NATAL PRESS

Parece coisa de futebol. Flamengo versus Fluminense. Santos versus Corinthians. A semelhança é grande. Os jogadoressão intercambiáveis. Só que, em Governo versus Oposição, você praticamente não nota a diferença entre eles. Todos calçam quarenta. Há algumas exceções, claro, para confirmar a regra. Um retrato triste dessa real semelhança ficou patente nessa briga mal educada entre o presidente do senado e o chamado líder da oposição. Em campo, há brigas, mas raramente com essa virulência.

A evidência da falência do governo e a derrocada da oposição são gritantes. Se, por um lado, aquele naufraga na mesmice da corrupção e incompetência, este se comporta de forma pífia e tão incompetente quanto. Chega-se facilmente a uma conclusão: estamos mal, muito mal, e piorando a cada nova ação do governo e reação da oposição, e vice versa.

Aonde vamos parar? Só Deus sabe. Mas dá para desconfiar. No brejo. De outra coisa podemos desconfiar. Se Deus já foi brasileiro um dia, cansou. Nem água manda mais. Ter tempo para prestar atenção à nossa incapacidade, acho que já não tem. Deve ter concluído ser inútil procurar nos ajudar, ou corrigir. E, tendo adquirido outra nacionalidade, fez o que muitos gostariam de fazer. Acho que desistiu mesmo foi da America Latina. É só olhar para a Venezuela e a Argentina, por exemplo.

Todos os dias somos premiados por decisões incompetentes. E não é de hoje. Há tempos é assim. E estamos a pagar preços altíssimos por isso. Chover no molhado (força de expressão, hoje não chove nem no seco), é comentar que os preços disparam, as promessas foram enganações, as decisões são incompetentes. Tudo isso é visível, e sentido, na inflação que nos atazana. Dizer que há insegurança, pouca saúde e escolas ruins é repetir mais do mesmo. E que estamos caminhando para um crescimento mixuruca da economia é não afirmar novidade. Apenas repetir a evidência. E ficam a brigar como colegiais. Exagero, nem colegiais brigam mais assim.

Lembrei-me de um estória contada por meu avô. Um amigo íntimo, pequeno comerciante como ele, morador da mesma Rua da Palha, que teve o nome mudado para Vigário Bartolomeu (mania de mudar o nome das coisas, subdesenvolvimento extremo), estava muito doente. Meu avô foi visitá-lo, em casa. Naqueles tempos você morria em casa e dispensava a morte melhorada, e cara, nos hospitais. Meu avô lamentou o estado do amigo, fez votos de retorno à saúde, e procurou encorajá-lo. Mas, o doente, um realista, sabia de sua condição. –“Mello, não se preocupe. Sei que estou no fim, mas tenho um consolo, quando penso que vou ficar livre do ministério do Trabalho”... Recém criado por Getúlio, já infernizava a vida dos pequenos empresários.

Não que esteja a acreditar em melhoria apenas após a morte – o que pode ser ou não ser, ninguém sabe -, mas apenas para mostrar o desalento semelhante que toda essasmentiras e falsas esperançasnos causa.

O email de antigamente. Todas as pessoas, jurídicas ou físicas, podiam ter o seu endereço telegráfico registrado no Correio. Não sei se ainda existe isso. A da firma de meu pai, que foi aberta em 1932 – e ainda hoje funciona – tinha como endereço o meu nome. E o endereço, como o email hoje, era internacional.

Telegrama era caro. Você pagava por palavra e, quanto mais breve e objetivo, menos você gastava. O registro do endereço lhe garantia usar apenas um nome, em vez de nome, rua, número, cidade, estado e país. Daí veio essa história de linguagem telegráfica, ou seja, curta, objetiva, direta. Nada de pontuações, adjetivos e advérbios.

Comecei a trabalhar na nossa firma ainda aos nove ou dez anos. Quando saía do colégio, o Pedro Segundo, na Ribeira e perto do escritório, ia para lá e a minha obrigação inicial era ir ao Correio. Também havia o registro de caixa postal; sua correspondência era depositada nessa caixa, e você não dependia do carteiro. Pegava suas cartas a qualquer hora do dia. Também ia passar telegramas, ou seja, enviar os telegramas que por acaso existissem. Os que chegavam, o correio entregava imediatamente. Até que funcionava. Às vezes, eram demorados, especialmente telegramas internacionais.

Surgiu então uma empresa inglesa, a Western Cable & Telegraph, que era usada quando havia pressa, especialmente para telegramas internacionais. A entrega era imediata. Quando havia necessidade, embora mais cara, também era usada para telegramas dentro do Brasil. Dependendo de seu contrato, mandavam estafetas buscar os telegramas à transmitir em sua empresa. Ainda por cima, quando o telegrama era urgente, lhe telefonavam o texto e o entregavam logo em seguida. Funcionava, e como.

Com as melhorias nas comunicações, primeiro com o telefone, agora com os emails, os telegramas perderam sua utilidade. Hoje, ainda existem, e de vez em quando eu uso, para mensagens protocolares, como parabéns em aniversários e casamentos. Como as próprias cartas, que praticamente desapareceram. Hoje, pelo correio, só contas para pagar e, mais das vezes, chegam atrasadas e com vencimento ultrapassado. Eu mesmo, que cansei de escrever cartas no tempo que trabalhava com meu pai - cuja firma começou como um escritório de representações, onde a “alma do negócio” é a correspondência - , anos fazem que não escrevo uma carta; nem vou ao Correio. Uso email para tudo, o tempo todo.

Como radioamador, há quase sessenta anos, acompanhei a evolução das comunicações por aqui. Conhecendo bem o assunto, utilizando os novos meios assim que surgiam, ainda me surpreendo com as novidades. E as uso todas assim surge a oportunidade.

Vi na TV professor responsável pelas matriculas em escola pública alertar os estudantes: prestem muita atenção, são muitos documentos para fazer a matricula e a falta de um deles pode prejudicar você. Não duvido que, no meio desses importantes documentos, exista algum do tipo que descrevo a seguir.

Em 1942, depois de aprovado no Exame de Admissão ao Ginásio no Atheneu, fui fazer minha matricula. Entre os documentos exigidos, havia um Atestado de Sanidade Física e Mental. Era emitido pela Secretaria de Saúde do Estado, na Junqueira Aires, em frente ao Atheneu.

Eu morava no final da Rua Açu, perto da Hermes da Fonseca. Ainda não era calçada. Saí de madrugada, por volta das cinco da manhã, caminhando até a Secretaria, onde cheguei em redor das cinco e meia, já encontrando uma fila razoável. Quando fui atendido, sei lá, 30, 45 minutos depois, uma enfermeira perguntou o meu nome, preencheu o atestado e me entregou. Já assinado pelo medico, que nem sequer falou comigo. Portanto, um atestado fajuto. Todos tinham que o apresentar a cada nova matricula, ou seja, todos os anos. Não me surpreendeu. Não tinha ainda idade para me indignar.

Minha grande surpresa ocorreu trinta anos depois, quando na Secretaria de Educação, Governo Cortez Pereira. Revisando procedimentos, pois então já tinha ojeriza à burocracia, encontro aquela exigência do mesmo atestado, e obviamente entregue da mesma forma. Procurei e não encontrei legislação que o exigisse, para revogá-la. Perguntei à Genibaldo Barros, Secretário de Saúde, se havia alguma legislação por lá. Investigou e nada encontrou. Acabei com o tal atestado e combinei com ele que, se necessário, faríamos o exame do aluno na escola. E nunca isso foi preciso.

A burocracia no Brasil é um câncer que se expande. Qualquer área de governo está repleta de procedimentos idiotas, que só atanazam a nossa vida. Nada resolvem ou contribuem para o nosso bem-estar. Governos passados criaram até um Ministério da Desburocratização, que foi engolido pela burocracia, pois desapareceu. Em compensação, temos hoje 39 que não sabemos para que ou por que. Fico imaginando a economia e o sossego do cidadão, se conseguíssemos reduzir toda essa burocracia maluca a um mínimo.

Querem exemplos da burrice atual? Essa modificação das tomadas, sem nenhum justificativa racional. A exigência de terra é uma idiotice, pois já existiam no mercado tomadas que permitiam essa ligação. Era só dar-lhes preferência. Outra burrice? Extintor de incêndio em veículos. Vocês já viram alguém apagar fogo em carros com esses extintores? Inventam novas placas para uso do MERCOSUL, a ser adotada proximamente. E tudo isso somos nós que pagamos. Mas não sabemos quem ganha o dinheiro! Em Quebec, Canadá, os carros só têm placa atrás. Já pensou na economia?

Mas, convenhamos, não estamos sós. Li outro dia que anos atrás um novo Prefeito de Londres resolveu revisar procedimentos. Encontrou um guarda destacado 24 horas por dia numa praça pequena e pouco importante. Por que? Um cidadão sentou-se num banco recém pintado, acionou a Prefeitura para ser indenizado, ganhou a causa. O Prefeito de então destacou um guarda para avisar as pessoas da “tinta fresca”. Esqueceram, e o “serviço” ficou ativo por anos. Como se vê, não somos exceção.

Como todo mundo, tenho cá os meus percalços, minhas dificuldades, meus problemas, meus desenganos, entre outros inúmeros momentos desagradáveis. Tudo isso, porém, é largamente superado pelo prazer e pelas alegrias da vida. Estar vivo é ótimo. Embora seja um perigo permanente.

Já comecei a contar os meus dias como "menos um". Não tenho dúvidas que já cumpri minha missão na Terra - transmitir meus genes. Segundo alguns biólogos, para isso nascemos, elo de uma cadeia milenar e que se estenderá por outros tantos milênios, até o fim dos tempos.

Essa estória de vida pós-morte, para mim, é conversa. Se houver, será uma grande e agradável surpresa. Escutei o Dalai Lama dizer, numa entrevista sobre reencarnação, quando perguntado se acreditava em vida depois da morte: Claro, é o fundamento de minha religião. E se não existir, voltou o interlocutor: Nenhum problema, já morri. Para mim, é o contrário. Surpresa é se houver.

Já estou no caminho dos 90. Não sei, ninguém sabe, até quantos vai chegar. Mas, não faz mal se cuidar. Li que o fundador do "Old Parr" viveu até 163 anos. Passei a tomar "Old Parr" como remédio - uma dose antes do almoço, outra dose antes do jantar. Não me iludo; pode ser propaganda do produtor. Mas, que faz um bem danado, faz.

Há um senão. Não quero ficar vegetal, pendurado numa maquinaria infernal, inconsciente, sem perspectivas, deitado eternamente em berço esplêndido, como o Brasil, sem saber de nada. Com o Brasil é pior, pois é explorado. Eu não sou. Mas, mesmo assim, aproveitando uma decisão inteligente do Conselho de Medicina, já disse aos meus filhos, e o fiz por escrito, desliguem a parafernália. E me deixem partir. Mas, não tenho pressa. A pressa é inimiga da perfeição.

Enquanto estamos por aqui, sigamos os ensinamentos do Deus visto por Espinosa, em 1685. Entre outros conselhos Dele, este sobre-sai:

“Pára de ficar rezando e batendo no peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cante, te divirtas e que desfrutes de tudo que Eu fiz para ti. Pára de ir a esses templos lúgubres e frios que você mesmo construiu e que acredita ser minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e expresso meu amor por ti”.

Ano novo, nova vida. Lembranças. Entre as coisas relativamente novas, o uso de meios de pagamento. Hoje, sem cartão, você não sai de casa. Nem viaja. É o dinheiro moderno. Mas, claro, não era assim. Sou do tempo em que você tinha que andar com dinheiro no bolso.

Quando fui estudar nos EUA, meados dos anos sessenta, cheque por lá já era o instrumento básico para seus pagamentos, em todos os lados. No Brasil, dinheiro no bolso ainda era a solução. Quando voltei aos EUA, começo dos setenta, os cartões já tinham impacto relativo, mas ainda ao lado dos cheques. E o dinheiro não havia sumido. Hoje, ninguém usa dinheiro.

O império dos cartões já está ocorrendo por aqui. E os cheques vêm sendo substituídos com rapidez. Mas, ainda vemos excrescências como “não aceitamos cheques”, em algumas lojas e, especialmente, postos de gasolina. Até se entende, pois a safadeza aqui, se não é a regra, é quase. Um problema de princípio. Nos EUA, você é honesto, e aceito como tal, até prova em contrario. Por aqui, você é considerado desonesto de saída, e tem que provar que é honesto. Uma enorme diferença. Daí, a desconfiança inata do seu cheque.

De uma geração que usava dinheiro para tudo, me adaptei rápido ao uso de cheques e cartões. Hoje, como diz uma propaganda que anda por aí, “não saio de casa sem eles” – cartões. Aliás, o meu primeiro cartão, que tenho até hoje, é de 1964. E minha primeira grande lição, que aprendi depois que voltei de Washington, foi numa viagem ao Rio, com um colega e bom amigo da UFRN.

Almoçamos em um restaurante qualquer, num shopping desses, e ele pagou a conta com um cheque de Natal – e o restaurante aceitou. Isso foi quase quarenta anos atrás. Minha surpresa foi tão marcante que até hoje ainda me lembro. Foi um retrato das mudanças que andavam por aqui e que, normalmente, por evoluírem gradativamente, não surpreende. Você vai se habituando e nem sequer nota a diferença. A não ser quando você estava fora, onde isso era comum mas você não esperava encontrar aqui, e é surpreendido com a novidade, o meu caso.

Por que me veio tudo isso à cabeça? Porque, outro dia, ainda refletindo antigos costumes, perguntei numa loja, posso pagar com cheque, cartão ou dinheiro? Nós preferimos cartão, mas o senhor é quem decide. O cartão é o dono da bola. Para o usuário é um instrumento seguro, ágil e fácil de usar. Para o comerciante, idem. Com a vantagem de você poder parcelar a compra, aceitável desde que não incluam juros. Ou no pagamento do cartão – o que não recomendo, pois os juros são extorsivos. Mas, ainda há alguns que chegam ao exagero de não aceitar cartões!

Os cartões são os adereços financeiros mais apropriados e seus companheiros de viagem mais flexíveis e seguros. Quando fui à Europa a primeira vez, usava um cinto com bolsos para “esconder” o chorado dinheirinho que levava (não era na cueca). Não mais. Além do que, sem cartão, os hotéis relutam em lhe receber.

Estes dias que nos levam ao Natal, me pareceram apropriados para comentar sobre essa palavra, que tão bem simboliza como deveria ser o nosso comportamento.

Pouco tempo atrás escrevi sobre uma palavra em inglês que não conhecia, quando a escutei pelo primeira vez – “raincheck”. Hoje, escrevo sobre uma palavra que também escutei pela primeira vez em inglês e que internalizei permanentemente – “empathy” – empatia. Se traduzir “raincheck” era complicado, nesta é muito fácil. A ouvi pela primeira vez num curso sobre Recursos Humanos, durante o meu mestrado. Confesso a minha ignorância então, e minha surpresa, até hoje de, pelo menos aparentemente, vê-la tão pouco reconhecida e pouco aplicada por aqui. Exagero? Talvez.
É uma palavra que não escuto muito e que, se olharmos ao redor, pelo comportamento das pessoas, parece esquecida. Por isso, reproduzo o que diz o Aulete:

empatia
A A A A
(em.pa.ti. a)
sf.
1. Psi. Experiência pela qual uma pessoa se identifica com outra, tendendo a compreender o que ela pensa e a sentir o que ela sente, ainda que nenhum dos dois o expressem de modo explícito ou objetivo.
2. Capacidade de compreensão emocional e estética de um objeto, ger. de arte (um quadro, livro, filme, p. ex.).
3. Nas inter-relações pessoais e sociais, capacidade de alguém de se ver como os outros o vêem, de ver outrem como os outros o vêem e também como ele mesmo se vê.

Desenvolver esse sentimento, para mim, foi extremamente importante. Tenho esse comportamento sempre presente e, às vezes, penso que de forma exagerada. Concilio-me com a certeza de que é melhor errar por mais, no caso, do que por menos. Procuro, sempre que me confronto com uma decisão que pode afetar outras pessoas, me colocar na posição delas para sentir o efeito.
E não me irrito (faz mal ao coração), mas lamento, quando vejo pessoas decidirem coisas que irão afetar outras de modo desagradável, e muitas vezes de forma permanente, sem qualquer preocupação com suas reações. Sem empatia.
Vocês já pensaram como viveríamos, todos nós, bem melhor, se nossos lideres (?) desenvolvessem esse comportamento? Será que eles conhecem a palavra, já que pelas suas decisões isso não parece evidente? De vez em quando, sinto que nem todos ignoram “empatia”, mas gostaria de ver sua prática mais acentuada.
A época do Natal é o momento apropriado para pedir à Deus a generalização dessa prática, se é que ele é mesmo brasileiro. Tenho minhas dúvidas.

Não conhecia a palavra, da primeira vez que a ouvi. A tradução literal seria alguma coisa como “cheque de chuva”. Aprendi na raça, como se dizia antigamente. E me lembrei disso, primeiro, em função de meu artigo de sábado passado neste jornal e, segundo, em razão de um email que recebi de um amigo, repassando email de um seu amigo, que voltou entusiasmado com a facilidade de vida que encontrou nos Estados Unidos. Tudo fácil, sem burocracia, soluções imediatas de possíveis problemas, atendimento vip em todos os lugares. E comenta, mais ou menos na mesma linha do meu artigo citado, as dificuldades que sempre encontra por aqui. Termina seu desabafo dizendo: tive vontade de ir morar lá. E tem razão, pois as coisas realmente funcionam, e bem. E meu amigo perguntava: é verdade? Claro, respondi.

Voltando ao “raincheck”. O ano era 73/74. Meu filho, cursando engenharia, me pediu para comprar uma calculadora eletrônica. Mesmo nos EUA, uma de boa qualidade e com funções cientificas, era ainda muito cara. No Brasil, nem pensar. Procurei e vi um anuncio de uma que resolvia o problema e, ainda por cima, em queima (palavra que não se usa mais, agora é “sale”). O preço de US$240, estava por US$140. Diferença razoável. O anuncio era para o fim de semana. No domingo, fui comprar e tinha acabado o estoque. Com a cara mexendo, perguntei, e agora? Se o senhor aceitar, lhe damos um “raincheck”, e o senhor nos dá seu telefone. Em uma semana, mais ou menos, deve chegar novo estoque. Avisamos e o senhor vem buscá-la, pelos mesmos US$140. Preciso pagar logo? Não, quando vier buscar. E aprendi o que era “raincheck”; um documento garantindo o meu direito a comprar a calculadora pelo preço anunciado, já que a procurara dentro do prazo.

Em português claro, uma “promissória”. Devo, não nego e pago. Só mais uns dias.

Outro exemplo de atendimento. Comprei uma mangueira para aguar o jardim. A bicha furou-se em pouco tempo, dois ou três meses de uso. Comentando com um vizinho que ia comprar outra ele disse: vá na loja onde comprou, leve a mangueira e reclame; eles dão uma nova. Mas, não tenho mais a nota fiscal, nem me lembro direito a data em que comprei. Não tem importância, vá e reclame. Fui, meio encabulado. O senhor que me atendeu apenas perguntou, o senhor trouxe a mangueira? Sim, está no carro. Vá buscar e lhe damos uma nova. Sem mais exigências. Acostumado com as coisas daqui, é de cair o queixo.

Isso, quarenta anos atrás. Hoje, melhorou por aqui, mas as dificuldades para sermos atendidos ainda são grandes, demoradas e incertas. Há pouco tempo, enfrentei um problema com um telefone sem fio. Quebrou ligeirinho e levei mais de um mês para receber um novo, depois de viagens à loja onde comprei, à assistência técnica local, que nada resolveu e eu mesmo fui obrigado a telefonar para o fabricante, que me pediu para mandar o telefone pelo correio – paguei o frete – e depois de um mês recebi de volta. Tive tanta raiva que dei o telefone a um neto, pois só em olhar para ele me fazia sentir mal e pensar que ia ter um enfarto.

Não fiquei morando nos EUA. Poderia, pois a minha função me permitia isso. Voltei, e não me arrependo. Com todas as nossas dificuldades, que vêm diminuindo, devagar, mas vêm, o país para se viver ainda é o nosso. Dou fé.

Sou a favor dos tempos modernos. Em tudo. Hoje em dia, por exemplo, essa moçada tem um relacionamento sensacional. Vive e convive de forma total e aberta. Se conhecem intimamente e antecipam os acontecimentos com a maior naturalidade. Não chego a dizer que me causam inveja. Sou de outro tempo e outros costumes. Mas, aceito, convivo com, e até admiro, esses novos relacionamentos. Novos para nós; e já não tão novos, pois, na verdade, não são de hoje e já ocorrem há algum tempo.

Cinqüenta anos atrás (1965), para mim, esse comportamento era uma novidade total. Tinha um bom amigo, Dal Symes, na Utah State University, onde fiz o meu mestrado. Era professor de Inglês. Quase todos os dias batíamos um papo, tomávamos um café e fumávamos um cigarrinho (naquele então eu era fumante). Como todos sabem, Utah é o berço do mormonismo. Beber (mesmo café), fumar, são coisas proibidas. (Poligamia não era, hoje é, por lei federal. Agora mesmo, jornais informam que o papa maior dessa religião tinha quarenta esposas. Visitei a casa onde morou, em Salt Lake City; cabia as quarenta). Só havia dois lugares no campus da Universidade onde você podia tomar um café ou fumar um cigarro. No “Bluebird”, um café privado; ou no ROTC (o CPOR de lá) onde, por ser um prédio federal, as proibições locais não valiam. Coisas de americano. Ao relento, só no verão; no inverno, se chega aos 25o. abaixo de zero. Na primavera e começo do outono, com um pouco de coragem, ainda dá.

Symes convida-me para passar um fim de semana em sua casa, que ficava nas montanhas perto da cidadezinha – Logan -, naquela época com 15 mil habitante, dos quais sete mil viviam na, estudantes, ou da Universidade, professores e funcionários. Sertão de Utah. Sabia de sua casa, pois sempre falava dela; era feita de troncos de árvores, estilo faroeste, que dizia confortável. Aceitei o convite e a casa preencheu nossas expectativas. Confortável, bela paisagem, um show.

Cheguei lá, com a mulher e dois filhos, final de uma sexta-feira. Recebeu-nos com uma cordialidade que não me surpreendeu, pois o conhecia. E, surpresa, apresentou-me uma jovem, simpática e bonita (se pode ser bonita sem ser simpática), que nos recebeu também efusivamente. Minha noiva, disse. Estamos vivendo juntos há dois anos e, se der certo, nos casamos. Eu e Ione nos entreolhamos, meio espantados. Mas, cabrito bom não berra. Aceitamos o fato com a maior tranqüilidade e passamos a conviver ainda mais intensamente com o casal, até nossa volta para cá. Quando saímos, ainda não haviam casado, nem tinham filhos. Depois, perdi o contato e não sei se casaram ou não.

A meninada de hoje pratica essa “experiência” por aqui. E faz muito bem. Melhor conhecer bem, que remediar posteriormente, com todas as dificuldades legais e, para alguns, também religiosas. Na minha opinião, apenas um senão: desde que não tenham filhos.

Para quem escreve, nada melhor que receber comentários. Mesmo que, muitas vezes, sejam críticos. Os recebo, por email, telefonemas, encontros pessoais. Tem um comentarista que aprecio muito, pela sua consistência. Quase toda semana, lê e me telefona sobre o que escrevi. Sempre elogia. Fico grato.

Acha que escrevo pouco sobre a conjuntura. Quer que eu fale de política, de economia, de saúde, de educação. Diz, gosto do que você escreve, me divirto com isso, e leio tudo com prazer. Mas, acho que você precisa falar mais dos nossos problemas. Agradeço seus comentários, suas sugestões – chega a me dar temas – mas respondo que tenho escrito. Se não na constância que gostaria, escrevo sobre o assunto, aqui e ali.

Já lhe dei razões para não escrever mais sobre tais assuntos. É que há muita gente que já escreve a respeito, muitos mais competentes do que eu e, afinal, as pessoas gostam de ler outras coisas. Como eu. Por isso, me dedico mais a relembrar o passado, contar coisas de outrora, às vezes de hoje, esquecidas por muitos e que merecem ser relembradas.

Sei que não o convenci, pois ainda me telefona e comenta – homem, meta o pau nesses governos irresponsáveis, nesses políticos safados, nessa economia maluca, nessa saúde que mata e nessas escolas que não ensinam. Concordo com ele, para não prolongar a conversa. Vai me telefonar reclamando deste artigo mas, como nos entendemos bem, sei que não vai ficar com raiva. Inclusive por que, reconheço, tem muita razão nos seus argumentos.

Quando ele me faz esses comentários, sempre concordo. As coisas neste nosso país vão de mal a pior. A gente olha em torno, busca com insistência por alguma coisa boa para elogiar e, infelizmente, não encontra nada. Sobre qualquer ângulo, as notícias são sempre más. Dólar que sobe, inflação que dispara, indústria em descenso, comércio reclamando de poucos negócios, e por ai vai. Perspectivas, segundo comentaristas, as piores possíveis.

Daí, minha dedicação aos assuntos agradáveis, que melhoram nosso astral, e trazem alegria. Entendo, meu caro amigo, seu ponto de vista, mas não vou mudar.

A natureza é sábia. Quando envelhecemos, vamos perdendo audição. Meu avô morreu aos 78 anos. Aos 70, já escutava mal. Se você falasse mais alto, exclamava: fale baixo, se não eu não lhe escuto. Minha avó, que se foi aos 101, ficou completamente surda. Meu pai e minha mãe também tiveram seus probleminhas.

Como bom herdeiro desse genes, comecei a perder audição ao redor dos 70. Isso não me incomodava. Alguns parentes, e amigos, que gostam de novidades, começaram a reclamar: você está mouco; a gente fala e você não entende; temos que repetir e falar mais alto o tempo todo. Bote um aparelho, diziam. Tentei.

Fui ao médico, dos melhores daqui, confirmou minha surdez, que dizia progressiva, da idade, e confirmou o diagnóstico de parentes e amigos. Use aparelho. Pode testar sem obrigação. Testei.

Uns oito anos atrás. Tinha 76 anos. Usei, experimentei. Quando botei os bichos nos ouvidos, sons inesperados e que há muito não ouvia. Uma explosão, tipo Big Bang. Usei uns dez dias. Não me acostumei. Escutava os pratos sendo lavados na cozinha e não ouvia a tv na minha frente. O mundo todo era uma zoada só. Devolvi o aparelho, pedi desculpas, e voltei ao meu agradável silêncio.

Mas, agora, o bicho pegou. Meu passatempos são ler e ouvir música. Para ler, o silêncio é essencial. Para música, ouvir bem é indispensável. E comecei a sentir que não escutava alguns instrumentos; que não percebia alguns sons mais agudos. Na música clássica, onde o volume da orquestra vai do pianíssimo ao fortíssimo, percebi que muito perdia. Resolvi colocar um aparelho.

Voltei ao mesmo médico, que é meu amigo. Cara lavada. Achou graça; reexaminou, a perda havia aumentado, claro. Definiu um novo aparelho. Os mesmos problemas de antes. Mas agora são melhores, discriminam os sons com mais perfeição. São modelados exatamente para as suas dificuldades. Mas, ainda barulhentos. Resolvi enfrentar o problema e me acostumar. Adotei uma solução pessoal, particular. Uso de acordo com o que quero escutar.

Assim, não contrario a natureza, que nos isola dos sons perturbadores, ao "regular" nossa audição e nos permite o silêncio, nos ajudando a escrever nonsenses como este. Haja paciência, especialmente dos possíveis leitores.



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