Meu pai foi assim recebido quando perguntou a um policial onde ficava a fila da sua seção eleitoral: “Vamos comigo. Sucata não entra em fila”. Bem humorado, acompanhou o policial, votou e agradeceu a orientação. Notou, claro, que não havia intenção de magoá-lo. Era ignorância mesmo

Um amigo dizia: a velhice é uma dádiva de Deus, mas ser velho é uma m.... Não sou pessimista e sempre discordava dele. Continuo discordando. Mas, não deixava de ter uma certa razão.

Usam uma linguagem cosmética para rotular os velhos. Idosos, melhor idade, sênior, terceira idade. Há também a linguagem depreciativa: caduco, gaga, superado e, claro, sucata.

Na realidade, a medida que os anos passam, você começa a sentir sua queda física. Cada dia que passa, um pouco mais de resistência e força se esvai. Levantar ao acordar começa a pesar. Seu corpo não responde com a rapidez de sempre. Sua mente começa a divagar e o esquecimento começa a dominar. Não há muito que se possa fazer. Resistir, lutar, enfrentar. É o que faço todos os dias. “Never surrender”, nunca se entregue, como dizia Churchill. É o meu lema.

Há poucos dias, assisti um filme belo, mas dramático. Foi escolhido como melhor filme estrangeiro para o “Oscar”. O diretor é o austríaco Michael Haneke; os atores são Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant, com performances excepcionais. Presente de um amigo, pois não está no circuito cinematográfico. Pelo menos não até agora. Francês, “Amour”. Resumindo: um casal de idosos, vivendo bem, num belo apartamento em Paris. Ela, professora de piano, com vários alunos laureados e no circuito de concertos. Ele, também musicista e professor. Em redor dos oitenta, ambos. Ela, sofre um AVC e fica semi-paralitica. Ao voltar do hospital, roga-lhe que não a interne, nunca. Ele promete e se esforça para atendê-la. A situação de saúde dela piora a cada dia. Aumenta a paralisia, começa a perder a voz e a vontade de viver. O sofrimento é cada dia maior. Ele, cada vez mais angustiado. O sofrimento dela o afetava sobremodo. Chega um momento crucial, ela já totalmente fora do mundo. Como vocês podem querer ver o filme, digo apenas que o final é trágico. Filme triste, pesado, mas a realidade da vida.

Essa é uma realidade, sim, e do dia-a-dia. Vemos, mesmo entre nós, casos parecidos. Também em casos assim, devemos nos preparar mentalmente, pois estamos todos sujeitos à problemas semelhantes.
Da velhice, a única coisa que me assombra é a doença, que todos sabem ser inevitável. A decisão recente do Conselho Nacional de Medicina, permitindo que o doente terminal decida como quer ser tratado, ou não, é pertinente. Ficar numa cama, vegetal ou quase, por tempo que ninguém imagina, causando problemas aos seus, impensável. Melhor partir, mesmo sem saber para onde. De qualquer forma, o outro lado poderá ser uma surpresa, ou não.