NATAL PRESS

Dias passados escrevi sobre a passagem do tempo. Sua velocidade estonteante. E disse da minha ansiedade em chegar aos dezoito anos. Nessa ansiedade, embora com menor intensidade, estava minha expectativa em fazer a barba. E, quem sabe, nutrir um bigode. Os pelos custavam a sair mas, em redor dos 17, 18, andei fazendo uma experiência com os apetrechos de barba de meu pai, às escondidas.

Finalmente, pouco tempo depois, fui obrigado a começar a fazer a barba. E aí a preguiça se apresentou firme. Já não fazia a barba todos os dias, e ficava com uma aparência que, me perdoem os que usam barba, para mim era de sujo. Um dia, hospedado em nossa casa, pois era grande amigo de meu pai, Aristides Barcellos, alto funcionário do Banco do Brasil, olhou para mim cedinho pela manhã e perguntou, esqueceu de fazer a barba? Dei uma desculpa esfarrapada, de que se fizesse a barba todos os dias a pele ficava ferida. Deu-me uma resposta definitiva: primeiro, se você fizer a barba todo dia a pele acostuma e depois, essa sua aparência de desleixo desaparece. Encabulado, adotei o seu ensinamento, que vale até hoje. Nem em bigode pensei mais. Especialmente agora, que há uns barbichas por aí fazendo das suas. Sem preconceitos.

Mas, sem duvida, é um ritual cansativo. Uma obrigação chata. Já experimentei tudo quando é instrumento para diminuir a estafa. Comprei barbeadores elétricos de todos os tipos e modelos. Nunca fico satisfeito com os resultados, e sempre retorno à velha e confiável gilete. É a única forma de você deixar a pele macia como bunda de menino, ou menina, novo (sendo politicamente correto).

Quem dizia isso era João Lira, que a maioria de vocês não conheceu ou sequer se lembra. Fiscal das companhias de cinema, acompanhava a freqüência dos cinemas de Natal. Todos os domingos, por exemplo, estava na porta do “Rio Grande”, vendo a entrada e cuidando para que as companhias não fossem passadas para trás. Sempre no seu linho branco Taylor S-120 e barba super bem feita, elegantérrimo. E foi lá que ele me contou essa história de pele lisa como bunda de menino/a novo. João era irmão de Paulo Lira, pianista, de conhecida tradição natalense. Ambos duas belas figuras de nossa cidade. 

Por essas razões, e para me sentir bem comigo mesmo, mesmo em casa a maior parte do tempo, faço a barba todos os dias, sem perdão e sem desculpa. E aí posso me olhar no espelho. Sem sustos.

Como me divirto. Dias atrás, chamei um querido amigo para almoçar. Respondeu agradecendo e dizendo que não poderia ir. Insisti e perguntei por quê. É que não conheço mais ninguém, disse, e não me sinto bem no meio de tantos desconhecidos. Mas, pior, acrescentou, é que ninguém me conhece. Uma verdade. No nosso tempo, conhecíamos todos e todos nos conheciam. Não me incomodo.

Aliás, me lembrei, estávamos jantando, com Alvamar Furtado, Odilon Garcia, Gilson Ramalho. Muita gente jovem chegando, que nenhum de nós conhecia. Comentei, devem ser filhos de amigos nossos. Alvamar, de pronto, não, netos.

Aproveito o não conhecer para ficar observando as pessoas. Almoçando, sábados ou domingos, mais especialmente sábados, observo o que ocorre ao redor. Primeiro, as vestimentas. Os homens, quase a totalidade, de bermudas e camisas por fora das calças, o que a gente chamava de “slacks”, no tempo da guerra. Um desses sábados, o único circunstante com calça comprida era eu. As mulheres, shorts, curtíssimos. Nas mais jovens, uma maravilha, nas mais idosas, para não ser um critico desumano, o conselho é mudar o olhar. Também há uma quantidade enorme de gente feia e mal enjorcada.

Depois, o comportamento à mesa. Alguns barulhentos, a maioria, outros, mais recatados. As crianças sem muita educação, correndo de lá para cá, daqui para lá. Os pais não estão nem aí. Se aquietam quando se agarram aos seus smartphones. Uma benção. O que hoje todo mundo tem. E aí, desligam-se. O que é natural, pois os pais e mães também os têm permanentemente em uso. Desligam-se do ambiente e de todos os presentes. E entre si.

A composição das mesas é sempre muito eclética. Há, no entanto, uma norma mais ou menos permanente. Famílias, a maioria, um cara mais velho, com filhos, netos. Cara de pagador da conta. Como eu. Mais jovens, muito parecidos e mais barulhentos, embora nem sempre, já se vê que vão dividir a conta. Há mesas só de homens, outras só de mulheres. Conta dividida, sem duvida. Falam alto, muito alto. Essa negocio de dividir a conta foi das melhores coisas que aprendemos com os americanos. Antigamente, era uma briga para ver quem ia pagar. Todos queriam pagar. Pelo menos aparentemente.

As bebidas variam muito. Ultimamente, tenho notado, há sempre alguém que só bebe coca-cola ou um suco. Deve estar dirigindo o carro. Todo mundo tem carro, o que é ótimo. Os demais, uns poucos, tomando cerveja. A maioria, vinho, que surgiu como a bebida preferida. Os mais jovens, coca-cola. Interessante, raro alguém tomando guaraná. De aperitivo, de longe, a caipirinha reina, até onde vejo. Há os mais velhos, como eu, tomando um whisky. Aviso: um neto dirige o carro, e só toma coca. 

O tempo passa, me divirto, e pago a conta com satisfação. Contei tudo isso ao meu amigo, mas não mudou de idéia. É renitente, e teimoso. Complexo de velho. Que eu felizmente ainda não tenho. E esforço-me para não ter.

Pleonasmo? Sei lá! Talvez seja. Mas dá o que eu quero, ênfase. E voltar ao passado é o que vou fazer. É que o meu carro amanheceu com o pneu baixo. Chato, trabalhoso, perda de tempo. Paciência.

Mas, aí, voltei ao passado. Lembrei-me do carro de meu pai. Ele deve ter comprado o seu primeiro quando eu tinha uns 8, 9 anos, pois me lembro indo para o Colégio Pedro Segundo de carro, mais ou menos com essa idade. Se não me engano e a memória não me falha, era um Chevrolet 1937, quatro portas. Pesadão, lataria maciça, azul marinho, confortável. Mas os pneus viviam furando, um trabalhão.

Quando acontecia isso, tinha que mudar para o estepe, indispensável, e levar o furado ao borracheiro. Eu gostava de assistir o processo. Tirar o pneu do aro, tirar a câmara de ar de dentro do pneu, encher, procurar o furo numa bacia cheia d’água (existia água naquele tempo) identificar o buraco, botar numa prensa, lixar a câmara no local do buraco, recauchutar com um remendo, botar para esquentar durante um certo tempo, repetir a operação da bacia com água, colocar a câmara de volta no pneu, colocar no aro, encher, medir a pressão, agora com o pneu montado, tirar o estepe e colocar o recauchutado. Um trabalhão.

E o carro todo dia tinha um problema qualquer. Não pegava, a bateria arriava, precisava ser empurrado, ia para a oficina – meu pai tinha um mecânico quase que permanente – entupia o carburador, vazava corrente pelo distribuidor, um Deus nos acuda. Mas, para os usuários, era o máximo.

Nessa época, nós morávamos na Rua Traíri. Em frente ao palacete de Dr. Juvenal Lamartine. Na época, residência dos pilotos da Air France. De lá até o colégio era uma distancia, naquele tempo, enorme. Uns quinze minutos à pé. Talvez mais. De carro, tranqüilo. Íamos, o que, seis e meia, sete já começavam as aulas. Tínhamos que chegar antes das sete, para cantar o Hino Nacional e o hasteamento da bandeira. Algumas vezes cantávamos o Hino à Bandeira; ou da Independência. Cerimônia que se repetia todos os dias. Depois, aulas até às onze, sem faltar uma sequer. Coisa de país sério. No intervalo, de uns quinze minutos, entre as 9 e as 10, hora do lanche, que a gente levava de casa. Pão e ovo, ou queijo, uma garrafinha com refresco, um copo de alumínio que fechava e ficava achatado, para colocar na bolsa. Matava a fome.

Quando, por algum motivo, ficávamos sem carro, era um sofrimento só. Mal acostumados, como se dizia. Eu era dos que mais reclamava, pois sempre fui comodista. E, por isso, levava umas broncas. E, às vezes, ficava de castigo. E tinha que ir à pé, para aprender. E aprendi. Hoje, um castigo desses deixa você traumatizado e cheio de chiliques e tiques nervosos. Não tenho nenhum. Ficou só a lembrança, ótima lembrança.
Levei o meu carro – o pneu não esvaziou de todo – ao borracheiro. Levanta a roda com um macaco, identifica o buraco, arranca o prego, coloca uma mecha e pronto. Assunto resolvido em poucos minutos. Novos tempos.

Para quem gosta de astronomia, e mesmo para quem não tem tantos amores pelo assunto, o eclipse da Lua foi fantástico. Só vamos ter outro igual daqui a trinta e três anos. Provavelmente não o verei. Pelo menos da Terra.

O aproveitei muito bem, apelando para tudo a que tinha direito. Primeiro, me preparei com antecedência, me assegurei da hora do início, do ápice e do final. Escolhi o lugar de melhor visibilidade no apartamento e, perto da hora, me pus à postos.

Transformei-me, também, num índio Potiguar, pois queria fazer uma série de pedidos e, para mim, o melhor ritual era o indígena. Vindo daqueles índios de antes da Descoberta, ainda antropófagos, dos mais destemidos e de maior prestigio na tribo. Caracterizei-me de acordo. Aviso aos navegantes – apesar de me caracterizar antropófago, não comi ninguém.

Quando começou o eclipse, comecei o ritual dos pedidos. Genuflexo, inclinando o corpo para a frente e para trás, como deve ser, fiz os meus pedidos. Saliente-se, nenhum pedido pessoal.

Mãe Lua, disse, que nos liberte dos maus espíritos que vêm nos perseguindo e que estão nos levando à dias terríveis. Que, também, nos ilumine à todos, inclusive esses maus espíritos, para que mudem seu comportamento e passem a trabalhar em prol do país. Que diminuam suas ânsias de poder, suas falcatruas, e suas maldades. Que transforme o mal que nos ronda no bem que desejamos. Para o bem do país e de todos nós.

Mãe Lua, nos traga de novo o nosso Pai Sol. Que ressurja para nos trazer alegrias e um novo mundo, afastando para longe a maldade e a ganância dos maus espíritos. Que transforme o nosso país numa terra benfazeja e bondosa, onde todos tenham uma vida tranqüila, profícua e sadia. Que os seus novos raios nos ilumine com a sua luz brilhante e dê um pouco desse brilho aos nossos dirigentes (?).

Acredito, Mãe Lua, que essas minhas preces, ditas de coração, serão ouvidas. A partir do novo raiar, um Pai Sol renovado ouvirá sua súplica e perdoará os nossos muitos pecados. Nos transformara numa nova nação, onde a bondade, a honestidade e o bem se fortalecerão. Mãe Lua, Pai Sol, aceitem nossa prece e nos protejam, trazendo novos dias para o bem do Brasil. 

Dias passados, escrevi sobre meu avô, “seu” Mello, como era chamado e conhecido por todos. Lembrança trás lembrança, e me veio à mente a Escola de Música de Natal, que ficava na esquina da Vigário Bartolomeu com a Praça João Maria, onde hoje se encontra o Banco do Nordeste. A casa de meu avô ficava onde é o estacionamento.

Natal sempre foi uma cidade musical. Uma vez, conversando com Odilon Garcia, que morou em frente à casa de meu avô, contamos cerca de vinte pianos, no trecho da Bartolomeu entre a Praça João Maria e a Ulisses Caldas. Na casa de meu avô tinha um piano, na casa de Odilon também.

Para mim, o piano era uma atração e eu vivia mexendo no teclado. Devem ter deduzido que eu era um “virtuose” e minha mãe me matriculou na vizinha Escola de Música. Eu adorava, pois era uma desculpa para ir para a casa de meus avós. Minha professora era Dulce Wanderley, uma das melhores de Natal. Ela era paciente. E eu um péssimo aluno. Terminei deixando o curso, com uns seis meses de aulas. Gostava de música, mas as lições me entediavam.

Depois, tentei aprender violão. Já por decisão própria. O professor Siqueira, outro ótimo professor, tinha um curso na sede da Cruz Vermelha, na Rio Branco, vizinho ao Cinema Rex. Comecei o curso, e tive a agradável surpresa de ter como colega Antonio Pinto de Medeiros, meu professor no Atheneu, e que se tornara meu amigo. Siqueira ensinava violão clássico, por música, como deve ser, o que cansava. Um dia, Antonio Pinto me diz: “Pensei que ia aprender violão para tomar uma e cantar serenata. Esse estilo não dá e vou deixar o curso”. Sua influência era grande, e deixei o curso junto com ele.

Mas o meu entusiasmo pela música, mesmo com todos esses entreveros, aumentava. Quando fui morar em Washington, encontrei os órgãos eletrônicos no auge. Os via nas lojas e os ficava admirando. Os acompanhamentos, as demonstrações dos vendedores, a facilidade que pregavam e de que você os tocaria facilmente, terminaram me convencendo a comprar um. Comprei, e realmente comecei a tocar e fui me “desenrolando”. Nunca cheguei a ser um “expert”, mas quebrava o galho. Sem nenhum estudo formal. Autodidata. O trouxe comigo para cá, e alimentei com ele todos os cupins da cidade. Mas não desisti, comprei outro e continuo tendo um. Teclados com ritmos sensacionais e uma ruma de instrumentos diferentes. E “herdei” o piano de meu sogro, que era um exímio pianista, de escola, e que gostava de tocar ao anoitecer, na penumbra, especialmente sua favorita, “Sonata ao Luar”. E que por isso ganhou dos filhos, não românticos, o apelido de “Fantasma da Ópera”.

Mas meu desejo de estudar música não diminuiu. Tentei a internet e fiz vários cursos de apreciação musical. Adorei. E aí fiz alguns de teoria musical, que também gostei. Em Universidades americanas. O último foi na de Yale. Um curso chamado “Listening to Music”, com um professor fantástico chamado Craig Wright e que, para dar a aula sobre canto gregoriano, apareceu vestido como monge. Comprei o livro dele, usado no curso; um show. E isso só aumentou minha vontade de estudar mais. Aí, entra a Escola de Música da UFRN.

Ofereceram um curso para iniciantes. E me matriculei. Fiz o primeiro módulo e comecei o segundo. Estou achando ótimo. A professora é excelente. E, tenho que confessar, duas coisas me divertem, coisas que não acontecem na internet. Conversar com a professora, tirar minhas dúvidas na hora, e cumprimentá-la. E a cara das pessoas com quem eu comento que estou fazendo o curso. Leio nos olhos deles o que estão pensando.

Uns, parecem dizer, “esse velho está caducando paca”; e balbuciam, “parabéns”. Outros, os olhos dizem “velhinho corajoso, mas não vai mais aprender nada”. E repetem o parabéns, acrescentado “cara , você é corajoso, sucesso”. Mas há os que olham para você, e os olhos dizem “puxa vida, na sua idade, uma grande sacada; forma de mostrar que está vivo e confiante na vida. Quisera eu ter sua coragem”. E dão parabéns que soam sinceros.

E eu encerro a conversa dizendo: “como você sabe, para se fazer um curso de piano que se preze, você precisa de, pelo menos, vinte anos; a minha esperança é chegar lá”.

Não, não cheguei agora de Paris, Apenas sonhei com uma aula sobre a Revolução Francesa, do Professor Véscio Barreto, que foi um dos melhores professores que tive no Atheneu. Como eu não tenho perda de sonho como se tem perda de tempo, aqui vai a história.

Chegou com um mapa de Paris e o pendurou no quadro. Começou mostrando a disposição da cidade, seus edifícios e monumentos principais, passeou por todas as ruas importantes e descreveu os prédios nelas existentes. Entramos na Notre Dame, literalmente, quando comentou sobre os vitrais, contou a ficção do Corcunda, e terminou na Bastilha. Começou então a mostrar o antes e o depois da Revolução, suas figuras, seus acertos e seus erros, seus exageros, o uso enlouquecido da guilhotina, o destino de Maria Antonieta. Descrições tão vivas que a gente escutava, quase, o barulho da lamina no pescoço das pessoas. Alguns alunos lhe perguntaram, professor, quantas vezes o senhor esteve em Paris? Nunca, ele disse, mais li muito sobre a cidade; é como se tivesse estado lá. “Leiam, leiam, a leitura é tudo”, exortou. Não me esqueci desse conselho.

Depois de muitos anos, e muito esforço, em que procurava descrever as aulas de Véscio, só encontrei algo parecido nos filmes em cinemascope, anos e anos depois. Coloridos e com fundo musical. Vozeirão, gesticulando o tempo todo, alto e forte, uma figura que impressionava, só tinha um problema. Quando se afobava, ninguém o segurava. E para a afobação, bastava chegar um aluno atrasado e pedir “dá licença, professor” (naquele tempo a gente pedia licença), para ele dar um show. Entrasse silenciosamente, tudo bem. Aulas inesquecíveis, como inesquecível é o Atheneu, prédio destruído pela inépcia de nossos “dirigentes”. Como inesquecíveis são seus professores, que não faziam greve e nem faltavam as aulas. O Atheneu foi destruído, mas agora querem conservar as ruínas do Reis Magos!

Dizer que Paris é uma grande cidade é repetir o óbvio. Fui à Paris algumas vezes, sempre bem acompanhado. Fui várias vezes com Alvamar Furtado e Odilon Garcia, ambos apaixonados pela cidade. Reclamavam quando eu dizia que preferia Londres, o que dizia para ver a reação. Sempre demorávamos em redor de uma semana, dez dias. Caminhávamos muito, íamos aos templos das artes e do consumo, que eu e Alvamar adorávamos, mesmo sem gastar nada, e Odilon não gostava mas nos acompanhava, sem reclamar. Em compensação, quando íamos ao Louvre ou a uma livraria, ele se soltava e era difícil arrancá-lo. Tínhamos que prometer, vamos tomar uma. Tempos inesquecíveis.

Não me peçam para escrever sobre as ruas de Natal. Os nomes foram mudados, as praças foram destruídas, o passado está sendo esquecido. Saudosistas, como eu, são considerados velhos caducos. Junqueira Aires, hoje é, parece, Câmara Cascudo. Rua da Palha, Vigário Bartolomeu; 13 de Maio, Princesa Isabel. No Alecrim, as avenidas numeradas, e que o povo ainda usa como nome, viraram Presidente não-sei-quem – até hoje não consigo juntar nome com número. A rua onde meu pai tinha o seu escritório, chamava-se das Virgens, depois Câmara Cascudo, hoje, não sei. A Junqueira Aires, das mais tradicionais, também mudou de nome. E, agora, querem mudar o nome da Salgado Filho. Haja paciência!

Vivi minha infância, adolescência e juventude na Ribeira. Comecei estudando no Colégio Pedro II, que fica no oitão (oitão é muito antigo) do Teatro Carlos Gomes; hoje, chamam-no Alberto Maranhão. Depois, fui para o Atheneu, que ficava nas divisas entre a Ribeira e a Cidade Alta. Mas continuei trabalhando na Ribeira, onde vivi a II Guerra. Só deixei de freqüentar a Ribeira diariamente quando deixei a firma e fui para a Universidade, em 1964. Hoje, passar pela Ribeira me deixa triste – evito ir por lá -, em razão do abandono, desmanche, sujeira. Por sorte, ainda há alguns lutadores que por lá continuam, e os admiro. Torço para ver o seu ressurgimento.

Estamos atravessando uma fase difícil, de uma seca brutal, ameaçando faltar água até para matar a sede (em alguns lugares já falta). Podemos responsabilizar grande parte dessas dificuldades à natureza. Mas, não podemos isentar os nossos dirigentes de uma boa parcela de incúria e incompetência. Felizmente, e assim é a vida, mais cedo ou mais tarde voltam as chuvas, mudam as autoridades, e a vida volta (mais ou menos) ao normal. Nesse quadro, temos que fazer um apelo, veemente. Que não falte água à lava-jato.

Lembro-me de meu pai, que dizia, olhando para a juventude ao seu redor (e devia me incluir nessa análise), “com esse povo que está aí, esse pais não tem futuro”. Anos seguidos, tenho me lembrado e repetido esse lamento. Não mais. Há um grupo de jovens, em todo o país, que querem transformá-lo numa nova pátria. Lutam para acabar com a tolerância do passado, especialmente buscando erros e agressões contra a sociedade e procurando punir os culpados.

Penitencio-me. A minha geração, e a logo em seguida, são as grandes culpadas. E estão no centro dos mal feitos. Os dirceus da vida são da geração seguinte à minha, mas os sarneys são da minha, e foram bons professores. Para nossa alegria, surge agora uma geração que parece não mais aceitar desmandos. A representam os jovens delegados da Polícia Federal, os do Ministério Público, os Juízes que, respondendo as reclamações e os anseios do povo, e com o apoio total desse mesmo povo, enfrentam os poderosos e os levam aos bancos dos réus.

Sempre fomos lenientes. Herança da nossa mistura? Talvez sim, um pouco. Essa comportamento vem da nossa colonização. O “fidalgo” tem muito a ver. Os privilégios das elites, os “donos da bola”, são muito responsáveis. Elites, aqui, no sentido restrito aos donos do poder, e não da que se sobressai na sociedade por sua competência e trabalho, como tentam hoje nos impingir. Não as que são ditas “as zelite branca e de oio azul”. Estas são as que trabalham e começam a corrigir nossos erros profundos.

Os portugueses nos deixaram, como é natural, coisas boas e coisas ruins. Desde que fui à Itália pela primeira vez, senti que, hoje, somos mais parecidos com os italianos. Eles chegaram depois, mas influenciaram mais. Como todas as influências, também nos trouxeram coisas boas e coisas ruins. Agora, adotamos “as mãos limpas” deles como um caminho para purificar nossos erros. Que consigamos, são os meus votos. E acho serem estes os votos de todos os brasileiros conscientes. E que não falte a água suficiente para uma limpeza profunda.

Fosse eu dramático, shakespeariano, diria que o país vive momentos tenebrosos. Como não sou, estou mais para Bob Hope (que já tem esperança no nome), digo apenas que atravessamos horas difíceis, muito difíceis. Muitos advogam o impeachment, ou a renuncia, da presidente. Eu me pergunto: resolve? Botar quem no lugar? E aí está o grande problema. Falta uma liderança, real liderança. Como tivemos no passado. Não muitos, mas sempre surgiam alguns. Hoje, olha-se ao redor e não se vê ninguém.

Eu, pelo menos, não vejo. Se alguém enxergar alguma liderança ressurgente, me avise. Mas não me venham com o conselho de Francisco, o papa, que numa vinheta veiculada pela Globo aconselha aos jovens: sejam revolucionários. Lembro-me que ele disse isso num discurso na reunião de jovens no Rio, mas não me lembro o contexto, que provavelmente explicaria o por que do conselho. Mas, fora do contexto, como na vinheta, a dedução é sua, que pode ser para pegar um fuzil e sair atirando por aí para derrubar o governo. Ou pode ser um conselho para tomar uma e esquecer os problemas. Eu prefiro tomar uma.

Você abre os jornais, ou os lê na internet (que não suja as mãos), liga a TV, ou conversa com alguém e o assunto é o mesmo. Inflação, insegurança, saúde problemática, educação cada dia pior. Greves e mais greves, algumas justas, outras nem tanto. Mas todas prejudicando o nosso dia a dia. Desentendimento e desencontro entre os políticos, entre o Congresso e o governo, perdidos, todos, sem saber que caminho seguir. Um governo sem rumo, e um Congresso sem bússola. Minto, o Congresso tem bússola, que só aponta um caminho: o do autobenefício.

A indústria, o comércio, os consumidores, com uma só preocupação. Como sair dessa, como se salvar de um desastre anunciado? O que fazer? Inegável, o governo tem tentado, mas nada até agora funcionou. O Congresso não tem ajudado. Dólar nas alturas, essas empresas de risco informando que o risco Brasil é um fato. Penalizando o pais e, por extensão, suas empresas. Falta de confiança generalizada, inclusive dos brasileiros. Desconfiança que só vem crescendo. Confesso que fico até com medo de ligar a TV ou ler os jornais. Esse descalabro me afeta, como afeta a todos. Mas, temos que estar informados, mesmo minimamente, pois aqui vivemos e aqui temos que enfrentar os problemas. E ajudar a resolvê-los, da forma que pudermos.

Até a luz no fim do túnel, que sempre a gente via no passado, está ameaçada, com a energia elétrica à preços exorbitantes e, pior, com a ameaça de racionamento. Um Deus nos acuda. Mas, não vamos esmorecer. Como dizia Churchill, “Never Surrender” - nunca se renda, nunca se entregue. O meu otimismo (seguindo um comentário que escutei de certa pessoa, inocência de caduco) continua vivo. Coragem, isso tudo passa e dias melhores virão. Na minha idade, não sei se os verei. Mas, bola pra frente que o Real Madrid não é de nada.

Não, não é o ótimo programa da TV Universitária, inventado por Carlos Lyra no tempo de Diógenes e ainda hoje tão bem conduzido por Tarcísio Gurgel. É a minha memória que, milagrosamente, resiste. E, desta vez, sem fazer qualquer pesquisa e apenas pescando no fundo do poço, sem pretensões acadêmicas, apenas refletindo o que senti e vivi nestes anos que marcaram, e complicaram, minha vida e a de todos nós – a condução da nossa economia -, quase sempre desastrosa. E tentando ser conciso.

Das primeiras que me lembro, as acusações que faziam à Dutra, logo depois da II Guerra. Pegou todas as nossas reservas, acumuladas durante aquele período, e deixou que fossem desperdiçados com a importação de bugigangas. Durante a guerra, esse dinheiro foi acumulado com o que conseguimos vender. Inclusive todo o café, que teve uma quantidade enorme queimada por Getúlio nos anos trinta, para aumentar o preço no exterior.

Depois de Dutra, anos de arrocho. Lembro-me que, para comprar dólares, tivemos até leilão, como estão fazendo hoje na Venezuela. Disso me lembro bem, pois já trabalhava com meu pai e participei de alguns desses leilões para importar, entre outras coisas, arame farpado. Não, não era para campos de concentração, era para cercar fazendas. Já a espera do MST? Não, antes tivemos Julião.

A coisa piorando. Inflação crescendo, mas ainda dentro de certos conformes. Veio Juscelino, cinqüenta anos em cinco, e Brasília. (Cidade que eu gosto, e cujo único óbice é a população flutuante, que ocupa o Congresso; com algumas exceções, óbvio). E aí a inflação começou a desandar. Jânio bagunçou o coreto, que foi para o brejo com Jango. E a economia piorando. Veio a “redentora”, que começou bem com Castelo, conseguindo controlar um pouco a inflação. Vieram os outros, todos com idéias de Brasil Grande, com um nacionalismo burro que só nos criou problemas, e ainda cria. Estatização, entre outras. Essa sim uma herança maldita. Em Informática, por exemplo, tivemos mais de dez anos de atraso e um aprendizado de como se fazer contrabando. Única forma de se ter um computador, especialmente em casa, quando começaram a surgir os desktops. E a inflação crescendo.

Diretas já, eleição e morte de Tancredo, e aí veio Sarney. Campeão mundial de desgoverno, ainda hoje dando palpites, ruins. A inflação dispara. Sarney trouxe salvadores da Pátria Amada, como Dílson Funaro, Bresser Pereira e Mailson da Nóbrega. Dílson, coitado, morreu muito cedo, mas os outros dois continuam aí dando palpite e, por incrível que pareça, sendo escutados. Mailson nos deu uma inflação campeã. Bresser fez um plano que até hoje traz prejuízos ao pais. Dílson criou os “fiscais de Sarney”. Aí vem Collor; precisa comentar? Basta mencionar uma mulher que se dizia economista, uma Zélia qualquer coisa, e que a única coisa que conseguiu foi igualar todos num confisco maluco das poupanças. Fiquei tão rico quanto Antonio Ermírio de Morais. Felizmente, Collor foi expulso do governo, mas não aprendeu nada. Continua aí, enrolado.

Veio Itamar, que teve a sorte de chamar Fernando Henrique para ministro da Fazenda. FHC juntou um grupo de caras safos e bolou o Plano Real. Foi a nossa salvação. Mas, parece que somos mesmo sem sorte. Veio Lula, outro salvador da Pátria, o que continua querendo ser. No começo, enquanto seguiu os modelos existentes, até que foi bem. Depois, convenceu-se de que era o cara, como disse Obama sem saber de nada, e começou a botar as garras de fora. A coisa começou a desandar, atingindo o ápice com o mensalão e subindo ainda mais com a sucessora. Esta arranjou um pau mandado e levou nossa economia ao desastre completo no seu primeiro mandato, destruindo as coisas boas que haviam sido feitas.

Agora, embora não tenha se arrependido, nunca reconheceu os erros e culpando a “crise externa” por tudo, crise que já não existe mais, foi buscar na iniciativa privada, que parece detestar, um sujeito que dá a impressão de saber das coisas, mas sem muito jogo de cintura. Encontrou um Congresso que continua irresponsável e que só pensa em São Francisco (como o Papa), e pouco tem conseguido. E nós, vitimas, continuamos a pagar uma conta interminável, e cada vez mais cara. Um salve-se quem puder. Pessimista? Nesse contexto, teria tudo para ser. Mas ainda acredito no Brasil.

Telefona-me um amigo de Curitiba e dá-me a notícia de que nasceu o seu primeiro neto. Feliz, comunicava a novidade com entusiasmo. O parabenizei, claro, e como não gosto de ser desmancha prazer, não lhe disse que só de bisnetos eu já tinha quase uma dúzia e que ele estava muito atrasado na empreitada.

Esse telefonema me pôs a pensar. Quando esse menino estiver da minha idade, em 2100, como será o mundo? Eis aí a única coisa que tenho inveja. Não chegar a ver, (ou será que a gente verá?) o mundo de então. O jeito é me contentar com o que já vi até agora. E do que vi, alguns coisas, hoje sem maior evidência, à época foram fantásticas. Se não fantásticas, de qualquer forma surpreendentes. Eis algumas delas.

A primeira coisa que realmente me chamou a atenção foi a construção da pista de Parnamirim pelos americanos. Tinha aí meus 11/12 anos. Pela estrada velha, por Macaíba, a viagem era quase tão demorada quanto ir hoje ao “hub” de São Gonçalo. Na verdade, o primeiro “hub” de Natal foi Parnamirim, patrocínio da Força Aérea Americana, sem incentivos fiscais ou badalações. Mas, eram outros tempos, tempos de guerra. Construíram, e eu assisti, a pista em uns 40/45 dias, que para mim, ainda hoje, parece que foi numa semana. Máquinas enormes, construção sólida, que resistiu até ser recoberta pela nova estrada, uma ruma de anos depois. Lição que não aprendemos, pois construímos hoje e na primeira chuva a estrada se enche de crateras lunares.

Outra coisa que me surpreendeu foi a substituição dos telefones antigos pelos automáticos. Antes, você usava um telefone, pendurado num gancho, que tinha uma alavanca para chamar, era atendido por uma telefonista que lhe pedia o número e fazia sua ligação. Ainda me lembro do número do escritório de meu pai – 1268. Com os automáticos, pesados, feios, você tirava o telefone do “gancho”, (embora não tivessem mais gancho, lembrança dos antigos), e você mesmo discava o número, depois de escutar o sinal de linha. Incrível, na época.

E a inauguração do “Cinema São Luiz”, que trouxe para Natal o “cinemascope”? Lembro até do filme da inauguração, “Como era verde o meu vale”, uma história sobre as minas de carvão na Inglaterra. Só não me lembro da data exata, mas já foi depois da guerra. Ainda tinha bonde, que pegava no Grande Ponto para ir até o Alecrim, Praça Gentil Ferreira, perto de onde ficava o cinema. Hoje, parece, é o Banco do Brasil. Tempos que não ando por lá. Falta de tempo.

Sempre lembro coisas como essas. E as comento, com familiares, com amigos. Recordar é viver. E ajuda a gente a manter a cabeça boa.



Twitter