NATAL PRESS

Como me divirto. Dias atrás, chamei um querido amigo para almoçar. Respondeu agradecendo e dizendo que não poderia ir. Insisti e perguntei por quê. É que não conheço mais ninguém, disse, e não me sinto bem no meio de tantos desconhecidos. Mas, pior, acrescentou, é que ninguém me conhece. Uma verdade. No nosso tempo, conhecíamos todos e todos nos conheciam. Não me incomodo.

Aliás, me lembrei, estávamos jantando, com Alvamar Furtado, Odilon Garcia, Gilson Ramalho. Muita gente jovem chegando, que nenhum de nós conhecia. Comentei, devem ser filhos de amigos nossos. Alvamar, de pronto, não, netos.

Aproveito o não conhecer para ficar observando as pessoas. Almoçando, sábados ou domingos, mais especialmente sábados, observo o que ocorre ao redor. Primeiro, as vestimentas. Os homens, quase a totalidade, de bermudas e camisas por fora das calças, o que a gente chamava de “slacks”, no tempo da guerra. Um desses sábados, o único circunstante com calça comprida era eu. As mulheres, shorts, curtíssimos. Nas mais jovens, uma maravilha, nas mais idosas, para não ser um critico desumano, o conselho é mudar o olhar. Também há uma quantidade enorme de gente feia e mal enjorcada.

Depois, o comportamento à mesa. Alguns barulhentos, a maioria, outros, mais recatados. As crianças sem muita educação, correndo de lá para cá, daqui para lá. Os pais não estão nem aí. Se aquietam quando se agarram aos seus smartphones. Uma benção. O que hoje todo mundo tem. E aí, desligam-se. O que é natural, pois os pais e mães também os têm permanentemente em uso. Desligam-se do ambiente e de todos os presentes. E entre si.

A composição das mesas é sempre muito eclética. Há, no entanto, uma norma mais ou menos permanente. Famílias, a maioria, um cara mais velho, com filhos, netos. Cara de pagador da conta. Como eu. Mais jovens, muito parecidos e mais barulhentos, embora nem sempre, já se vê que vão dividir a conta. Há mesas só de homens, outras só de mulheres. Conta dividida, sem duvida. Falam alto, muito alto. Essa negocio de dividir a conta foi das melhores coisas que aprendemos com os americanos. Antigamente, era uma briga para ver quem ia pagar. Todos queriam pagar. Pelo menos aparentemente.

As bebidas variam muito. Ultimamente, tenho notado, há sempre alguém que só bebe coca-cola ou um suco. Deve estar dirigindo o carro. Todo mundo tem carro, o que é ótimo. Os demais, uns poucos, tomando cerveja. A maioria, vinho, que surgiu como a bebida preferida. Os mais jovens, coca-cola. Interessante, raro alguém tomando guaraná. De aperitivo, de longe, a caipirinha reina, até onde vejo. Há os mais velhos, como eu, tomando um whisky. Aviso: um neto dirige o carro, e só toma coca. 

O tempo passa, me divirto, e pago a conta com satisfação. Contei tudo isso ao meu amigo, mas não mudou de idéia. É renitente, e teimoso. Complexo de velho. Que eu felizmente ainda não tenho. E esforço-me para não ter.



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