NATAL PRESS

“We shall never surrender”. Palavras ditas por Churchill em seu famoso discurso ao Parlamento no dia 4 de junho de 1940, logo após nomeado Primeiro Ministro, diante das ameaças da invasão da Inglaterra, e poucos dias antes da rendição, já prenunciada, da França. Nesse discurso, em que conclamava o povo a lutar até o fim, enfatiza que a Grã Bretanha nunca se renderá – “nunca nos renderemos”.

É assim que me sinto hoje, quando olho e vejo as candidaturas que se propõem, no Brasil e no nosso Estado. Não podemos nos render. Temos que lutar por um país melhor. A eleição é a nossa arma principal para combater tudo o que está errado por aí.

Sei, e você também, como é difícil a escolha de um bom candidato. Dá vontade de desanimar e jogar tudo para o alto, entregar à Deus, e esperar um milagre.

Estamos vivendo um momento desses em nosso Estado. Procura-se, e não se acha, da parte dos candidatos falados, a mínima menção aos nossos problemas, que vêm num crescendo insofismável. Tudo gira em torno de nomes, que para o eleitor comum, e com um mínimo de consciência, não têm o maior significado. Ou o menor apelo. Acabam de fechar um chapão sem nenhuma novidade, ou qualquer atrativo.

Infelizmente, é o que aí se propõe. Como sou um otimista nato, tenho certeza que, no meio de muitos, encontram-se alguns que merecem nosso apoio. Podem não ser os de seu coração, talvez não respondam a todos os seus anseios mas, comparando com os demais, se sobre-saem. A escolha de seu candidato está exatamente nisso – comparar com os demais. Deixar de votar não é a solução, pois você contribui para eleger alguém que, no seu entender, não merece ser eleito. Votar em branco também não resolve; pode ajudar a eleger alguém que não teria o seu voto.
Os políticos profissionais, de forma geral, pensam que uma coligação, que julgam forte, de muitos partidos e de muitos candidatos, garantem automaticamente sua eleição. Esquecem que, como ainda não instituíram chapas fechadas, o que pretendem, nós ainda temos a possibilidade de votar em candidatos separados e de partidos diferentes, em função de nosso entendimento. Por isso, essa história de chapão fechado não funciona como eles desejam. Chapão rima com apagão. Ainda bem. Nós já tivemos, no nosso Estado, esse exemplo. Chapas que se julgavam eleitas, pelos apoios intensivos e numerosos que tiveram, perderam a eleição.

Não desanime. Não se renda. Acredite no futuro. E não deixe de votar. Na minha idade, não sou mais obrigado a votar. Mas esse é um direito do qual não abro mão, mesmo com as dificuldades naturais de locomoção e aglomeração.

Ronald Reagan, que os adversários chamavam de canastrão, é hoje considerado um dos melhores presidentes dos EUA. Liberal, dizia que não há nada pior que um governo legisferante. E acrescentava: toda vez que o governo faz uma lei nova, ou vai entrar no nosso bolso ou infringir em nossa liberdade.

É assim que me sinto diante desse tão falado e discutido marco da internet. Dizem alguns comentaristas que é a “constituição que faltava para a internet”. Outros, mais desconfiados, como eu, acham que essa legislação é totalmente dispensável, pois já temos leis que cobrem todos os aspectos nela inseridos. Aliás, nossa Constituição, extremamente minuciosa e detalhada, já cobre praticamente todos os pontos mencionados, sem contarmos com a enormidade legislativa adicional existente. Dizem, por sinal, que o detalhamento exagerado de nossa Lei maior só esqueceu de nomear os animais do jogo do bicho. Nesses dias, vai aparecer um deputado com a proposta de uma PEC nesse sentido.

Essa lei ainda vai para o Senado. De lá, se não modificada, à sanção presidencial. Na realidade, não acredito que venha a trazer benefícios ou prejuízos maiores no funcionamento da internet, como hoje ocorre. Há um ponto, que se refere à neutralidade da rede, que alguns acham interessante; é o que diz que todos devem ter o mesmo tratamento por parte dos provedores. No meu entender, isso já está assegurado por leis existentes. O que o governo queria, e felizmente foi derrotado, seria a implantação de servidores locais para o armazenamento de dados, o que lhe permitiria invadir nossa privacidade. Afora isso, nenhuma novidade maior, benéfica ou maléfica.

Uso a internet há muito tempo. Comecei a usá-la antes mesmo de estar disponível no Brasil. Era assinante de um provedor americano chamado “Compuserve”. Fazia seu uso por ligações telefônicas internacionais, o que era caro e, por isso mesmo, pouco usava. Era tudo por mera curiosidade. Depois, a Embratel começou a oferecer esse serviço. Assinei. Era lento, caro e errático. Surgiu um outro em São Paulo, Mandic, privado, bem melhor do que o da Embratel, também por telefone de longa distância; assinei, mas pouco usava, dado os custos. Surgiram depois alguns provedores locais e a coisa começou a melhorar. Se não me engano, um dos primeiros daqui foi o Digizap, e eu fui um dos primeiros assinantes. Hoje, temos um bom número de provedores, preços razoáveis, embora ainda caros se comparados, por exemplo, com o Canadá, onde meu filho paga uma quantia irrisória por um serviço excelente.

Esse aspecto dos preços não é mencionado nesta nova lei. Acho certo, pois o mercado é dinâmico e não pode ser constrangido. Com o aumento da oferta, que tende a crescer, esse preços deverão cair. Como, aliás, já vem acontecendo. Mas, num país que já estabeleceu taxas de juros na Constituição, tudo é possível. Burrice não tem limites.

Portanto, do alto da minha ignorância, me pergunto. Para que diabo mesmo serve essa nova legislação? E não encontro resposta.

Nada como encontrar velhos conhecidos! Este, do qual vou falar, o conheço há bote tempo nisso. E reencontrei-o como resultado de um papo, lembrando as coisas boas da vida, com um grato amigo.

Falávamos sobre os Estados Unidos, como eram e como são hoje, quando nos recordamos dos primeiros livros que, já com alguma lucidez e com um senso critico em desenvolvimento, começamos a ler sobre o país, onde depois viveríamos um certo tempo. Lidos, como disse, bote tempo nisso.

Lembrei-me de Vianna Moog que, no meu entender, escreveu das melhores análises comparando nossa formação e a dos EUA. O livro, “Bandeirantes e Pioneiros”, que li pela primeira vez aí pelos anos tantos, continua uma releitura predileta, pela sua atualidade. Meu primeiro exemplar, de priscas eras, perdeu-se no tempo e no meio das minhas mudanças. Mas, comprei outro num sebo do RS. O guardo com carinho e ciúme.

Mencionou esse amigo um outro livro ontológico, das melhores sobre o país. De um dos mais versáteis escritores, de uma linguagem agradável, de uma prosa gostosa, que você lê de uma assentada. E prolífico. Sua bibliografia é das mais amplas e todos os seus livros, com uma ou outra exceção, dependendo do gosto de cada um, excepcionais.

Falávamos de “Gato preto em campo de neve”. Dos melhores comentários de uma viagem feita aos Estados Unidos. A viagem foi no inverno de 1941. Como não tinha mais o livro, resolvi comprá-lo e o encontrei num sebo de SP. E, na embalagem da compra, inclui também outros dois livros dele que queria reler – “A Volta do Gato Preto” e “Solo de Clarineta”, este uma espécie de auto-biografia, cujo segundo volume já não foi terminado por ele. Falo de Érico Veríssimo.

Na “Volta”, fala de sua vivência como professor universitário na Califórnia. No “Solo”, conta de sua vida e menciona o período que passou como Diretor do Departamento de Cultura na OEA. Quando lá trabalhei, o então Diretor, também escritor, um mexicano naturalizado de origem espanhola, Xavier Malagon, um bom amigo, o havia conhecido e conversávamos sobre ele. Malagon trabalhou com Érico Veríssimo, e é lembrado por ele no “Solo,” quando comenta sua passagem pela OEA. Fui parar na OEA vinte anos depois dele.

Terminei de reler, com grande prazer, o “Gato Preto em Campo de Neve”. O fiz comparando com a minha própria vivência naquele pais e posso afirmar, sem receio, que o que ele descreve e comenta pouco mudou nestes anos todos. Sei, e se sente isso quando se vai hoje aos Estados Unidos, que aquela despreocupação, aquela tranqüilidade e aquela recepção cordial e amiga que se sentia por lá em todos os lugares, não é a mesma. Durante os anos que por lá vivi, nunca, em nenhum lugar, me pediram qualquer documento, inquiriram o que estava fazendo, ou tiveram qualquer desconfiança. O terrorismo teve um reflexo negativo no pais, como não poderia deixar de ser, pois o risco é presente e permanente.

Só um exemplo. Ele conta que visitou a Academia Naval de Anápolis, entrou, andou, virou e mexeu, comeu na cafeteria e foi embora e ninguém lhe perguntou nada. Um dos meus passatempos era levar amigos à essa Academia. Ficavam todos surpresos, e pensavam que eu era o dono. Como Érico Veríssimo, entrava e saída sem uma só pergunta de quem quer que fosse. Os guardas, à entrada, nos viam passar sem sequer parar o carro. E, às vezes, ainda faziam continência. Hoje, com essas ameaças terroristas, não sei. Fiz isso nos anos setenta, vinte anos depois de Veríssimo, e nada tinha mudado.

Mas, reafirmo, revisitar velhos conhecidos é dos maiores prazeres que você pode ter. E, hoje em dia, esse é um dos meus melhores passatempos. Como disse um velho amigo quando conversamos por telefone outro dia e prometi visitá-lo: venha logo, antes que a gente parta. Portanto, não perca tempo e mande brasa.

Não sei como você se sente, mas eu já não consigo acreditar em mais nada do que dizem os políticos. De todos os partidos e todas as cores. Um arco íris desmoralizado.

A campanha política ainda não esquentou totalmente, mas nunca deixou de estar presente. Especialmente nas ações e propagandas do governo federal, que há muito só tem uma preocupação, a reeleição dos atuais titulares, em todos os níveis. Sem falar do estadual. Os interesses do país, e do povo, como sempre, em segundo plano, e as decisões, todas demagógicas, só enxergam outubro de 2014. Enquanto isso, tudo vai mal e piorando a cada dia.

Para onde você olha, e repetir isso já é chover no molhado, as ações do governo são desastrosas. A ideologia passou a dirigir as decisões, deixando de lado as necessidades reais da população e da nossa economia. Nosso suado dinheirinho, em vez de ser usado no pais e para nosso beneficio, agora vai para países como Cuba e africanos, que nada nos dizem e nada de positivo nos trazem.

Essa enganação de que esse porto em Cuba, por exemplo, nos trás grandes negócios, é pura piada. Cuba não tem nada a nos vender e pouco a nos comprar. Dizer que uma planejada zona de exportação irá atrair empresas brasileiras é balela. Quem, em sã consciência, pensando em termos econômicos, vai investir num país como esse, que nada tem a oferecer? Se nós, uma pujança em termos de mercado, com uma economia felizmente ainda funcionando, apesar dos mal feitos diários do governo, estamos perdendo investimento e sem atrair novos, o que dizer de uma economia falida, desacreditada e sem perspectivas? Se diz que 400 empresas brasileiras estão dispostas a investir em Cuba. Aqui, no RN, temos um projeto de uma zona desse tipo há anos, sem um centavo de investimento até hoje. Agora, surgiu um empresário dizendo que vai implantar a tal ZPE. A entrevista que deu deixou mais duvidas do que certezas. Lembrei-me de um conde com nome de alemão que apareceu aqui no governo de Cortez e montou uma empresa, uma tal de Algimar, para industrializar algas. Fez um projeto para a SUDENE, deve ter recebido dinheiro, e nunca produziu algo com algas.

Chega de enganação. Chega de nos impingirem decisões políticas com rotulo econômico. Chega de considerarem a todos nós como idiotas, incapazes de saber o que queremos e discernir as decisões desastrosas que estão sendo tomadas. Quando esses políticos entenderão que já não nos deixamos enganar? Alguns ainda podem ser enganados; outros, aceitam essas decisões fajutas por puro interesse. Mas, a grande maioria esclarecida começa a cansar de tanta enganação e a reclamar de tantos gastos irresponsáveis. E o nosso dia de vingança se aproxima. Pense bem antes de escolher o seu candidato. A grande maioria é ruim, ou muito ruim. Mas, procurando, ainda se encontram alguns que podem ser votados. Procurem, e encontrarão. Eu ainda estou buscando. Mas, vou achar.

Manter o peso físico, para mim, não é difícil. Mas, quanto ao peso da idade, a coisa já se complica.

Faço um esforço danado. Vou a academia três vezes por semana, por uma hora. De manhã, por volta das oito. Minha alimentação é cuidadosa e sou moderado nas bebidas. Mas, tomo um copo de vinho todos os dias no almoço, que dizem ser bom para o coração. Pode até não ser, mas me faz bem. Tomo um whiskey de vez em quando, às vezes um gin tônico. Afinal, ninguém é de ferro.

Fim de ano, vou com a família para Jacumã, onde temos uma casa há mais de trinta anos. Naquela época, a estrada era péssima, à nossa casa só se chegava a pé ou de bugue. Não tinha energia, nem água, nem telefone. E não havia celular. Quando lá, estávamos fora do mundo. Melhorou, mas falta energia de vez em quando, as operadoras de celular oferecem serviços precários, a internet é um sonho longínquo. Era, e é, uma forma de juntarmos toda a família, e convivermos de perto por alguns dias.

Para manter a fibra, caminho por pelo menos meia hora, quase todos os dias. De preferência, cedinho, antes do sol esquentar demais. Como sou um madrugador, seis e meia, sete horas, já estou na praia. Termino com um banho de mar. A essa hora, a praia está quase vazia, pouca gente.

Quanto todos acordam, por volta das oito, oito e trinta, tomamos café e aí cada um faz o que bem entende. Eu e minha mulher ficamos um bom pedaço num espaço que temos em frente ao mar, conversando e observando o movimento. E aí começam a aparecer os caminhantes retardatários, para mim. Um dos nossos passatempos é tentar identificá-los.

Como estamos a uns duzentos metros da beira-mar, fica difícil identificar fisionomias. Mas, pelas barrigas (algumas enormes), pelo modo de andar, pelas companhias de caminhada, vai ficando relativamente fácil, para nós que estamos há tanto tempo na praia, identificar as pessoas. Confirmadas, depois, quando saímos mais tarde para um banho de mar coletivo e os encontramos.

Daí então, de longe, sabemos quem são as figuras. Barriga menor, passos mais ágeis, fulano. Esguio, passos rápidos, cicrano. Barrigão, lento, acompanhado e num bom papo, com uma figura de barriga mais modesta e passos que visam acompanhar o gorducho, beltrano e cicrano. E como há gente gorda! A gente se diverte e o tempo passa.

Às vezes, aparece uma figura nova, desconhecida, correndo. Atlético, jovem, com uma postura de campeão, vê-se logo que é novato. Aparece num dia e some. Um visitante, pois há algumas pousadas pelos arredores, parece sem muito movimento. Empreendimentos mirabolantes pensados no auge do dinheiro na Europa foram todos por água abaixo. Ficaram os cartazes de propaganda, com Beckman e Antonio Banderas, entre outros.

Como diz um amigo, ainda bem. Já pensou esse bando de gringos, muitos mal educados e metidos à besta, enchendo nossa praia? Eu já não penso assim; seria bom para nossa economia. Mas, os empreendimentos estavam mesmo fora da realidade. Caros, excessivamente luxuosos e pretensiosos. Deu no que deu. E a nossa Jacumã continua como nós gostamos. Tranqüila, sem arroubos maiores, e gostosa.

Há mais de trinta anos temos casa em Jacumã. Não sou adepto de pescarias. Não uso anzol nem redes. Precisa uma paciência de Job, que não tinha antes e muito menos agora. Minha isca é dinheiro. E, de peixe, o máximo que consigo é distinguir um bagre de um serigado. Meu filho, Júlio César, dá quinau em pescador.
No veraneio, o acompanho por toda a orla marítima do RN em busca de peixe. No mínimo, de Maxaranguape à Pitangui. Todos os pescadores o conhecem, e vice-versa. Mas, em Pitangui, sou mais conhecido do que ele. Por uma razão.

Compramos, outro dia, uma boa quantidade de peixes na Colônia dos Pescadores de lá. Júlio é exagerado, e compra como se fossemos consumir durante um ano; um dia desses, comprou uma quantidade tão grande (só um peixe pesava 18 quilos), que uma senhora lhe perguntou, doutor, sua família deve ser muito grande, né? Para tratar esse peixe todo leva um tempão.
Um pescador, educado, ofereceu-me uma cadeira, dessas de plástico, enquanto esperava. Agradeci, puxei a cadeira, e coloquei-a perto da beira do terraço. A cadeira escorregou, como sói acontecer com esse tipo, e caí fora do terraço. Felizmente, a altura era pequena e o chão de areia. Nada senti ou sofri. Um pescador correu e perguntou se eu queria água; agradeci. Ele trouxe uma cachacinha e aí eu tomei, pois ninguém é de ferro.

Daí em diante, toda vez que chegamos lá, escuto o zunzum. Um dos pescadores se aproxima, bom dia, professor, como vai?, antes mesmo de falar com Júlio, que escolhe e paga os peixes. Notoriedade conquistada a duras penas. Não se esqueceram da minha queda e, quando me oferecem uma cadeira, fazem questão de a colocar o mais longe possível da borda do terraço. Acho que confiam mais na cadeira do que em mim. Imaginem se levasse uma bengala. Na certa, ficariam segurando a cadeira o tempo todo.

De qualquer forma, de tanto andar pelas diversas cooperativas e colônias de pescadores dessas praias, já conheço um bocado deles. Muitas vezes, não têm peixe para vender. Quase sempre, porém, a quantidade disponível é bastante razoável, e variada. São sérios e honestos. Mesmo que você nada entenda, como eu, não lhe impingem gato por lebre, ou bagre por serigado. Nas conversas, contam suas experiências, o tempo que ficam no mar, a alegria das boas pescarias e a tristeza das más. Enfim, as agruras da vida de pescador – que não é fácil, alem de perigosa.

Gosto do papo. Sempre que Júlio vai comprar peixe, o acompanho. E ele gosta da companhia. Às vezes, ele deixa que eu pague. Contrariado. Mão aberta, faz questão de pagar. E eu deixo. Não discuto com meus filhos.

Morreu o maestro italiano Cláudio Abbado, aos oitenta anos. Um dos melhores do século passado. Aos 35 anos, já era o líder da Orquestra do Scala de Milão. Dirigiu orquestras em Londres, Chicago, Viena, e por mais de 10 anos foi o maestro principal da orquestra que é considerada a melhor do mundo, a Filarmônica de Berlim.

Sua morte, que vem sendo lamentada pelos amantes da música no mundo inteiro, me trouxe a lembrança meus tempos de menino e de estudante de piano, curso que não terminei e sinto falta até hoje. Minha professora era Dulce Wanderley, de família tradicional de Natal, e que morava na rua do meu avô, Vigário Bartolomeu. Lutou durante perto de um ano em me fazer pianista, mas a minha preguiça, a falta de interesse, a falta de motivação e a não insistência de minha mãe, que terminou se rendendo aos meus argumentos, para tristeza minha hoje em dia, interrompeu uma carreira de pianista que, confesso, nunca seria brilhante. Sozinho, anos depois, autoditada, aprendi a tocar. Mas toco mal, embora me divirta e, às vezes, incomode os amigos que têm a paciência de me escutar. Mas toco.

Também me lembrei que, numa das muitas tardes em que nos juntávamos para ouvir música, eu e Odilon Garcia fizemos um levantamento dos pianos que existiam na Vigário Bartolomeu. Odilon morava em frente a casa de meu avô, e tinha piano. Na casa de meu avô, vizinha à Escola de Musica, onde hoje é o BNB, havia um piano. Minha mãe e minha tia, tocavam. Os meus tios, Protásio e Veríssimo, tocavam violão. Recordo Protásio tocando ukelele, uma cavaquinho havaiano. E, partindo da Escola, e sem incluir seus pianos, contados até o fim da rua na Ulisses Caldas, encontramos vinte pianos. Hoje, me pergunto, talvez com um certo exagero, para o qual peço perdão, será que existem vinte pianos em residências de Natal? Devem existir, claro, mas proporcionalmente à população, tenho minhas dúvidas.

Estão aí, para mostrar que devo estar errado, não apenas a Escola de Música da UFRN, mas muitas outras particulares, oferecendo cursos à vontade, e os teclados eletrônicos, com preços acessíveis, fáceis de transportar e super versáteis, animam todos a estudarem música. Há, também, ofertas abundantes para muitos outros instrumentos e o número de alunos é crescente. Um sinal positivo, sem dúvida.

No meu tempo de Atheneu, estudei música com o maestro Waldemar de Almeida. Um ano, ou dois, não me lembro bem. Mas me lembro perfeitamente de que não fiz parte do coral formado por ele. Na escolha dos componentes, quando abri a boca, foi logo dizendo – você está fora. O desenvolvimento musical, com cursos oferecidos nos Ginásios, desapareceu, o que prejudicou o desejo de muitos em aprender música. A minha decepção em não fazer parte do coral não justifica a eliminação de Música do currículo (risos). Parece que vai voltar. Seria bom.

Sempre gostei de música. De todos os gêneros, mas especialmente de clássica, bossa nova e jazz. Quando fui fazer mestrado nos EUA, cinqüenta anos atrás, encontrei uma hora vaga e fiz um curso de Apreciação Musical. Depois de assistir uma aula sobre Antonio Vivaldi, famoso compositor italiano do século XVIII, nascido em Veneza, comentava com um companheiro daqui sobre a aula quando um circunstante, também do RN, saiu-se com um comentário, no mínimo, original: Conheci esse cara, era o mestre da banda de música de Mossoró. Silêncio geral. As aulas de música e sua história, no Ginásio, fazem realmente falta.

Não posso falar por você, mas estou ficando cansado. Inclusive do tema deste artigo. O fato é que vamos de mal a pior. Quase não tenho mais paciência para acompanhar os noticiários de TV, jornais, revistas. Especialmente TV, mais dinâmico e mais atual. Repetem, o tempo todo e em todas as estações, crimes cada dia mais constantes e violentos, desgovernos cada vez mais evidentes, impunidades que se multiplicam e, para completar, anúncios e mais anúncios de bugigangas dispensáveis. E acentuam os desastres que são nossas segurança, saúde, educação, política e tudo mais que depende de ações de governos. Notícias positivas são raras, cada vez mais raras.

Poucos dias atrás, recebi de um amigo que mora em Brasília e trabalhou comigo no MEC um telefonema de Boas Festas e Feliz Ano Novo. Ele deve ser mais ou menos de minha idade. Mas, pela amargura, o senti desanimado. Reclamou de que morava no centro da bagunça, da desgovernança, da irresponsabilidade, da desonestidade, da ladroeira, da safadeza e do crime. E, acrescentou, sinto que tudo isso está se espalhando pelo resto do Brasil. Falta inteligência, espírito público, bom senso, patriotismo. Não acreditava mais em nada.

Fiz um esforço para animá-lo, embora, no fundo, sei que ele tem muito de razão. Na verdade, estamos mal. E, olhando ao redor, sem perspectivas de vermos alguma melhora num futuro próximo. Chega-se mesmo a desanimar, como esse amigo. Mas, disse-lhe, não podemos desistir. Lembre-se dos filhos e dos netos. Temos que tentar entregar-lhes um pais melhor do que o que herdamos.

Eu, que me considero um otimista nato, tenho momentos de descrença no nosso futuro. Com o que presenciamos no dia a dia, há que se ter um espírito forte, muita força de vontade, e muita confiança no futuro, para crer que vamos melhorar. É que, olhando para todos os lados, vemos sempre canalhice, desrespeito aos outros, anarquia, violência, roubo, assassinatos, desmandos, exploração do bem público em benefício próprio, e tudo sem punição. E, para completar, setores do governo e da sociedade defendendo esses criminosos como se vitimas fossem. Enquanto esquecem as verdadeiras vitimas e acusam a policia quando reagem como devem.

É ou não para desacreditar no nosso futuro? Necessita-se de muita fé, esperança e caridade, para confiar que as coisas vão mudar. Mas, reconheçamos, até mesmo essas virtudes têm limites, que parece já estão sendo ultrapassados. Queira estar eu errado.

Sonho com um Brasil, e um Rio Grande do Norte, que seja pelo menos assemelhado às propagandas publicadas pelos governos. Tudo azul e brilhante. E, logo em seguida, o sonho se desfaz com os noticiários mostrando, aí sim, o desastre que é o país real.

Novo ano, novas decisões. Sou um sujeito que me vanglorio de não ter fobias, raivas, complexos. Sinto-me livre dessas insinuações de Dr. Freud. Procuro mesmo nem sequer me lembrar disso. E vivo muito bem assim. Mas, nos últimos dias, e sem motivo aparente, comecei a ter uma terrível fobia contra as garrafas térmicas em geral e a daqui de casa em particular. O que me levou a uma decisão de Ano Novo.

Tenho a impressão, agora que comecei a sentir o problema, que a origem disso tudo foram uns safanões que levei de minha mãe quando, aí pelos onze, doze anos. Levando a maldita garrafa para a mesa, pesada, cheia de café, a deixei cair, espatifou-se, e espalhou o café por todos os lados. Além dos safanões, merecidos, ainda tive que limpar o chão, móveis, todos os lugares respingados. Ossos do ofício.

De lá p’ra cá, as ditas cujas têm me perseguido. Quando trabalhei na loja de meu pai, a gente vendia essas bichas. Uma variedade enorme – já naquele tempo – e o freguês levava um tempão enorme para se decidir. Olha uma, olha outra, não gosta dessa, não gosta daquela. Cara demais. Barata demais. Haja paciência. Tudo isso ia aumentando meu trauma, até então sem identificação. Ainda não havia lido nada de Freud, nem ninguém me havia falado dele, ou visto qualquer comentário em jornais ou revistas. Outros tempos, menos traumáticos. E ninguém sofre da doença que não conhece.

Depois de me casar, foi a minha vez de comprar uma garrafa para nossa casa. Aliás, eu não, minha mulher. Mas participava da escolha, como “expert” pelo tempo que passei como vendedor. Ela queria um modelo, eu “aconselhava” outro, e terminamos levando o que ela queria. De novo, ossos do ofício.

As garrafas sempre davam problema. A tampa não fechava direito, o café esfriava, quando fechava para abrir era uma dificuldade, era pequena, era grande. Terminava tendo que comprar outra. Uma novela interminável, feito novela da Globo. Afinal, era difícil viver sem elas. De qualquer forma, são úteis.

Pois bem. Agora, tomei uma decisão radical. Vou deixar de usar garrafa térmica na nossa casa. A última que comprei, de uma marca conhecida e que dizem ser a melhor (já as vendia na loja de meu pai, portanto experiência na fabricação não falta), fechava e não abria, abria e não fechava, o café esfriava, e agora começou a vazar por um lugar desconhecido. Uma chatice. Aposentei a garrafa definitivamente, ela e similares.

Vou retornar aos costume de meus avós. O café vinha para a mesa num bule de ágata, coberto com um abafador, que conservava o café quente. Uma tranqüilidade. Não esfriava, não derramava, a tampa não emperrava. Uma invenção inesquecível e cuja utilidade é válida até hoje. Não sei é se vou encontrar bule de ágata. O abafador minha mulher faz.
E, para os mais jovens, uma explicação: abafador era uma pano recheado com algodão ou coisa parecida, que mantinha o bule quente. E era minha avó quem os fazia. Mas tinha para vender.

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“Plus ça change, plus c’est la méme chose”

Esse velho ditado francês se torna mais verdadeiro a cada dia. Os jornais e a TV continuam a mencionar essa confusão sem fim, da provável defenestração da governadora. Essas notícias trouxeram-me à lembrança fatos passados, especialmente por que um dos circunstantes era o pai de Robinson Farias, meu amigo e companheiro de lutas, Osmundo Farias.

Ano de 1974. Éramos auxiliares do governo de Cortez Pereira. Osmundo, presidente do BDRN (Banco de Desenvolvimento do RN) e eu do BANDERN (Banco do Estado do RN). Osmundo, candidato ao governo do Estado. Como seu amigo de longa data, companheiro de governo, o apoiava o quanto podia. Não é preciso salientar que, naquele tempo, a escolha era do Presidente da República. Portanto, sua fortaleza tinha que ser, claro, política, mas com o imprescindível suporte militar. Osmundo tinha seus apoios de políticos locais, e também na área militar.

Dias antes da escolha do nome do nosso governador pelo Presidente, fomos à Brasília, foco da luta, para tentar garantir o nome de Osmundo. Tudo correu muito bem, mesmo com a oposição de Dinarte Mariz, cujo candidato era Tarcísio Maia. O apoio à Osmundo, na área militar, era patrocinado pelo Gal. Dale Coutinho, homem forte do futuro governo Figueiredo, de quem seria ministro da Guerra.

Saímos de Brasília para o Rio com Osmundo escolhido e praticamente nomeado. Jantamos com Garibaldi Ribeiro, então deputado federal e que apoiava o nome de Osmundo, já quase em ritmo de comemoração da nomeação oficial ainda pendente, mas certa. Pela manhã, notícia da morte repentina do general Dale. A estrutura de Osmundo se desmanchou. Dinarte mexeu com os seus pauzinhos e Tarcísio foi nomeado.

Será que não aconteceu o mesmo agora? Robinson, seu filho, com a decisão do TRE, já era considerado por todos como o novo governador. De repente, uma decisão dessas que só acontecem no Brasil. Uma única pessoa, embora com respaldo legal, desmancha uma decisão colegiada, e todas as expectativas se desmancham, por sua vez, no ar. Claro, o pleno do TSE ainda tem que se pronunciar, mas ninguém sabe quando e nem como. Enquanto isso, fica tudo em suspenso. E tempo para que os pauzinhos sejam mexidos. Como o tempo é curto, tudo pode acontecer, inclusive nada.

“Quanto mais se muda, mais fica a mesma coisa”.



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