NATAL PRESS

Dizem que os brasileiros não sabem votar. Pelé, tempos atrás, foi taxativo; ainda me lembro do que ele disse. Eu mesmo tenho dito isso, e há momentos em que toda essa maledicência se confirma. Elegemos e reelegemos figuras corruptas às pampas, embora a evidência dessa corrupção esteja palpável.

Desta vez, minha preocupação é outra. Como curioso que acompanha o que vai pelo mundo, especialmente nos EUA, onde vivi dias de politica conturbada, tento me manter a par dos acontecimentos. Quando morei lá, assisti desde a renuncia de Nixon, a prisão do governador do Estado onde morava, Maryland, por peculato, a prisão do prefeito de Washington, por consumo de drogas, entre outros casos menores. Mas, uma fama havia: o povo sabia votar e esses nunca mais teriam nova chance. Parece que não é mais assim.

A presente disputa pela Presidência, em pleno processo, tem mostrado fatos irreverentes, para não dizer estranhos.  Dentre essas aberrações, temos a candidatura de Donald Trump. Em inglês, “trump” quer dizer “trunfo”, como no jogo. Quem tem um trunfo, tem meio caminho andado para vencer o jogo. E parece que é o que está ocorrendo no momento, com vitórias sucessivas de Trump na maioria das primárias nos diversos estados onde vêm se realizando. 

Declarações estapafúrdias, agressivas, grosseiras, sem sentido, racistas, fascistas, xenofóbicas, todas que deveriam espantar um eleitor com bom senso, mas que vem votando nele e que o levam a cada vez mais perto da candidatura republicana. Mesmo com concorrentes razoáveis, mas que, a bem da verdade, não muito atraentes.

Suas “tiradas”, cheias de ameaças, mas feitas com certo humor, têm me lembrado do Pato Donald, figura de Disney que divertia pela irreverência, palavras ocas, e mais das vezes sem maior sentido.

E aí me pergunto. Será que os americanos não sabem mais votar? A eleição de uma figura como o Pato Donald será uma ameaça não só para os EUA, mas para o mundo, pela posição de liderança que o país ocupa, ainda que venha perdendo parte dessa hegemonia. O presidente Obama, se referindo a possível eleição do Pato, disse não acreditar que ele ganhe, pois confia no povo americano. O mesmo digo eu. Sua vitória seria um desastre anunciado. Não é um “trunfo” de maneira nenhuma.

A esperança está nos democratas. Para mim, Hillary é a candidata preferencial e que tem tudo para ser eleita. Mas o seu concorrente à escolha do Partido Democrático como candidato possível, embora menos conhecido, é muito melhor do que o Pato Donald. É aguardar para ver. Esperamos que os americanos não tenham que pagar o pato, e muito menos o resto do mundo.

Todos nós, com certeza na escola, lemos a carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei. Acabo de descobri-la no IBooks, e baixei para o meu computador, para relê-la. Fiquei surpreso como mostra muito do Brasil de hoje.  Quando a li da primeira vez, na escola e adolescente, não me chamou muito a atenção. O que lia entrava por um olho e saía pelo outro. Agora, com um pouquinho mais de idade e experiência, me surpreendi com a semelhança que em muitos de seus comentários retratam o país em que hoje vivemos. Considerem, ao lerem estes escritos, a diferença de quinhentos anos entre a carta e os tempos atuais. Portanto, sobrepesem minhas palavras, que não podem, mais das vezes, ser tomadas ao “pé da letra”. Mas, vejam só, há muito de atual.
      

A carta é bajuladora, incompetente, imprecisa, exagerada e preconceituosa. Começa com um elogio ao rei, exagerado. Pede desculpas em fazer a carta, pedindo para que fosse tomada “sua ignorância por boa vontade”. E que não ia dizer nada mais do que via – “não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu”. Isso lembra os nossos políticos, com suas longas estórias e explicações.
      

Já no quarto parágrafo começa a imprecisão. Diz que viram as Canárias entre as “oito e nove horas”, e andaram todo o dia à vista delas, “obra de três a quatro léguas”. No domingo, “22 do dito mês, às dez horas, pouco mais ou menos”, viram Cabo Verde.  Quando distavam “obra de 660 ou 670 léguas da dita Ilha”, avistaram sinais de terra. “No mesmo dia, a horas de vésperas, houvemos vista de terra”. Um monte, que recebeu o nome de Pascoal dado pelo Comandante, que também batizou a terra como o nome de Terra de Vera Cruz. E aí começou nossa odisseia. Do Brasil.

No dia seguinte, foram em direção à terra, medindo a profundidade, e ancoraram “às dez horas, pouco mais ou menos”. Avistaram homens que andavam pela praia, “obra de sete ou oito”. O Capitão mandou um batel à terra, e quando lá chegaram, havia já “dezoito ou vinte homens”. E os descreve: “eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”. Eram os preconceitos da época, que se entendem. Mas, disfarçados, ainda existem hoje.

Descreve os numerosos contatos que tiveram com os indígenas, sempre usando números imprecisos na quantidade de pessoas: “cerca de duzentos; em redor de sessenta ou setenta”. Nunca um número preciso. Isso lembrou-me nossas estatísticas atuais: inflação de 9 a 11%, dólar em entre 3,90 e 4,20, PIB crescendo entre 3 e 4%. Essa “clareza e precisão” nós herdamos. Nunca um número preciso. É verdade que precisão em números que tais é difícil, mas a imprecisão, às vezes, é grande demais.

E descreve a missa celebrada pelo frei Henrique. Diz que entre “cinquenta ou sessenta ” a assistiram, e tudo que fazíamos, repetiam. Se ajoelhavam, faziam sinal da cruz, e no Evangelho, ao nos erguermos todos em pé com as mãos levantadas, fizeram o mesmo. Concluiu que eram “novas almas para a Igreja”.

E, já no final da carta, escreveu a parte que ficou mais conhecida de todos nós: “águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem”. A seca está aí.

E termina pedindo ao rei, “e pois, Senhor, tanto neste cargo que levo como em qualquer outra coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge Osório meu genro – o que d’Ela receberei com muita mercê”. E termina “Beijo nas mãos de Vossa Alteza”. Preparava sua “caminha”.

Essa carta, pelo menos para mim, lembra o Brasil de hoje, pela imprecisão, pela subserviência, pelos elogios ao rei, e pelo pedido final, que retratam nossos costumes.

 Não é bem a minha praia. Prefiro assuntos mais amenos. Mas foi o que veio hoje à cabeça. A dissertação pedida pelo ENEM, e que parece ser o “via crucis” mas efetivo do exame. Segundo tenho lido. Também tenho lido que os temas propostos são os mais estranhos. Todos, quase sem exceção, com viés esquerdista, procurando desenvolver na mente dos examinados teorias oriundas dos ensinamentos gramcistas da subversão, usando a própria democracia como instrumento fundamental. E o resultado disso tudo tem sido, em primeiro lugar, o alto numero de reprovados e, em segundo, os protestos enunciados pelos que se preocupam com os rumos que o Brasil vem tomando. Eu inclusive. É o caso.   

Mas, também me trouxe à lembrança o meu tempo de ginasiano do velho Atheneu. Todos os professores de Português (Antonio Fagundes, Israel “Tuiuiú” Nazareno, Edgar Barbosa) excelentes, diga-se, nos exigiam, constantemente, que fizemos dissertações. Todas as provas de meio e fim de ano continham temas para dissertações. E durante todo o ano escrevíamos nossas dissertações. Desnecessário salientar que temas sadios. Todos promovendo o respeito às nossas origens cristãs e ocidentais. Todos encaminhando nossos escritos para assuntos relevantes ao bem da sociedade e do país. Todos buscando nos direcionar aos bons costumes, em sentido lato, tanto políticos quanto sociais. Respeito às nossas tradições.

E esses exercícios nos foram realmente muito úteis. Duvido d–ó, que alguém do nosso tempo tivesse dificuldades em enfrentar as dissertações do ENEM. Talvez o viés adotado os levassem à más notas – já escutei comentários que alunos que discordaram do tema e o criticaram, embora tivessem desenvolvido com competência o assunto apresentado, foram reprovados, o que não sei se é verdadeiro ou não – por não aceitarem os temas sugeridos e os criticassem. Mas, certeza tenho, desenvolveriam o assunto com inteligência.

Devo, muito, a esses meus professores, e às milhares de dissertações que escrevi na minha vida de estudante, a capacidade de juntar algumas linhas. Aprendi com eles a procurar ser explícito, não prolixo, e externar  meus pensamentos de forma simples e ordenada. E de ler várias vezes, “antes de entregar a dissertação para receber a nota”, para evitar erros de linguagem e confirmar a propriedade dos assuntos veiculados.

Essa é a minha prática até hoje. Embora não me considere um perito na nossa língua, que é complicada paca, tenho muito cuidado com o seu uso, buscando objetivamente duas coisas – simplicidade e clareza. Não sei se tenho muito sucesso. Já escutei de um amigo, professor de Português que, numa das minhas crônicas, teria encontrado  erros. Pedi que os corrigisse, para que eu aprendesse. E fiquei mandando para ele meus textos antes de publicar. Acho que cansou. Nunca me devolveu um só corrigido e nunca mais me criticou. E eu deixei de mandar-lhe meus textos. O que foi um alivio, para ele e para mim.

Pós jantar. Conversa de diabético. Jantar simples, como deve ser para nossa idade. Uma fruta, pão, queijo, café. Então, vamos tomar todos os remédios. Acho muitos. Mas, não brigo com meus médicos.  

Vamos ver TV, até chegar a hora da cama. O problema é que não tem o que ver na TV. Ontem, de Leste a Oeste e do Oiapoque ao Chuí, só Carnaval. Um bando de malucos pulando, umas músicas idiotas, sem melodia, sem letra, sem pé, nem cabeça. Mas, alvissaras, mostram a unidade do Brasil; pelo menos.   

Mudo de canal o tempo todo. De repente, um noticiário. O mais do mesmo. Políticos roubando, Polícia prendendo, Juízes soltando...há exceções, claro. “De menor” assaltando, “de maior”, assaltado. Mudo rápido de canal. Rápido. Mais do mesmo, nos demais.

Novelas, novelas. Irrisórias, irrelevantes, imorais, idiotas, irritantes. Procuro outra coisa, e encontro um canal de esportes. Futebol do Brasil não vejo mais. Um bando de perna de pau, cada dia pior. Encontro um jogo de hockey no gelo, que eu adoro. Até o campo gelado parece esfriar a sala. Montreal versus Toronto, em Montreal. Daltinho é fã. Quem sabe não estará no campo e por uma dessas aparece na TV? Mas Ione não gosta. “Um bando de marmanjos, com um pedaço de pau, correndo atrás de uma rodinha de madeira que nem se quer a gente vê! E brigando o tempo todo”. Mudo de canal, claro. Tente o YouTube, que tem tudo.  Não consigo ligar. Devo ter mexido em alguma coisa e o bicho não funciona. Desisto. Amanhã vejo.

Vamos  dormir, sugiro. Agora, nove e meia, para você acordar às quatro e querer ir para o computador? Desisto, deixo em qualquer canal, pego o iPad e vou jogar Paciência, que é o que preciso, e muita.

Finalmente, dez e meia, vamos dormir. Já tinha ligado o ar condicionado, e um friozinho agradável nos recebe. “Você puxou o lençol todo! Não, não puxei. Se enrole direito”. “Não consigo dormir, dormi mal. Eu também. Deve ser da idade”. Já são cinco da manhã, ainda muito cedo, pois geralmente nos levantamos às seis. Mas, estou com essa crônica na cabeça e não quero perdê-la.

Me levanto devagarinho. Ela sente e diz: “pr’onde você vai?”. Estou sem sono. Vou para o computador. E ela, “você e suas manias”. E eu: “Fique deitada, não tem pressa”.

Haja paciência. Tenho, e muita. E inspiração. Pode até ser infantil, mas felizmente ainda tenho.

Abre-se um jornal, de qualquer parte do país, e o que se vê são todos os prefeitos reclamando de suas finanças. Queda da participação do FPM, diminuição de arrecadação, incapacidade de manter os serviços mínimos de segurança, saúde, educação.

Lembro-me. No meu tempo de ginásio, o nosso Estado possuía 49 municípios. Hoje, parece que são 169; perdi a conta. Todos criados com um único e óbvio objetivo – criar cargos; prefeitos, vereadores, empregos. Posso até jurar que não passou pela cabeça de nenhum dos “inventores” desses novo munícipios uma mínima preocupação com a qualidade de vida que iriam oferecer às suas populações. Vá lá, posso estar exagerando. Um ou outro talvez tenha se preocupado com isso.

Mas, convenhamos, isso não é só problema nosso. Leio no “New York Times” de 16 de janeiro que o Estado do Maine passa por dificuldades semelhantes. Talvez por ser o Estado irmão do RN? Claro que não, mas por decisões idênticas quando criaram novos municípios, ou “counties”, como se diz em inglês. Diminuição do tamanho da população, decréscimo das atividades econômicas, condições de vida melhores em outras áreas, tudo contribuindo para que os habitantes dessas regiões procurem mudança. Por lá, a solução tem sido fácil, embora dura. Práticos, reúnem todos esses munícipios em um negócio que chamam de “unorganized territories” (territórios não organizadas), que assumem todos os encargos dessas “counties” falidas, e tomam medidas drásticas de economia. Diminuem funcionários, fecham prefeituras e câmaras de vereadores, suspendem serviços de funcionam mal e transferem tudo para essa “unorganized territories”, que assumem todos os encargos com a ajuda do Estado e saldos e receitas que ainda possam existir nesses condados fechados. Lá, práticos, objetivos, fazem isso sem maiores clamores.

Aqui, uma solução semelhante se torna evidente e necessária. Municípios há sem a mínima condição de sobrevivência. Servem mal à sua população, oferecem péssimas escolas, segurança desastrosa e pior saúde, pendurados na teta do FPM, cada dia menor e que só dá para pagar, e mal, as administrações, diga-se, mas das vezes desnecessárias e incompetentes.

Será que essa situação desastrosa nos trará o bom senso de mudar? Reunir essa enorme quantidade de municípios fajutos em organizações mais viáveis, com menos despesas, menos prefeitos, vereadores, funcionários? Muitas vezes, a premência, as pressões, forçam decisões racionais. Vamos ter isso agora, diante desse quadro trágico que estamos vivenciando? Confesso, pessoalmente, não acredito. Mas, as pressões são tantas e tão grande que pode acontecer alguma coisa.

Como me divirto. Dias atrás, chamei um querido amigo para almoçar. Respondeu agradecendo e dizendo que não poderia ir. Insisti e perguntei por quê. É que não conheço mais ninguém, disse, e não me sinto bem no meio de tantos desconhecidos. Mas, pior, acrescentou, é que ninguém me conhece. Uma verdade. No nosso tempo, conhecíamos todos e todos nos conheciam. Não me incomodo.

Aliás, me lembrei, estávamos jantando, com Alvamar Furtado, Odilon Garcia, Gilson Ramalho. Muita gente jovem chegando, que nenhum de nós conhecia. Comentei, devem ser filhos de amigos nossos. Alvamar, de pronto, não, netos.

Aproveito o não conhecer para ficar observando as pessoas. Almoçando, sábados ou domingos, mais especialmente sábados, observo o que ocorre ao redor. Primeiro, as vestimentas. Os homens, quase a totalidade, de bermudas e camisas por fora das calças, o que a gente chamava de “slacks”, no tempo da guerra. Um desses sábados, o único circunstante com calça comprida era eu. As mulheres, shorts, curtíssimos. Nas mais jovens, uma maravilha, nas mais idosas, para não ser um critico desumano, o conselho é mudar o olhar. Também há uma quantidade enorme de gente feia e mal enjorcada.

Depois, o comportamento à mesa. Alguns barulhentos, a maioria, outros, mais recatados. As crianças sem muita educação, correndo de lá para cá, daqui para lá. Os pais não estão nem aí. Se aquietam quando se agarram aos seus smartphones. Uma benção. O que hoje todo mundo tem. E aí, desligam-se. O que é natural, pois os pais e mães também os têm permanentemente em uso. Desligam-se do ambiente e de todos os presentes. E entre si.

A composição das mesas é sempre muito eclética. Há, no entanto, uma norma mais ou menos permanente. Famílias, a maioria, um cara mais velho, com filhos, netos. Cara de pagador da conta. Como eu. Mais jovens, muito parecidos e mais barulhentos, embora nem sempre, já se vê que vão dividir a conta. Há mesas só de homens, outras só de mulheres. Conta dividida, sem duvida. Falam alto, muito alto. Essa negocio de dividir a conta foi das melhores coisas que aprendemos com os americanos. Antigamente, era uma briga para ver quem ia pagar. Todos queriam pagar. Pelo menos aparentemente.

As bebidas variam muito. Ultimamente, tenho notado, há sempre alguém que só bebe coca-cola ou um suco. Deve estar dirigindo o carro. Todo mundo tem carro, o que é ótimo. Os demais, uns poucos, tomando cerveja. A maioria, vinho, que surgiu como a bebida preferida. Os mais jovens, coca-cola. Interessante, raro alguém tomando guaraná. De aperitivo, de longe, a caipirinha reina, até onde vejo. Há os mais velhos, como eu, tomando um whisky. Aviso: um neto dirige o carro, e só toma coca. 

O tempo passa, me divirto, e pago a conta com satisfação. Contei tudo isso ao meu amigo, mas não mudou de idéia. É renitente, e teimoso. Complexo de velho. Que eu felizmente ainda não tenho. E esforço-me para não ter.

Ano de 1949. Recém saído do Atheneu, no ultimo ano de Contabilidade do Colégio Marista. Tempo dos Irmãos Maristas, e ainda falando francês. Lembro alguns professores. Alguns leigos, como Fernando Galvão, que ensinava Português; Argemiro Figueiredo, Contabilidade; Odyr Costa, Estatística. Irmão Pedro, Inglês; Irmão (Jacaré) Estevam, Matemática; Irmão Flávio, que era o Diretor, Ciências. Lembranças.

Fui convocado pelo Exército. Quando me apresentei, fiz valer o meu direito e desejo de fazer o CPOR (Curso de Preparação de Oficiais da Reserva), que, naquela tempo, era no Recife. Meu pedido foi aceito e fui mandado me apresentar lá. O Exército tinha um vôo com um avião fretado da Cruzeiro do Sul, um Junker JU-52, alemão, de três motores, herdado da antiga Condor, e que ligava Natal, Recife e Fernando de Noronha. Nesse vôo, fui para Recife e apresentei-me no quartel do CPOR, que ficava num prédio antigo em Madalena. Desses prédios que tem uma escada larga logo na entrada e que se bifurca em duas, levando ao primeiro andar.

O sentinela me mandou subir e orientou a sala do Comandante, Capitão Montanha, a quem deveria me apresentar. Cheguei na porta dele, um soldado entrou para avisá-lo da minha presença e mandou que entrasse. Cumprimentei-o, entreguei o ofício do quartel de Natal me apresentando e fiquei meio escorado no bureau dele. Recebi uma lição que nunca esqueci: “Você está num quartel. Aqui você é um soldado. Desencoste da mesa e assuma uma posição de sentido. Não seja relaxado”. Leu o ofício e me mandou para o exame médico. Foi marcado para dois dias depois e eu fiquei zanzando, no ínterim.

Quando fiz o exame, fui reprovado por problemas de visão. Não sabia que tinha problema e nem usava óculos, mas o médico foi taxativo e me dispensou. Miopia, diagnosticou. Numa semana, entrei e saí do Exército.

E aí tive minha segunda experiência. Com os papeis da dispensa, fui à 24a. CR, nesse tempo comandada por um conterrâneo nosso, Major Aluizio Moura. A CR ficava onde é hoje o Colégio Churchill. Entreguei a dispensa, e ele mandou processar a documentação. Que tenho até hoje. Reservista de 3a. categoria. Quando fui buscar o documento, chamou um sargento para pegar minha assinatura e impressão digital. Sujei o dedo e limpei numa parede perto, já super suja de tudo quando era dedo que já tinha passado por ali. O sargento não gostou e me deu uma bronca. Pedi desculpa e o Major, que já há muito conhecia e era amigo de meu pai, disse ao sargento: essa parede já está imunda, um dedo a mais ou a menos não faz diferença. Vamos mandar pintá-la e aí sim, ninguém mais vai por o dedo.

De vez em quando me lembro dessa história. Primeiro, por voar no JU-52, avião famoso da II Guerra. Foi usado pela Luftwaffe para transportar seus pára-quedistas, para tomar o forte de Eben-Emael, Bélgica, na invasão da França em Maio de 1940 e, depois, na invasão da Ilha de Creta, em Maio de 1941, quando os alemães foram socorrer os italianos, seguidamente derrotados na campanha da Grécia. Anos depois, na Alemanha, Colônia, comprei uma miniatura desse aeroplano, que tenho até hoje.

Amanheci o dia com esse assunto na cabeça. Não sou pessimista, ao contrario. Acho a vidaótima e enfrento os problemas, quando os tenho (e quem não os tem) com coragem e determinação.Mas que a vida é incerta, lá isso é. E completava o pensamento, a única coisa realmente certa é a nmorte, mas, felizmente, desconhecemos quando e como ela vai nos atingir.

E como a vida é incerta! Na realidade, uma loteria. Pensei, por que meu irmão Jener se foi tão cedo, aos 27 anos, em 19 de julho de 1960, enquanto eu já fiz 85? Existe alguma explicação, ou foi mesmo um mero acidente? Poderia ter sido eu em vez dele? Algumas religiões tentam explicar essas mortes prematuras como um prêmio. Mas cedo essas pessoas estariam gozando as ditas delícias de uma outra vida. Não sei, nem tenho pressa em saber. Inclino-me mais a acreditar que quando se morre, se morre mesmo. Embora, no fundo, torça para estar errado.

De repente, com esses pensamentos tristes, mas reais, recebo uma mensagem de que meu grande amigo, grande figura, José Nilson de Sá, havia falecido. Mais velho do que eu, um sete ou oito anos, com quem convivi de perto. Fui com ele e Maria Helena, comemorar os cinqüenta anos de casados deles em Paris. E, depois, o aniversário de setenta de Maria Helena em Buenos Aires.

Já fiz sentir minha tristeza à família, por intermédio de Enio. E pedi desculpas pela minha ausência no velório. Não me faz bem, e ultimamente tenho evitado comparecer à cerimônias como

essa, à Missas de sétimo dia. Explico-me aos familiares que, felizmente, entendem. Zé vai deixar muita saudade. Alegre, espirituoso, grande papo, contador de estórias e de

História, pela vida que levou durante tantos anos, apreciador de um bom whisky, em resumo, uma vida profícua, prazenteira e realista, vai nos fazer muita falta. Fisicamente, se ausentou, mas permanece vivo nas nossas lembranças.

Infeliz no jogo, feliz nos amores. Velho ditado. E posso me considerar testemunho dele. Não me recordo de ter ganho no jogo. Sempre que comento isso, me lembro do circunstante que toda semana ia a Igreja, pedir à Santo Antonio que o ajudasse a ganhar a loto. Nunca ganhava, mas não desistia. Um dia, Santo Antonio, já de saco cheio, respondeu: Pô, como posso lhe ajudar! Pelo menos jogue! É quase o meu caso, mas de vez em quando jogo, só para confirmar o ditado. Pois sou muito feliz nos amores, ou melhor, no amor.

Casado há 63 anos, se somar namoro e noivado chegamos perto dos 70. Sem rusgas, desencontros ou problemas maiores até hoje. Somos tolerantes um com o outro, e isso nos deu uma convivência rara. Constituímos uma família equilibrada, o que culminou o nosso casamento. Nada a reclamar de minha parte e, acho, acho não, tenho certeza, da parte dela também.

Esta semana, as notícias eram sobre o valor da megasena acumulada. Quando estava em 170 milhões, joguei. Como sempre, depois vi a notícia do resultado e os meus números nem apareceram. Sem surpresa. Mas, disse comigo mesmo, vou jogar de novo; uma bolada, que me será muito útil. Desta vez, fiz igual ao cara que chateava Santo Antonio: esqueci de jogar. E só me lembrei no dia seguinte, quando os novos resultados apareceram nos periódicos.

Não sou contra o jogo. Achei de uma burrice suprema a proibição do jogo no Brasil. Tudo causada pela mulher de Dutra, muito religiosa, que achava o jogo um pecado. Pelo menos, é o que contam. Ela fez o marido proibir o jogo no Brasil, prejudicando milhares de pessoas, fechando todos os cassinos, e tentando acabar até com o jogo do bicho. Ledo engano. Até minha avó jogava no bicho. Enquanto isso, ao nosso redor, países vizinhos, o jogo continua, nos tirando não sei quantos turistas.

Fui à Las Vegas. A primeira vez, em 1965. Deslumbrante então, deslumbrante hoje. Num dos cassinos, vi uns cinzeiros bacanas, espalhados por todos os lados. Perguntei a um dos seguranças: onde posso comprar um? Resposta: pode roubar um, estão aí para serem roubados. Roubei. Joguei nos caça-níqueis. Desnecessário dizer que não ganhei nada. Fui a Hong Kong e de lá à Macau. Ainda portuguesa. Visitei o cassino. Mixuruca. Hoje, leio, a Macau chinesa tem grandes cassinos e, segundo se sabe, já ultrapassou Las Vegas em movimento. Gosto de conhecer cassinos, mesmo sem jogar. Fui ao de Montevidéu, Ciudad de Leste, Buenos Aires, Mendoza.

Lembro-me do Cassino de Bianchi, aqui em Natal, no tempo da II Guerra, que não conheci. Não tinha idade para entrar. Tampouco conheci os do Rio. Mas recordo a inauguração do Quitandinha, num prédio belíssimo, que fechou quando da proibição dos jogos por aqui. Hoje, não sei para que serve. Agora, em plena discussão, uma nova lei que permitirá a reabertura dos jogos no país. Torço por sua aprovação.

Hoje, amanheci sem inspiração. Não só hoje. Isso acontece de vez em quando. E deve ser assim com todo mundo. Escrever, atividade prazenteira, se torna difícil, mais das vezes, por faltar exatamente isso, inspiração.

Geralmente, “bolo” minhas crônicas na cama, antes de dormir, ou ao acordar, cedinho. Fico ruminando os assuntos e, de repente, surge alguma coisa interessante a ser comentada. Guardo na memória. Hoje, foi diferente. Essa idéia surgiu quando via meus emails, lia os jornais, e olhava matérias das mais variadas origens e conteúdos. Na internet, claro, sem a qual não sei como seria a vida hoje. A curiosidade, felizmente, ainda me persegue com insistência, o que é bom e eu gosto.

Lendo as notícias, fiquei imaginando. Que diabo, estou com vontade de escrever, mas, sobre o que? E aí, com os meus botões, pensei – por que não dizer o está acontecendo, ou seja, que estou com inspiração zero? E comecei.

E, depois de começar, me veio a idéia de comentar sobre a internet e computação. Lembrei-me de quando trabalhava no escritório de meu pai. Representante comercial, o centro do negócio se firmava em boas comunicações, entre nós e as empresas que representávamos, a quase totalidade no sul, a maior parte em São Paulo. Algumas no exterior, especialmente antes da guerra, mas também logo depois. Sobre mim veio cair a responsabilidade por essa comunicação, ao assumir atividades maiores na empresa.

Passava boa parte do dia agarrado à uma maquina de escrever, fazendo cartas e mais cartas para os representados, enviando pedidos dos nossos clientes, fazendo consultas – que quando eram urgentes eram feitas por telegramas e, se urgentíssimas, pela Western Telegraph. Para as cartas, usávamos o Correio, talvez mais eficiente então. Também não havia outra opção. De duas a três semanas, entre consulta e resposta. (Reconheçamos, hoje é mais rápido, quando não há uma greve e não se extravia. Não sei se isso acontece com vocês, mas minhas contas sempre chegam vencidas. Com raras e honrosas exceções).

E era uma trabalheira infindável. Colocar o papel, em duas vias, as vezes três, e com carbono, fazer a carta, em muitos casos, repetidas, quase idênticas, para outro endereço. Se houvesse um erro, a correção, apagando com borracha inclusive a copia, com cuidado para não sujar o papel, e as mãos. Isso se repetindo “n” vezes por dias. Um saco! Fico imaginando o tempo perdido que, naquele tempo, a gente não imaginava sequer.

Com o computador, a internet, emails, o escambau, o tempo que se perdia é usado hoje de forma racional e produtiva. Vida simplificada. E eu, que comecei sem inspiração, quase não paro. Como li em algum lugar, escrever é só encontrar o titulo. O resto vem no andar da carruagem.



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