NATAL PRESS

O dia seguinte. Desde a passagem do milênio, com aquela conversa dos problemas com os computadores, com a ameaça de que o mundo ia acabar em 2012, a ameaça de um asteróide gigante colidir com a Terra, e catástrofes outras, dezenas de filmes foram produzidos explorando esse tema. Um deles, aliás, se chamou mesmo “The Day After”. Desde a antiguidade, já se prenunciava o fim do mundo. É só ler o Apocalipse. Como tudo tem começo e fim, é só esperar. O que lembra a velhinha que escutou um palestrante dizendo que o mundo ia se acabar em oito bilhões de anos. Com dificuldade de audição, pediu para que repetisse. Bilhões de anos. Ah!, grato, pensei que o senhor tinha dito milhões.

Vivemos agora o “dia seguinte” das eleições. Como já se passaram duas semanas, as cabeças estão mais frias. Já ficou claro que o Nordeste não foi o único responsável pela reeleição da presidente. Sem dúvida, o Bolsa Família deu sua contribuição inestimável. Mas o Rio de Janeiro, e especialmente Minas Gerais, deram sua contribuição insofismável, e decisiva. Embora com uma maioria ínfima para o total de votantes, Dilma foi escolhida e dirigirá o país por mais quatro anos. Não ponho dúvida na lisura do pleito (alguns põem); mesmo que a maioria fosse só um voto, está eleita. Democracia é isso, gostem alguns ou não do resultado. Para um democrata, só resta aceitá-lo, fazer oposição lúcida quando necessário, e torcer para que se faça um governo eficiente e eficaz, para o bem do país.

Os cinqüenta milhões que votaram em Aécio Neves absorveram a derrota e aceitaram sem contestações a vitória de Dilma. Após o resultado do pleito, Aécio fez um pronunciamento em que disse haver telefonado à Dilma dando parabéns pelo resultado e desejando sucesso. Pouco depois, ela apareceu na TV agradecendo os seus eleitores, dizendo-se interessada em diálogo permanente, mostrando-se aberta a conversar com a oposição, mas não mencionou o telefonema de Aécio nem a ele se referiu. Como eu, muitos notaram esse lapso da presidente, que esperamos não tenha sido intencional. Até revistas e jornais estrangeiros comentaram esse fato. Pegou mal.

A pergunta que fica, sem resposta até agora é: se fosse o contrário, tivesse Dilma perdido, esse resultado seria aceito com a mesma magnanimidade e mesmo espírito democrático demonstrado pelos perdedores? Algumas manifestações de militantes, que, pelo menos para mim, pareceram exageradas, nos deixam preocupações quanto a isso.

Aqui no nosso RN, o que vimos, patente, foi a rejeição evidente aos acordos do passado. A vitória de Robson Farias parece indicar que vamos entrar em novos caminhos. Deus permita que ele faça um bom governo, para a felicidade do Estado. Sinto pelos que perderam, me regozijo com os vitoriosos.

Todos esses comportamentos, ao final, apenas evidenciam que o regime democrático ainda é o melhor caminho. Os perdedores de hoje poderão ser os vencedores de amanhã.

Alvorada, anúncio de um novo dia. Sou um madrugador. Hora que seja ao dormir, cinco e meia estou de pé. Sem alvoradas ou alarmes. Internalizei o meu despertador. Outros, precisam de ajuda. Antigamente, tínhamos o canto do galo. Na caserna, o clarim. Depois, relógios de corda com um tímpano no topo. Em seguida, os eletrônicos. Alguns, são forçados a acordar. Um radioamador amigo em Maceió era despertado com a bigorna do pássaro ferreiro do vizinho, quatro da manhã. Vingou-se com alto-falantes em cima do muro, sintonizado no máximo volume numa dessas rádios sertanejas. Fizeram um acordo: o vizinho desligou o pássaro e ele o rádio.

Comigo agora é diferente. Esta semana fui privilegiado. Acordei com uma alvorada. Alvorada canina. Meu prédio é relativamente pequeno. Apenas 22 apartamentos. Na maioria, ocupados pelos proprietários, alguns alugados, mas todos, repito, todos, para felicidade geral do edifício, civilizados. Mesmo as crianças, que são poucas, são silenciosas. Portanto, tudo muito tranqüilo.

Nossa convenção de condomínio é liberal. Permite a existência de micro cachorros. Esquecemos que eles mordem, mas especialmente latem. E latir faz barulho. Não chega a incomodar muito, e geralmente só fazem alvorada, mas latem. Votei a favor da convenção. Nem estou reclamando, apenas comento. Nem quero expulsar os cachorrinhos.

Já fui criador de cachorros. Quando morava numa casa, criava, mais por segurança do que outra coisa, cães pastores. Bonitos, fortes, corajosos, me davam uma sensação de segurança, mesmo tendo sido, quase todos, mortos por “bolas”. Para quem não sabe ou não se lembra, era como se chamava a comida envenenada, que jogavam por cima do muro. Hoje, tenho um único cachorro no meu apartamento, esculpido por um amigo em pedra sabão e que m’o presenteou. Não late, não suja a casa, quieto. Como eu gosto. Se a nossa é uma convenção liberal, outras há que não o são. Aqui em Natal mesmo, conheço alguns edifícios que não permitem quaisquer cachorros. Decisão livre e aceita por todos, nada a contestar.

Quando fui morar em Washington, começo dos anos setenta, fiquei um tempo num hotel, buscando apartamentos. Preço, localização, tranqüilidade, eram dos principais ingredientes envolvidos na escolha. Visitei vários. Encontrei finalmente um que me interessava e fui alugar. Bem recebido, tudo fácil, aluguel acertado. No hora de assinar o contrato, o responsável pergunta: o senhor tem filhos? De que idade? Sim, 9 anos. Infelizmente não podemos alugar o apartamento.  Nossa convenção não permite. A maioria aqui é de idosos e não querem crianças fazendo barulho, correndo, abusando dos elevadores, enfim, fazendo bagunças. Aí eu perguntei: permitem cachorros? Sim, desde que pequenos. Latem, mas não chegam a incomodar.

Comprei uma casa. Foi a coisa mais fácil do mundo. Sem escrituras e papeladas. Burocracia zero. Fui ao banco e fiz o financiamento. O recibo assinado pelo antigo dono foi enviado a Prefeitura, que transferiu a propriedade da casa para o meu nome. Nem precisei ir lá. Lembrei-me do Brasil.
E já que lembrei-me do Brasil, amanhã, dia 26, vote uma nova alvorada para o nosso país.

Acordei me achando sorumbático. Como é uma palavra que não escuto, leio ou escrevo há tempos, resolvi ir ao dicionário para ver se correspondia ao que sentia. Eis o resultado: “característica do que é sombrio, carrancudo, tristonho, melancólico, taciturno; estava triste e sorumbático”. Encaixou certinho. Comecei a me analisar, para saber por que cargas d’águas estava tão sorumbático. Descobri; é que adoro as coisas simples e elas estão se complicando.

Adoro, por exemplo, um uisquinho doze anos (se não puder ser de 15, 18 ou 21, mais simples ainda), acompanhado de um tira-gosto inocente tipo caviar russo com cream-cracker inglês. Ou ver uma senhora, elegante e bem vestida, delicadamente levando seu filhinho bem cuidado à porta da escola, depois de descer de um BMW, dos grandes, dirigido por um motorista fardado. Que estaciona na primeira vaga de deficiente ou idoso que encontrar. E, se não encontrar, no meio da rua mesmo.

Atrapalha o trânsito mas, raciocina com a madame, vai demorar pouco. Adoro as coisas simples, como essas. Você já imaginou o que seja tomar um chá das cinco, chá inglês, ou indiano, legítimo, com “cookies and cakes” (tem que ser escrito em inglês, se não perde a simplicidade), acompanhado por um papo inteligente (cada vez mais raro) e ouvindo uma boa música clássica, que pode ser da Sinfônica de Berlim, tocando a 9a. de Beethoven e regida por Karajan? Adoro coisas simples assim.

Depois que fiz essa análise, melhorei imediatamente. Cheguei a conclusão que não eram as besteiras ditas pelos políticos em campanha, suas promessas vãs, seus comentários injuriosos ou não de uns sobre os outros, da falta de perspectivas em nosso futuro. Nada disso me abala mais, de tão habituado, de tão anestesiado que estou – e suponho que muitos também – com essa baboseira irritante que anda por aí. Que, diga-se, já não me irrita tanto. Deixei de escutar esses desagradáveis programas eleitorais. Nem ler a respeito. Mas soube em quem votar no dia 5 de outubro. E já tenho os meus candidatos definidos para o dia 26.

Simplesmente, retorno as coisas simples. Que me fazem um bem danado. Nesses momentos, você esquece o dia a dia maluco a que somos submetidos, contra a nossa vontade. Segurança, saúde, educação, e os problemas reais do povo, sem solução ou perspectivas de, pelo menos a médio prazo, são esquecidos. Não por desejo nosso, mas pela realidade antevista. Ou você esquece ou enlouquece. Como quero continuar são, nesse restinho de vida que ainda tenho, me volto às coisas simples. Que me perdoem os que gostam das coisas complicadas. Por exemplo, um café da manhã, com tapioca no leite de coco, queijo de coalho assado, manteiga do sertão e um pãozinho quente. Sem esquecer o mel de abelha no queijo. Uma das poucas coisas complicadas que ainda tolero. 

Eleições às portas. Todos às urnas. Defendo, e sempre defendi, que o voto não deve ser obrigatório. Pela idade, atingi esse direito – votar ou não votar – ao meu bel prazer. Sem dúvida, essa liberdade valoriza o meu voto, como o faria com o voto de qualquer cidadão que pudesse decidir, por si próprio, o comparecimento ou não às urnas. Na grande maioria das democracias, é assim que ocorre.

E simplificar o processo. Essa parafernália montada pelo Justiça Eleitoral – que parece só existir por aqui – complica. Por que não usar sua carteira de identidade, ou de motorista? Por outro lado, o uso da urna eletrônica foi um avanço e tanto. Lembro-me. Quando vivia em Washington, perto de uma eleição para presidente, mesas estavam espalhadas num shopping que freqüentava. Senhoras, voluntárias, maioria idosas, chamavam as pessoas e as registravam para votar nas eleições. Simples, sem burocracia, rápido. A mim me chamaram e expliquei que era brasileiro e não votava. Mas, parece, as coisas por lá também estão se complicando. Em alguns estados, especialmente do Sul, começam a surgir exigências, tudo na tentativa de dificultar os votos dos negros e hispânicos. Iniciativa dos Republicanos. Uma pena.

Essa liberdade de escolha, poder decidir se vai ou não votar, não quer dizer que não se deva votar. Ao contrário, essa possibilidade dá mais valor ao seu voto e permite uma escolha mais racional. Quem vota sob coação, na sua maioria, o faz com raiva e o seu voto pode ser, e às vezes é, uma revolta à imposição, e chega mesmo a votar em branco ou nulo ou, pior, votar, conscientemente, no pior candidato – pelo menos para ele.

Na hora em que você tem a liberdade de escolher se vai votar ou não, sem pressão de leis, você tem certeza do que está fazendo e plena consciência de sua responsabilidade. Nesse momento, a sua escolha será racional. Sem constrangimentos, sem pressões legais, comparece às urnas de mente aberta e decisão livre. O seu voto será de qualidade, o que resultará num pleito mais sério e conseqüentemente só trará benefícios ao país.

Por essas razões, continuo pregando o voto livre. Sou terminantemente contra o voto obrigatório, que não proporciona qualquer vantagem para o país e só permite a exploração dos menos conscientes por parte de uma parcela de políticos desonestos.

Vamos todos votar neste domingo, mesmo que você vote por obrigação, e não por livre escolha, como eu. Estarei na boca da urna dando o meu voto aos meus candidatos. Espero que vençam. Mas, se perderem, estará minha consciência tranqüila, pois cumpri o meu dever de cidadão – por minha livre e espontânea vontade – o que me permitiu escolher achando que o fiz pelos melhores.

Por eleições livres, pelo voto livre, e pela democracia plena. Enquanto há vida, há esperança. Nada de “après moi, le déluge”. Isso é coisa de rei francês.

Não vinha lendo ou escutando muito sobre o présal nas discussões eleitorais. Talvez por que não seja um ouvinte permanente e atento, nem leitor assíduo, desses debates fajutos que nos apresentam. Mas, agora, surge como tema central em uma discussão que tem tudo para querer enganar os inocentes. A acusação é que Marina Silva pretendo abandonar o présal. O que não é verdade.

O présal já gerou muitas encrencas. Especialmente sobre a distribuição de um dinheiro inexistente, e que se prevê para daqui há dez ou mais anos. Esse dinheiro, incerto, está cada dia mais ameaçado pelo óleo de xisto. Todos os países, inclusive o nosso, possuem xisto em abundancia. A Argentina, aqui na esquina, tem quantidades enormes. Os Estados Unidos, maior consumidor de petróleo, e atualmente o maior produtor de óleo do xisto, já prega a independência da importação de petróleo em 2016. Hoje, já está quase auto-suficiente. O que acontece é que continuam comprando, e muito, para fazer reservas enormes. São previdentes. Um dos argumentos contra o xisto, do dano ambiental, está sendo enfrentado e resolvido. E, quando os Estados Unidos sair do mercado comprador, a tendência é de baixa no preço do petróleo. E o do présal, de produção cara, poderá ficar sem mercado. O preço do barril hoje está em torno dos US$90 dólares. Se comenta que o custo de sua extração está entre US$50 e $70 dólares.

Embora um otimista, sempre tive dúvidas a respeito da produção desse petróleo, especialmente devido aos seus custos. Não que seja entendedor do assunto, e sim pelo que tenho lido a respeito. Especialmente das dificuldades para a sua extração. É fácil ver esse problema. A sete mil metros de profundidade, evidente a dificuldade de extração, por mais técnica e conhecimento que se tenham. E os custos, claro, serão elevados.

Ainda mais agora, quando a Petrobras, uma das maiores petroleiras do mundo, e de reconhecido prestigio internacional, vem perdendo diuturnamente essa credibilidade. Seu valor de mercado já caiu à níveis nunca dantes vistos neste país. E a cada dia surgem novas estórias, depondo contra a integridade de sua administração e boas intenções de seus dirigentes.

A demora em explorar esse óleo, por pruridos ideológicos que não são lógicos, ameaçam afastar para longe, talvez definitivamente, os benefícios que o Brasil poderia ter se não perdêssemos tanto tempo. E, se o novo presidente, seja ele qual for, não agir rápido, mais uma vez vamos perder o bonde da história. É aguardar; e torcer.

Poderia até dizer que perdi a conta, pelo número de desfiles de Sete de Setembro que já assisti, e até mesmo participei. Ultimamente, os tenho visto da minha janela. E ainda me emocionam. E não é por conta da idade; é lembrança do passado, esperança no futuro, e crença no nosso povo e no país.

Este ano, duas coisas me surpreenderem positivamente. O garbo da nossa Polícia Militar e a lembrança dos desfiles do meu tempo, especialmente do tempo da guerra. Estava em plena adolescência, no auge da II Guerra, e todo aquele clima nos fazia vibrar de patriotismo e emoção.

Lembro-me que, em alguns anos, a partir de 1942, soldados americanos participavam do desfile. Marchavam com garbo e entusiasmo evidente, junto às nossas tropas. Aliás, vou aproveitar a lembrança para tentar desmanchar um equívoco no ótimo DVD da Fundação Rampa sobre esse tempo. Há uma informação totalmente equivocada de que as tropas americanas haviam corrido e se escondido nas casas vizinhas diante de um vôo rasante de aviões sobre o desfile. Isso nunca houve, o que posso afirmar como “testemunha ocular da história”. Mesmo sem ser o “Repórter Esso”.

Tomei parte nesses desfiles muitas vezes, desfilando pelo Atheneu. Todas as escolas de Natal participavam. E havia sempre uma sadia rivalidade para ser a melhor. O Atheneu “brigava” sempre com o Colégio Marista que, diga-se, era tão garboso quanto nós. São lembranças que felizmente não desaparecem. Em plena guerra, o Atheneu chegou a desfilar com a guarda à Bandeira armada de fuzis. Bons tempos.

Tempos de guerra, tínhamos até aulas de “Instrução Pré-Militar”. Teoria, sobre armamentos, disciplina e coisas que tais; e prática, ordem unida. De madrugada, cinco e meia da manhã, se não me engano, uma vez por semana. Preguiça danada; morava na Rua Açu, perto da Hermes da Fonseca. Saia de casa as quatro e meia, a pé. A rua era areia solta e chegava ao velho Atheneu quase na hora da aula. O professor, Sargento Dário. Usava pêra. Boa gente, mas duro, disciplinador, sargento.

Voltando à 2014. O desfile da Polícia nos mostrou uma tropa bem preparada, bem equipada, e numerosa. Fiquei pensando com meus botões. Por que a gente só vê esse poderio no desfile? Por que não os vemos no dia a dia, nas ruas? Certamente deve haver razões que desconheço. Mas não desconheço que, estivessem espalhados no diuturno da cidade, teríamos muito menos problemas de segurança. Valeria ouvir uma explicação de seus chefes.

Daqui do alto, dá para acompanhar todas as tropas passando pela minha janela. E outro ponto que quero destacar, e de forma muito positiva, é a participação de mulheres. Em todos os destacamentos. Desfilando tão bem e com tanta elegância quanto os seus companheiros. Até, diria, mais elegantes. Pelo menos para o meu gosto. Belo espetáculo. O que também me faz lembrar que as escolas de meu tempo já desfilavam com as suas estudantes. (Nossa presidenta provavelmente diria estudantas). Minha mulher, por exemplo, desfilou pela sua Escola Normal e foi porta-bandeira, final dos anos 40, começo dos 50.

Portanto, só me resta congratular os organizadores do desfile, as tropas participantes, e agradecer pelas lembranças que me trouxeram e as emoções que renovaram.

Este artigo era para sair na semana passada. Mas, ainda está em tempo. É que a decisão na Escócia, no dia 18/9, era mais premente. E, felizmente, como previ então, o bom-senso prevaleceu. A União ganhou com boa margem.

Parece um jogo de futebol, mas não é. Trata-se de um plebiscito a realizar-se no próximo dia 18, quando os escoceses vão dizer se continuam unidos com a Inglaterra e demais países do Reino Unido (País de Gales e Irlanda do Norte), ou separam-se. União de mais de 300 anos. Todas as últimas pesquisas indicam um páreo duro. Minha opinião é de que o bom senso vai reinar e a separação será rejeitada.

Se há algo positivo que nos deixou a colonização portuguesa foram a unidade territorial e a unidade lingüística. Tivemos algumas escaramuças, aqui e ali, mas sem maiores conseqüências. Há uma estória que contam de Dinarte Mariz – que tem muitas – que é ótima. Quando tinha raiva de Brasília, dizem, declarava alto e bom som: se O RN fosse independente, seria membro da OPEP. Uma das últimas histórias sobre separação de Estados no Brasil foi inventada por Getúlio Vargas; a de que a Revolução de 1932 em São Paulo teria motivação separatista. Foi o que me ensinaram na escola e só soube da verdade depois de 1945. Na realidade, os paulistas queriam uma Constituinte e acabar com a ditadura de Vargas. Daí o medo danado que tenho desses livros didáticos hoje feitos pelo MEC.

No resto do mundo, especialmente no Oriente Médio e nos Bálcãs, essa busca, muitas vezes sangrentas, por uma separação, continua presente. Aí estão os problemas dos países árabes, aí estão as dificuldades dos eslavos. No fundo, uma latente divergência religiosa. O caso da Irlanda do Norte é sintomático. Divergências entre católicos e protestantes até hoje geram problemas, que já foram muito graves e agora menos dramáticos. E que impedem um relacionamento civilizado com a Irlanda. Na Escócia não é diferente; são maioria de católicos; os ingleses, anglicanos. Lembram-se de Maria Stuart e Elizabete. Os argumentos apresentados para essa separação são ditos econômicos, o que não convence. Os gastos do governo na região são bem maiores, per capita, do que no resto da União. Segundo The Economist (2/8/2014), o estado britânico gasta US$2.500 a mais por pessoa por lá de que na União como um todo. E querem manter a libra como moeda. Diz Paul Krugman, no New York Times de 8 deste, que usar moeda de outro país nunca deu certo, já que não têm qualquer controle sobre ela. E há ainda dificuldades em separar as duas economias, tão integradas hoje em dia.

Há outros tipos de rivalidades que devem ter levado a essa situação. Durante a II Guerra, muitas vezes comandantes ingleses foram acusados de enviar tropas escocesas, e também, diga-se, canadenses, australianas e de outras colônias, para os combates mais duros. Tudo isso soma e leva a decisões, mais das vezes, insensatas.

Tive uma experiência interessante com essas divergências, e que me pegou de surpresa. Numa conferencia sobre Planejamento Familiar, num dos campi mais bonitos que conheci, da Universidade da Califórnia, em Santa Barbara – à beira mar, gramados belíssimos, tudo super limpo e organizado – fui cumprimentar um dos palestrantes, que falava inglês impecável. Sotaque oxfordiano. Perguntei, ao final da nossa conversa: o senhor é inglês? Não, sou britânico, respondeu com o que, para mim, pareceu certa irritação.

São essas coisas, que nos parecem pequenas, que nos levam à comportamentos desastrosos, mais das vezes violentos, e que resultam em mortes e selvagerias como as que estamos vendo pelo mundo afora.

Para encerrar, vejam o que escreveu, no Telegraph de 9/9, o senhor Ian Martin, comentarista político, ex-editor do “The Scotman” e do “Sunday Telegraph: “Em risco está uma maravilhosa União, com um mercado comum de sucesso e compartilhada herança artística, científica, diplomática, humanitária e de sucesso militar. Se tudo isso for perdido – sacrificada por uma mentira e substituída por amargura e ressentimento – será uma tragédia de proporções épicas”.

E o Financial Times de ontem adverte: “Vejam o exemplo de Quebec; ameaçou se separar do Canadá e em 1980 fez o primeiro referendum, 59 contra a separação. Mas o dinheiro de Montreal, que saiu de lá com medo dessa votação, nunca mais voltou. Ela, que era o centro das finanças, perdeu essa condição para Toronto”.
Nada a acrescentar. E somente lamentar a insensatez que parece estar tomando conta do mundo inteiro.

Venho relendo Érico Veríssimo. Agora, estou em pleno “Volta do Gato Preto”, que são lembranças de seu tempo como professor visitante da Universidade da Califórnia. Como sempre são seus escritos, interessantes e divertidos. Encontrei uma estória que me lembrou uma acontecida comigo aqui em Natal. Embora semelhantes, as motivações foram diferentes. Conto a dele.

Enquanto procurava uma casa em Hollywood, hospedou-se em um hotel, cujo ascensorista lhe contou sua vida. Perguntou-lhe, um dia: já ouviu falar de Manolo Alba? Foi um grande tenor e ator espanhol. Sou eu. Vim parar aqui, fugindo de Franco, e não consegui emprego de ator, por não ser membro do Actor’s Guild, o sindicato dos artistas. Já fiz de tudo, mas não me aceitam como sócio. Por isso, estou preso aqui nesta gaiola. Já me disseram até para desistir. Mas me deram uma esperança – se eu conseguir uma carta de um produtor dizendo que vai me contratar, me associam.

Veríssimo gostou da figura, já com certa idade e que lhe mostrou diversos programas em que foi protagonista principal, por toda a Europa. Não prometeu nada, mas disse que ia ver se podia ajudá-lo. Como conhecia um produtor que se tornara seu amigo, resolveu conversar com ele e pedir a tal carta. O produtor chamou a secretária e disse: Érico vai lhe ditar uma carta; prepare e traga para eu assinar. E não titubeou. Assinou-a sem pestanejar. E fez a felicidade de Manolo. Que agradeceu: “Bendita la madre que te puso en el mundo”. O que me fez lembrar a forma educada que usam em castelhano para chamar alguém de fdp: “Hijo de una mujer que ha olvidado a los buenos consejos de su madre”.

Conto a minha estória. Nos meus tempos de Universidade, conseguimos apoio da SUDENE e da USAID para desenvolver o Projeto RITA (Rural Industrial Technical Assistance). Juntava a nossa Universidade à USU – Utah State University. O RITA pretendia desenvolver assistência técnica e promover criação de indústrias na área rural. Ao mesmo tempo, treinaríamos estudantes de Engenharia e Economia no preparo de projetos, e apoiaríamos empresários a montar essas indústrias. Viriam, e vieram, professores e estudantes americanos para trabalhar conosco aqui e iriam, e foram, professores e estudantes daqui para estudar e especializar-se nos EUA. Desse trabalho surgiu depois o PRUDERN – Programa Universitário de Desenvolvimento do RN – depois transformado num Núcleo de Apoio à Pequena e Média Empresa, já no Banco do RN, e que foi a semente que levou a instalação do SEBRAE por aqui.

Tudo pronto, SUDENE e USAID dando o apoio necessário, só faltava a concordância do Estado, sem o qual a SUDENE nada faria. Naquele momento, havia uma certa dificuldade no relacionamento da Universidade com o Governo. O Reitor, Dr. Onofre Lopes, me disse que resolvesse o problema. Chamei meu colega e amigo, que participaria conosco do RITA, Antomar Ferreira de Souza, amigo de Aluisio Alves, e fomos falar com ele para pedir a tal carta. Não teve dúvidas. Chamou sua secretária, Yvonne Barbalho, e disse: Dalton vai ditar um ofício para você. Prepare e traga para eu assinar. Também não titubeou. Com isso, o programa foi efetivado e deixou ótimos resultados. E uma dificuldade entre os dois dirigentes não prejudicou o Estado. Espíritos superiores.

Toda essa discussão em torno do ebola me trouxe à lembrança meu tio Pelúsio Mello, a vida toda médico da Saúde do Porto, inclusive nos anos da Segunda Guerra em Natal. Deu um duro danado em Parnamirim, revistando tudo que era avião que chegava da África, com os seus colegas de trabalho. Médicos, Antonio Feijó, José Pinto e Fernando de Góis. Comentava comigo, muitas vezes, ter pegado mosquitos vivos, principalmente o “anopheles gambiae”, transmissor da febre amarela, que era o alvo principal das buscas. Também dizia da cooperação irrestrita dos americanos, que obedeciam à risca todas as instruções da Saúde. Mesmo sendo aviões militares, só abriam as portas e desembarcavam depois da visita da Saúde. E quando o movimento cresceu muito e o nosso pessoal não dava conta do recado, colocaram o seu próprio pessoal médico para ajudar na tarefa.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o ebola é extremamente perigoso. A atenuante é que sua propagação é relativamente lenta, pois o vírus, tem vida curta, quaro, cindo dias, e a contaminação é por contato; sangue, saliva, fezes, outros fluídos. Países no mundo inteiro tomam medidas preventivas para evitar o ingresso do vírus em suas terras e a propagação da doença.

Aqui no Brasil, vi uma declaração do Ministério da Saúde que o risco da disseminação do vírus é ínfima, se não mesmo inexistente. Só espero que estejam realmente seguros disso. Uma contaminação com o ebola, por aqui, seria muito mais grave, incomparavelmente mais grave, pela alto nível de mortalidade, que pode chegar aos 90% dos contaminados, do que qualquer outra das doenças que nos assolam, inclusive a dengue.

Não sou médico, pouco conhecimento tenho para discutir o assunto. Mas, tenho a desagradável mania de acompanhar as notícias. Estou vendo como as vítimas desse vírus aumentam diariamente, com um número de mortes elevado. Não existe um remédio ou vacina realmente eficaz. Parece haver surgido agora, nos Estados Unidos, um medicamente que tem tido um resultado positivo no tratamento, mas de produção limitada e que, obviamente, será usado prioritariamente no próprio país. E a OMS, de tão preocupada com o problema, já autorizou até o uso dos medicamentos experimentais.

Por tudo isso, é de se esperar que as nossas autoridades sanitárias estejam realmente seguras do que dizem, e do que fazem, se é que estão fazendo mesmo alguma coisa. É difícil acreditar na Saúde oferecida pelo governo.

Alguns podem pensar que estou me tornando chato, repetitivo. Talvez tenha isso um pouco de verdade. Mas, têm a opção de não me ler. Eu mesmo, muitas vezes, deixo de ler certos textos que me parecem muito compridos, prolixos, complicados. Tento evitar isso seguindo os conselhos de Churchill: das palavras, as mais simples; das frases, as mais curtas.

Inegável, há pessoas e fatos que marcam sua existência. E também inegável que, por isso mesmo, são sempre lembrados. São os ausentes presentes. E tive a felicidade de conviver, anos e anos, com pessoas inteligentes e originais, hoje ausentes, mas sempre presentes. Lembro-me delas todos os dias, pela sua originalidade, verve e inteligência.

A idéia desta crônica surgiu em conversa com meu filho, quando fomos receber os ingressos para os jogos da Copa. Que me fez voltar aos estádios depois de quarenta anos. Ele os comprou em Montreal, onde mora há mais de vinte anos, e fomos recebê-los aqui em Natal. Globalização. Tinha ido antes e a fila era tão grande que resolveu deixar para depois.

Domingo pela manhã fui com ele ao Shopping Cidade Jardim, pensando nas filas. Paramentei-me de idoso – boné e bengala -, desnecessariamente exagerando para mostrar a condição de idoso, tanto eu como ele rindo muito com a presepada. E isso lembrou-me um comentário de Alvamar Furtado.

Ele dizia: uma das coisas que mais identificavam um velho era o boné, o fundo das calças frouxo, a bengala, e o atravessar a rua com uma corridinha ridícula e passinhos curtos. Na minha indumentária, faltavam o fundo das calças e a corridinha. Alvamar, mais velho do que eu quinze anos, tinha uma cabeça e comportamento de fazer inveja a muitos jovens. E brincava com essa mania de todos, hoje em dia, de chamar todo mundo de idoso, só por ter 60 anos ou mais.

Embora essa mania se acentue cada vez mais, e isso é bom, é constante você encontrar pessoas que desrespeitam totalmente os idosos. Em qualquer estacionamento, você encontra carros ocupando os locais destinados à idosos e deficientes, outros desrespeitando as filas em bancos e outros locais. Normalmente, reajo a tais comportamentos, não especificamente por mim, mas na tentativa de dar um pouco de educação a quem não tem nenhuma. Muitas vezes, sob ameaça, que já tive de um jovem de seus vinte anos que ocupava uma vaga de deficiente. Perguntei qual a deficiência dele, fitou-me com uma cara de poucos amigos, não respondeu, e aí eu conclui: já sei, falta de educação. Ficou brabo, mas não me deu medo. (Havia um segurança bem perto e eu podia gritar).

A saudade dos ausentes é reduzida pela nossa lembrança, que os torna presentes. E como isso nos ajuda a viver!



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