Preconceito, quem não os tem? Tive os meus e não os nego. Mas, verdade, os fui perdendo ao passar do tempo e hoje, posso dizer, não os tenho mais. E, quando ainda surgem, os descarto de imediato. A idade trás bom senso em doses maiores, e a gente vai perdendo as besteiras da vida com rapidez. Aconteceu comigo e acho que acontece com a maioria das pessoas.

Um exemplo? Passei um tempo achando que tudo da América Latina era execrável. Não gostava da língua, achava a musica horrível, os povos eram “cucarachas”. Não me perguntem por que. Nem eu mesmo sabia. O tempo me foi mudando. Comecei gostando de boleros, e gostando de dançar ao seu som. Depois, comecei a ler em espanhol – que havia estudado durante um ano no Atheneu, que tinha o curso, no meu tempo, e cujo professor era Paulo Gomes, tio de meu colega Fernando Gomes e meu amigo Moacyr Gomes. Depois, a musica cubana. Fidel quase acaba com ela, mas surgiu um americano , Ry Cooder, que a salvou, com o “Buena Vista Social Club”.
E o tango e a música argentinos, hoje uma das minhas paixões. Que tem gente como Piazzola e o admirável Ariel Palácios, menos conhecido, compositor de uma grande “Missa Criola”, com ritmos e instrumentos do folclore argentino. Esse preconceito idiota ( e qual não é?) desapareceu totalmente quando fui para a Organização dos Estados Americanos (OEA), onde aprendi muito sobre a América Latina, onde soube que o homem da Venezuela era Francisco Miranda e não Bolívar, hoje endeusado por Chávez, e fiz grandes amizades. Além de ter tido a oportunidade de conhecer a maioria dos países. Hoje, sou um apaixonada pela região, e visito especialmente a Argentina e o Chile, sempre que posso.


Toda essa lengalenga é para chegar à Revista Palumbo. Recebi a coleção completa de presente de minha neta, Flávia Urbano de Andrade, jornalista. Foi uma agradável surpresa. Bem feita, ótimas entrevistas, bons artigos e comentários. Tinha ouvido à respeito dela. Tentei até comprá-la quando surgiu. Cheguei a buscar em uma ou duas cigarreiras. Não as encontrei e não insisti. Parte da culpa foi minha, talvez um pouco de preconceito e muita comodidade. Talvez um pouco da culpa seja dos editores – todos muito bons -, mas, aparentemente, falhos no marketing. Recebi o presente já com a notícia de que a revista deixou de circular. Depois de as ler todas, lamento que tenha desaparecido. A Carta do Editor, no último número, não dá qualquer indicação de que aquela seria a revista final. Permito-me especular, dado os poucos anúncios, que o motivo maior deve ter sido financeiro.

Vejam só. Por mínimo que seja, um preconceito pode causar enorme prejuízo. Deixei de conhecer uma excelente revista quando ela surgiu. E, não fosse por minha neta, nunca a teria conhecido e confirmado o valor dos que a fizeram.

– Dalton Melo de Andrade é professor universitário aposentado

– Dalton Melo de Andrade Professor universitário aposentado