O que tenho lido ultimamente de como anda o cuidado com tudo que é cultura em nosso Estado tem me deixado triste. Claro, nesse meu comentário há que considerar as exceções, que não são muitas.

Das coisas que andam mal, das mais lamentáveis são as que envolvem o nosso Teatro Alberto Maranhão, que continuo chamando de Carlos Gomes. Não gosto dessa troca-troca de nomes, seja por que motivo forem. Alguns, se originam em posições políticas, o que é pior. E sempre me lembro, quando isso ocorre, da resposta que tive, numa reunião no Quirinale (o Itamaraty italiano) da Comissão Cultural Brasil-Itália, do meu tempo da Assessoria Internacional do MEC, quando perguntei por que a coluna em frente ao prédio ainda mantinha o nome de Mussolini. Resposta: bem ou mal, fez parte de nossa história e não há como negá-lo.

Voltemos ao Teatro, que me lembra sempre Meira Pires. Quando fui Secretário de Educação no Governo Cortez Pereira, o Teatro ainda era administrado pela Secretaria e o seu Diretor era Meira Pires. Aliás, foi o mais longevo dos diretores. Havia conseguido ser nomeado diretor vitalício e só deixou a direção quando morreu. Ainda moço.

Logo depois da minha posse, recebi a primeira carta de Meira, que me entregou pessoalmente. Parabenizava-me pela posse e pedia meu apoio ao teatro. Agradeci e disse-lhe de meu apoio irrestrito à sua gestão. Daí em diante, sai dia entra dia, e as cartas de Meira não pararam. Às vezes, as entregava pessoalmente, outras, mandava por um funcionário antigo do Teatro, seu Pedro. Meira gostava de fazer cartas. Enchi uma pasta com elas. Todas, com um único objetivo – apoio ao teatro e manutenção de seu estado físico.

Até pela insistência, sempre o atendi, embora o fizesse mesmo sem as cartas. Um bem como o Teatro não pode ser esquecido. Cheguei ao ponto de pedir ao setor de engenharia que colocasse um estagiário à disposição das coisas do teatro. Como a manutenção era permanente, os custos eram bem menores, pois o prédio estava sempre um brinco. Graças à Meira.

Mas ele exagerava. Com o argumento da conservação, se negava a ceder o Teatro para certas atividades. Quando eu via razão, concordava. Quanto não, insistia e ele, resmungando, aceitava. Foi o que aconteceu com a apresentação da Sinfônica de Porto Alegre, dentro de um programa criado por nós para trazer orquestras à Natal. Ainda não tínhamos a nossa. Se preocupava de que poderia ir muita gente, sujaria o prédio, podiam quebrar cadeiras, danificar os banheiros. Insisti, disse que provavelmente isso não ocorreria, e sempre se podia recuperar o estrago, como sempre se fez. A apresentação foi um sucesso e sem danos.

Quando olho hoje e vejo o descaso com que é administrado o nosso patrimônio cultural, sempre me lembro de Meira Pires. Museu Café Filho, Biblioteca Câmara Cascudo, e não sei quantos outros, vitimas do descaso. O Forte dos Reis Magos está sendo destruído por esse descaso, coisa que os holandeses não foram capazes de fazer com as suas armas.

Será que vamos aprender um dia?