NATAL PRESS

Pleonasmo? Sei lá! Talvez seja. Mas dá o que eu quero, ênfase. E voltar ao passado é o que vou fazer. É que o meu carro amanheceu com o pneu baixo. Chato, trabalhoso, perda de tempo. Paciência.

Mas, aí, voltei ao passado. Lembrei-me do carro de meu pai. Ele deve ter comprado o seu primeiro quando eu tinha uns 8, 9 anos, pois me lembro indo para o Colégio Pedro Segundo de carro, mais ou menos com essa idade. Se não me engano e a memória não me falha, era um Chevrolet 1937, quatro portas. Pesadão, lataria maciça, azul marinho, confortável. Mas os pneus viviam furando, um trabalhão.

Quando acontecia isso, tinha que mudar para o estepe, indispensável, e levar o furado ao borracheiro. Eu gostava de assistir o processo. Tirar o pneu do aro, tirar a câmara de ar de dentro do pneu, encher, procurar o furo numa bacia cheia d’água (existia água naquele tempo) identificar o buraco, botar numa prensa, lixar a câmara no local do buraco, recauchutar com um remendo, botar para esquentar durante um certo tempo, repetir a operação da bacia com água, colocar a câmara de volta no pneu, colocar no aro, encher, medir a pressão, agora com o pneu montado, tirar o estepe e colocar o recauchutado. Um trabalhão.

E o carro todo dia tinha um problema qualquer. Não pegava, a bateria arriava, precisava ser empurrado, ia para a oficina – meu pai tinha um mecânico quase que permanente – entupia o carburador, vazava corrente pelo distribuidor, um Deus nos acuda. Mas, para os usuários, era o máximo.

Nessa época, nós morávamos na Rua Traíri. Em frente ao palacete de Dr. Juvenal Lamartine. Na época, residência dos pilotos da Air France. De lá até o colégio era uma distancia, naquele tempo, enorme. Uns quinze minutos à pé. Talvez mais. De carro, tranqüilo. Íamos, o que, seis e meia, sete já começavam as aulas. Tínhamos que chegar antes das sete, para cantar o Hino Nacional e o hasteamento da bandeira. Algumas vezes cantávamos o Hino à Bandeira; ou da Independência. Cerimônia que se repetia todos os dias. Depois, aulas até às onze, sem faltar uma sequer. Coisa de país sério. No intervalo, de uns quinze minutos, entre as 9 e as 10, hora do lanche, que a gente levava de casa. Pão e ovo, ou queijo, uma garrafinha com refresco, um copo de alumínio que fechava e ficava achatado, para colocar na bolsa. Matava a fome.

Quando, por algum motivo, ficávamos sem carro, era um sofrimento só. Mal acostumados, como se dizia. Eu era dos que mais reclamava, pois sempre fui comodista. E, por isso, levava umas broncas. E, às vezes, ficava de castigo. E tinha que ir à pé, para aprender. E aprendi. Hoje, um castigo desses deixa você traumatizado e cheio de chiliques e tiques nervosos. Não tenho nenhum. Ficou só a lembrança, ótima lembrança.
Levei o meu carro – o pneu não esvaziou de todo – ao borracheiro. Levanta a roda com um macaco, identifica o buraco, arranca o prego, coloca uma mecha e pronto. Assunto resolvido em poucos minutos. Novos tempos.



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