NATAL PRESS

Sabem o que me deixa emocionado com essa Copa? O comportamento das pessoas, dos torcedores, de todos os países e todas as idades. Claro, os jogos são o centro de tudo. Mas, o comportamento das torcidas, como indivíduos, é o que me comove.

Uma coisa se faz evidente. Somos todos iguais. Brasileiros, argentinos, holandeses, ganenses, de qualquer país, cada um com sua peculiaridade, cada um expressando seu entusiasmo pelo seu time, somos, no fundo, todos iguais. O mesmo entusiasmo, o mesmo amor pelo seu time, a mesma torcida vibrante.

Tive esse experiência assistindo os jogos de Natal. Encontrei gentes de diversas nacionalidade; americanos, uruguaios, japoneses, italianos. Sentamos juntos. Torcemos juntos. Todos entusiasmados pelos seus time. Mas todos com um respeito completo aos adversários. Se houve algum incidente, e houve, em alguns estádios, apenas confirmam a regra - a lhaneza no trato, o respeito mutuo, e a brincadeira salutar em que cada um puxava a brasa para a sua sardinha. A grande maioria, para não dizer a quase totalidade, manteve um comportamento exemplar e civilizado.

Tenho a impressão que é por aí o maior legado dessa Copa ou, melhor dizendo, qualquer Copa ou qualquer competição esportiva entre nações. Essa aproximação de nacionalidades diferentes, pessoas diferentes, raças diversas, cada um com seu espírito de luta, cada um com sua escolha apaixonada, imbuídos de uma compreensão e respeito à escolha do outro, vão deixar entre nós uma lembrança imorredoura, e alguns exemplos que deveriam ser permanentes.

Quem, por exemplo, poderá esquecer os japoneses, limpando a parte que ocuparam no campo, ao término da disputa? Mesmo tendo perdido o jogo? Ou o entusiasmo dos ganenses por seu time, muitos vestido à caráter, mostrando seu viés cultural com orgulho? Ou dos americanos, alegres e efusivos, cantando seu hino com um entusiasmo que, para muitos, poderia ser até juvenil? E os jogadores em campo? Numa disputa acirrada, sabendo que uma derrota poderia ser o fim de sua participação, mas mantendo atitude respeitosa perante o adversário? É verdade, houve uma ou outra agressão ou mordida, mas tudo dentro do contexto e até aceitável, pelo calor do momento.

Portanto, o que fica mesmo, para mim, como legado dessa Copa, é a convivência saudável, a competição acirrada mas leal, o entrelaçamento dos povos e a comprovação de que, ao final, independente de cor, raça, religião, língua ou nação, somos todos iguais.

Como comentava no meu artigo anterior, fui ao campo ver os jogos da Copa. Só não fui ao primeiro. Chovia pra burro, tudo cheio d’água, e eu não sei nadar.

Confesso, fui contra esse novo campo de futebol. É, campo mesmo. Sou do tempo do campo Juvenal Lamartine. Depois, passaram a chamar de estádio; hoje, chamam de arena. Continuo chamando de campo. Mais apropriado, embora estádio seja bastante aceitável. Mas, depois de estar presente nele, digo que gostei.

Bonito, confortável, visão muito boa de todo o campo, movimentação muito bem organizada. Gostei, embora não pretenda repetir a dose. O espetáculo da torcida, que é uma das atrações, o movimento incessante, gente que entra e que sai de seus lugares, o barulho, o som alto, atrapalha e tira sua atenção. E se perdem os melhores lances do jogo. Por exemplo, não vi a mordida do jogador do Uruguai no italiano. Na TV, você não perde nada e ainda tem o replay.

Apesar disso tudo, meus argumentos básicos contra a construção desse campo continuam, pelo menos para mim – para que gastar tanto dinheiro? Haverá, mesmo, um legado duradouro? Deus queira que sim. Os túneis, elevados, calçadas, pavimentações, claro, permanecerão. Mas, poderiam ser construídos sem precisar gastar tanto dinheiro no estádio. O velho Machadão poderia ser reformado, como o foi o Maracanã. Por que não?

Como está aí e pronto, vamos, como disse uma ministra do PT, uma dos 39, “relaxar e gozar”. Aproveitemos o dinheiro que foi gasto, e torçamos para que venha o estádio a ser bem utilizado, ocupado com jogos, shows, o que for, para minorar, pelo menos, as despesas de manutenção e evitando que se torne, como afirmam muitos, um elefante branco.

Dizem que houve uma grande contribuição ao turismo. Pode ser. Vi muitos estrangeiros nos jogos e provavelmente não viriam aqui se não fossem os jogos. Duvido que voltem. Ou que influenciem outros a nos visitar. Não é que seja pessimista. Pelo contrário. Sou realista. Estamos longe, os preços que cobramos em hotéis, restaurantes, barzinhos, cada vez mais caros. Existem lugares tão atraentes, até mesmo mais atraentes, oferecendo proximidade, custos mais baixos e atrações iguais às nossas, se não melhores.

Não me atrevo a dizer que a Copa, aqui, seria dispensável. Deixou recordações positivas. Mas, entre as recordações e os benefícios efetivos, vai uma longa distância.

Desde pequenininho, e isso já faz algum tempo, sempre gostei de línguas. Logo cedo, tinha aí uns dez anos, estudei francês com meu tio-avô, Mons. Calazans Pinheiro. Cheguei a escrever razoavelmente e me comunicar com certa facilidade em francês. Veio a II Guerra, Natal invadida pelos americanos. Influenciado por meu tio Protásio Mello, e pelos tempos, comecei a aprender inglês, que se tornou, ao final, uma segunda língua. No Atheneu de então, estudei inglês com Celestino Pimentel, francês com Esmeraldo Siqueira e espanhol com Paulo Gomes da Costa.

Por curiosidade, estudei alemão por conta própria, e com o meu amigo Getúlio Sales, russo. Não preciso dizer que o meu alemão e o meu russo inexistem, hoje. Mas, minha curiosidade pelo assunto e suas conseqüências, que é conhecer países e culturas diferentes, permanece. Por isso, gosto muito dos artigos desse menino de Aécio, Marco Emerenciano. “Desse menino” não é condescendência; é admiração, pelo filho e pelo pai. E pela juventude do escritor. Escreve sobre coisas gostosas; traz lembranças interessantes e comenta fatos curiosos e agradáveis. Muito bons, seus artigos. Não o conheço pessoalmente, embora seja amigo e contemporâneo de seu pai. Está no meu programa conhecê-lo qualquer hora dessas. Lendo seus artigos, e especialmente o que fala sobre as diferentes línguas e dialetos na Espanha, recém publicado, lembrei-me de algumas histórias parecidas.

Para começar, o espanhol não existe. O que a gente chama de espanhol, hoje a segunda língua mais falada no mundo, é na realidade o castelhano, que é a língua da região de Castela. Na Espanha, existem línguas e dialetos, como bem diz Marco. Das línguas, além do espanhol de Castela, as mais conhecidas, para mim, são o catalão, falado na região de Barcelona, e o galego, muito parecido com o português, e falado na Galícia. Têm ainda o Basco, difícil paca e que poucos, fora da região, entendem. O espanhol, como unidade lingüística, foi imposição de Franco. Foi ele desaparecer, e as outras línguas ressurgiram.

Essa história de falar outras línguas é muito interessante. Para começar, lhe dá oportunidades culturais imensas. As portas de uma literatura mundial se abrem, especialmente em inglês, onde se publica tudo. O espanhol não fica muito atrás. E lhe permite contato com a humanidade. Para quem usa a internet, inglês é indispensável. Por outro lado, de vez em quando, há decepções, principalmente ao iniciante. Se não for perseverante, pode até desistir.

Comigo, ocorreram alguns fatos divertidos, e me lembro de alguns, entre tantos que esqueci. No comecinho do meu aprendizado de inglês, em plena guerra, entram uns americanos na loja de meu pai. Corri para atendê-los, certo dos meus conhecimentos lingüísticos e ansioso para treiná-los. Depois de um vai p’ra lá, vem p’ra cá, um deles diz: por favor, veja se tem alguém que fale inglês. Quase o mato, da raiva. No final, nos entendemos.

A outra já foi no meu tempo de OEA. Reunião da Assembléia Geral em Montevidéu. Ano de 1976. O presidente do Uruguai, Aparício Méndez, me foi apresentado pelo embaixador uruguaio junto à OEA. O cumprimentei e tentei falar espanhol com ele. Gentil, dirigiu-se a mim com cordialidade e disse, num português impecável, sem sotaques: Meu filho, pode falar português, eu sou de Rivera.

Na OEA, no meu tempo, existiam quatro idiomas oficiais: inglês, português, espanhol e francês. Trabalhava comigo uma grande figura, colombiano, com o qual tinha a responsabilidade, muitas vezes, de escrever os “informes”, ou seja, os documentos finais resultantes das reuniões, em espanhol. E ele me dizia, Dalton, você escreve espanhol como se estivesse escrevendo em português. São os ossos do ofício.

Considero-me um sujeito aberto, sem preconceitos e sem raivas ou iras desmedidas. Daí, tenho muito medo de fundamentalismos. Que vêm se exacerbando nos últimos anos, de uma forma já doentia. Embora haja fundamentalistas políticos, o religioso me parece mais perigoso, com uma intolerância agressiva.

Os países europeus, nos últimos anos, têm recebido grande número de mulçumanos. Nos países mais democráticos, especialmente os ocidentais, essa migração foi sempre bem recebida. Alguns outros países fazem restrições, que agora têm se mostrado aceitáveis, dado o comportamento extremista de alguns grupos desses imigrantes. Em vez de se adaptarem e assumirem a cultura dos que os recebem, tentam impor suas idéias e comportamentos. Querem implantar seus costume e preceitos em terra alheia. Poderiam ter permanecido na sua própria.

Putin disse há poucos dias: recebemos aqui todos que queiram viver conosco, mas têm que aprender russo e viver como russos. Que não tentem impor suas vontades, pois não vamos aceitar. Certíssimo.

Na Inglaterra, sem dúvida o mais democrata dos países, o comportamento desses imigrantes chega à absurdos. Tentam forçar a adoção de sua língua, sua religião, seus costumes, em vez de, como seria natural e óbvio, absorver a cultura na qual se inseriram.

Li, confesso que com espanto, a adoção da sharia, a lei islâmica, em tribunais britânicos, especialmente em decisões referentes às mulheres. É o que está nas páginas do “The Telegraph” do dia 23/3 – A lei islâmica é adotada por autoridades legais britânicas -. Uma decisão difícil de entender, mesmo restrita aos muçulmanos.

Pior, me parece, a notícia também publicada no mesmo jornal do dia 20 de abril, informando que extremistas muçulmanos procuram “islamizar” escolas na cidade de Birmingham, onde há uma quantidade maior de imigrantes muçulmanos. As autoridades inglesas batizaram essa tentativa de “Cavalo de Tróia”, por razões óbvias, e estão desmontando o esquema.

Essa ingerência já estava tão avançada, que o departamento de fiscalização do ensino, em alguns casos, está pensando em até fechar algumas dessas escolas. Apenas uma, das 17 escolas inspecionadas, estava com o que se pode chamar de “bilhete azul”. Todas as demais estavam contaminadas, inclusive com perseguição aos estudantes não mulçumanos.

É o caso de dizer: democracia tem limites, estabelecidos por suas leis. E esse limite é o momento em que começa a ser destruída por extremistas. Ou a Europa acorda, ou perde sua identidade ocidental. E nós, por aqui, especialmente com esse governo entreguista, precisamos estar atentos.

Ainda não havia me manifestado sobre a Copa. Deixo claro que gosto de futebol, assisto aos jogos que posso, mas não vou aos estádios há anos. Comodismo e, por que não confessar, medo. A insegurança total espanta qualquer um.

Dentro dessa filosofia, não tinha a intenção de ir ao campo. Dalton Filho, que mora em Montreal, veio para Natal. Comprou ingressos para um ou dois jogos, inclusive para mim. Vai me forçar a estar presente, mas sem nenhum entusiasmo.

Hoje, gosto do jogo pelo espetáculo, visto na TV. Torcer com entusiasmo, gritar o nome do time, xingar o juiz, ou me entusiasmar por um ou outro jogador está, há muito, fora de minhas cogitações. Como safenado, evito emoções, e torço hoje pelo time que está vencendo. E, se começar a perder, mudo de lado. Não me arrisco a um enfarte.

Esse campeonato que vai começar agora não me faz vibrar. É tudo uma questão de dinheiro, muito dinheiro, e até os jogadores se preocupam muito mais com o valor pecuniário de suas vitórias de que com o que essa vitória pode representar para os torcedores. Segundo vi em alguns jornais, a primeira coisa que os nossos jogadores discutiram em sua primeira reunião na concentração foi como iriam dividir o bolo. Chegaram a um acordo e só então começaram a pensar nos jogos. E não é só aqui. Dizem também os jornais que os jogadores dos Camarões ameaçaram não jogar enquanto suas pretensões de receita não fossem atendidas.

Talvez exagere. É possível que haja um ou outro jogador que participe por convicção, que esteja defendendo suas cores, que tenha entusiasmo e jogue com o coração. Não duvido que isso ocorra, e vou prestar muita atenção para ver se descubro algum, especialmente no nosso time.

Sempre ouvi que jogadores com raça, com entusiasmo, suando a camisa pelo seu país, são os argentinos e uruguaios. Jogos que tenho assistido, com esses jogadores, me levam a crer que seja verdade essa presunção. Vê-se que jogam com entusiasmo, demonstram enorme esforço, e lutam em campo como se numa batalha estivessem. Veremos.

Conjecturas de quem vai ganhar? Não sei. Os comentários é de que os finalistas serão o Brasil, Espanha, Alemanha e Argentina. É possível. Todos os analistas os consideram como os mais propensos à final. Alguns incluem a Itália. Essa dúvida é o que faz desses jogos uma atração. Óbvio que, para mim, o Brasil é o preferido. Mas, ganhe ou perca, não me bate a passarinha.

Dos legados dessa Copa, de que é o que se fala o tempo todo, um é real. Anunciada há seis ou sete anos atrás, tempo mais que suficiente para estarmos preparados, deixamos tudo para a última hora, como sempre. Ficou claro que, em termos de planejamento, estamos muito mal. Talvez pior do que antigamente. Torçamos para que tudo corra bem. Recebamos bem e com dignidade os visitantes. Depois dos vexames e atrasos, é o mínimo que podemos fazer.

Ontem, assisti o jogo do Brasil. Susto danado com o gol contra. No entanto, consegui superá-lo, quando empatamos e ganhamos o jogo, que não foi lá grande coisa. E pude torcer com tranqüilidade.

"Les sanglots longs / des violons / de l'automne" (Os longos soluços dos violinos do outono) indicavam que a Operação Overlord, a invasão da Europa, teria início em duas semanas. Foram transmitidas no dia 1o. de Junho. As linhas seguintes, "Blessent mon coeur / d'une langueur / monotone" (ferem meu coração com um langor monótono), indicavam que a invasão ocorreria em 48 horas e que a resistência deveria começar as operações de sabotagem, especialmente da rede ferroviária; essas linhas foram transmitidas no dia 5 de junho, às 23:15. Poesia de Paul Verlaine.

Já lá se vão 70 anos. Nesse dia, 150.000 soldados de várias nações desembarcaram na Normandia; cerca de 10.000 perderam suas vidas. Às comemorações ontem realizadas, fizeram-se presentes Chefes de Estado das principais nações que participaram da luta. Uma festa bonita, pois esse dia representa o começo da derrota do nazismo e a vitória final dos Aliados. E a libertação da Europa.

Lembro-me perfeitamente desse dia. Estava no 3o. Ano do Ginásio, no Atheneu. As aulas começaram as sete da manhã e pouco depois, cerca das oito, chegou a notícia do desembarque. As aulas foram suspensas, e fomos todos para o Grande Ponto, onde muita gente se juntava para comemorar a invasão, que ficou conhecida como o Dia D. O serviço de alto-falantes de Luís Romão retransmitia as noticias que vinham da BBC, dando detalhes do desembarque.

Claro, essa invasão não foi surpresa. Esse momento era aguardado por todos. Até para os alemães, que a esperavam e estavam atentos. A grande surpresa foi o local da invasão, a Normandia. Os alemães a esperavam na região de Calais, ponto mais estreito do Canal da Mancha. Hitler chegou a reter batalhões Panzer que poderiam ajudar na luta, certo de que a invasão principal ainda seria em Calais.

Os primeiros dias foram, apesar da surpresa relativa, muito duros. Os Aliados, que esperavam consolidar com rapidez suas posições, levaram mais tempo do que imaginavam para dominar pontos estratégicos da região. O ataque dos pára-quedistas foi mais difícil do que se imaginara e o número de mortos e feridos maior do que o esperado. Apesar dessas dificuldades iniciais, o desembarque foi um sucesso e a derrocada da Alemanha nazista se prenunciava.

Natal, que vivia intensamente a guerra, com tropas americanas e brasileiras em grande quantidade, que viveu dias de blackout e simulação de ataques aéreos e bombardeios de nossas costas por submarinos alemães, comemorou com alegria esse dia. O 6 de junho seria, para nós, o início do fim da guerra. Sabíamos que essa data marcaria também o retorno dos soldados americanos à sua pátria.

Vários livros foram escritos sobre o Dia D. Vários filmes foram feitos. Um dos melhores livros foi “O Dia D”, de Stephen Ambrose. O filme mais famoso – O mais longo dos dias – mostra com realismo todos os momentos da invasão. O site do “YouTube” tem uma enorme quantidade de filmes e documentários mostrando minuciosamente os diversos momentos do acontecimento. Aos curiosos, aos que gostam de história, aos que viveram esse dia, recomendo que vejam, ou revejam, essa ocorrência. Aos mais jovens, que conheçam em mais detalhes a luta que foi a II Guerra Mundial e as dificuldades para libertar a Europa do domínio nazista. Tempos que não podem ser esquecidos.

Recebi um telefonema via celular de um amigo. Quando atendi, o escutava, mas ele não. Retornei a ligação, ele me escutava e eu não. Na terceira tentativa, finalmente, nos comunicamos. O que me leva a comentar o passado.

Boa parte dos anos 70, estava em Washington. Comunicações com o Brasil eram praticamente impossíveis. Uma carta via aérea levava de 10 a 15 dias. Um jornal ou revista que amigos me mandavam pelo correio comum, em redor de um mês, ou mais. Telefone, nem pensar. Difícil e caro. Internet, ainda para ser inventada.

Eu levava uma vantagem. Montei minha estação de rádio-amador e falava quase todos os dias com o Brasil. Tinha um comunicado semanal com colegas de Natal. O meu contato habitual era com Hermita Cansanção, de saudosa memória. Mantinha-me atualizado com as coisas de Natal. Cansanção, uma grande figura, começava o papo com o obituário. Deixava-me sempre atualizado com as mortes que ocorriam por aqui. E contava os outros acontecimentos. Esses contatos diminuam a saudade da terra e dos amigos.

Hoje, com o computador, internet, emails, o mundo está dentro de nossa casa. Para quem gosta dessas coisas, como eu, a gente se mantém em dia com tudo e com todos, todo o tempo.

Tenho um filho que mora em Montreal. Estamos em contato quase todo dia, inclusive ao vivo e em cores, e sem gastar um centavo. No momento que queremos e como quisermos. Telefone e computador, os veículos utilizados, com wifi, internet e programas como Viber, WhatsApp, Facetime, e outros tantos similares, que nos permitem comunicação instantânea e perfeita.

Muito dessa bonança devemos a privatização das teles. Mesmo com as deficiências ainda existentes, como o acima relatado, preços que ainda são caros mas já baixaram muito, houve uma melhoria nas nossas comunicações. No passado, telefone era bem de raiz e era incluído como um “bem” no imposto de renda. Uma originalidade brasileira! Nenhum outro país do mundo tinha essa excrescência. Para conseguir uma linha telefônica, três caminhos: muito dinheiro, prestígio político, ou amizade com alguém da companhia. E ainda custava caro, caríssimo. Absurdo. Hoje, todo mundo tem um telefone. E, em alguns casos, você contrata a linha e recebe o telefone de graça. Há mais telefones celulares do que gente.

O correio, que piorou muito, e vive em greve, felizmente é praticamente dispensável. (No dia 28 de março recebi uma conta da Claro vencida em 24 de fevereiro – um mês depois da postagem; como a telefônica cobrou por email, já havia pago e escapei da multa e juros). Com os emails, você se comunica rápido e fácil com o mundo todo. Até para enviar encomendas. O SEDEX já foi ótimo, mas hoje você possui alternativas mais eficientes e custos semelhantes. Com segurança e rapidez.

Pela menos nas comunicações e apesar dos contratempos, desde que foi entregue a iniciativa privada, este pais melhorou paca. E ainda há meia dúzia de retrógrados que defendem a estatização!

Gosto muito da Argentina. Gosto de seu povo, de sua música, admiro seu futebol, seu vinho, e as belezas naturais do pais. Fazem mais de quarenta anos que vou por lá pelo menos duas vezes por ano.

Quando na OEA, fiz muitos e bons amigos argentinos. Um deles, Dr. Rodolfo Martinez, era Professor de Ciências Políticas da Universidade de Buenos Aires. Era, então, Secretário de Educação, Ciência e Cultura da organização, mesma área em que eu trabalhava. Tinha sido Ministro da Defesa no Governo Frondizi. Um dia, perguntei-lhe qual a explicação para a decadência da Argentina, então já evidente – quarenta anos atrás. Respondeu-me, com uma sinceridade comovente – não sei a explicação real, mas tudo começou com Perón.

Senti tudo isso desde minha primeira ida ao país. Foi no ano de 1974 ou 1975. A inflação estava nas alturas. Um par de sapatos de primeira qualidade custava meia dúzias de dólares. As diárias dos hotéis, uma mixaria. Uma situação alarmante. Depois dessa data, o pais vem vivendo uma montanha russa, piora, melhor, piora de novo. Num período, teve três ou quatro presidentes em tantos meses.

Hoje, com o governo atual, o país está vivendo um momento triste. Em 27/2, no “The New York Times”, Roger Cohen escreve sobre suas impressões em visita feita à Argentina naquela data. Abre o artigo contanto uma piada, um “bon mot”, como diz ele, de que o Brasil de hoje está se tornando a Argentina que, por sua vez, está se tornando a Venezuela e esta uma Zimbábue. Completa, isso é um exagero quanto ao Brasil e a Venezuela. Não sei não.

O artigo é longo e não vou repeti-lo aqui. Apenas resumo o pensamento externado. Em primeiro lugar, diz que tudo se deve à Perón. Afirma, o que não é novidade e todos sabemos, como a Argentina é um pais rico, já foi das maiores economias do mundo, teve renda per capita rivalizando com a americano e muitos países europeus. Tudo isso foi por água abaixo, com a política implantada pelos peronistas e exacerbada pelos governantes que o seguiram, inclusive os atuais.

Cita Javier Corrales, professor de Ciências Políticas da Universidade Amherst: “A Argentina é o único caso de um pais que completou sua transição para um pais subdesenvolvido”.

Comenta que a Argentina é um pais que nunca amadureceu, nunca assumiu suas responsabilidades, pois havia tanta riqueza a explorar, que as instituições e a lei, e pagamento de imposto, pareciam perda de tempo. Os imigrantes lá chegaram sem o desejo de se tornar argentinos, ao contrario do que ocorreu com o Brasil e os Estados Unidos. E inventaram sua própria filosofia, uma mistura de nacionalismo, romantismo, fascismo, socialismo, atraso, progresso, militarismo, erotismo, fantasia, música, tristeza, irresponsabilidade e repressão. Não podia dar certo. E termina, com um “Chora por mim, meu nome é Argentina, e sou muito rica para o meu próprio bem”. Finalizando com “a esperança é difícil de ser extirpada dos corações humanos, mas a Argentina vem fazendo o possível nesse sentido”.

Sou otimista. As nações são permanentes. Tenho certeza de que a Argentina encontrara seu destino e que todos esses males ficarão na história.

Meu pai foi assim recebido quando perguntou a um policial onde ficava a fila da sua seção eleitoral: “Vamos comigo. Sucata não entra em fila”. Bem humorado, acompanhou o policial, votou e agradeceu a orientação. Notou, claro, que não havia intenção de magoá-lo. Era ignorância mesmo

Um amigo dizia: a velhice é uma dádiva de Deus, mas ser velho é uma m.... Não sou pessimista e sempre discordava dele. Continuo discordando. Mas, não deixava de ter uma certa razão.

Usam uma linguagem cosmética para rotular os velhos. Idosos, melhor idade, sênior, terceira idade. Há também a linguagem depreciativa: caduco, gaga, superado e, claro, sucata.

Na realidade, a medida que os anos passam, você começa a sentir sua queda física. Cada dia que passa, um pouco mais de resistência e força se esvai. Levantar ao acordar começa a pesar. Seu corpo não responde com a rapidez de sempre. Sua mente começa a divagar e o esquecimento começa a dominar. Não há muito que se possa fazer. Resistir, lutar, enfrentar. É o que faço todos os dias. “Never surrender”, nunca se entregue, como dizia Churchill. É o meu lema.

Há poucos dias, assisti um filme belo, mas dramático. Foi escolhido como melhor filme estrangeiro para o “Oscar”. O diretor é o austríaco Michael Haneke; os atores são Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant, com performances excepcionais. Presente de um amigo, pois não está no circuito cinematográfico. Pelo menos não até agora. Francês, “Amour”. Resumindo: um casal de idosos, vivendo bem, num belo apartamento em Paris. Ela, professora de piano, com vários alunos laureados e no circuito de concertos. Ele, também musicista e professor. Em redor dos oitenta, ambos. Ela, sofre um AVC e fica semi-paralitica. Ao voltar do hospital, roga-lhe que não a interne, nunca. Ele promete e se esforça para atendê-la. A situação de saúde dela piora a cada dia. Aumenta a paralisia, começa a perder a voz e a vontade de viver. O sofrimento é cada dia maior. Ele, cada vez mais angustiado. O sofrimento dela o afetava sobremodo. Chega um momento crucial, ela já totalmente fora do mundo. Como vocês podem querer ver o filme, digo apenas que o final é trágico. Filme triste, pesado, mas a realidade da vida.

Essa é uma realidade, sim, e do dia-a-dia. Vemos, mesmo entre nós, casos parecidos. Também em casos assim, devemos nos preparar mentalmente, pois estamos todos sujeitos à problemas semelhantes.
Da velhice, a única coisa que me assombra é a doença, que todos sabem ser inevitável. A decisão recente do Conselho Nacional de Medicina, permitindo que o doente terminal decida como quer ser tratado, ou não, é pertinente. Ficar numa cama, vegetal ou quase, por tempo que ninguém imagina, causando problemas aos seus, impensável. Melhor partir, mesmo sem saber para onde. De qualquer forma, o outro lado poderá ser uma surpresa, ou não.

Coisas do RN, mas não apenas do RN. São coisas do Brasil em geral. Ao contrário do lugar comum de que o nosso problema básico é a falta de continuidade dos governos, me atrevo a dizer que nosso problema é a sua continuidade. Sempre mais do mesmo. Na incompetência generalizada, nos descasos com a coisa pública, sem ouvir os interesses das comunidades. A propaganda enganosa, os gastos mirabolantes, obras intermináveis e caras, mais das vezes desnecessárias e postergáveis, com os malfeitos na educação, saúde, segurança, e por aí vai.

Confirmam esses fatos, no nosso Estado:

1) as obras da Copa, bilionárias e sem garantia de retorno futuro; dez milhões mensais, durante 20 anos, no meu entender jogados fora. Quem quiser sua Copa que a pague. Dizem que foram gastos quatrocentos milhões, valores que nunca foram claramente apresentados, mas vamos pagar um bilhão e duzentos, três vezes mais;

2) os da falada mobilidade urbana, atrasadas e Deus sabe quando ficarão prontas;

3) de um aeroporto totalmente dispensável, também sem muito futuro, e sem sabermos exatamente quando os acessos ficarão prontos; substituindo um aeroporto em pleno funcionamento, que poderia ser facilmente expandido e de fácil acesso e que poderia ser atualizado (será que precisa mesmo?) com custos imensamente menores;

4) de uma ponte útil, mas que nunca foi terminada – faltam proteção às suas colunas, o que impede a entrada de navios à noite e, agora, na berlinda por conta da altura - e, segundo muitos, construída no local errado, com acessos às rodovias federais inexistentes e que ninguém sabe quando ficarão prontos, já se foram mais de cinco anos;

5) um tal de Parque da Cidade, que dizem será um atrativo turístico inigualável, inaugurado uma penca de vezes e que nunca fica pronto; como não sou turista, não fui lá, nem pretendo ir;

6) o prolongamento da Prudente de Morais, promessa de termino já prorrogado dezenas (ou centenas?) de vezes e que parece sem fim;

7) as intermináveis obras nas praias, que na primeira maré alta se desfazem; talvez seja o caso de contratarmos holandeses para fazer o serviço, especialistas que são em brigas com o mar;

8) uma anunciada reforma na Roberto Freire, que não foi iniciada até hoje, e que muitos esperam nunca o seja, aparentemente desnecessária, pois há soluções mais simples e menos caras;

9) educação, saúde, segurança, com problemas sem solução há anos, que não precisam ser detalhados, pois estão nas mídias todos os dias;

10) e falta de paciência da nossa parte, vitimas que somos de uma maioria de políticos incompetentes e preocupados apenas e somente com a sua próxima eleição.

Fossemos mencionar todos os malfeitos, essa relação seria quase interminável. Prefiro parar por aqui e deixar que cada um acrescente sua própria decepção, o que não será difícil.

Lembro, apenas, que estamos na fase de tentarmos corrigir um pouco tudo isso. As eleições se aproximam. Embora tramem nos deixar com apenas um candidato, é de esperar que haja alguma resistência e haja concorrente. Que nos dêem oportunidade de escolha, já que não podemos, nós mesmos, fazer essa escolha preliminar. E pensem bem antes de votar.



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