NATAL PRESS

Desde pequenininho, e isso já faz algum tempo, sempre gostei de línguas. Logo cedo, tinha aí uns dez anos, estudei francês com meu tio-avô, Mons. Calazans Pinheiro. Cheguei a escrever razoavelmente e me comunicar com certa facilidade em francês. Veio a II Guerra, Natal invadida pelos americanos. Influenciado por meu tio Protásio Mello, e pelos tempos, comecei a aprender inglês, que se tornou, ao final, uma segunda língua. No Atheneu de então, estudei inglês com Celestino Pimentel, francês com Esmeraldo Siqueira e espanhol com Paulo Gomes da Costa.

Por curiosidade, estudei alemão por conta própria, e com o meu amigo Getúlio Sales, russo. Não preciso dizer que o meu alemão e o meu russo inexistem, hoje. Mas, minha curiosidade pelo assunto e suas conseqüências, que é conhecer países e culturas diferentes, permanece. Por isso, gosto muito dos artigos desse menino de Aécio, Marco Emerenciano. “Desse menino” não é condescendência; é admiração, pelo filho e pelo pai. E pela juventude do escritor. Escreve sobre coisas gostosas; traz lembranças interessantes e comenta fatos curiosos e agradáveis. Muito bons, seus artigos. Não o conheço pessoalmente, embora seja amigo e contemporâneo de seu pai. Está no meu programa conhecê-lo qualquer hora dessas. Lendo seus artigos, e especialmente o que fala sobre as diferentes línguas e dialetos na Espanha, recém publicado, lembrei-me de algumas histórias parecidas.

Para começar, o espanhol não existe. O que a gente chama de espanhol, hoje a segunda língua mais falada no mundo, é na realidade o castelhano, que é a língua da região de Castela. Na Espanha, existem línguas e dialetos, como bem diz Marco. Das línguas, além do espanhol de Castela, as mais conhecidas, para mim, são o catalão, falado na região de Barcelona, e o galego, muito parecido com o português, e falado na Galícia. Têm ainda o Basco, difícil paca e que poucos, fora da região, entendem. O espanhol, como unidade lingüística, foi imposição de Franco. Foi ele desaparecer, e as outras línguas ressurgiram.

Essa história de falar outras línguas é muito interessante. Para começar, lhe dá oportunidades culturais imensas. As portas de uma literatura mundial se abrem, especialmente em inglês, onde se publica tudo. O espanhol não fica muito atrás. E lhe permite contato com a humanidade. Para quem usa a internet, inglês é indispensável. Por outro lado, de vez em quando, há decepções, principalmente ao iniciante. Se não for perseverante, pode até desistir.

Comigo, ocorreram alguns fatos divertidos, e me lembro de alguns, entre tantos que esqueci. No comecinho do meu aprendizado de inglês, em plena guerra, entram uns americanos na loja de meu pai. Corri para atendê-los, certo dos meus conhecimentos lingüísticos e ansioso para treiná-los. Depois de um vai p’ra lá, vem p’ra cá, um deles diz: por favor, veja se tem alguém que fale inglês. Quase o mato, da raiva. No final, nos entendemos.

A outra já foi no meu tempo de OEA. Reunião da Assembléia Geral em Montevidéu. Ano de 1976. O presidente do Uruguai, Aparício Méndez, me foi apresentado pelo embaixador uruguaio junto à OEA. O cumprimentei e tentei falar espanhol com ele. Gentil, dirigiu-se a mim com cordialidade e disse, num português impecável, sem sotaques: Meu filho, pode falar português, eu sou de Rivera.

Na OEA, no meu tempo, existiam quatro idiomas oficiais: inglês, português, espanhol e francês. Trabalhava comigo uma grande figura, colombiano, com o qual tinha a responsabilidade, muitas vezes, de escrever os “informes”, ou seja, os documentos finais resultantes das reuniões, em espanhol. E ele me dizia, Dalton, você escreve espanhol como se estivesse escrevendo em português. São os ossos do ofício.



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