Três vezes por semana saio de casa cedo, para a academia do Incor. Ultimamente, tenho encontrado duas dificuldades que me levam a pensar duas vezes em continuar esse exercício. Primeiro, o trânsito. Por incrível que pareça, mesmo em redor das sete, a Prudente de Morais já está insuportável. Depois, local para estacionar. Já dei voltas e mais voltas ao quarteirão, para encontrar uma vaga. Vou continuar, claro, por motivo de saúde. E pelo atendimento que temos por lá, excelente.

Tudo isso me faz lembrar como era o trânsito quando comecei a dirigir. Tirei minha carteira de “chofer”, como se dizia então, aos 18 anos. Mas, já dirigia desde os 15 – 1945. Natal tinha uma modesta penca de carros, entre os quais o de meu pai. Havíamos acabado de atravessar o racionamento imposto pela II Guerra, pois não havia gasolina para carros particulares. Meu pai, que havia comprado um Ford 1940 logo no início daquele ano, o colocou na garagem, em cima de cavaletes, até o final da guerra e do racionamento. Aliás, que eu saiba, Natal é a única cidade brasileira onde se usam termos como antes, durante e depois da guerra, em conversas sobre aquele tempo.
Óbvio que não advogo, nem comparo, o hoje com o ontem. Sem dúvida, concordo integralmente com o hoje. Em que uma grande maioria tem meios de possuir um automóvel. Acho isso ótimo.

Com o que não concordo é com a completa e total desorganização do setor. Naquele tempo, com poucos carros, já havia uma preocupação com o trânsito. Sentia-se, nas ruas, a eficiência de uma organização incipiente, mas atuante. Hoje, a impressão que nos causa é de total desinteresse dos responsáveis pelo que ocorre.

Medidas simples, desde que efetivas e permanentes, facilitariam sobremodo o fluxo de veículos por nossas ruas. Nos cruzamentos, por exemplo, nas horas de pico, um guarda ajudaria sobremodo o movimento de carros. Desde que soubesse o que o que ia fazer. Desligaria as sinaleiras, os semáforos, como se diz hoje, e faria o controle manual. Sempre há uma rua com mais trânsito que outra, e a presença humana traria melhor resultado, permitindo maior fluxo do lado com mais movimento. Não só evitaria filas enormes, como impediria o fechamento do cruzamento, o que é corriqueiro, exatamente por falta de fiscalização.

Outra idéia, já discutida mas até agora não implementada, de uma faixa exclusiva para ônibus, e desde que fossem proibidos de deixá-las, pois habitualmente tomam toda a rua, seria outra solução viável. Outras idéias existem, mas não sou eu que vou expô-las. Experiências positivas em outras cidades podem ser copiadas. É só buscá-las.

Só mais um exemplo. Entrar a esquerda, com fechamento de vários cruzamentos e retornos, também tem aumentado o problema. Mais das vezes, o caminho se prolonga por muito mais tempo e com considerável aumento de consumo de combustível, pela distância que se tem de percorrer até encontrar um retorno. E os congestionamentos apenas mudam de lugar. Por que não mais sinais de três ou quatro tempos, que já existem em alguns lugares e funcionam muito bem?

Não, não pretendo ser diretor do Detran nem secretário da Prefeitura. Mas adoraria ver essas figuras se preocuparem mais com o trânsito de Natal, e menos com as multas que arrecadam.
E, palavra final, todos sabem que muitos dos nossos motoristas são mal educados, irresponsáveis, egoístas. São a causa maior de todos os problemas. Mas, reconheça-se, foram aprovados em exames feitos no Detran.


Dalton Melo de Andrade é professor universitário aposentado