NATAL PRESS

Não sou marinheiro de primeira viagem. Perambulei um bocado por esse mundo de Deus. Só ao Japão, longe paca, fui duas vezes. E me lembro de meu tempo de menino, quando a gente dizia que, se cavasse um buraco bem fundo, ia terminar no Japão. E que no Japão todo mundo andava de cabeça p’ra baixo. Hoje, só conheço um lugar onde tem muita gente de cabeça p’ra baixo, Brasília. E foi para lá que fui este último fim de semana.

Ando com preguiça de deixar meus hábitos e confortos para viajar. Mas minha neta, que aniversariou e que, segundo minha avó sendo mulher não tem idade, convenceu a mim e a avó que deveriamos acompanhá-la nessa viagem à Brasília, para comemorar seu aniversário. Fomos.

A viagem, como sempre, estressante. Não que os horários falhassem. Vôos no tempo previsto. Mas o safári, até a “nova maravilha” de São Gonçalo, é terrível. Tem todos os riscos de um safári, sem nenhum dos benefícios. Riscos de assaltos, dúvida quando a hora de chegada, dificuldades na estrada, cheia de buracos e verdadeiros precipícios. Depois que você chega no aeroporto, até que não é tão ruim. Na ida, o tempo foi razoável; início da tarde, trânsito ainda sofrível. Na volta, um Deus nos acuda. Cheguei no aeroporto perto de uma da tarde, depois de mais ou menos duas horas e meia de vôo, e levei hora e meia para chegar em casa, pela ponte velha. Haja sofrimento!

O vôo em si foi agradável, tanto na ida quanto na volta. É verdade que tentam nos matar de fome, pois nos dão o que chamam de “snack”; um bolinho vagabundo, duas bolachas e um queijinho mixuruca. Um refresco (refresco é muito antigo) ou um guaraná ou coca. Para quem não gosta, o jeito é beber água. As cadeiras, desnecessário dizer, super apertadas. O seu movimento fica tão restrito que até abrir a boca causa desconforto. Ainda bem que são só duas ou três horas.

Gosto de Brasília. Morei lá uns dois anos, quando voltei de Washington. Gosto do clima. Temperatura sempre agradável e mesmo quando faz calor é totalmente suportável. Como é muito seco, você não vira chaleira de tanto suar, como aqui em Natal. Desde que você se previna, a secura não maltrata muito. Dormia com um vaporizador eternamente ligado. E muito creme hidratante.

Minha neta escolheu o hotel. Novo, muito bom, confortável, mas com serviços sofríveis. Para não ser considerado um velho rabugento, quase não reclamei. A TV do quarto, que tinha a Sky, não funcionava. Como queria ver os jogos, reclamei, e saí do hotel quatro dias depois sem o serviço ser restabelecido. A culpa era da Sky, segundo o hotel. Mandaram um cara da manutenção, que entendia do assunto menos do que eu. O jeito foi ver o jogo na Globo, com o chato do Galvão; mas tirei o som.
A localização do hotel, no entanto, é “sui generis”. Longe de tudo e perto de nada. O que a gente dizia antigamente, nos “cafundós de Judas”. Mas, com um carro alugado, chegar onde se queria era só questão de tempo. E como o tráfego em Brasília é muito mais civilizado do que o nosso, até que funcionava. Iria para lá de novo.
Valeu. Acompanhei a neta, estive com meu filho que mora lá há tempos, voltei a andar por Brasília e, felizmente, não encontrei nenhum dos caras que vivem lá de cabeça p’ra baixo.

Quarenta nos atrás. Começo do outono nos EUA. Convite do Governador do Maine, Kenneth Curtis. Grande figura, e que havia sido hóspede nosso. Lá fomos nós, eu e Cortez, então Governador, e eu, seu Secretário de Educação. Não tenho certeza, mas acho que Cortez ainda não conhecia os Estados Unidos. De qualquer forma, como ele não era fluente em inglês, fui o seu interlocutor.

Ficamos por lá em redor de uma semana. Como o Estado é relativamente pequeno, o conhecemos quase todo e até a pesca de lagosta fomos ver. Como aqui, a lagosta também é um baluarte da economia do Maine. Só que a lagosta de lá é mais “braba” do que a nossa, pois tem garras enormes.

Cortez, com a sua curiosidade permanente, não me dava um minuto de sossego e queria saber de tudo. Perguntava mais do que padre em confessionário. Quando sabia, explicava, quando não sabia, perguntava. Foram dias agradáveis. Kenneth nos cobriu de atenção e nos acompanhava por todos os lados. Do Partido Democrata, o encontrei anos depois em Washington, onde fora morar como Presidente do Partido; eu estava então na OEA.

Um dos fatos mais marcantes, para mim, foi o jantar oficial oferecido à Cortez. Todos nós sabemos como a oratória de Cortez cativava. Falava com facilidade, colocava as coisas com uma verve especial, fazia comparações brilhantes, e mantinha a atenção de todos, todo o tempo. Uma ruma de gente, restaurante cheio.

Fui o interprete. Difícil traduzir todas as imagens que ele fazia, mas, modéstia à parte, quebrei o galho. Cortez contava uma coisas engraçadas e, com a tradução, todo muito ria. Cortez, lá pras tantas, me perguntou: que diabo você está dizendo, esse povo está rindo demais! Não contei conversa, traduzi a pergunta e aí foi a vez da audiência estourar de rir.

Um amigo nosso, que já tinha estado aqui em Natal, conhecia Cortez e a mim já de algum tempo. De tanto rir, desequilibrou-se na cadeira, caiu para trás e, por azar, em cima de uma dessas portas de saída de emergência, que abriu e disparou um alarme. O riso dos presentes dobrou. A noite foi um sucesso. E, das várias vezes que voltei ao Maine, sempre aparecia alguém que tinha estado no jantar, ou encontrado Cortez em algum lugar, e perguntava por ele. 

Quando Cortez terminou, Kenneth, que já o havia apresentado, pediu desculpas à Cortez, pois precisava fazer um anuncio importante. E anunciou: depois do sucesso do Governador, vou convidá-lo para fazer a minha campanha para reeleição. Quando traduzi, Cortez respondeu: aceito o convite com prazer e pode ficar tranqüilo pois, não sendo americano, não posso concorrer com você. Coroou à noite. Bons tempos que vale recordar.

Passei a noite inteira fechando torneiras, voltando para ver se estavam bem fechadas, buscando vazamentos, inticando se o banho da minha mulher era demorado, ouvindo água escorrendo pelo ralo, dizendo a empregada para economizar e aproveitar a água da máquina de lavar, e por aí. É que lera um folheto anexo à VEJA, muito interessante e útil, sobre a necessidade, até mesmo a urgência, de economizarmos água.

Tempos atrás, e bote tempo nisso, li um livro que achei muito pessimista e, confesso, não fui até o final. Pelo menos há uns trinta anos. Um romance, ação no Rio. Não me lembro do autor, mais era um bem conhecido. O livro era bem escrito e interessante. Já alertava para o aquecimento global, a falta d’água que se prenunciava, e as dificuldades da vida com um calor terrível e sem água para as coisas básicas. Esses detalhes eram tão marcantes, que não me recordo dos demais. Levei esse livro para a praia, para ver se conseguia ler num lugar ventilado e que me fizesse tolerar um pouco o calor que anunciava. Mesmo assim, não consegui. Depois, o procurei e não o encontrei. Devo ter me livrado dele, talvez com medo de um incêndio, tanto era o calor que gerava.

Sempre fui um tanto cético com esse problema do aquecimento global. Mas sempre me preocupei com o assunto. Um outro livro que li alertava sobre esses problemas, talvez o primeiro, de um negócio chamado “O Clube de Roma”, um grupo que se preocupava com a sobrevivência de nosso globo, tem uns cinqüenta anos. Li e achei exagerado. Também desapareceu dos meus alfarrábios. Quando me mudei para o apartamento, doei grande parte dos meus livros de então, pois não cabiam todos, e esse foi no meio. Continuo lendo, tanto os que acham exagero, como eu, e os que exageram, como os dessas diversas ONGs que pedem o nosso dinheiro jurando salvar o planeta do calor, falta d’água, comida, etc.

Mas, sintomas há que nos deixam preocupados. Essa seca mundial, que se exacerba em alguns lugares, é realmente motivo de preocupação. Há anos não temos um inverno, que assim possa ser nomeado, em nosso Estado. São Paulo, capital, terra da garoa eterna, está quase a matar de sede seus habitantes. O problema se espalha pelo Brasil e pelo mundo. A Califórnia, que sempre gastou água à vontade, vindo de suas neves e geleiras das Rochosas, adotou um racionamento de 25% no uso de suas águas restantes, isso para começar. Para todos os lados, a falta d’água é uma ameaça. Cruz credo!

Recomendo que leiam esse folhetinho da Veja. Chama-se “Manual de Etiqueta - Água”, e talvez vocês, como eu, passem a noite fechando torneiras. É divertido.

O titulo está errado. Deveria ser Educação e Instrução. Mas, para a ênfase que quero dar, achei melhor o contraste. Para mim, educação é o fruto básico do lar; a instrução, o produto principal da escola. Ambos, no entanto, são essenciais para uma formação completa.

O que vemos hoje são os pais esperando pela escola, para dar uma boa educação aos filhos. E a escola, como deve ser, buscando aprimorar a instrução. Esquecem que a família prepara para a vida – educação -, enquanto a escola prepara para o trabalho – profissão. Quando ambas confundem seus objetivos, o problema está criado. Em verdade, se complementam e contribuem para as duas finalidades, e não devem esquecer isso.

No meu tempo as coisas eram mais fáceis. Geralmente, a mãe cuidava dos filhos e o pai do ganha-pão. Ela ficava em casa, dedicava-se ao lar e a educação dos filhos. O pai, na rua, lutando pela vida e para garantir o sustento da família. Hoje, trabalham os dois, o que complica o problema. Daí, se esperar que a escola supra todas as necessidades, o que é difícil. A criança leva para a rua o que aprendeu em casa. Se foram valores positivos, serão esses os seus valores. A escola ajuda, mas não substitui o lar.

Quantas vezes encontramos crianças desobedientes, pais sem autoridade, em lugares públicos? Fazem barulho, correm, chegam a xingar os pais e estes passivos, sem qualquer reação? Que futuro tem uma criança assim na convivência futura numa sociedade? Só por milagre não se tornará um marginal. Se não reconhece a autoridade dos pais, que autoridade irá respeitar no futuro?

Na minha geração, a autoridade dos pais era inquestionável. Quando o pai ou a mãe falavam, todos obedeciam. Em casos extremos de mal comportamento, faziam valer como sua a palavra final e, se necessário, adotavam procedimentos mais drásticos, como o castigo ou até mesmo a palmatória. Que gerou adultos equilibrados, sérios, corretos. E sem complexos. Como veriam eles hoje essa lei estapafúrdia que proíbe a palmada? 

Ninguém defende a palmada ou o castigo como método principal para a formação do individuo, mas há ocasiões em que só restam esses instrumentos como alternativa. Cuja aplicação, entendo eu, pode ser usada, em termos. Há a história do aluno que foi procurar sua professora de Psicologia em casa. A encontrou dando umas palmadas no filho e surpreendeu-se, pois contrariava o que ela ensinava na escola. Notando a surpresa do aluno, explicou: psicologia aplicada. É o caso.

A formação completa resulta do exemplo. A criança leva para a vida o que aprendeu em casa. Se os seus pais são sérios, equilibrados, mantêm sua autoridade sem agressões, respeitam-se e bem convivem, desse lar sairão adultos cidadãos.

No próximo dia 8 de maio fazem setenta anos do fim da Segunda Guerra na Europa. No dia 2 de setembro, setenta anos da rendição do Japão.

O consenso histórico é que a II Guerra Mundial começou na Europa em Setembro de 1939, com o ataque de Hitler à Polônia. Quem sou eu para discutir que não foi assim. Pessoalmente, pelo que tenho lido, pensado, ruminado, acho que ela começou mesmo, embora localizada, com o ataque do Japão à China, pelos idos dos anos 1930. Com seu auge no final dos anos 30 e seguintes.

Com a sua violência estúpida, com o Massacre de Nanquim em 1937, onde cerca de 300 mil pessoas foram torturadas, estupradas, assassinadas, os japoneses criaram um antagonismo terrível, criando inimigos por todos os lados e despertando os Estados Unidos do seu sono de isolamento. E ainda fizeram a estupidez de atacar Pearl Harbor, mesmo com a opinião contraria de Yamamoto, que sabia das coisas.

Por que cargas d’água, especialmente agora quando a água começa a desaparecer, me veio isso à lembrança? Uma insônia, que raramente me pega, mas de vez em quando me chateia. Fiquei rolando na cama, como se dizia antigamente, ao sabor de maluquices, chatices e besteiras. No meio delas, de repente, aparecem coisas que você havia esquecido, mas que adorou relembrar, positivas ou negativas. São parte de sua história e de sua vida.

E veio-me à mente um sonho que tive quando menino, com meus dez anos, na nossa casa de veraneio, em Areia Preta. Verdade, Areia Preta já foi praia de veraneio. Da nossa casa, você saía direto para o mar; não havia o desnível de hoje.

Começo dos anos quarenta. Auge da guerra na Europa, fazendo com que a da Ásia fosse relegada à segundo plano. Por essa época, surgiu um livro chamado “O perigo japonês”. Não me lembro do autor; mas ele não estava só. Vários outros trabalhos apareceram. Descreviam a selvageria dos japoneses com os povos por eles agredidos e dizia da ameaça inerente à imigração deles para o Brasil. Comentavam a tentativa de difundir suas idéias e que se concretizaram posteriormente na criação de uma associação, Shindo Rimei, que defendia o Japão e tentava implantar sua cultura, então fascista, por aqui. E que Getulio desbaratou.

Fiquei impressionado com tudo aquilo e tive um sonho maluco. Os japoneses me amarravam na cama, e derramavam um pote de mel e depois formigas encima de mim. Felizmente, quando elas começaram a me morder, acordei, suado, meio perturbado, assustado. Mas, que alivio! Na minha insônia, voltei a esse sonho, as formigas me aperreando, e só consegui dormir quase ao amanhecer, depois de matar, na unha, cada uma das formigas. Que maluquice.

O Japão hoje é uma democracia exemplar, aprendida durante a ocupação americana, e vigente até nossos dias. E arrependido dos crimes praticados durante a guerra. E, complete-se, seus imigrantes muito têm contribuído para o nosso desenvolvimento. Novos tempos.

Neste jornal, no dia 7, Armando Negreiros, com a sua verve original, disse verdades que precisavam ser expressas, a respeito do chamado “novo e vencedor aeroporto de Natal”. Concordo com ele, em todos os graus, que essa foi das mais infelizes decisões já tomadas e, como de hábito, sem ouvir a opinião das vitimas, todos nós, que pagamos a conta. Isso, depois de gastarem mais de vinte milhões para “adequar o Augusto Severo ao inusitado fluxo de turistas previsto”. Fluxo que, segundo os jornais, tem aumentado. Acho que poderia ter aumentado muito mais, com o Augusto Severo. Minha opinião.

Falaram, como argumento, que o novo aeroporto seria de carga. Olho para o céu e imagino milhares de aviões lutando para conseguir um pequeno espaço no novo aeroporto. Engodo, dos maiores, ou ignorância, lamentável, de quem pensou isso. Nós, antigos natalenses, nos lembramos e somos testemunha da época, logo apos a guerra, quando os aviões das companhias européias, todas, cruzavam o Atlântico e chegavam aqui, pela absoluta falta de autonomia, ou seja, gasolina suficiente para ir ao seu destino final. Com a evolução tecnológica e o advento dos jatos, esses aviões simplesmente passaram a nos sobrevoar, indo diretamente aos seus destinos originais, e nós ficamos a “ver aviões”.

O mesmo ocorre agora. Quem, meu Deus, pode ver esses milhares de enormes aviões de carga vindo para Natal, descarregar aqui suas cargas para aviões menores, que daqui as levariam para seus destinos finais? Esqueceram que, quanto maior o avião, maior sua autonomia – e vão direto aos seus destinos. Mais seguro, mais rápido e mais econômico. Simples assim. Portanto, patente a desnecessidade desse novo aeroporto. E, parodiando Armando, voltemos ao Augusto Severo. Se ao menos a Prefeitura de Parnamirim se engajasse, que parece não ter defendido a permanência do Augusto Severo.

Mas, em termos de ficção turística não ficamos aí. Temos uma ponte que impede a navegação, impedindo a entrada dos grandes navios de turismo, hoje dominantes. E de nos levar a um outro lado praticamente sem saída. Um gargalo, que nos horas de “rush” inferniza a vida de qualquer cristão. Prometeram construção imediata de estradas para o escoamento do tráfico, mas, quase dez anos depois, continuamos no “ora e veja”.

Para terminar, gastaram o dinheiro do mundo todo, nosso dinheiro, para construir um Terminal de Passageiros, que receberia centena de navios e milhares de turistas. Os navios não conseguem entrar. Alguns, menores, conseguem. Mas, mesmo esses, são quase raridade no dia a dia do porto e de Natal. Com o novo e caro terminal, o mais que temos conseguido é ficar a “ver navios”.

Como diria a Madre Superiora, é um Deus nos acuda.

Quando leio os jornais do dia, acompanho os malfeitos que nos perturbam, os ataques, mais das vezes merecidos mas muitas vezes exagerados, aos governos e políticos, me vêm a lembrança assuntos dos quais participei. Nem sempre o que se diz e se faz representa a realidade.

Quem está na chuva é para se molhar, diz o velho ditado. Foi o meu caso, quando aceitei ser Secretário de Educação no Governo Cortez Pereira. E não fui inocente. Já sabia dessa possibilidade, especialmente num momento de política um tanto acirrada. Mas, há criticas positivas, que você pode e mais das vezes deve aceitar, e há as negativas, que só procuram desgastar o criticado.

Para quem é bem intencionado, que quer dar o melhor de si pela comunidade, as criticas muitas vezes são injustas e, algumas vezes, justas, mas não entendidas. Passei por essa experiência, e comento apenas duas que me permanecem na memória. Uma, critica positiva, importante, e que me deu a chance de mostrar abertura e flexibilidade, reconhecer e corrigir o erro e, no contexto, descobrir amigos que intervieram para ajudar. E como ajudaram, mesmo sem ter um relacionamento estreito comigo. Mas, depois disso, se tornaram amigos de infância.

O primeiro caso foi mais grave. Era um processo iniciado para o aumento dos professores – sempre com seus salários defasados - e que buscávamos corrigir. O cálculo era feito por hora/aula, Tínhamos, como acho que ainda hoje há, professores que não eram em tempo integral e recebiam por hora. Um grupo interno fez os cálculos necessários, preparamos a mensagem à Assembléia Estadual, que foi encaminhada pelo Governador.

Um deputado mais atento, não me lembro quem, fez as contas e descobriu que alguns professores iriam ganhar menos do que estavam recebendo, e fez um estardalhaço, com razão. Refizemos nossas contas e ele tinha razão. Fomos procurados pelo Presidente da Assembléia, Moacyr Duarte e, com a ajuda de técnicos do Tribunal de Contas, cedidos por Romildo Gurgel, corrigimos o problema e reenviamos a proposta, agora acertada. E aprovada.

Moacyr, me vendo angustiado, me deu uma lição que não esqueci. Dalton, disse, você é novo nessas lides e tem que se acostumar, para deixar de sofrer. Tem que criar um “couro grosso”, que o proteja das criticas, mesmo justas. Eu, macaco velho, tenho o couro tão grosso que até as farpas mais violentas resvalam e não me atingem.

Aprendi, pois a segunda critica, injusta, me atingiu, mas muito menos. Os colégios do Estado não tinham uniformes padronizados. Cada escola tinha o seu próprio. Saia ou calça azul marinho, camisa ou blusa branca; saia ou calça verde, camisa, blusa, branca; todo branco; e alguns nem uniformes tinham. Um aluno que saía de uma para outra escola, muitas vezes, era obrigado a comprar nova farda. Um absurdo.

Resolvi padronizar e, como a maioria usava o azul, optei por essa cor. Houve reclamação (sempre há). O jornal da oposição, sempre ácido, insinuou que a mudança era para apagar a lembrança da esperança verde de Aluízio, o que nem sequer tinha passado pela minha cabeça. Respondi como devia e mantive minha decisão. As razões da padronização e da economia das famílias foram deixadas de lado pelos críticos. Com o couro mais grosso, isso ainda me afetou, porém bem menos. No final, o jornal parou de me azucrinar e até a me apoiar em outros momentos. Briga de família.

Essa foi uma experiência que muito me ensinou e que, hoje, me leva a pensar duas ou mais vezes antes de aceitar tudo o que dizem os periódicos. O velho grão de sal.

Coisas que me completam o viver: ler, escrever, música, conversar. E, nesse caso, a ordem dos fatores não altera o produto. Há ainda há outras coisas boas que nos ajudam a viver, claro, mas essas são essenciais.

Ler é um prazer solitário, que se torna público quando você comenta com alguém. Sou um leitor ávido. E de tudo que me chega às mãos. Tenho minhas preferências. História, é o que mais leio. Do Brasil, e da II Guerra Mundial, acho que por motivo óbvios; sou brasileiro, e acompanhei de perto, dado a situação de Natal, os acontecimentos da guerra. Gosto de ler sobre economia, matemática (sem ser ou saber muito do assunto e por mera curiosidade) e astronomia (também). Não desprezo uma biografia. De vez em quando, para quebrar a rotina, figuras como Oscar Wilde, Stanislaw Ponte Preta, Vinicius de Morais e outros que tais. Neste momento, estou relendo livros que gostei. Terminei os de Érico Veríssimo, especialmente os sobre os EUA e sua autobiografia. Trabalhou na OEA, como eu, e tinha alguns amigos, que menciona, e que foram meus amigos. Recomecei Gilberto Freire.

Escrever me dá muita alegria. Este jornal já publica meus artigos há vários anos. Estou juntando um número deles, que pretendo editar e lançar em abril. Até já escolhi o nome, que informo aqui pela primeira vez – “Meu Olhar sobre a Vida”. Gosto, claro, quando ouço comentários sobre o que escrevo, mesmo críticos. Às vezes, os recebo por email. Gosto mesmo quando encontro alguém, nos restaurantes, supermercados, na rua, que vêem me dizer que leram e gostaram dessa ou daquela crônica. E alguns dizem, publique um livro; vou fazer isso.

Música é o meu passatempo predileto. Só não ouço essa música maluca e barulhenta que alguns adoram. Sou do tempo do jazz, da bossa nova, do samba civilizado de Noel e Cartola, Dolores Duran. E música clássica. Esta é a que mais ouço. Não, não é pedantismo, é que gosto mesmo. Tenho as minhas preferências, claro, mas aprecio todos os gêneros, e não dispenso algumas árias de algumas óperas. E toco piano. Mal, pois nunca tive educação formal. Aprendi sozinho, sei que toco mal e só lendo a partitura – não tenho paciência para decorar – mas me divirto. Tenho o cuidado de não dar concertos e toco baixinho, para que os vizinhos não venham querer me escutar. E aí ficaria inibido.

Conversar! Ah! Que coisa mais gostosa. Sou um sujeito feliz, pois convivi com figuras inesquecíveis, com os quais me encontrava constantemente. Quase todos os sábados nos reuníamos na casa de um de outro, tomávamos um aperitivo e íamos almoçar. Nas sextas, sempre íamos juntos a algum restaurante. O tempo, infelizmente, é inexorável. Alguns nos deixaram, a dificuldade de locomoção chegou, a insegurança nos espanta, e a saudade só é quebrada, dos que ainda estão por aqui, pelo telefone, por email, e ainda, de vez em quando, um encontro pessoal. Eram conversas ecléticas, muitas vezes ruidosas, mais das vezes críticas e contestatórias, pois tínhamos, cada um, suas preferências pessoais, respeitadas, mas sempre contestadas. Tempos bons.

São essas lembranças, essas ações, esse comportamento, que nos fazem viver bem, nos manter com a cabeça em ordem, espantar o Alzheimer, e esperar chegar aos 163 do fundador do “Old Parr”. Sua receita: uma dose antes do almoço e outra antes do jantar. Sigo à risca. E recomendo.

Grande e agradável surpresa. Meu amigo ET, Roberto, ressurgiu, depois de uma longa ausência. Não disse nada a ele, claro, mais quase já o havia esquecido. Fiquei preocupado com a aparência dele. Magro, olhos fundos, ar preocupado, expressão de desânimo. Perguntei, que está acontecendo? Algum problema grave? E respondeu: comigo não, tudo bem, mas com o seu país.

Você sabe como eu adoro o Brasil e os brasileiros. Estou nesta minha missão há muitos anos. Vendo meu desânimo e minha tristeza, meus chefes me ofereceram uma promoção, novos lugares, segundo eles, melhores. Agora mesmo, vendo o meu abatimento, me ofereceram férias, uma transferência, um outro colega para me ajudar. Nada aceitei. Disse que agüentava, queria continuar por aqui. E vim bater um papo com você para despairecer um pouco. - Certo, amigo. Estou ao seu dispor. Vamos conversar.

Meu caro, as coisas por aqui vão mal, muito mal. Eu adoro este pais. Você sabe que conheço muito bem o Brasil, seu povo, seus problemas. E sou um otimista. Mas, ando triste com o que ando vendo. E isso tem afetado minha saúde, por incrível que pareça.

Estes últimos governos, especialmente o último agora renovado, tem sido de uma inoperância e uma incapacidade monumentais. Sua propaganda, bem feita mais enganadora, conseguiu reelegê-lo, com promessas que sabia vãs, conhecedor que era da real situação. Agora adota, ao contrario do pregado, e tardiamente, as providências que deveria ter tomado há muito. Mas nem todas, pois muito ainda há a fazer. E a presidente, de vez em quando, faz declarações que contrariam o bom senso.

Esse problema da Petrobras é inacreditável. Nunca antes neste pais, adotando uma linguagem que se tornou famosa, se viu roubalheira tão monumental. Um desastre anunciado, pois é difícil acreditar que muitos não o conhecessem. Como sempre, tentam desqualificar o problema e transferir a culpa para o passado – depois de 12 anos comandando a maquina -, o que até parece piada. Se já existia, o mínimo que poderiam ter feito era apurar e punir, e não tirar proveito da situação. E de forma ainda mais escandalosa. O que tenho escutado, nas minhas andanças, é que coisas piores, em outras áreas, ainda vão surgir. Torço para que não. Mas não duvido de mais nada.

E essa chamada oposição é inoperante e incompetente. Não consegue se mobilizar de forma inteligente. Suas contestações são fracas e retratam uma incapacidade inacreditável. Não oferecem sugestões inteligentes e viáveis. Se perdem repetindo os mesmos desaforos que escutam. Triste.

Mas, como disse, sou um otimista. O Brasil já enfrentou problemas graves, talvez até maiores que estes de agora, e conseguiu salvar-se. Não aceitei ser transferido, pois quero ser testemunha da volta por cima. Alguns dos nossos analistas acham que sim, tudo é possível, até a recuperação do país, mas o tempo para isso está encurtando e medidas urgentes, que doerão na carne, têm de ser tomadas já. Vejo que algumas foram adotados, mas faltam muitas outras. E a união, especialmente política, para que isso ocorra, é indispensável. Não a vislumbro, pelo menos num futuro próximo. E o partido no governo, e mesmo alguns dos integrantes desse governo, não parecem ver a gravidade da situação. Lamentável.

Tenho que ir. Não sei quando voltarei a vê-lo. Espero que da próxima vez nosso encontro seja mais tranquilo. Que as coisas tenham se arrumado, que possamos conversar sobre coisas mais agradáveis e que as nossas primeiras palavras sejam de alegria pela recuperação do pais. Sem traumas. - É o que também espero, respondi. Um abraço. Vá em paz. E conte comigo.

Sugestão de um amigo e leitor. Escreva alguma coisa sobre os carnavais de ontem. Atendo o pedido, pois são recordações gratas. Antes, uma confissão. Não fui um carnavalesco emérito. Faltava entusiasmo, mas freqüentei o Aero Clube e, muito depois, o America.

Lembro-me de minhas cinco tias-avós, solteironas, muito religiosas, que diziam: o Carnaval é a festa do Cão. Daí, eu achava ótimo ver Ioiô Barros, entre os carros do corso e a calçada, na Rio Branco, cantando o seu inefável refrão: “Olha o Cão, olha o Cão, olha o Cão Jaraguá”, bebericando sua cerveja e comendo sua salsicha, muito bem contidos num urinol, que despertava com perfeição a imaginação dos circunstantes. O bloco do eu sozinho, mas sempre seguido por uma multidão, solfejando o seu famoso refrão.

Não fui do tempo do corso da Tavares de Lyra. Mas recordo o da Rio Branco e depois o da Deodoro. Os carros, a grande maioria sem capota, jogando confetes e serpentinas de um para o outro, e sobre o povo no meio da rua, dando banhos de lança-perfume, proibidas depois por conta dos famosos porres. E por que não lembrar a DeSoto amarelo claro de Maria Boa, conversível, fazendo o corso da Rio Branco, com suas afilhadas esnobando alegria.

Das festas nos clubes, não alcancei o Natal Clube. Mas fui habitue do Aero Clube. Tornou-se a festa de Carnaval mais concorrida da cidade. A abertura era no Sábado. Traje à rigor até meia-noite, quando tocava o Zé Pereira e o baile de Carnaval deslanchava. Paletós, coletes, gravatas, eram jogadas de lado e a folia esquentava. As damas, em maioria, já vinham com as suas fantasias. Um bonito espetáculo. O America só surgiu muito depois e o ABC ainda mais tarde.

O bonde do Tirol parava em frente ao clube. Eu morava no final da Rua Assú, e fui, muitas vezes, de bonde. Os bondes só circulavam até meia-noite. Quando saía, no final da festa, contava os dormentes até chegar a esquina da Jundiaí. Geralmente, em companhia de alguns amigos. A bebida principal era a cerveja. Mas, para “esquentar”, tomávamos um conhaque ou um vermute. Ou vários. Whisky era coisa rara, e cara. Rum, iniciando. “Cuba Libre”, chamavam. Cuba ainda era livre. Hoje, rum e coca-cola é um nome mais apropriado.

Contam uma estória com meu tio Pelúsio Mello. A REN (Rádio Educadora de Natal), recém inaugurada, entrevistava os foliões. Chega meu tio, com seu colega e amigo inseparável, Antonio Filgueira. Ambos já com um bom lastro. O repórter pergunta: “Dr. Pelúsio, o que está achando do Carnaval do Aero? Uma b.... muito grande”. No ar, para todos escutarem. Naqueles tempos pudicos, já imaginaram a reação?

Não pertenci a nenhum dos clubes da rapaziada daqueles tempos, muitos meus amigos e colegas. Tive convite para participar de alguns. Não me foi possível, por várias razões. Trabalhava com meu pai e ele não dava folga. Depois, não queria que eu gastasse dinheiro com o que chamava de “besteiras”. Ficava chateado, mas nada podia fazer. Tempos em que o que os pais diziam era uma ordem a ser obedecida sem contestação. Ligeiramente diferente do hoje.

Meu pai participou do Carnaval, durante certo tempo, com entusiasmo. Até um bloco organizou. Que fez sucesso. O Bloco da “Manteiga Garça” – sempre se preocupava com os negócios – produto que vendia naquele tempo.Também abria as portas de nossa casa para os chamados assaltos. E recebia habitualmente os Índios. Chegavam, comiam, bebiam, dançavam e iam embora. Minha mãe se chateava. Não gostava de receber os Índios. Dançando na sala, onde os móveis tinha sido afastados, muito pintados, batiam na parede e sujavam. Ela ficava uma fera, mas só reclamava depois que eles saíam. E, no ano seguinte, estavam de volta. Bons tempos, em que os assaltos eram somente desse tipo.



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