Alguns podem pensar que estou me tornando chato, repetitivo. Talvez tenha isso um pouco de verdade. Mas, têm a opção de não me ler. Eu mesmo, muitas vezes, deixo de ler certos textos que me parecem muito compridos, prolixos, complicados. Tento evitar isso seguindo os conselhos de Churchill: das palavras, as mais simples; das frases, as mais curtas.

Inegável, há pessoas e fatos que marcam sua existência. E também inegável que, por isso mesmo, são sempre lembrados. São os ausentes presentes. E tive a felicidade de conviver, anos e anos, com pessoas inteligentes e originais, hoje ausentes, mas sempre presentes. Lembro-me delas todos os dias, pela sua originalidade, verve e inteligência.

A idéia desta crônica surgiu em conversa com meu filho, quando fomos receber os ingressos para os jogos da Copa. Que me fez voltar aos estádios depois de quarenta anos. Ele os comprou em Montreal, onde mora há mais de vinte anos, e fomos recebê-los aqui em Natal. Globalização. Tinha ido antes e a fila era tão grande que resolveu deixar para depois.

Domingo pela manhã fui com ele ao Shopping Cidade Jardim, pensando nas filas. Paramentei-me de idoso – boné e bengala -, desnecessariamente exagerando para mostrar a condição de idoso, tanto eu como ele rindo muito com a presepada. E isso lembrou-me um comentário de Alvamar Furtado.

Ele dizia: uma das coisas que mais identificavam um velho era o boné, o fundo das calças frouxo, a bengala, e o atravessar a rua com uma corridinha ridícula e passinhos curtos. Na minha indumentária, faltavam o fundo das calças e a corridinha. Alvamar, mais velho do que eu quinze anos, tinha uma cabeça e comportamento de fazer inveja a muitos jovens. E brincava com essa mania de todos, hoje em dia, de chamar todo mundo de idoso, só por ter 60 anos ou mais.

Embora essa mania se acentue cada vez mais, e isso é bom, é constante você encontrar pessoas que desrespeitam totalmente os idosos. Em qualquer estacionamento, você encontra carros ocupando os locais destinados à idosos e deficientes, outros desrespeitando as filas em bancos e outros locais. Normalmente, reajo a tais comportamentos, não especificamente por mim, mas na tentativa de dar um pouco de educação a quem não tem nenhuma. Muitas vezes, sob ameaça, que já tive de um jovem de seus vinte anos que ocupava uma vaga de deficiente. Perguntei qual a deficiência dele, fitou-me com uma cara de poucos amigos, não respondeu, e aí eu conclui: já sei, falta de educação. Ficou brabo, mas não me deu medo. (Havia um segurança bem perto e eu podia gritar).

A saudade dos ausentes é reduzida pela nossa lembrança, que os torna presentes. E como isso nos ajuda a viver!