NATAL PRESS

As eleições municipais estão à porta. Antes de mais nada, deixem-me expressar minha admiração pela dedicação dos candidatos, pelas suas preocupações com Natal, seus desejos de resolverem os problemas da cidade, pelo seu interesse em abandonar suas vidas privadas, seus lazeres, pelo sacrifício de seu próprio bem-estar, para cuidar do nosso. Realmente louvável, e causa-me emoção ver suas promessas nos programas eleitorais. Será que há sinceridade nisso?

Vocês já sabem em quem vão votar? Eu não. Sei, e com toda certeza, em quem não vou votar. Nos candidatos do pstu, psol e pt. São partidos ultraconservadores, que querem nos retroceder sessenta anos, nos levando de volta aos tempos de Stalin e suas mazelas. Ainda não tomaram conhecimento da queda do muro de Berlim, das modificações ocorrida na Europa Oriental, do desmanche da União Soviética devido a uma política retrograda, que continuam querendo implantar por aqui, dos novos tempos que surgiram por lá nestes últimos trinta anos. Por coincidência, estava em Colônia, na Alemanha quando da queda do muro em novembro de 1989.

Para sorte nossa, mesmo que não seja brasileiro, Deus olha para o Brasil de vez em quando. Foi o que fez com o impedimento, evitando que Dilma Rousseff, autora de um desastre econômico que nos esmaga, que fez de tudo e tudo faria e fará, para nos levar de volta àquele tempo, continuasse no poder. Os brasileiros, mesmo os políticos, estes pressionados pela sociedade, enxergaram o desastre em andamento e resolveram estancá-lo. Embora pela metade, essa medida nos livrou de um mal maior.

Eliminados os que não merecem o meu voto, fica a dúvida. Em quem votar? Impossível nos basearmos nas propagandas, todas enganosos. Promessas e mais promessas, nenhuma delas com a imprescindível fonte de recursos. Nem os caminhos de como chegar lá. Além disso, se comprometem a iniciativas que não competem ao munícipio o qual, no máximo, poderia ser acessório. Portanto, difícil acreditar nas “bondades” anunciadas.

Como todos sabem, a experiência é essencial à governança. O atual Prefeito recebeu uma Prefeitura sucateada e sem um centavo. Inegável que, diante das circunstâncias, tem feito o possível do impossível. Este não é um comentário de endosso ao atual Prefeito, mas a realidade. Você olha em volta e não encontra ninguém mais preparado para o cargo. Há, e sempre haverá, problemas velhos a enfrentar e novos surgem todos os dias.  Não tenho maiores razões para defende-lo ou recomendá-lo. São as verdades dos fatos, realidade que não pode ser desprezada. Ainda não fiz minha cabeça. Não quero influenciar ninguém. Meu desejo sincero é que cada um de nós faça uma análise consciente antes de sua decisão. Só um pedido, não deixem de votar.

O que tenho lido ultimamente de como anda o cuidado com tudo que é cultura em nosso Estado tem me deixado triste. Claro, nesse meu comentário há que considerar as exceções, que não são muitas.

Das coisas que andam mal, das mais lamentáveis são as que envolvem o nosso Teatro Alberto Maranhão, que continuo chamando de Carlos Gomes. Não gosto dessa troca-troca de nomes, seja por que motivo forem. Alguns, se originam em posições políticas, o que é pior. E sempre me lembro, quando isso ocorre, da resposta que tive, numa reunião no Quirinale (o Itamaraty italiano) da Comissão Cultural Brasil-Itália, do meu tempo da Assessoria Internacional do MEC, quando perguntei por que a coluna em frente ao prédio ainda mantinha o nome de Mussolini. Resposta: bem ou mal, fez parte de nossa história e não há como negá-lo.

Voltemos ao Teatro, que me lembra sempre Meira Pires. Quando fui Secretário de Educação no Governo Cortez Pereira, o Teatro ainda era administrado pela Secretaria e o seu Diretor era Meira Pires. Aliás, foi o mais longevo dos diretores. Havia conseguido ser nomeado diretor vitalício e só deixou a direção quando morreu. Ainda moço.

Logo depois da minha posse, recebi a primeira carta de Meira, que me entregou pessoalmente. Parabenizava-me pela posse e pedia meu apoio ao teatro. Agradeci e disse-lhe de meu apoio irrestrito à sua gestão. Daí em diante, sai dia entra dia, e as cartas de Meira não pararam. Às vezes, as entregava pessoalmente, outras, mandava por um funcionário antigo do Teatro, seu Pedro. Meira gostava de fazer cartas. Enchi uma pasta com elas. Todas, com um único objetivo – apoio ao teatro e manutenção de seu estado físico.

Até pela insistência, sempre o atendi, embora o fizesse mesmo sem as cartas. Um bem como o Teatro não pode ser esquecido. Cheguei ao ponto de pedir ao setor de engenharia que colocasse um estagiário à disposição das coisas do teatro. Como a manutenção era permanente, os custos eram bem menores, pois o prédio estava sempre um brinco. Graças à Meira.

Mas ele exagerava. Com o argumento da conservação, se negava a ceder o Teatro para certas atividades. Quando eu via razão, concordava. Quanto não, insistia e ele, resmungando, aceitava. Foi o que aconteceu com a apresentação da Sinfônica de Porto Alegre, dentro de um programa criado por nós para trazer orquestras à Natal. Ainda não tínhamos a nossa. Se preocupava de que poderia ir muita gente, sujaria o prédio, podiam quebrar cadeiras, danificar os banheiros. Insisti, disse que provavelmente isso não ocorreria, e sempre se podia recuperar o estrago, como sempre se fez. A apresentação foi um sucesso e sem danos.

Quando olho hoje e vejo o descaso com que é administrado o nosso patrimônio cultural, sempre me lembro de Meira Pires. Museu Café Filho, Biblioteca Câmara Cascudo, e não sei quantos outros, vitimas do descaso. O Forte dos Reis Magos está sendo destruído por esse descaso, coisa que os holandeses não foram capazes de fazer com as suas armas.

Será que vamos aprender um dia?

O lançamento do “Meu olhar sobre a Vida” me trouxe muita alegria e muitas recordações. Agradeço a todos que prestigiaram a minha noite e que muito contribuíram para todo esse momento.

A primeira recordação foi para o meu tempo de menino, estudando no Colégio Pedro Segundo. É que minha letra nos autógrafos estava péssima, e deve ter dificultado muito a leitura. Idade, com emoção, pioraram ainda mais letras que já não são boas. Lembrei-me das lições de Caligrafia. Havia um caderno especial, com um exemplo das letras no topo, e que você tinha que reproduzir, numa espécie de pauta, para as maiúsculas e minúsculas. Esse exercício deve ter contribuído para que ainda seja possível ler o que escrevo.

A outra lembrança foi a presença de colaboradores meus na Secretaria de Educação, Governo Corte Pereira. Quarenta anos depois, ainda encontro pessoas ligadas à educação, que recordam minha administração como das melhores. Mas, enfatizo, devo esse sucesso aos meus colaboradores, que escolhi sem interferência política ou do Governador, o que me deu ampla liberdade. E fiz essa escolha de forma sui-generes. O primeiro, escolhi só; mas do segundo em diante escolhi num consenso dos que já faziam parte da equipe. Isso nos deu uma unidade de trabalho que contribuiu muito para o nosso sucesso.

A presença desses meus amigos e colaboradores me trouxe a lembrança meu curso de Mestrado nos EUA. Esse curso me ajudou, e muito, nas tarefas em que me envolvi. E a melhor lição aprendi no primeiro dia de aula, na apresentação do curso, quando o Diretor da Escola foi nos dar as boas vindas. Começou dizendo: “Quem veio aqui pensando em fazer coisas, está no lugar errado, vá para o curso de Engenharia; os que estão aqui para aprender a mandar, estão no lugar certo. É isso que vocês aprenderão aqui”.

Usei essa lição por onde andei. Ao lado disso, também aprendi nesse curso a simplificação de processos e eliminação de burocracia. Que na Secretaria era enorme. O Secretario tinha que autorizar, ele mesmo, as coisas mais simples. E, algumas, ainda precisavam da assinatura do próprio Governador. Uma burocracia maluca, que tratei de eliminar, e consegui, em sua maior parte.

Lembro-me que, na primeira semana, havia uma enorme quantidade de processos que precisavam da assinatura do Governador. Conhecendo Cortez, preparei um decreto me delegando poderes para tudo aquilo e me permitindo delegar poderes internamente. Enchi uma caminhonete com os processos e parei em frente ao Palácio Potengi. Subi, chamei Cortez, mostrei a ele a quantidade de processos para ele assinar, devido a burocracia idiota. Riu muito, como era seu costume, e disse: vamos resolver isso.

A solução eu já trouxe. Está neste decreto, que me delega poderes para assinar tudo e me autoriza a delegar poderes dentro da Secretaria. Assinou na hora, e daí em diante, ele nunca mais assinou um papel, e eu nunca mas assinei um que não fosse realmente importante. Agilizamos nossa atividade, o que sem duvida contribuiu para uma boa administração.

“Meu livro”. Por Dalton Mello de Andrade

 

                O lançamento do “Meu olhar sobre a Vida” me trouxe muita alegria e muitas recordações. Agradeço a todos que prestigiaram a minha noite e que muito contribuíram para todo esse momento.

                A primeira recordação foi para o meu tempo de menino, estudando no Colégio Pedro Segundo. É que minha letra nos autógrafos estava péssima, e deve ter dificultado muito a leitura. Idade, com emoção, pioraram ainda mais letras que já não são boas. Lembrei-me das lições de Caligrafia. Havia um caderno especial, com um exemplo das letras no topo, e que você tinha que reproduzir, numa espécie de pauta, para as maiúsculas e minúsculas. Esse exercício deve ter contribuído para que ainda seja possível ler o que escrevo.

                A outra lembrança foi a presença de colaboradores meus na Secretaria de Educação, Governo Corte Pereira. Quarenta anos depois, ainda encontro pessoas ligadas à educação, que recordam minha administração como das melhores. Mas, enfatizo, devo esse sucesso aos meus colaboradores, que escolhi sem interferência política ou do Governador, o que me deu ampla liberdade. E fiz essa escolha de forma sui-generes. O primeiro, escolhi só; mas do segundo em diante escolhi num consenso dos que já faziam parte da equipe. Isso nos deu uma unidade de trabalho que contribuiu muito para o nosso sucesso.

                A presença desses meus amigos e colaboradores me trouxe a lembrança meu curso de Mestrado nos EUA. Esse curso me ajudou, e muito, nas tarefas em que me envolvi. E a melhor lição aprendi no primeiro dia de aula, na apresentação do curso, quando o Diretor da Escola foi nos dar as boas vindas. Começou dizendo: “Quem veio aqui pensando em fazer coisas, está no lugar errado, vá para o curso de Engenharia; os que estão aqui para aprender a mandar, estão no lugar certo. É isso que vocês aprenderão aqui”.

                Usei essa lição por onde andei. Ao lado disso, também aprendi nesse curso a simplificação de processos e eliminação de burocracia. Que na Secretaria era enorme. O Secretario tinha que autorizar, ele mesmo, as coisas mais simples. E, algumas, ainda precisavam da assinatura do próprio Governador. Uma burocracia maluca, que tratei de eliminar, e consegui, em sua maior parte.

                Lembro-me que, na primeira semana, havia uma enorme quantidade de processos que precisavam da assinatura do Governador. Conhecendo Cortez, preparei um decreto me delegando poderes para tudo aquilo e me permitindo delegar poderes internamente. Enchi uma caminhonete com os processos e parei em frente ao Palácio Potengi. Subi, chamei Cortez, mostrei a ele a quantidade de processos para ele assinar, devido a burocracia idiota. Riu muito, como era seu costume, e disse: vamos resolver isso.

                A solução eu já trouxe. Está neste decreto, que me delega poderes para assinar tudo e me autoriza a delegar poderes dentro da Secretaria. Assinou na hora, e daí em diante, ele nunca mais assinou um papel, e eu nunca mas assinei um que não fosse realmente importante. Agilizamos nossa atividade, o que sem duvida contribuiu para uma boa administração.

 

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Meu amigo Laélio Ferreira me pede para contar uma estória que se atribui à Pelúsio com Dom Eugênio. A presença de Dom Eugênio é uma invenção. Mas a estória não, e vale ser contada.

Um dia, boca da noite, para um carro em frente a casa de Pelúsio e o motorista vem falar com ele. Dr. Pelúsio, Dom Eugênio está convidando o senhor para acompanha-lo numa visita a um doente terminal, ao qual talvez tenha que dar extrema unção, mas gostaria de sua presença. Pelúsio não se fez de rogado; botou a gravata e o paletó e saiu (sempre usava gravata e paletó). A mulher dele, que procurava controlá-lo, observando tudo. Muito religiosa, até ficou feliz com o prestígio do marido. Na volta, coisa das dez horas, Pelúsio salta do carro e diz, em tom um tanto alto: boa noite, Dom Eugênio, estou sempre ao seu dispor. Sabia que a mulher, sempre desconfiada, estava olhando e escutando pelas frestas da janela.

Daí por diante, de vez em quando, esse carro preto parava em frente a casa de Pelúsio, boca da noite, e com a mesma estória. Ele saía e voltava sempre em redor das dez. Não era D. Eugênio coisa nenhuma. Era Manoel Henriques, motorista da praça da Rio Branco, cujo carro de aluguel (taxi surgiu aqui muito depois, era carro de aluguel) era igual ao de Dom Eugênio. Fazia essas escapadas com parcimônia, e a mulher nunca desconfiou.

Aproveito o “momentum” para contar outra estória envolvendo a mulher dele, Nair. Estavam sem empregada e faziam as refeições em Nemésio. Foram atravessar a Rio Branco, e vinha um carro em disparada, do Baldo. Pelúsio segurou o braço de Nair: não vai dar tempo. Ela, sempre voluntariosa, soltou-se e começou a atravessar a rua. Foi atropelada. O motorista parou para prestar socorro (coisa rara hoje em dia) e Pelúsio pediu que os levassem para a Policlínica do Alecrim. O motorista, muito nervoso, perguntou, e agora, doutor? Não se preocupe, você não tem culpa; avisei que não ia dar tempo, mas ela insistiu. Fique tranquilo. O rapaz, aliviado, entregou-lhe o cartão e disse: se precisar de algo, é só telefonar. O acidente não foi muito grave e Nair recuperou-se rapidamente. Um dia, ela ainda no hospital, ele foi almoçar em casa de meus pais. Minha mãe perguntou como estava Nair e ele respondeu: bem, deve ter alta este fim de semana. Eu é que estou muito preocupado. Por que?  Você sabe como ela é braba e agora, que tomou transfusão de sangue de soldado, deve ficar uma fera. Tínhamos um parente que era oficial no 16º R.I. e conseguiu uns soldados para uma transfusão. Mamãe reagiu, você não tem jeito.

E tem a das bandeiras. Campanha de Dinarte e Aluízio, a cidade cheia de bandeiras verdes e vermelhas. A rua de Pelúsio, a Apodi, praticamente com todas as casas embandeiradas. Menos a dele. Um vizinho amigo o procurou. Dr. Pelúsio, a única casa que não tem bandeira na nossa rua é a do senhor. Meu caro, não esqueça, eu já sou casado com uma Bandeira. Acha pouco?

“Pelúsio, de novo”. Por Dalton Mello de Andrade

 

                Meu amigo Laélio Ferreira me pede para contar uma estória que se atribui à Pelúsio com Dom Eugênio. A presença de Dom Eugênio é uma invenção. Mas a estória não, e vale ser contada.

Um dia, boca da noite, para um carro em frente a casa de Pelúsio e o motorista vem falar com ele. Dr. Pelúsio, Dom Eugênio está convidando o senhor para acompanha-lo numa visita a um doente terminal, ao qual talvez tenha que dar extrema unção, mas gostaria de sua presença. Pelúsio não se fez de rogado; botou a gravata e o paletó e saiu (sempre usava gravata e paletó). A mulher dele, que procurava controlá-lo, observando tudo. Muito religiosa, até ficou feliz com o prestígio do marido. Na volta, coisa das dez horas, Pelúsio salta do carro e diz, em tom um tanto alto: boa noite, Dom Eugênio, estou sempre ao seu dispor. Sabia que a mulher, sempre desconfiada, estava olhando e escutando pelas frestas da janela.

Daí por diante, de vez em quando, esse carro preto parava em frente a casa de Pelúsio, boca da noite, e com a mesma estória. Ele saía e voltava sempre em redor das dez. Não era D. Eugênio coisa nenhuma. Era Manoel Henriques, motorista da praça da Rio Branco, cujo carro de aluguel (taxi surgiu aqui muito depois, era carro de aluguel) era igual ao de Dom Eugênio. Fazia essas escapadas com parcimônia, e a mulher nunca desconfiou.

Aproveito o “momentum” para contar outra estória envolvendo a mulher dele, Nair. Estavam sem empregada e faziam as refeições em Nemésio. Foram atravessar a Rio Branco, e vinha um carro em disparada, do Baldo. Pelúsio segurou o braço de Nair: não vai dar tempo. Ela, sempre voluntariosa, soltou-se e começou a atravessar a rua. Foi atropelada. O motorista parou para prestar socorro (coisa rara hoje em dia) e Pelúsio pediu que os levassem para a Policlínica do Alecrim. O motorista, muito nervoso, perguntou, e agora, doutor? Não se preocupe, você não tem culpa; avisei que não ia dar tempo, mas ela insistiu. Fique tranquilo. O rapaz, aliviado, entregou-lhe o cartão e disse: se precisar de algo, é só telefonar. O acidente não foi muito grave e Nair recuperou-se rapidamente. Um dia, ela ainda no hospital, ele foi almoçar em casa de meus pais. Minha mãe perguntou como estava Nair e ele respondeu: bem, deve ter alta este fim de semana. Eu é que estou muito preocupado. Por que?  Você sabe como ela é braba e agora, que tomou transfusão de sangue de soldado, deve ficar uma fera. Tínhamos um parente que era oficial no 16º R.I. e conseguiu uns soldados para uma transfusão. Mamãe reagiu, você não tem jeito.

E tem a das bandeiras. Campanha de Dinarte e Aluízio, a cidade cheia de bandeiras verdes e vermelhas. A rua de Pelúsio, a Apodi, praticamente com todas as casas embandeiradas. Menos a dele. Um vizinho amigo o procurou. Dr. Pelúsio, a única casa que não tem bandeira na nossa rua é a do senhor. Meu caro, não esqueça, eu já sou casado com uma Bandeira. Acha pouco?

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    Com essa decisão esdruxula do Reino Unido, intitulado de “Brexit”, em que votaram para se separar da Europa, fiquei tão assombrado que resolvi evocar uma alma para ver se encontrava uma explicação. E só uma teria condições de responder as minhas dúvidas. O velho Churchill.


    Achei que ele não iria me atender. Afinal, não o conhecia pessoalmente, nunca conversamos, nunca tivemos qualquer ligação. Foi um cara importantíssimo durante a II Guerra, sempre super ocupado, e não tinha tempo para conversar com um menino, o que eu era naquela época. E eu não era idiota em procura-lo. Ele estava lá, no Reino Unido, tentando enfrentar a sanha nazista, no começo só, depois ajudado pelos americanos, imprescindíveis na vitória final. Eu, aqui em Natal, acompanhando os acontecimentos, pelo rádio, jornais e revistas, e pela presença dos americanos por aqui. Mas, com essa decisão, para mim sem nexo, arrisquei incomodá-lo.


    Para minha surpresa, agradável surpresa não fossem as circunstâncias, concordou em conversar comigo. A primeira pergunta que fiz, óbvia, foi: como o senhor explica isso; é possível aceitar essa decisão?


    Meu filho, isso é uma loucura. Tenho observado você a algum tempo e vejo que leu meus livros. Leu pelo menos os principais. E você conhece minha opinião. Desde que terminou a guerra, me dediquei em tentar unir a Europa. Um dos meus primeiros discursos, na Suíça, poucos anos depois do fim da guerra, foi sugerindo a criação dos Estados Unidos da Europa, à semelhança dos EUA. Vi com alegria a aproximação da França e Alemanha, com o acordo do Carvão e do Aço, trabalho inteligente iniciado por Robert Schuman e Jean Monnet. Isso ocorreu em 1952 e partiu daí a formação do CEE (Comunidade Econômica Europeia) que evoluiu para o que temos hoje.


    Mas, confesso, isso não me surpreendeu muito. Se você fizer uma análise desapaixonada dos últimos anos do Reino Unido, e do resto da Europa, verá que o padrão dos governos caiu muito. Não gosto de dizer, pois parece que estou me promovendo. Mas, depois do meu governo, só recordo uma pessoa que bem dirigiu os destinos do país, a Primeira Ministra Margareth Thatcher. Os demais, antes e depois dela, diria eu, talvez exagerando, não tinham talento nem competência para a função. Talvez se possa incluir Tony Blair no rol dos aproveitáveis. E não vejo mais ninguém. Se exagero, que me perdoem. Mas, é o que sinto.


    E o futuro, perguntei? À Deus pertence, respondeu, mas isso não o preocupa. Estou aqui, perto dele, e ele anda muito ocupado com outros problemas, que para ele são mais sérios e urgentes, para dar muita bola para isso. Quer acabar com a fome, as guerras, o sofrimento de boa parte da humanidade. Isso lhe toma todo o tempo. Paciência. Sempre há esperança e vamos ver se a Europa e o Reino Unido se resolvem, de uma forma ou de outra. É o que desejo. E como você gosta de dizer, bola pra frente que o Real Madrid não é de nada, com o que concordo, pois torço pela Manchester United.

“Churchill”. Por Dalton Mello de Andrade

 

                Com essa decisão esdruxula do Reino Unido, intitulado de “Brexit”, em que votaram para se separar da Europa, fiquei tão assombrado que resolvi evocar uma alma para ver se encontrava uma explicação. E só uma teria condições de responder as minhas dúvidas. O velho Churchill.

                Achei que ele não iria me atender. Afinal, não o conhecia pessoalmente, nunca conversamos, nunca tivemos qualquer ligação. Foi um cara importantíssimo durante a II Guerra, sempre super ocupado, e não tinha tempo para conversar com um menino, o que eu era naquela época. E eu não era idiota em procura-lo. Ele estava lá, no Reino Unido, tentando enfrentar a sanha nazista, no começo só, depois ajudado pelos americanos, imprescindíveis na vitória final. Eu, aqui em Natal, acompanhando os acontecimentos, pelo rádio, jornais e revistas, e pela presença dos americanos por aqui. Mas, com essa decisão, para mim sem nexo, arrisquei incomodá-lo.

                Para minha surpresa, agradável surpresa não fossem as circunstâncias, concordou em conversar comigo. A primeira pergunta que fiz, óbvia, foi: como o senhor explica isso; é possível aceitar essa decisão?

                Meu filho, isso é uma loucura. Tenho observado você a algum tempo e vejo que leu meus livros. Leu pelo menos os principais. E você conhece minha opinião. Desde que terminou a guerra, me dediquei em tentar unir a Europa. Um dos meus primeiros discursos, na Suíça, poucos anos depois do fim da guerra, foi sugerindo a criação dos Estados Unidos da Europa, à semelhança dos EUA. Vi com alegria a aproximação da França e Alemanha, com o acordo do Carvão e do Aço, trabalho inteligente iniciado por Robert Schuman e Jean Monnet. Isso ocorreu em 1952 e partiu daí a formação do CEE (Comunidade Econômica Europeia) que evoluiu para o que temos hoje.

                Mas, confesso, isso não me surpreendeu muito. Se você fizer uma análise desapaixonada dos últimos anos do Reino Unido, e do resto da Europa, verá que o padrão dos governos caiu muito. Não gosto de dizer, pois parece que estou me promovendo. Mas, depois do meu governo, só recordo uma pessoa que bem dirigiu os destinos do país, a Primeira Ministra Margareth Thatcher. Os demais, antes e depois dela, diria eu, talvez exagerando, não tinham talento nem competência para a função. Talvez se possa incluir Tony Blair no rol dos aproveitáveis. E não vejo mais ninguém. Se exagero, que me perdoem. Mas, é o que sinto.

                E o futuro, perguntei? À Deus pertence, respondeu, mas isso não o preocupa. Estou aqui, perto dele, e ele anda muito ocupado com outros problemas, que para ele são mais sérios e urgentes, para dar muita bola para isso. Quer acabar com a fome, as guerras, o sofrimento de boa parte da humanidade. Isso lhe toma todo o tempo. Paciência. Sempre há esperança e vamos ver se a Europa e o Reino Unido se resolvem, de uma forma ou de outra. É o que desejo. E como você gosta de dizer, bola pra frente que o Real Madrid não é de nada, com o que concordo, pois torço pela Manchester United.

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O meu bureau nunca teve um pedaço de papel solto em cima dele. Outros acumulam tanto papel, que você não vê nem a mesa. Questão de estilo. Sempre fui assim. Poderia até não ser eficiente, mas quem via minha mesa achava que eu era o tal.

Por todos os lugares que andei era assim. O último foi na UFRN. Quando assumi a função de Pró-Reitor encontrei uma quantidade de processos em andamento. Dei prosseguimento àqueles que julguei necessários. Nesse meio, encontrei uma penca de processos para contrato de professores visitantes, muitos estrangeiros. Estava na moda. Como não julguei que houvesse pressa, os guardei na pasta “assuntos que o tempo resolverá”. E fiquei esperando que os proponentes viessem reclamar a demora. Estive por lá dez anos e nunca apareceu alguém com essa reivindicação.  Tinha mais duas pastas: uma para assuntos resolvidos, outra para assuntos que dependem de um pouco de tempo para resolver e essa, para “assuntos que o tempo resolverá”. Não é invenção minha. Aprendi com um amigo, que garantiu sua utilidade. E que confirmei.

Havia uma quantidade de professores visitantes. Alguns muito contribuíram para a UFRN. Outros, nem tanto. Havia um alemão, na área de engenharia mecânica, que inventou uma máquina que, ao final, parecia um fogareiro daqueles que você comprava na feira do Alecrim por um vintém furado. A mulher jogava tênis, e bem. Quando terminou o contrato e ele foi embora, não deixou saudades, mas os companheiros de tênis dela sentiram sua ausência.

João Rodrigues, da Livraria Internacional, era meu amigo. Aparecia por lá no final do dia, para bater um papo, ver se havia algum livro novo. Ele sempre estava atarefado, e o seu bureau sempre cheio de papéis. Certo dia, o encontrei esbaforido, revirando os papéis que estavam em cima da mesa e perguntei: Perdeu algum documento, o que está procurando? E ele: minha máquina de escrever, está perdida aqui no meio desses papeis. Continuou procurando e achou a máquina. Uma dessas Olivetti pequenas que acho se chamava “Lettera”.

Uma outra estória muito boa aconteceu no Pentágono. Um capitão da Marinha vivia assoberbado, mesa cheia de papeis, e tinha que chegar muito cedo e sempre saía mais tarde que os outros. O vizinho de mesa chegava na hora, saía na hora, e não tinha uma só folha de papel no bureau. Um dia, não resistiu e perguntou o que ele fazia para ser tão eficiente. Respondeu; muito simples; não há uma base que não tenha um Capitão Smith. O que chega na minha mesa, eu despacho: ao Capitão Smith. E o outro, eu sou o Capitão Smith!

É tudo uma questão de eficiência, coisa cada vez mais rara.

Natal, antes e durante a II Guerra, quase até o seu final, só tinha comunicações com o resto do país por meio de cabotagem. Cabotagem, para quem não se lembra, é a ligação feita por navios entre portos nacionais.
 
Naquele tempo, o porto de Natal sempre tinha dois, três navios ancorados e havia uma escala normal. Os navios de passageiros, os famosos Itas da Costeira e os Lloyds, faziam escalas anunciadas, com datas que eram antecipadas e cumpridas, e permitiam que você se programasse. A partir de 1944/1945, caminhões começaram a fazer a ligação de Natal com o Sul. E as mercadorias, que vinham de navio, passaram a ser transportadas por via terrestre, mais baratas e eficientes. A ameaça dos submarinos, que afundaram navios brasileiros, teve forte influencia nessa modificação. Depois da guerra ainda continuaram por algum tempo.
Fiz algumas viagens de navio, a primeira delas de Natal à Recife, num Ita. Depois fui para o Rio (1949) e, quando estudava em Maceió, fiz muitas viagens para lá. Era a forma mais fácil, rápida, confortável e econômica de viajar. Depois surgiram os aviões em maior quantidade e a preços razoáveis.
 
Para ir à Recife, que era mais difícil do que ir à Europa hoje (e era), se tinha três opções: navio, trem e ônibus. A mais rápida e confortável era de navio. Você saía daqui ao anoitecer e amanhecia em Recife. De trem, saía as cinco da manhã e, se estivesse dentro do horário (e nunca estava), você chegava as nove da noite. E ônibus, sem estradas que prestassem, dependia da sorte. A mais famosa viagem terrestre era pela “marineta de Chaveta” (uma espécie de van), que poderia levara de 12 a 24 horas, dependendo e chovia ou não.
 
Fiz essa viagem por todos esses meios. Lembro-me da minha primeira viagem à Recife, de trem, que milagrosamente chegou no horário. Fui com meu pai e minha mãe assistir a formatura de meus tios Protásio e Pelúsio, em 1936. Recordo a macarronada que comemos no vagão restaurante, com queijo do reino ralado e um pãozinho quente com mantegia; nunca esqueci. Fui de navio algumas vezes, a viagem mais confortável e com chegada prevista e obedecida. E fui algumas vezes na marineta de Chaveta. Numa dessas viagens, chovendo, estradas enlameadas e escorregadias, rio Mamanguape cheio que não permitia sua travessia (não existia ponte), fomos por Sapé, o que aumentava as horas de viagem. Levamos umas 12 horas.

O “Rio das Antas” foi um dos últimos navios cargueiros de cabotagem com destino à Natal. Vinha de Porto Alegre, com escala em Santos e no Rio. Muitos comerciantes de Natal tinham mercadorias para receber por esse barco. Nosso escritório de representações tinha vários conhecimentos de mercadorias embarcadas nesse navio (conhecimento era o documento que confirmava o embarque da mercadoria e permitia sua retirada do porto).
 
Esse navio praticamente desapareceu. A última notícia que se teve dele foi a internação em Ilhéus, que não estava em sua rota e onde parou para reparos. Daí em diante, nunca mais houve notícias da continuação de sua viagem e nunca chegou aqui. E virou motivo de piada. Quando você procurava uma mercadoria qualquer e não encontrava, surgia a pergunta: vinha no “Rio das Antas”?
 
Pode-se afirmar, sem dúvidas, que esse navio marcou a vitória dos caminhões sobre os navios, no transporte de mercadorias do Sul para cá. Frete mais barato, entrega de porta a porta, recebimento de indenizações por danos, imediata (era descontado do frete a ser pago) e cada vez mais rápido e seguro, à medida que melhoravam as estradas.

Uma das figuras mais folclóricas da Ribeira, sem dúvidas, foi Zé Areia. Já falei sobre ele numa destas crônicas, mas lembrei-me de algumas estórias que não posso deixar de passar adiante. Zé Areia vivia do que, naquele tempo, se chamava de “expedientes”. Vendia bilhetes de loteria, fazia rifas, pedia “empréstimos”, e conseguia viver e sobreviver.

Vinha ele puxando um carneiro. Vendia a rifa do animal. Passou em frente à alfaiataria de “seu” Bevenuto, esquina da Dr. Barata com uma daquelas travessas que terminam na Rua Chile. Na porta, Dão, filho do dono, que foi um grande jogador do Santa Cruz. Areia lhe oferece uma rifa do carneiro e recebe como resposta “quero lá rifa desse carneiro, que parece ser veado”. Zé nada disse e continuou no seu “trabalho”. Na volta, ainda na porta da alfaiataria, Dão pergunta: como é nome desse carneiro fresco? Resposta, na bucha: Bevenuto.

Na esquina da Tavares de Lyra com a Dr. Barata, para um papo matinal, se reuniam alguns comerciantes do bairro; Júlio César, José Tinoco, Henrique Santana. Raul Ramalho, João Rodrigues...

Chega Zé Areia, com a rifa de uma sela. Sabendo que José Tinoco era fazendeiro, oferece a rifa a ele. Tinoco responde, para que diabo eu quero sela, se não sou cavalo? E ele, de imediato: também serve pra burro.

Doutra feita, encontra José Tinoco na rua e pede um “empréstimo”. Tinoco pergunta se ele quer um trabalho. Confirma que sim, entusiasmado. Então passe no meu escritório, daqui a uma hora, que tenho um trabalho para você e que você vai gostar. Na hora aprazada, chega Zé Areia e Tinoco diz: tome essas duplicatas e vá cobrar. Você tem metade do que receber.

Sai com as duplicatas e não deu mais notícias. José Tinoco, dias depois, o encontra na Tavares de Lyra e pergunta: como vão as cobranças? Respostas: os meus 50% já recebi e agora estou batalhando para receber os seus. Pano rápido.

Lembrei-me da música que identificava o grupo de Zé Menininho: Caixão de Gás. Mas a estória de hoje é outra. De uma figura que foi folclórica na Ribeira, mas também em toda a cidade.

Dias atrás, Woden Madruga lembrou-se dele e comentou algumas de suas estórias: Luiz Tavares. Era amigo dos meus tios Protásio e Veríssimo (Vivi), e o conheci através deles. Embora houvesse uma razoável diferença de idade, fizemos uma boa amizade. Também sempre o encontrava na casa de Odilon Garcia, que costumava reunir os amigos em sua casa, nas sextas, e Luiz era sempre uma presença agradável. Tinha uma boa voz, tocava violão, e sabia, como amigo que era de Silvio Caldas, todas as suas músicas. E tinha um papo ótimo.

Vou contar apenas duas estórias. Uma acontecida comigo há mais de quarenta anos, e a outra ainda mais antiga.

Luiz era figura sempre presente nos cabarés da Ribeiras. Quando chegava, dominava o ambiente, pelo seu físico, sua verve e seu vozeirão. Chegou na Pensão Estrela, que ficava na Almino Afonso, e encontrou dois sujeitos, já embriagados, fazendo barulho e estripulias. Quando terminavam uma cerveja, jogavam a garrafa no chão, que se espatifava e sujava tudo. Sentou-se numa mesa perto e começou a ficar com raiva das figuras, dois marmanjos com cara de marinheiro, provavelmente de algum navio que estava no porto. Naquele tempo, chegavam por aqui muitos navios.

Às tantas, não teve dúvidas. Chamou o garçom, pediu uma vassoura e uma lixeira. Foi até a mesa das figuras, pegou cada um pela camisa, levantou-os da mesa e disse: vão varrer a sujeira que vocês fizeram, agora. Depois, paguem a conta e saiam. Os caras, espantados, vendo o físico e a força de Luiz, pegaram a vassoura e limparam tudo. Pagaram a conta e foram embora.

A outra foi comigo. Era Secretário de Educação de Cortez Pereira. Função complicada, trabalhosa, não tinha um minuto em que não fosse procurado por alguém. Por isso, como não tinha tempo de resolver as coisas durante o expediente normal, ficava até oito, nove da noite. Comigo, ficava Laércio Segundo, Chefe de Gabinete e grande figura, que muito me ajudou.

Um dia, me disse: está chegando de Caicó, um ex-padre, Celestino, que poderia nos dar uma grande ajuda, atendendo as pessoas que lhe procuram e encaminhando para o senhor somente as que realmente têm assuntos importantes. Com a experiência do confessionário, resolve ou encaminha para onde for, as demais.

Funcionou, e me deu um alívio danado. Um dia, Celestino entra apressado na minha sala. Professor, tem um cara grandão aí fora, que se diz seu amigo e quer falar com o senhor urgente. O nome dele é Luiz Tavares. De Caicó, não conhecia a figura. É meu amigo, mande ele entrar.

Entrou e foi logo dizendo: só você pode evitar que me torne um assassino; estou sendo perseguido na Fazenda e quero sair de lá, antes que mate algum dos meus desafetos. Você vem trabalhar comigo, na merenda escolar (o filho dele era o gerente do setor). Vou falar com Cortez e o Secretário agora e amanhã você já vem para cá. Falei com ambos, Cortez concordou na hora. Achando muita graça na estória. O Secretário também, um alívio para ele.

No outro dia, estava comigo e sempre que viajava para o interior, o levava para fiscalizar a merenda da escola visitada. Mas, muito mais pelo papo agradável e exagerado dele.

Meu amigo Aurino Araujo está escrevendo sobre a Ribeira, nas crônicas que publica na Tribuna do Norte, substituindo a sua tradicional coluna sobre o fusca.

Como ele, vivi na Ribeira da minha infância até 1964, estudando, Colégio Pedro II (depois Ginásio Ruy Barbosa), e trabalhando com meu pai. Conheço um pouco da história do bairro e conheci muitas das figuras interessantes que o povoavam. Principalmente as folclóricas.   

Delas, a mais conhecida e comentada era a de Zé Areia. Meu tio Veríssimo de Mello (Viví), escreveu um livreto sobre ele e suas estórias. Tinha aqui nos meus alfarrábios, procurei e não encontrei. Poucas páginas. (Alvamar dizia: Viví, seus livros não se põem de pé. Ao que ele respondia: Alvamar, você é escritor de um livro só). Vou contar três estórias de Zé Areia, todas com o Deputado Djalma Marinho, que acho era seu compadre.

Pediu cinquenta cruzeiros emprestados à Djalma. O tempo passou e não deu mais notícia. Djalma encontra com ele na Tavares de Lyra, e cobra: Zé, se lembra que me deve cinquenta? Lembro. O senhor tem cinquenta aí? Djalma puxa a carteira, certo de que ia receber cem; ele recebe os cinquentas e diz: Compadre, agora lhe devo.

Alugou uma casa e pediu a Djalma para ser seu avalista. Djalma concorda. Meses depois, o dono da casa encontra o Deputado e diz: doutor, o homem está com seis meses de atraso. Djalma: vou falar com ele. Encontra Zé Areia e diz: Zé, o dono da casa veio me cobrar o aluguel. O senhor pagou? Não. Doutor, lembre-se que o senhor é meu avalista.

A terceira. Djalma, que cortava o cabelo com ele, diz que vai à Roma e vai ver o Papa. Zé Areia pede. Doutor, traga uma benção do Papa para mim. Djalma concorda, mas esqueceu. Quando voltou, Zé cobrou. Trouxe a minha benção? Zé, confesso, não tive coragem de pedir. Quando eu fui entrando para cumprimenta-lo ele foi logo se antecipando e dizendo: Peregrino, Peregrino, quem foi o fdp que cortou o seu cabelo? Dessa vez, a última palavra foi mesmo de Djalma.



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