 páginas, depois de longo estudo, confirmando que o ato tinha sido unilateral, de um tresloucado, Lee Oswald, um fracassado em todas as suas iniciativas, em busca de fama. Oswald morou um tempo na Rússia, onde casou-se e tentou a cidadania, sem sucesso; pertenceu à organizações marxistas e de apoio à Cuba. Tentou ir para a Cuba, mas não conseguiu autorização do governo cubano. Foi Fuzileiro Naval e especialista em tiro. Ganhou seu momento de fama, infame fama, sem dúvida.

Um amigo me perguntou. Como seria o mundo hoje, se houvesse Kennedy sobrevivido e sido reeleito, como tudo indicava? Certamente, seria diferente do que é hoje. Com as iniciativas de Kennedy, algumas das quais, como a de Direitos Civis, foi continuada por Jonhson, o mundo seria outro. E os Estados Unidos, com toda certeza, não teria essa política de intervenção na vida dos cidadãos e das nações, sob o argumento de segurança nacional. Desconfiam de tudo e de todos. Esquizofrenia.

Kennedy mandou o homem à Lua. Iniciou o processo de unificação da Alemanha, com o seu discurso de Berlim, famoso pelas palavras “Ich Bin ein Berliner”, que fortaleceu a Alemanha Ocidental e deu força aos berlinenses para resistirem à hegemonia soviética. Despertou os EUA para sua própria força, com a declaração “não pergunte o que o seu pais pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu pais”, em seu discurso de posse. Criou a Aliança para o Progresso, o “Peace Corps”, a USAid. Com essa política, procurou reaproximar os EUA da America Latina. E do mundo, especialmente da África.

Ele e Jackie formavam um par charmoso, jovem, que trouxeram momentos de alegria, elegância e beleza para o poder. Tinham o apoio da classe artística, de intelectuais, e do povo. Eram unanimidade, de todos bem queridos. Sua corte ficou conhecida como “Camelot”, numa menção ao castelo e à corte lendária do Rei Artur. Ainda hoje deixam saudades e boas lembranças.

Quem se lembra da “Noite dos Cristais Quebrados”, no dia 9 de novembro de 1939? Que fez agora 74 anos? Poucos, acho eu. Acredito que deve ter saído alguma coisa sobre o assunto na mídia brasileira, mas não vi nada. Jornais estrangeiros não esquecem esses fatos, especialmente os europeus.

Nesse dia, os nazista agrediram judeus por toda a Alemanha, à mando de Goebell, ministro da Informação de Hitler (hoje, marqueteiro) e com a concordância do partido nazista. Suas pessoas, suas propriedades, lojas e casas, foram atacados e destruídos em todo o país. Foi um prenuncio do que estaria por vir no “Reich” dos propalados mil anos.

Foram mortos cerca de cem judeus, foram destruídas centenas de sinagogas, escolas, lares, e lojas a eles pertencentes. Cerca de 35.000 foram presos, muitos dos quais foram enviados aos já então criados campos de concentração, torturados e assassinados. Foi o começo do Holocausto, que matou seis milhões de judeus. E outras etnias consideradas inferiores pelos “deuses” nazistas.

O argumento dos nazistas foi de que isso era uma reação espontânea ao assassinato de um diplomata alemão em Paris, Ernst Von Rath, morto por um judeu polonês de 17 anos, Herschel Grynzpan. A história diz que ele procurava se vingar, em razão da perseguição à sua família na Alemanha. No entanto, o ataque aos judeus estava muito bem preparado, as organizações nazistas devidamente orientadas pelo partido, e a policia e corpo de bombeiros instruídos para não interferir. Uma noite de terror, muito bem orquestrada, tudo executado com a melhor eficiência, que é e sempre foi a marca registrada do país. A morte do diplomata foi um argumento fajuto.

Quando olhamos para o mundo de hoje, com as conturbações que andam por aí, quando vemos os desentendimentos crescentes no Oriente Médio, as chamadas “primaveras árabes”, a falta de dialogo entre as nações, não há como não nos preocuparmos com o futuro. O que esperar de tudo isso? Teremos adiante novas “noites de cristal”, sem alvo definido ou motivações evidentes?

O que esperar de vândalos, como os que ultimamente surgiram em nossas cidades, sem posições claras ou razões objetivas para um tresloucado comportamento, que prenunciam apenas a anarquia e o desprezo pelo direito dos outros e pela convivência sadia? Do protesto pelo protesto?

Por isso, é bom lembrar essa noite marcante da história da humanidade. Lembrando o passado, podemos evitar que ele se repita. A tolerância dos cidadãos, que aceitaram a destruição e os ataques com um “não foi comigo”, os levaram a pagar muito caro por essa indiferença. Que não se repita o mesmo nos dias presentes e especialmente entre nós.

O populismo, o desprezo pela liberdade em geral e da imprensa especialmente, o desrespeito ao direito, a aceitação das agressões ao patrimônio público e privado, às pessoas e aos policiais, nos leva a prever um triste cenário para o futuro deste país. E não vemos uma reação inteligente ao problema. Muita conversa e pouca ação.

Escrever é uma arte. Para alguns, fácil. Para outros, uma dificuldade. Estou no meio. Gosto de escrever. Quando tenho inspiração, a palavra vem fácil. Quando não tenho, desligo o computador e deixo para depois.

E o nosso português é uma língua complicada. O que tenho visto de erros em nossos jornais! A troca da 3a. pessoa do presente do indicativo pelo infinitivo é uma constante. “Vê”, em vez de “ver”; “dá” em vez de “dar”; “está”, em vez de “estar”, são comuns. Há poucos dias, alguém usou “haver”, em vez de “a ver”. Faço um esforço grande para evitar erros. A crase dá um trabalho danado. Dias atrás, mandei um artigo para um amigo, muito crítico, escritor, tradutor, para quem só mando artigos que eu acho bons e, penso, sem erros de português. Mas, ele sempre encontra algum erro e faz comentários, críticos. Num dos últimos ele disse: gostei, mas cuidado com as crases. Português não é fácil.

Como princípio, uso a orientação de Winston Churchill, um dos maiores escritores do século passado. Ele dizia: das frases, as mais curtas; das palavras, as mais simples. Uma ótima orientação, que procuro sempre seguir. Outro cuidado que tenho é não ser prolixo. Lembro-me que sou um preguiçoso para ler artigos compridos. Como eu, devem existir muitos outros. Tento limitar os meus ao máximo de 500 palavras. Geralmente, paro aí em volta das 400. Com o Word, que mostra a quantidade de palavras escritas, isso fica fácil. Este, vejo, tem 468 palavras.

Mas, o mesmo Word que lhe ajuda, corrigindo até seus erros de ortografia, também lhe prega peças desagradáveis, substituindo palavras que você usa por outras que não cabem no texto. Que sairão, se você não tiver o cuidado de reler. Releio tudo o que escrevo com muito cuidado e ainda saem erros.

Portanto, a vida do escriba não é fácil. Admiro esses jornalistas que, todos os dias, conseguem juntar palavras sobre os mais variados assuntos. Haja inspiração. Venho escrevendo, normalmente, uma vez por semana, para este jornal. E já tive momentos em que juntar essas quinhentas palavras foi um sacrifício.

Lembro como comecei a escrever. Muito cedo, fui trabalhar com meu pai, que tinha um escritório de representações. Naquele então, a alma de um escritório desses era a correspondência. Tudo era resolvido por meio de cartas, que levavam, entre ir e voltar, uma duas semanas. Algum coisa mais urgente, telegrafo nacional; se mais urgente ainda, telegrama Western. Pouco usados, por serem caros.

Depois de certo tempo, passando por tudo que era afazeres, terminei tomando conta da correspondência. Eram vinte, trinta cartas por dia. Os assuntos eram os mais variados. Isso me ensinou duas coisas – datilografia e flexibilidade. Sem dúvida, foi um ótimo aprendizado. Os assuntos são diferentes, mas a experiência e a prática não.

Fazia tempo que não dava o ar de sua graça. Muito ocupado, desculpou-se o meu extraterrestre preferido, Roberto. Esse mundo de vocês está cada vez pior, disse; e o nosso trabalho, cada vez mais difícil. E sem perspectivas de sucesso. Uma loucura. Tenho viajado, e ultimamente passei um bom tempo no Oriente Médio. O Brasil, comparado com aquela bagunça, é um paraíso. Por isso, andei desaparecido. Mas, arranjei um tempinho e vim lhe dar um abraço. Como vão as coisas?

Ando meio ressabiado. Quando olho ao redor e vejo a bagunça generalizada que vai pelo país, me assombro. Por todos os lados, desentendimentos, brigas, arruaças, confusões e nenhum entendimento, bom senso, inteligência. Fica a pergunta: onde vamos parar? Não sei. Apesar de você dizer que, comparados com os países mulçumanos, somos um paraíso, com o que concordo. Mas, às vezes, penso em fazer como um amigo, que deixou de ver os jornais na TV. Deprimentes. Como não sou avestruz, continuo assistindo. Esses noticiários parecem ter prazer em mostrar o pior do país.

Os protestos, que você deve ter acompanhado, alguns até legítimos, são contaminados pelos vândalos mascarados – e sem o protesto dos não mascarados. Organizações que deviam pensar melhor, algumas delas até bastante representativas, se mobilizam para tirar da cadeia, onde deviam estar, os baderneiros contumazes, alguns já com várias prisões. São soltos antes de serem presos. A Policia, acuada pelas chamadas entidades defensoras dos direitos humanos, e outras que tais, reage mal e quando o faz, por vezes, realmente exagera. Mas, me coloco na posição deles e me pergunto: como eu agiria? Sob pressão, até mesmo com risco de morte em muitos casos, não sei qual seria minha reação. Provavelmente violenta, pelo medo.

No campo político, a inércia total – a não ser quando se trata dos próprios interesses. Próxima eleição, mudanças de partidos, reforma que lhes beneficiam ainda mais, tudo olhando 2014, funciona. E, para nós, aqui de fora, fica difícil entender. Agora mesmo, no nosso Estado, vimos o presidente nacional de um partido intervir numa legenda local, sem qualquer justificativa inteligente, destituindo um presidente escolhido por seus pares e colocando um outro que caiu de pára-quedas, lançado de Brasília. E criou a maior confusão, como teria que ser. O partido em causa provavelmente vai desaparecer, e com razão.

As eleições ocorreram há algum tempo e continuam sendo contestadas. Cassam candidatos eleitos como se fossem simples bandidos (às vezes são). Suspendem tais cassações com a mesma rapidez. Mas, toda essa balbúrdia só contribui para o descrédito generalizado do nossos sistema político e de nossas instituições (ainda existem?).

E não é só o político. O executivo é uma tristeza. Para onde a gente se vira, o desastre impera, a insatisfação se multiplica, e o fim do mundo parece estar na próxima esquina. E o judiciário? Bem, é só ver o comportamento de juízes do STF e nada mais precisa ser acrescentado.

Roberto, diga-me, você ainda tem fé no Brasil? Pois eu lhe digo. Apesar de tudo isso, eu ainda acredito que vamos melhorar. Sou um otimista nato.


Dalton Mello de Andrade é professor universitário aposentado.

Essas conturbações que andam pelo país, que deixam todos preocupados, me trouxeram o desejo de mudar de assunto. Esqueçamos por um momento manifestações, baderneiros, espionagem americana, mais médicos, pré-sal e outras mazelas, infelizmente numerosas, que nos rondam. E que, pelo jeito, vão demorar a acabar. Lembrei-me de um amigo que toda vez que se puxava o Brasil como tema, especialmente se fosse sobre política, saía-se com um “mudemos de assunto; neste país sou turista e não me intrometo em seus problemas”.

Essa lembrança me trouxe passagens ótimas, na convivência com vários amigos que partiram. Figuras inesquecíveis, como Alvamar Furtado, Araken Pinto, Odilon Garcia, Mozart Romano, Eudes Moura, entre outros.

Mas, hoje, vou comentar apenas sobre Eudes, que se foi a quase dois anos, e sobre o qual Ernani Rosado dizia: Eudes não é para ser compreendido, é para ser usufruído.É que era uma figura diferente, complicado, voluntarioso, e a sua devia ser, sempre, a opinião final. Mas de uma inteligência e versatilidade cativantes. Divergíamos muito, e um dia lhe disse, no auge de uma discussão: você é um cara de muita sorte; arengueiro, caturro, complicado, e ainda tem amigos que lhe toleram e gostam de você. Concordou. Se foi aos 84 anos, no meu entender ainda “um menino”; se não na idade, na forma de olhar e viver a vida.

Quem o conheceu de perto, sabia que era uma figura eclética. Entendia de tudo, e não só de medicina, que era o seu métier. E há um detalhe. Quando não sabia, ou tinha dúvidas, achava uma resposta que lhe satisfazia, pensando que também nos satisfaria.

Gostava de brincar de arquiteto. Ficava feliz quando era consultado sobre o assunto, e desenhava soluções; e desenhava bem. Em Jacumã, quando fiz a reforma de nossa casa, deu vários palpites, muitos aceitos. Não gostava quando suas opiniões não eram seguidas. Questionou minha mulher por que não adotou uma de suas sugestões e ouviu de volta, “pedi sua opinião e isso não quer dizer que devo adotá-la”. Levou na esportiva.

De musica, era conhecedor profundo. Clássica, jazz, bossa nova. O testava, especialmente em musica clássica. Colocava um CD, sem dizer qual, e perguntava: que musica é essa? Dizia qual era, o compositor e, muitas vezes, até a orquestra e o maestro. Raramente se enganava.

Costumávamos nos reunir nos fins de tarde, pelo menos uma vez por semana. Mais das vezes em sua casa, algumas vezes na nossa casa. Ouvíamos musica, víamos algum filme novo, e tomávamos um “scotch”. E falávamos de Deus, e do mundo. Do Brasil inclusive. Não foi ele que disse ser turista por aqui. De vez em quando, inventava tomar um chá, o chá das cinco (passou um tempo na Inglaterra). Com todo o ritual britânico, com “milkandcookies. E dizia: Dalton, já imaginou quando pessoas em Natal estão tomando chá e ouvindo Wagner? E eu, que conhecia bem a figura, respondia: só eu e você.

Fumava cachimbo, charuto, cigarro. Não fumo. Na casa dele, não podia reclamar. Na minha, coloquei uma plaquinha de “proibido fumar”. Assim que chegava, virava a placa e acendia o cachimbo. Uma figura. Típico Eudes Moura.
Faz uma falta danada.

Dalton Melo de Andrade é professor universitário aposentado

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Estive imaginando um pais maravilhoso. Pasárgada? Não, Cuba. Cuba deve ser mesmo um pais maravilhoso. Você não ouve falar em greve, seja de que natureza for. O povo nada reclama. Não há manifestações, nem baderneiros. O pais não tem miséria. Todos estão felizes.

Tão felizes que, com uma boa vontade extraordinária de ajudar os outros, se prestam a trabalhar em qualquer país, ganhando salários ínfimos, deixando suas famílias para trás. Não sabem aonde vão trabalhar, durante quanto tempo e não têm qualquer idéia do ambiente de trabalho. É necessário muita dedicação, muito amor pelo próximo, muito desprendimento pessoal, para se sujeitar a esse tipo de trabalho. Impressiona.

Fico imaginando o descontentamento por aqui. As manifestações nas nossas ruas, hoje dominadas pelos baderneiros; um numero inusitado de greves, com motivações que vão desde as realmente justificáveis às totalmente irracionais. O total desrespeito as autoridades, qualquer autoridade. A leniência com que são tratados os criminosos, dos politicos ao mais simples cidadão e por pior que seja o seu crime. Justiça que tarda e mais das vezes nunca chega. E quando chega, para alguns já é tarde demais. Morreram.

Não dá para entender essa liberdade excessiva que temos, de reclamar de tudo, meter o pau no governo e nos governantes. Desafiar a Polícia, agredir concidadãos sem justificativa, roubos, saques, as brigas no trânsito, o desrespeito a tudo e a todos. Desrespeito total aos direitos dos outros. A gente chega a pensar que está tudo errado. Algo tem que ser feito.

Quem sabe? Imitar Cuba e sua democracia? Quem pode duvidar de democracia sólida, num pais tão bem governado que mantém os mesmos dirigentes há mais de 50 anos, e quando muda é de irmão para irmão? E mantidos no poder em eleições simples e honestas, em que nem sequer há concorrentes? Com um só partido, que tão bem responde aos anseios do povo, enquanto aqui, temos sopas de letras que se dizem partidos, mas na verdade nada representam? Adotar sua economia, onde todos ganham mais do que suficiente para uma vida decente e dedicada ao próximo? Onde impera a compreensão e a irmandade, a bondade é evidente e o amor e dedicação ao país surpreende? E não só ao país, mas também aos estrangeiros?

Claro, existem alguns pessimistas, desmancha prazer, que mostram fotos e fatos, e se apresentam insatisfeitos com essas bonanças. Asseguram que o povo vive mal, quem falar do governo vai parar na cadeia, que possíveis manifestações são combatidas no nascedouros com o desaparecimento dos líderes, que falta comida e saúde. Existe até uma moça, Yanis Sanchez, que tem a coragem de afirmar tudo isso pela internet. E, milagre, já foi presa algumas vezes, mas conseguiu ser solta, o que mostra a tolerância do governo cubano. Nem precisava da indevida e incompreensível pressão internacional, que invade o direito de decisão do povo cubano. Teve, depois de muita luta, autorização para sair do país. O governo de lá resistia, para não contaminar outros países com suas idéias esquisitas. Veio ao Brasil. Mostrou todo o sofrimento do povo. Foi preconceituosamente recebida pelos amantes da liberdade naquele país, mas que odeiam a nossa liberdade. Provaram, por a mais b, que ela é uma mentirosa e que o paraíso é lá mesmo. Mas, nenhum deles se candidata a morar lá.

Talvez, como não querem ir para o paraíso e preferem o nosso inferno, estão trazendo alguns anjos para cá. É rezar para que não se contaminem com o nosso comportamento arruaceiro, com a nossa mania de liberdade, com a nossa leniente democracia. Podem, quando voltarem ao seu país, contaminar o paraíso onde vivem. Todo cuidado é pouco.

O que tem sofrido de prorrogação o termino do prolongamento da Omar O’Grady, que o governo chama de Prudente de Morais, com as desculpas mais esfarrapadas que se pode ouvir, daria para escrever um manual de como não administrar uma obra. E, agora, a informação de que a parte já terminada apresenta falhas e buracos, completa a descrença do povo, nos quais me incluo, nas autoridades ditas constituídas.

Dias passados vi na TV um programa sobre o problema dos buracos nas ruas e estradas no Brasil, o que não é novidade. Levou-nos a um laboratório universitário, onde uma professora mostrou o óbvio. Toda essa buraqueira é causada por pura e constante incompetência. Simples assim: as normas técnicas não são observadas. E essa incompetência é a mesma que leva ao atraso ad infinitum na conclusão de obras públicas.

Lembrei-me de meu tempo de menino, morador da Rua Açu, pertinho da Hermes da Fonseca – ano de 1942, acho. Os americanos, que já estavam por aqui em número e construíam Parnamirim, iniciaram a construção da “pista”, como ficou conhecida. Novo acesso ao aeroporto, pois antes se ia por Macaíba. Uma lonjura, com as estradas de então; simples caminhos carroçáveis. Essa pista resistiu a todo o tráfego da guerra, intenso, e ainda sobreviveu por um tempão, até ser recoberta pela nova via dupla.

Depois da aula, um dos meus passatempos era ver a construção, que foi super rápida. Umas máquinas enormes, “nunca antes vista neste pais”, que em pouco dias faziam não sei quantos quilômetros, nos deram a estrada em pouquíssimo tempo. Curioso, prestava atenção aos detalhes.

A estrada era composta por várias camadas. Não perguntem de que, exatamente. Mas, tinha uma quantidade razoável de cascalhos nas camadas inferiores, uma lapada de asfalto grosso com cascalho fino depois e, no final, um asfalto mais fino, que dava à superfície uma película lisa. Em pouco tempo, e com tantas máquinas, estava tudo pronto. Uma dessas máquinas, que me chamava mais atenção, era uma tal de “Barber Greene”. Enorme, da largura da faixa de rolamento, tinha um grande depósito onde os caminhões derramavam a camada de asfalto e ela espalhava na estrada. Acho que ainda hoje é usada. Mas, naquele tempo, e em Natal, era uma grande novidade.
Posso até estar enganado. Apesar do movimento intenso, nunca vi uma buraco nessa estrada. Uma estrada construída rapidamente, que para eles tinha que durar apenas durante o tempo que a usariam, dois, três, quatro anos, ficou aí sendo usada por não sei quanto tempo mais. Resultado da tecnologia utilizada, preocupação com a qualidade e, talvez mais importante, sem marreteiros no meio.

E nós? Não aprendemos nada e o exemplo não vingou. As obras sem fim e os buracos inúmeros que o digam.

Dalton Melo de Andrade - Escrevinhador

A votação demorou muito. Fui dormir, mas certo de que o deputado seria cassado. Quando acordei e liguei o computador, para ver as notícias, não acreditei. O criminoso condenado não havia sido cassado! Apesar do presidente Henrique esperar um tempão para aumentar o comparecimento, apenas 405 deputados estavam presentes. Faltaram 108. Nunca antes na história deste país se viu absurdo tão grande. E Lula tinha razão, quando falou nos 300 picaretas. A soma dos que votaram contra, se abstiveram e não compareceram somam 280.

Fiquei pensando. Como isso pode acontecer? Claro, não fosse secreto o voto, ele teria sido cassado por unanimidade. Disso, ninguém duvida. Foram 233 pela cassação, 131 contra e 41 abstenções. E mais 108 fujões. Pelo menos desses sabemos o nome, pois a ausência é anotada.

Como classificar esse povo? Para os que votaram contra e se abstiveram, é compará-los com os baderneiros que, atrás de máscaras, quebram tudo que vêm pela frente, nada respeitam, e ainda ficam impunes. Atrás do voto secreto, o comportamento é idêntico. Não são confiáveis. Os que faltaram, não merecem classificação. Um ou outro, talvez, venha a apresentar uma desculpa amarela por estar ausente.

O Presidente Henrique Eduardo, num gesto corajoso e de respeito ao povo, resolveu declarar suspenso o mandato e permitir a posse do suplente. E ainda disse que não mais promoverá votações desse tipo até que seja aprovado o voto aberto. Tem o apoio de todo o povo brasileiro. Ponto pare ele. Diminuiu a decepção de todos com esse resultado esdrúxulo e inesperado.

O que fica disso tudo é de que, se o Congresso já era o campeão absoluto do desprezo do povo brasileiro, com essa votação terminou de arrasar com a ínfima confiança ainda existente aqui e ali.

Escrevo este artigo dominado pela indignação. Sou um indivíduo tolerante, mente aberta e aceito o contraditório com a maior facilidade. Mas, tenho a impressão que estamos chegando ao limite. Pergunto, como um deputado, mesmo tendo votado pela cassação, pois não se sabe quem foi, vai ter coragem de sair às ruas e pedir votos? E, pior, mesmo que ele declare haver assim votado, quem vai acreditar?

Adquiri, pela idade, um direito que deveria ser de todos os brasileiros, a liberdade de votar ou não, ao seu bem querer. Essa história de voto obrigatório é uma estupidez. Tenho pensado em não renovar o meu título de eleitor. Mesmo escolhendo o melhor, e sempre procurei votar no melhor, independente de partidos que nada valem, nosso voto não tem valor. E o sacrifício para a renovação – pelas filas e quantidades de carros que vejo em frente ao TRE -, não vale a pena. E uma andorinha só não faz verão, mesmo com o apoio do Ibama e do Idema.



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