NATAL PRESS

Dias passados, escrevi sobre meu avô, “seu” Mello, como era chamado e conhecido por todos. Lembrança trás lembrança, e me veio à mente a Escola de Música de Natal, que ficava na esquina da Vigário Bartolomeu com a Praça João Maria, onde hoje se encontra o Banco do Nordeste. A casa de meu avô ficava onde é o estacionamento.

Natal sempre foi uma cidade musical. Uma vez, conversando com Odilon Garcia, que morou em frente à casa de meu avô, contamos cerca de vinte pianos, no trecho da Bartolomeu entre a Praça João Maria e a Ulisses Caldas. Na casa de meu avô tinha um piano, na casa de Odilon também.

Para mim, o piano era uma atração e eu vivia mexendo no teclado. Devem ter deduzido que eu era um “virtuose” e minha mãe me matriculou na vizinha Escola de Música. Eu adorava, pois era uma desculpa para ir para a casa de meus avós. Minha professora era Dulce Wanderley, uma das melhores de Natal. Ela era paciente. E eu um péssimo aluno. Terminei deixando o curso, com uns seis meses de aulas. Gostava de música, mas as lições me entediavam.

Depois, tentei aprender violão. Já por decisão própria. O professor Siqueira, outro ótimo professor, tinha um curso na sede da Cruz Vermelha, na Rio Branco, vizinho ao Cinema Rex. Comecei o curso, e tive a agradável surpresa de ter como colega Antonio Pinto de Medeiros, meu professor no Atheneu, e que se tornara meu amigo. Siqueira ensinava violão clássico, por música, como deve ser, o que cansava. Um dia, Antonio Pinto me diz: “Pensei que ia aprender violão para tomar uma e cantar serenata. Esse estilo não dá e vou deixar o curso”. Sua influência era grande, e deixei o curso junto com ele.

Mas o meu entusiasmo pela música, mesmo com todos esses entreveros, aumentava. Quando fui morar em Washington, encontrei os órgãos eletrônicos no auge. Os via nas lojas e os ficava admirando. Os acompanhamentos, as demonstrações dos vendedores, a facilidade que pregavam e de que você os tocaria facilmente, terminaram me convencendo a comprar um. Comprei, e realmente comecei a tocar e fui me “desenrolando”. Nunca cheguei a ser um “expert”, mas quebrava o galho. Sem nenhum estudo formal. Autodidata. O trouxe comigo para cá, e alimentei com ele todos os cupins da cidade. Mas não desisti, comprei outro e continuo tendo um. Teclados com ritmos sensacionais e uma ruma de instrumentos diferentes. E “herdei” o piano de meu sogro, que era um exímio pianista, de escola, e que gostava de tocar ao anoitecer, na penumbra, especialmente sua favorita, “Sonata ao Luar”. E que por isso ganhou dos filhos, não românticos, o apelido de “Fantasma da Ópera”.

Mas meu desejo de estudar música não diminuiu. Tentei a internet e fiz vários cursos de apreciação musical. Adorei. E aí fiz alguns de teoria musical, que também gostei. Em Universidades americanas. O último foi na de Yale. Um curso chamado “Listening to Music”, com um professor fantástico chamado Craig Wright e que, para dar a aula sobre canto gregoriano, apareceu vestido como monge. Comprei o livro dele, usado no curso; um show. E isso só aumentou minha vontade de estudar mais. Aí, entra a Escola de Música da UFRN.

Ofereceram um curso para iniciantes. E me matriculei. Fiz o primeiro módulo e comecei o segundo. Estou achando ótimo. A professora é excelente. E, tenho que confessar, duas coisas me divertem, coisas que não acontecem na internet. Conversar com a professora, tirar minhas dúvidas na hora, e cumprimentá-la. E a cara das pessoas com quem eu comento que estou fazendo o curso. Leio nos olhos deles o que estão pensando.

Uns, parecem dizer, “esse velho está caducando paca”; e balbuciam, “parabéns”. Outros, os olhos dizem “velhinho corajoso, mas não vai mais aprender nada”. E repetem o parabéns, acrescentado “cara , você é corajoso, sucesso”. Mas há os que olham para você, e os olhos dizem “puxa vida, na sua idade, uma grande sacada; forma de mostrar que está vivo e confiante na vida. Quisera eu ter sua coragem”. E dão parabéns que soam sinceros.

E eu encerro a conversa dizendo: “como você sabe, para se fazer um curso de piano que se preze, você precisa de, pelo menos, vinte anos; a minha esperança é chegar lá”.



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