Gosto muito da Argentina. Gosto de seu povo, de sua música, admiro seu futebol, seu vinho, e as belezas naturais do pais. Fazem mais de quarenta anos que vou por lá pelo menos duas vezes por ano.

Quando na OEA, fiz muitos e bons amigos argentinos. Um deles, Dr. Rodolfo Martinez, era Professor de Ciências Políticas da Universidade de Buenos Aires. Era, então, Secretário de Educação, Ciência e Cultura da organização, mesma área em que eu trabalhava. Tinha sido Ministro da Defesa no Governo Frondizi. Um dia, perguntei-lhe qual a explicação para a decadência da Argentina, então já evidente – quarenta anos atrás. Respondeu-me, com uma sinceridade comovente – não sei a explicação real, mas tudo começou com Perón.

Senti tudo isso desde minha primeira ida ao país. Foi no ano de 1974 ou 1975. A inflação estava nas alturas. Um par de sapatos de primeira qualidade custava meia dúzias de dólares. As diárias dos hotéis, uma mixaria. Uma situação alarmante. Depois dessa data, o pais vem vivendo uma montanha russa, piora, melhor, piora de novo. Num período, teve três ou quatro presidentes em tantos meses.

Hoje, com o governo atual, o país está vivendo um momento triste. Em 27/2, no “The New York Times”, Roger Cohen escreve sobre suas impressões em visita feita à Argentina naquela data. Abre o artigo contanto uma piada, um “bon mot”, como diz ele, de que o Brasil de hoje está se tornando a Argentina que, por sua vez, está se tornando a Venezuela e esta uma Zimbábue. Completa, isso é um exagero quanto ao Brasil e a Venezuela. Não sei não.

O artigo é longo e não vou repeti-lo aqui. Apenas resumo o pensamento externado. Em primeiro lugar, diz que tudo se deve à Perón. Afirma, o que não é novidade e todos sabemos, como a Argentina é um pais rico, já foi das maiores economias do mundo, teve renda per capita rivalizando com a americano e muitos países europeus. Tudo isso foi por água abaixo, com a política implantada pelos peronistas e exacerbada pelos governantes que o seguiram, inclusive os atuais.

Cita Javier Corrales, professor de Ciências Políticas da Universidade Amherst: “A Argentina é o único caso de um pais que completou sua transição para um pais subdesenvolvido”.

Comenta que a Argentina é um pais que nunca amadureceu, nunca assumiu suas responsabilidades, pois havia tanta riqueza a explorar, que as instituições e a lei, e pagamento de imposto, pareciam perda de tempo. Os imigrantes lá chegaram sem o desejo de se tornar argentinos, ao contrario do que ocorreu com o Brasil e os Estados Unidos. E inventaram sua própria filosofia, uma mistura de nacionalismo, romantismo, fascismo, socialismo, atraso, progresso, militarismo, erotismo, fantasia, música, tristeza, irresponsabilidade e repressão. Não podia dar certo. E termina, com um “Chora por mim, meu nome é Argentina, e sou muito rica para o meu próprio bem”. Finalizando com “a esperança é difícil de ser extirpada dos corações humanos, mas a Argentina vem fazendo o possível nesse sentido”.

Sou otimista. As nações são permanentes. Tenho certeza de que a Argentina encontrara seu destino e que todos esses males ficarão na história.