O Brasil vive uma onda de protestos. No meu entender, quase todos irracionais. Alguns irritantes. Já não consigo mais agüentar “índios” na TV, com aparência de boa vida e português quase impecável. Alguns, com um sotaque forçado e divertido. E protestando contra coisas importantes para o pais, como a usina Belo Monte. Índios que moram a mais de 800 quilômetros da represa e não serão por ela afetados. Protesto encomendado. Motivação política pura. Ou econômica, encomendada por alguém e de algum lugar para criar dificuldades ao progresso do pais. E continuam invadindo propriedades privadas, cujos donos possuem tais terras há centenas de anos, produtivas.

Ao lado disso, estudantes, alguns verdadeiros, muitos fajutos, protestando nas ruas do país, inclusive em Natal, contra aumento de passagens de ônibus. Muitos usando capuzes, indicação de más intenções. Não sou contra os protestos. Mas sou contra a forma como vêm sendo feitos. Tornam-se arruaças, badernas, destruição de bens públicos e privados, desafio ao bom senso, e perturbação da paz e do direito de ir e vir das pessoas. Total desrespeito ao direito dos outros.
Essa minha reação será condenada por alguns. Tudo bem. Está no seu direito; provavelmente ansioso para tirar o meu direito de me pronunciar contra. Nunca tolerei a baderna, venha de onde vier e seja que motivo tenha. Há meios mais inteligentes, menos danosos, e mais produtivos para conseguir-se resultados. E com o apoio maciço da população. A contrario dos de agora, quando já se vê o povo na TV reclamando contra a anarquia.

Uma coisa boa, para mim, trouxe essa bagunça. É que lembrei-me da Sinfonia n. 45, de Joseph Haydn, conhecida como “Sinfonia da Despedida”. Alguns chamam de “Sinfonia da Saudade”. Mas a tradução, do inglês ou do alemão, é “Despedida”. Em inglês, “Farewell”; em alemão, “Abschieds”. Um protesto contra o seu patrão, o Conde Esterházy.

O Conde tinha por hábito passar os seus verões em sua casa de campo em Esterháza. Nesse verão específico, os músicos estavam reclamando da demora em voltar para Eisenstadt, onde tinham deixado suas famílias.

O que fez Haydn? Escreveu essa sinfonia, cuja movimento final, no Adágio, termina com os músicos deixando de tocar, apagando as velas que iluminavam suas estantes com a partitura, e saindo do palco. Os dois últimos músicos a apagar suas velas e sair do palco foram o próprio Haydn, como condutor e também violinista, e o primeiro violino, Alois Luigi Tomasini. Dos maiores de seu tempo. E o protesto foi entendido. No dia seguinte, o Conde decidiu o retorno à cidade.

Querer comparar um protesto em 1772 com um protesto dos tempos presentes é, e só pode ser, uma brincadeira. Nem é minha intenção fazer essa comparação. Mas, para mim, o protesto de hoje me trouxe à lembrança essa Sinfonia, que recomendo aos curiosos e que gostam de música. É facilmente encontrada no “YouTube”. É só digitar o compositor, o nome e o número da Sinfonia. Protesto inteligente e com resultados.


Dalton Melo de Andrade é professor universitário aposentado