Fazia tempo que não dava o ar de sua graça. Muito ocupado, desculpou-se o meu extraterrestre preferido, Roberto. Esse mundo de vocês está cada vez pior, disse; e o nosso trabalho, cada vez mais difícil. E sem perspectivas de sucesso. Uma loucura. Tenho viajado, e ultimamente passei um bom tempo no Oriente Médio. O Brasil, comparado com aquela bagunça, é um paraíso. Por isso, andei desaparecido. Mas, arranjei um tempinho e vim lhe dar um abraço. Como vão as coisas?

Ando meio ressabiado. Quando olho ao redor e vejo a bagunça generalizada que vai pelo país, me assombro. Por todos os lados, desentendimentos, brigas, arruaças, confusões e nenhum entendimento, bom senso, inteligência. Fica a pergunta: onde vamos parar? Não sei. Apesar de você dizer que, comparados com os países mulçumanos, somos um paraíso, com o que concordo. Mas, às vezes, penso em fazer como um amigo, que deixou de ver os jornais na TV. Deprimentes. Como não sou avestruz, continuo assistindo. Esses noticiários parecem ter prazer em mostrar o pior do país.

Os protestos, que você deve ter acompanhado, alguns até legítimos, são contaminados pelos vândalos mascarados – e sem o protesto dos não mascarados. Organizações que deviam pensar melhor, algumas delas até bastante representativas, se mobilizam para tirar da cadeia, onde deviam estar, os baderneiros contumazes, alguns já com várias prisões. São soltos antes de serem presos. A Policia, acuada pelas chamadas entidades defensoras dos direitos humanos, e outras que tais, reage mal e quando o faz, por vezes, realmente exagera. Mas, me coloco na posição deles e me pergunto: como eu agiria? Sob pressão, até mesmo com risco de morte em muitos casos, não sei qual seria minha reação. Provavelmente violenta, pelo medo.

No campo político, a inércia total – a não ser quando se trata dos próprios interesses. Próxima eleição, mudanças de partidos, reforma que lhes beneficiam ainda mais, tudo olhando 2014, funciona. E, para nós, aqui de fora, fica difícil entender. Agora mesmo, no nosso Estado, vimos o presidente nacional de um partido intervir numa legenda local, sem qualquer justificativa inteligente, destituindo um presidente escolhido por seus pares e colocando um outro que caiu de pára-quedas, lançado de Brasília. E criou a maior confusão, como teria que ser. O partido em causa provavelmente vai desaparecer, e com razão.

As eleições ocorreram há algum tempo e continuam sendo contestadas. Cassam candidatos eleitos como se fossem simples bandidos (às vezes são). Suspendem tais cassações com a mesma rapidez. Mas, toda essa balbúrdia só contribui para o descrédito generalizado do nossos sistema político e de nossas instituições (ainda existem?).

E não é só o político. O executivo é uma tristeza. Para onde a gente se vira, o desastre impera, a insatisfação se multiplica, e o fim do mundo parece estar na próxima esquina. E o judiciário? Bem, é só ver o comportamento de juízes do STF e nada mais precisa ser acrescentado.

Roberto, diga-me, você ainda tem fé no Brasil? Pois eu lhe digo. Apesar de tudo isso, eu ainda acredito que vamos melhorar. Sou um otimista nato.


Dalton Mello de Andrade é professor universitário aposentado.