Manter o peso físico, para mim, não é difícil. Mas, quanto ao peso da idade, a coisa já se complica.

Faço um esforço danado. Vou a academia três vezes por semana, por uma hora. De manhã, por volta das oito. Minha alimentação é cuidadosa e sou moderado nas bebidas. Mas, tomo um copo de vinho todos os dias no almoço, que dizem ser bom para o coração. Pode até não ser, mas me faz bem. Tomo um whiskey de vez em quando, às vezes um gin tônico. Afinal, ninguém é de ferro.

Fim de ano, vou com a família para Jacumã, onde temos uma casa há mais de trinta anos. Naquela época, a estrada era péssima, à nossa casa só se chegava a pé ou de bugue. Não tinha energia, nem água, nem telefone. E não havia celular. Quando lá, estávamos fora do mundo. Melhorou, mas falta energia de vez em quando, as operadoras de celular oferecem serviços precários, a internet é um sonho longínquo. Era, e é, uma forma de juntarmos toda a família, e convivermos de perto por alguns dias.

Para manter a fibra, caminho por pelo menos meia hora, quase todos os dias. De preferência, cedinho, antes do sol esquentar demais. Como sou um madrugador, seis e meia, sete horas, já estou na praia. Termino com um banho de mar. A essa hora, a praia está quase vazia, pouca gente.

Quanto todos acordam, por volta das oito, oito e trinta, tomamos café e aí cada um faz o que bem entende. Eu e minha mulher ficamos um bom pedaço num espaço que temos em frente ao mar, conversando e observando o movimento. E aí começam a aparecer os caminhantes retardatários, para mim. Um dos nossos passatempos é tentar identificá-los.

Como estamos a uns duzentos metros da beira-mar, fica difícil identificar fisionomias. Mas, pelas barrigas (algumas enormes), pelo modo de andar, pelas companhias de caminhada, vai ficando relativamente fácil, para nós que estamos há tanto tempo na praia, identificar as pessoas. Confirmadas, depois, quando saímos mais tarde para um banho de mar coletivo e os encontramos.

Daí então, de longe, sabemos quem são as figuras. Barriga menor, passos mais ágeis, fulano. Esguio, passos rápidos, cicrano. Barrigão, lento, acompanhado e num bom papo, com uma figura de barriga mais modesta e passos que visam acompanhar o gorducho, beltrano e cicrano. E como há gente gorda! A gente se diverte e o tempo passa.

Às vezes, aparece uma figura nova, desconhecida, correndo. Atlético, jovem, com uma postura de campeão, vê-se logo que é novato. Aparece num dia e some. Um visitante, pois há algumas pousadas pelos arredores, parece sem muito movimento. Empreendimentos mirabolantes pensados no auge do dinheiro na Europa foram todos por água abaixo. Ficaram os cartazes de propaganda, com Beckman e Antonio Banderas, entre outros.

Como diz um amigo, ainda bem. Já pensou esse bando de gringos, muitos mal educados e metidos à besta, enchendo nossa praia? Eu já não penso assim; seria bom para nossa economia. Mas, os empreendimentos estavam mesmo fora da realidade. Caros, excessivamente luxuosos e pretensiosos. Deu no que deu. E a nossa Jacumã continua como nós gostamos. Tranqüila, sem arroubos maiores, e gostosa.