NATAL PRESS

A tirania de que se falará aqui não é a política, embora esta deva ser sempre combatida e a ela estarmos atentos. É só olhar ao nosso redor, e a vemos se instalando fortemente em vários países vizinhos.

A tirania da qual vamos falar é a da que usa uma pseudo proteção à nossa saúde e à nossa segurança como argumento. Com essa justificativa, os governos de todo o planeta, e o nosso segue o modelo, vêem tomando medidas coercitivas que tolhem cada dia mais nossa liberdade individual. Nossa liberdade de escolha. E o argumento é o de nossa proteção.

Não é difícil encontrar exemplos. Basta olhar para as medidas anti-fumo mais recentes para se identificar o problema. Não que seja contra essas medidas, mas sim ao seu exagero. Deixei de fumar há quase quarentas anos. Naquele tempo, praticamente não havia medidas coercitivas contra o fumo. Era este livre e permitido em todos os lugares. As carteiras de cigarro não traziam essas mensagens e imagens fantasmagóricas comuns atualmente. Resolvi parar e pronto. Claro, há pessoas que não conseguem abandonar o vicio. Mas, para estas, existem vários tratamentos.
Não que defenda o cigarro. Acho intolerável, talvez até por ser ex-fumante, o cheiro e a fumaça de cigarro. Sou favorável a proibição de cigarros em ambientes fechados. Mas essa restrição ao fumo está atingindo limites que começam a invadir a liberdade individual das pessoas. A última lei promulgada em São Paulo vai às raias do exagero, quando proíbe o fumo até mesmo em áreas de lazer de condomínios. Invasão de privacidade. Parou na porta dos apartamentos.

Mas esse é um exemplo apenas. No transito, temos outra área onde o exagero é patente. Sob o argumento de preservar nossa vida, exigem comportamentos que se podem considerar excessivos. O uso obrigatório de extintor de incêndio nos carros, até onde sei apenas existente no Brasil, e de uma utilidade duvidosa, é um exemplo. Quando há um incêndio num automóvel, a primeira reação é abrir a porta e sair correndo. Poucos têm a presença de espírito e a tranqüilidade para buscar o extintor e utilizá-lo, quase sempre sem maior sucesso. Lembra o kit de primeiro socorros que nos foi exigido, e que de tão ridículo foi rapidamente suspenso.

O uso do capacete pelos motociclistas podem, acredito, evitar algumas mortes. Mas o restante do corpo está totalmente exposto. Além disso, serve para esconder o rosto de possíveis assaltantes.

Discute-se no Senado legislação que tenta "disciplinar" o uso da internet. Pretendem exigir o acompanhamento de todos os acessos dos internautas, dos seus emails, dos sites que visitam. O argumento usado para essas medidas é o mesmo - nossa proteção. Mas é transformar um instrumento que consolida a liberdade de comunicação em um instrumento de controle de nossa individualidade. À exemplo do que faz a China, o Irã, e outros países de regime ditatorial.

Essas e outras medidas semelhantes têm em comum o custo, que todos nós pagamos e que enriquecem uma quantidade indefinida de empresas. Aliás, quando essas medidas são tomadas, é provavelmente certo encontrar um lobby por trás delas.

Mas o pior disso tudo é a invasão de nossa liberdade de escolha, de decisão, sob o argumento antes mencionado, de proteção à nossa saúde e à nossa segurança. E cada medida desse tipo, em que restringem nossa liberdade individual, nosso poder de decisão, nos levará, se não tivermos cuidado e não resistirmos, a um incremento continuado da intervenção do Estado em nossas vidas.

Lembra-me Orwell. Se o sistema de governo e de controle descrito por ele ainda não ocorreu totalmente, essa "boa vontade" do governo na suposta busca de nossa integridade física, saúde e segurança, poderá nos levar ao que ele descreve em seu "1984". Um "Grande Irmão" nos espreitando permanentemente. Há que ficar atento."


DALTON MELO DE ANDRADE é Professor universitário (aposentado). Foi Secretário de Estado da Educação do Rio Grande do Norte



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