NATAL PRESS

Posso dizer que fui um privilegiado. Não me lembro de ter ido a pé para a escola. Seis, sete anos, já ia de carro para o Colégio Pedro II. Morava em Petrópolis, e o colégio era na Ribeira. Meu pai comprou um carro muito cedo.

Era um Ford 1929, capota de pano, quatro portas. Provavelmente comprado de segunda mão. Resolvia. Dia de chuva, uma novela. Mas, ir a pé era pior. Depois de certo tempo, trocou por um Ford 1936, também capota de pano, quatro portas e também usado. Bem melhor do que o 29. Confortável, mais rápido. Pouco tempo depois, trocou por um Chevrolet 1937, esse já de capota dura. Para a época, carrão. Demorou com ele algum tempo. O interessante é que comprava gasolina em caixas da madeira, com duas latas de 18 litros cada. Os postos eram poucos e distantes. E o preço em caixas era bem menor.

Estourou a guerra, que só nos veio afetar um pouco depois. Em 1940 comprou, à João Bezerra de Melo, seu amigo e distribuidor da Ford, acho que o seu primeiro carro novo – um Ford 1940. Mais moderno, bonito, preto, confortável. Mas, a coisa complicou. Com a guerra, começou o racionamento de gasolina, totalmente proibida a venda à particulares. Sem gasolina, teve que parar o carro, que ficou na garagem em cima de quatro tamboretes até o final da guerra.

Para sorte nossa, tinha uma empresa que construiu quase todos os quartéis do Exército naquela época, com exceção do 16o. RI. Por essa razão, tinha direito a uma cota de combustível para se locomover, o que ajudou. Comprou um Ford 1929 que tinha, nas portas, um desenho com o nome “Construção do 16o. RI”, que era o controlador de todas as construções do Exército em Natal. Depois também foi construir em Parnamirim, o que melhorou sua cota de combustível.

Terminou a guerra. Tirou o Ford 40 dos tamboretes, em ótimo estado e pouquíssimos quilômetros rodados. Passou a usá-lo. Os EUA recomeçaram a produção de carros, nomeou distribuidores em Natal, Bila da Chevrolet, João Bezerra continuou com a Ford, Wandyck Lopes com a Buick. Resolveu comprar um Buick novo, importado para ele. O “bicho” chegou de navio e fomos busca-lo no Porto. Nunca me esqueci. O guindaste tirou uma caixa de madeira enorme, depositou no pátio e os funcionários começaram a abri-la. Dentro, o carrão 1948, duas cores, bonito paca. Meu pai tinha então 42 anos e eu 18, já me enfronhando para tirar a carteira de motorista. Que apressei, para dirigir o carrão.

Daí para a frente, as coisas normalizadas, trocava de carro de vez em quando. E começaram os nacionais. Comprou vários. Lembro-me de um Simca, belíssimo; de um Itamaraty, da Willys (no qual fomos até Curitiba (1967) e demos uma virada de ficar emborcados, com um pneu estourado; felizmente nada sofremos e continuamos a viagem, eu, meu pai, minha mãe, minha mulher e meu filho mais novo); um Corcel esportivo, bacana, e o seu último carro foi um Monza.  Nesses tempos eu já tinha os meus próprios e adorei uma DKW Vemaguete, três cilindros, dois tempos.

Tempos não esquecidos.

Sempre estou pensando. Nem que seja "nonsense".


Dias passados escrevi sobre a passagem do tempo. Sua velocidade estonteante. E disse da minha ansiedade em chegar aos dezoito anos. Nessa ansiedade, embora com menor intensidade, estava minha expectativa em fazer a barba. E, quem sabe, nutrir um bigode. Os pelos custavam a sair mas, em redor dos 17, 18, andei fazendo uma experiência com os apetrechos de barba de meu pai, às escondidas.

Finalmente, pouco tempo depois, fui obrigado a começar a fazer a barba. E aí a preguiça se apresentou firme. Já não fazia a barba todos os dias, e ficava com uma aparência que, me perdoem os que usam barba, para mim era de sujo. Um dia, hospedado em nossa casa, pois era grande amigo de meu pai, Aristides Barcellos, alto funcionário do Banco do Brasil, olhou para mim cedinho pela manhã e perguntou, esqueceu de fazer a barba? Dei uma desculpa esfarrapada, de que se fizesse a barba todos os dias a pele ficava ferida. Deu-me uma resposta definitiva: primeiro, se você fizer a barba todo dia a pele acostuma e depois, essa sua aparência de desleixo desaparece. Encabulado, adotei o seu ensinamento, que vale até hoje. Nem em bigode pensei mais. Especialmente agora, que há uns barbichas por aí fazendo das suas. Sem preconceitos.

Mas, sem duvida, é um ritual cansativo. Uma obrigação chata. Já experimentei tudo quando é instrumento para diminuir a estafa. Comprei barbeadores elétricos de todos os tipos e modelos. Nunca fico satisfeito com os resultados, e sempre retorno à velha e confiável gilete. É a única forma de você deixar a pele macia como bunda de menino, ou menina, novo (sendo politicamente correto).

Quem dizia isso era João Lira, que a maioria de vocês não conheceu ou sequer se lembra. Fiscal das companhias de cinema, acompanhava a freqüência dos cinemas de Natal. Todos os domingos, por exemplo, estava na porta do “Rio Grande”, vendo a entrada e cuidando para que as companhias não fossem passadas para trás. Sempre no seu linho branco Taylor S-120 e barba super bem feita, elegantérrimo. E foi lá que ele me contou essa história de pele lisa como bunda de menino/a novo. João era irmão de Paulo Lira, pianista, de conhecida tradição natalense. Ambos duas belas figuras de nossa cidade.

Por essas razões, e para me sentir bem comigo mesmo, mesmo em casa a maior parte do tempo, faço a barba todos os dias, sem perdão e sem desculpa. E aí posso me olhar no espelho. Sem sustos.

        Vão me chamar de arcaico, conservador, superado. Não importa. O que realmente importa são os valores sob os quais nasci e cresci. Até hoje. E não vejo razões para mudar. Pena que tenham sido gradualmente abandonados.
        Vejam o quadro do Brasil de hoje, transcrito de um editorial do Estadão de hoje (30/9):

“Os resultados da “luta em benefício das causas populares” foram a gastança descontrolada dos recursos públicos, a “nova matriz econômica” que resultou na recessão econômica, no estouro da inflação – que afeta principalmente os mais pobres – e nos mais de 12 milhões de desempregados em todo o País”.

        Desamor à Patria. Podemos tolerar isso? Podemos aceitar que levem o país à bancarrota sem reação? De jeito nenhum. Temos que reagir e buscar modificações que tirem o país dessa crise terrível que nos assola. E que preocupa a grande maioria dos brasileiros sensatos, mas que deixa muito a desejar quando olhamos o cenário político. Embora haja políticos sérios, preocupados com a nação, prontos a apoiar as medidas necessárias para nos tirar desse precipício, há ainda um número de irresponsáveis que pensam apenas em si próprios. E vêm tentando por todos os meios sabotar as iniciativas do governo para enfrentar o problema, à frente os maiores responsáveis pela nossa dramática situação, os antes governo e agora oposição.
        Sou do tempo em que os valores da Pátria estavam acima de tudo. Do tempo em que, no curso primário, cantávamos todos os dias o Hino Nacional ou o Hino à Bandeira, hasteávamos o nosso pavilhão, e tínhamos convicção que assim agíamos por amor ao nosso país. Ainda me emociono quando ouço cantar o nosso Hino, especialmente quando acompanhado por uma Banda Marcial de qualidade. Ainda aprecio um desfile militar garbo e bem organizado, que mostra nossa virilidade e nosso amor pelo país. Hoje, muitos dizem que isso é cafona, alguns dirão que sou um velho superado, que ainda vivo no século passado ou, pior ainda, no século atrasado.
        Enganam-se. Não sou um conservador superado. Entendo que vivemos novos tempos e devemos caminhar com a modernidade. E essa modernidade está nos que buscam e aceitam novas ideais; não a daqueles que ainda vivem nos tempos pré-Muro de Berlim, defendem ideias econômicas superadas, cuja tentativa de implantação nos levaram quase ao caos.
        Em vésperas de eleição, comecemos a mudar essa mentalidade, essa sim superada, e elejamos figuras que se posicionem pelas modificações necessárias e que tragam amanhã, nas eleições federais, pessoas que comunguem com as ideias dos novos tempos, tão esperados e quase destruídos por treze anos de inépcia e irresponsabilidade.

As eleições municipais estão à porta. Antes de mais nada, deixem-me expressar minha admiração pela dedicação dos candidatos, pelas suas preocupações com Natal, seus desejos de resolverem os problemas da cidade, pelo seu interesse em abandonar suas vidas privadas, seus lazeres, pelo sacrifício de seu próprio bem-estar, para cuidar do nosso. Realmente louvável, e causa-me emoção ver suas promessas nos programas eleitorais. Será que há sinceridade nisso?

Vocês já sabem em quem vão votar? Eu não. Sei, e com toda certeza, em quem não vou votar. Nos candidatos do pstu, psol e pt. São partidos ultraconservadores, que querem nos retroceder sessenta anos, nos levando de volta aos tempos de Stalin e suas mazelas. Ainda não tomaram conhecimento da queda do muro de Berlim, das modificações ocorrida na Europa Oriental, do desmanche da União Soviética devido a uma política retrograda, que continuam querendo implantar por aqui, dos novos tempos que surgiram por lá nestes últimos trinta anos. Por coincidência, estava em Colônia, na Alemanha quando da queda do muro em novembro de 1989.

Para sorte nossa, mesmo que não seja brasileiro, Deus olha para o Brasil de vez em quando. Foi o que fez com o impedimento, evitando que Dilma Rousseff, autora de um desastre econômico que nos esmaga, que fez de tudo e tudo faria e fará, para nos levar de volta àquele tempo, continuasse no poder. Os brasileiros, mesmo os políticos, estes pressionados pela sociedade, enxergaram o desastre em andamento e resolveram estancá-lo. Embora pela metade, essa medida nos livrou de um mal maior.

Eliminados os que não merecem o meu voto, fica a dúvida. Em quem votar? Impossível nos basearmos nas propagandas, todas enganosos. Promessas e mais promessas, nenhuma delas com a imprescindível fonte de recursos. Nem os caminhos de como chegar lá. Além disso, se comprometem a iniciativas que não competem ao munícipio o qual, no máximo, poderia ser acessório. Portanto, difícil acreditar nas “bondades” anunciadas.

Como todos sabem, a experiência é essencial à governança. O atual Prefeito recebeu uma Prefeitura sucateada e sem um centavo. Inegável que, diante das circunstâncias, tem feito o possível do impossível. Este não é um comentário de endosso ao atual Prefeito, mas a realidade. Você olha em volta e não encontra ninguém mais preparado para o cargo. Há, e sempre haverá, problemas velhos a enfrentar e novos surgem todos os dias.  Não tenho maiores razões para defende-lo ou recomendá-lo. São as verdades dos fatos, realidade que não pode ser desprezada. Ainda não fiz minha cabeça. Não quero influenciar ninguém. Meu desejo sincero é que cada um de nós faça uma análise consciente antes de sua decisão. Só um pedido, não deixem de votar.

O que tenho lido ultimamente de como anda o cuidado com tudo que é cultura em nosso Estado tem me deixado triste. Claro, nesse meu comentário há que considerar as exceções, que não são muitas.

Das coisas que andam mal, das mais lamentáveis são as que envolvem o nosso Teatro Alberto Maranhão, que continuo chamando de Carlos Gomes. Não gosto dessa troca-troca de nomes, seja por que motivo forem. Alguns, se originam em posições políticas, o que é pior. E sempre me lembro, quando isso ocorre, da resposta que tive, numa reunião no Quirinale (o Itamaraty italiano) da Comissão Cultural Brasil-Itália, do meu tempo da Assessoria Internacional do MEC, quando perguntei por que a coluna em frente ao prédio ainda mantinha o nome de Mussolini. Resposta: bem ou mal, fez parte de nossa história e não há como negá-lo.

Voltemos ao Teatro, que me lembra sempre Meira Pires. Quando fui Secretário de Educação no Governo Cortez Pereira, o Teatro ainda era administrado pela Secretaria e o seu Diretor era Meira Pires. Aliás, foi o mais longevo dos diretores. Havia conseguido ser nomeado diretor vitalício e só deixou a direção quando morreu. Ainda moço.

Logo depois da minha posse, recebi a primeira carta de Meira, que me entregou pessoalmente. Parabenizava-me pela posse e pedia meu apoio ao teatro. Agradeci e disse-lhe de meu apoio irrestrito à sua gestão. Daí em diante, sai dia entra dia, e as cartas de Meira não pararam. Às vezes, as entregava pessoalmente, outras, mandava por um funcionário antigo do Teatro, seu Pedro. Meira gostava de fazer cartas. Enchi uma pasta com elas. Todas, com um único objetivo – apoio ao teatro e manutenção de seu estado físico.

Até pela insistência, sempre o atendi, embora o fizesse mesmo sem as cartas. Um bem como o Teatro não pode ser esquecido. Cheguei ao ponto de pedir ao setor de engenharia que colocasse um estagiário à disposição das coisas do teatro. Como a manutenção era permanente, os custos eram bem menores, pois o prédio estava sempre um brinco. Graças à Meira.

Mas ele exagerava. Com o argumento da conservação, se negava a ceder o Teatro para certas atividades. Quando eu via razão, concordava. Quanto não, insistia e ele, resmungando, aceitava. Foi o que aconteceu com a apresentação da Sinfônica de Porto Alegre, dentro de um programa criado por nós para trazer orquestras à Natal. Ainda não tínhamos a nossa. Se preocupava de que poderia ir muita gente, sujaria o prédio, podiam quebrar cadeiras, danificar os banheiros. Insisti, disse que provavelmente isso não ocorreria, e sempre se podia recuperar o estrago, como sempre se fez. A apresentação foi um sucesso e sem danos.

Quando olho hoje e vejo o descaso com que é administrado o nosso patrimônio cultural, sempre me lembro de Meira Pires. Museu Café Filho, Biblioteca Câmara Cascudo, e não sei quantos outros, vitimas do descaso. O Forte dos Reis Magos está sendo destruído por esse descaso, coisa que os holandeses não foram capazes de fazer com as suas armas.

Será que vamos aprender um dia?

O lançamento do “Meu olhar sobre a Vida” me trouxe muita alegria e muitas recordações. Agradeço a todos que prestigiaram a minha noite e que muito contribuíram para todo esse momento.

A primeira recordação foi para o meu tempo de menino, estudando no Colégio Pedro Segundo. É que minha letra nos autógrafos estava péssima, e deve ter dificultado muito a leitura. Idade, com emoção, pioraram ainda mais letras que já não são boas. Lembrei-me das lições de Caligrafia. Havia um caderno especial, com um exemplo das letras no topo, e que você tinha que reproduzir, numa espécie de pauta, para as maiúsculas e minúsculas. Esse exercício deve ter contribuído para que ainda seja possível ler o que escrevo.

A outra lembrança foi a presença de colaboradores meus na Secretaria de Educação, Governo Corte Pereira. Quarenta anos depois, ainda encontro pessoas ligadas à educação, que recordam minha administração como das melhores. Mas, enfatizo, devo esse sucesso aos meus colaboradores, que escolhi sem interferência política ou do Governador, o que me deu ampla liberdade. E fiz essa escolha de forma sui-generes. O primeiro, escolhi só; mas do segundo em diante escolhi num consenso dos que já faziam parte da equipe. Isso nos deu uma unidade de trabalho que contribuiu muito para o nosso sucesso.

A presença desses meus amigos e colaboradores me trouxe a lembrança meu curso de Mestrado nos EUA. Esse curso me ajudou, e muito, nas tarefas em que me envolvi. E a melhor lição aprendi no primeiro dia de aula, na apresentação do curso, quando o Diretor da Escola foi nos dar as boas vindas. Começou dizendo: “Quem veio aqui pensando em fazer coisas, está no lugar errado, vá para o curso de Engenharia; os que estão aqui para aprender a mandar, estão no lugar certo. É isso que vocês aprenderão aqui”.

Usei essa lição por onde andei. Ao lado disso, também aprendi nesse curso a simplificação de processos e eliminação de burocracia. Que na Secretaria era enorme. O Secretario tinha que autorizar, ele mesmo, as coisas mais simples. E, algumas, ainda precisavam da assinatura do próprio Governador. Uma burocracia maluca, que tratei de eliminar, e consegui, em sua maior parte.

Lembro-me que, na primeira semana, havia uma enorme quantidade de processos que precisavam da assinatura do Governador. Conhecendo Cortez, preparei um decreto me delegando poderes para tudo aquilo e me permitindo delegar poderes internamente. Enchi uma caminhonete com os processos e parei em frente ao Palácio Potengi. Subi, chamei Cortez, mostrei a ele a quantidade de processos para ele assinar, devido a burocracia idiota. Riu muito, como era seu costume, e disse: vamos resolver isso.

A solução eu já trouxe. Está neste decreto, que me delega poderes para assinar tudo e me autoriza a delegar poderes dentro da Secretaria. Assinou na hora, e daí em diante, ele nunca mais assinou um papel, e eu nunca mas assinei um que não fosse realmente importante. Agilizamos nossa atividade, o que sem duvida contribuiu para uma boa administração.

“Meu livro”. Por Dalton Mello de Andrade

 

                O lançamento do “Meu olhar sobre a Vida” me trouxe muita alegria e muitas recordações. Agradeço a todos que prestigiaram a minha noite e que muito contribuíram para todo esse momento.

                A primeira recordação foi para o meu tempo de menino, estudando no Colégio Pedro Segundo. É que minha letra nos autógrafos estava péssima, e deve ter dificultado muito a leitura. Idade, com emoção, pioraram ainda mais letras que já não são boas. Lembrei-me das lições de Caligrafia. Havia um caderno especial, com um exemplo das letras no topo, e que você tinha que reproduzir, numa espécie de pauta, para as maiúsculas e minúsculas. Esse exercício deve ter contribuído para que ainda seja possível ler o que escrevo.

                A outra lembrança foi a presença de colaboradores meus na Secretaria de Educação, Governo Corte Pereira. Quarenta anos depois, ainda encontro pessoas ligadas à educação, que recordam minha administração como das melhores. Mas, enfatizo, devo esse sucesso aos meus colaboradores, que escolhi sem interferência política ou do Governador, o que me deu ampla liberdade. E fiz essa escolha de forma sui-generes. O primeiro, escolhi só; mas do segundo em diante escolhi num consenso dos que já faziam parte da equipe. Isso nos deu uma unidade de trabalho que contribuiu muito para o nosso sucesso.

                A presença desses meus amigos e colaboradores me trouxe a lembrança meu curso de Mestrado nos EUA. Esse curso me ajudou, e muito, nas tarefas em que me envolvi. E a melhor lição aprendi no primeiro dia de aula, na apresentação do curso, quando o Diretor da Escola foi nos dar as boas vindas. Começou dizendo: “Quem veio aqui pensando em fazer coisas, está no lugar errado, vá para o curso de Engenharia; os que estão aqui para aprender a mandar, estão no lugar certo. É isso que vocês aprenderão aqui”.

                Usei essa lição por onde andei. Ao lado disso, também aprendi nesse curso a simplificação de processos e eliminação de burocracia. Que na Secretaria era enorme. O Secretario tinha que autorizar, ele mesmo, as coisas mais simples. E, algumas, ainda precisavam da assinatura do próprio Governador. Uma burocracia maluca, que tratei de eliminar, e consegui, em sua maior parte.

                Lembro-me que, na primeira semana, havia uma enorme quantidade de processos que precisavam da assinatura do Governador. Conhecendo Cortez, preparei um decreto me delegando poderes para tudo aquilo e me permitindo delegar poderes internamente. Enchi uma caminhonete com os processos e parei em frente ao Palácio Potengi. Subi, chamei Cortez, mostrei a ele a quantidade de processos para ele assinar, devido a burocracia idiota. Riu muito, como era seu costume, e disse: vamos resolver isso.

                A solução eu já trouxe. Está neste decreto, que me delega poderes para assinar tudo e me autoriza a delegar poderes dentro da Secretaria. Assinou na hora, e daí em diante, ele nunca mais assinou um papel, e eu nunca mas assinei um que não fosse realmente importante. Agilizamos nossa atividade, o que sem duvida contribuiu para uma boa administração.

 

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Meu amigo Laélio Ferreira me pede para contar uma estória que se atribui à Pelúsio com Dom Eugênio. A presença de Dom Eugênio é uma invenção. Mas a estória não, e vale ser contada.

Um dia, boca da noite, para um carro em frente a casa de Pelúsio e o motorista vem falar com ele. Dr. Pelúsio, Dom Eugênio está convidando o senhor para acompanha-lo numa visita a um doente terminal, ao qual talvez tenha que dar extrema unção, mas gostaria de sua presença. Pelúsio não se fez de rogado; botou a gravata e o paletó e saiu (sempre usava gravata e paletó). A mulher dele, que procurava controlá-lo, observando tudo. Muito religiosa, até ficou feliz com o prestígio do marido. Na volta, coisa das dez horas, Pelúsio salta do carro e diz, em tom um tanto alto: boa noite, Dom Eugênio, estou sempre ao seu dispor. Sabia que a mulher, sempre desconfiada, estava olhando e escutando pelas frestas da janela.

Daí por diante, de vez em quando, esse carro preto parava em frente a casa de Pelúsio, boca da noite, e com a mesma estória. Ele saía e voltava sempre em redor das dez. Não era D. Eugênio coisa nenhuma. Era Manoel Henriques, motorista da praça da Rio Branco, cujo carro de aluguel (taxi surgiu aqui muito depois, era carro de aluguel) era igual ao de Dom Eugênio. Fazia essas escapadas com parcimônia, e a mulher nunca desconfiou.

Aproveito o “momentum” para contar outra estória envolvendo a mulher dele, Nair. Estavam sem empregada e faziam as refeições em Nemésio. Foram atravessar a Rio Branco, e vinha um carro em disparada, do Baldo. Pelúsio segurou o braço de Nair: não vai dar tempo. Ela, sempre voluntariosa, soltou-se e começou a atravessar a rua. Foi atropelada. O motorista parou para prestar socorro (coisa rara hoje em dia) e Pelúsio pediu que os levassem para a Policlínica do Alecrim. O motorista, muito nervoso, perguntou, e agora, doutor? Não se preocupe, você não tem culpa; avisei que não ia dar tempo, mas ela insistiu. Fique tranquilo. O rapaz, aliviado, entregou-lhe o cartão e disse: se precisar de algo, é só telefonar. O acidente não foi muito grave e Nair recuperou-se rapidamente. Um dia, ela ainda no hospital, ele foi almoçar em casa de meus pais. Minha mãe perguntou como estava Nair e ele respondeu: bem, deve ter alta este fim de semana. Eu é que estou muito preocupado. Por que?  Você sabe como ela é braba e agora, que tomou transfusão de sangue de soldado, deve ficar uma fera. Tínhamos um parente que era oficial no 16º R.I. e conseguiu uns soldados para uma transfusão. Mamãe reagiu, você não tem jeito.

E tem a das bandeiras. Campanha de Dinarte e Aluízio, a cidade cheia de bandeiras verdes e vermelhas. A rua de Pelúsio, a Apodi, praticamente com todas as casas embandeiradas. Menos a dele. Um vizinho amigo o procurou. Dr. Pelúsio, a única casa que não tem bandeira na nossa rua é a do senhor. Meu caro, não esqueça, eu já sou casado com uma Bandeira. Acha pouco?

“Pelúsio, de novo”. Por Dalton Mello de Andrade

 

                Meu amigo Laélio Ferreira me pede para contar uma estória que se atribui à Pelúsio com Dom Eugênio. A presença de Dom Eugênio é uma invenção. Mas a estória não, e vale ser contada.

Um dia, boca da noite, para um carro em frente a casa de Pelúsio e o motorista vem falar com ele. Dr. Pelúsio, Dom Eugênio está convidando o senhor para acompanha-lo numa visita a um doente terminal, ao qual talvez tenha que dar extrema unção, mas gostaria de sua presença. Pelúsio não se fez de rogado; botou a gravata e o paletó e saiu (sempre usava gravata e paletó). A mulher dele, que procurava controlá-lo, observando tudo. Muito religiosa, até ficou feliz com o prestígio do marido. Na volta, coisa das dez horas, Pelúsio salta do carro e diz, em tom um tanto alto: boa noite, Dom Eugênio, estou sempre ao seu dispor. Sabia que a mulher, sempre desconfiada, estava olhando e escutando pelas frestas da janela.

Daí por diante, de vez em quando, esse carro preto parava em frente a casa de Pelúsio, boca da noite, e com a mesma estória. Ele saía e voltava sempre em redor das dez. Não era D. Eugênio coisa nenhuma. Era Manoel Henriques, motorista da praça da Rio Branco, cujo carro de aluguel (taxi surgiu aqui muito depois, era carro de aluguel) era igual ao de Dom Eugênio. Fazia essas escapadas com parcimônia, e a mulher nunca desconfiou.

Aproveito o “momentum” para contar outra estória envolvendo a mulher dele, Nair. Estavam sem empregada e faziam as refeições em Nemésio. Foram atravessar a Rio Branco, e vinha um carro em disparada, do Baldo. Pelúsio segurou o braço de Nair: não vai dar tempo. Ela, sempre voluntariosa, soltou-se e começou a atravessar a rua. Foi atropelada. O motorista parou para prestar socorro (coisa rara hoje em dia) e Pelúsio pediu que os levassem para a Policlínica do Alecrim. O motorista, muito nervoso, perguntou, e agora, doutor? Não se preocupe, você não tem culpa; avisei que não ia dar tempo, mas ela insistiu. Fique tranquilo. O rapaz, aliviado, entregou-lhe o cartão e disse: se precisar de algo, é só telefonar. O acidente não foi muito grave e Nair recuperou-se rapidamente. Um dia, ela ainda no hospital, ele foi almoçar em casa de meus pais. Minha mãe perguntou como estava Nair e ele respondeu: bem, deve ter alta este fim de semana. Eu é que estou muito preocupado. Por que?  Você sabe como ela é braba e agora, que tomou transfusão de sangue de soldado, deve ficar uma fera. Tínhamos um parente que era oficial no 16º R.I. e conseguiu uns soldados para uma transfusão. Mamãe reagiu, você não tem jeito.

E tem a das bandeiras. Campanha de Dinarte e Aluízio, a cidade cheia de bandeiras verdes e vermelhas. A rua de Pelúsio, a Apodi, praticamente com todas as casas embandeiradas. Menos a dele. Um vizinho amigo o procurou. Dr. Pelúsio, a única casa que não tem bandeira na nossa rua é a do senhor. Meu caro, não esqueça, eu já sou casado com uma Bandeira. Acha pouco?

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    Com essa decisão esdruxula do Reino Unido, intitulado de “Brexit”, em que votaram para se separar da Europa, fiquei tão assombrado que resolvi evocar uma alma para ver se encontrava uma explicação. E só uma teria condições de responder as minhas dúvidas. O velho Churchill.


    Achei que ele não iria me atender. Afinal, não o conhecia pessoalmente, nunca conversamos, nunca tivemos qualquer ligação. Foi um cara importantíssimo durante a II Guerra, sempre super ocupado, e não tinha tempo para conversar com um menino, o que eu era naquela época. E eu não era idiota em procura-lo. Ele estava lá, no Reino Unido, tentando enfrentar a sanha nazista, no começo só, depois ajudado pelos americanos, imprescindíveis na vitória final. Eu, aqui em Natal, acompanhando os acontecimentos, pelo rádio, jornais e revistas, e pela presença dos americanos por aqui. Mas, com essa decisão, para mim sem nexo, arrisquei incomodá-lo.


    Para minha surpresa, agradável surpresa não fossem as circunstâncias, concordou em conversar comigo. A primeira pergunta que fiz, óbvia, foi: como o senhor explica isso; é possível aceitar essa decisão?


    Meu filho, isso é uma loucura. Tenho observado você a algum tempo e vejo que leu meus livros. Leu pelo menos os principais. E você conhece minha opinião. Desde que terminou a guerra, me dediquei em tentar unir a Europa. Um dos meus primeiros discursos, na Suíça, poucos anos depois do fim da guerra, foi sugerindo a criação dos Estados Unidos da Europa, à semelhança dos EUA. Vi com alegria a aproximação da França e Alemanha, com o acordo do Carvão e do Aço, trabalho inteligente iniciado por Robert Schuman e Jean Monnet. Isso ocorreu em 1952 e partiu daí a formação do CEE (Comunidade Econômica Europeia) que evoluiu para o que temos hoje.


    Mas, confesso, isso não me surpreendeu muito. Se você fizer uma análise desapaixonada dos últimos anos do Reino Unido, e do resto da Europa, verá que o padrão dos governos caiu muito. Não gosto de dizer, pois parece que estou me promovendo. Mas, depois do meu governo, só recordo uma pessoa que bem dirigiu os destinos do país, a Primeira Ministra Margareth Thatcher. Os demais, antes e depois dela, diria eu, talvez exagerando, não tinham talento nem competência para a função. Talvez se possa incluir Tony Blair no rol dos aproveitáveis. E não vejo mais ninguém. Se exagero, que me perdoem. Mas, é o que sinto.


    E o futuro, perguntei? À Deus pertence, respondeu, mas isso não o preocupa. Estou aqui, perto dele, e ele anda muito ocupado com outros problemas, que para ele são mais sérios e urgentes, para dar muita bola para isso. Quer acabar com a fome, as guerras, o sofrimento de boa parte da humanidade. Isso lhe toma todo o tempo. Paciência. Sempre há esperança e vamos ver se a Europa e o Reino Unido se resolvem, de uma forma ou de outra. É o que desejo. E como você gosta de dizer, bola pra frente que o Real Madrid não é de nada, com o que concordo, pois torço pela Manchester United.

“Churchill”. Por Dalton Mello de Andrade

 

                Com essa decisão esdruxula do Reino Unido, intitulado de “Brexit”, em que votaram para se separar da Europa, fiquei tão assombrado que resolvi evocar uma alma para ver se encontrava uma explicação. E só uma teria condições de responder as minhas dúvidas. O velho Churchill.

                Achei que ele não iria me atender. Afinal, não o conhecia pessoalmente, nunca conversamos, nunca tivemos qualquer ligação. Foi um cara importantíssimo durante a II Guerra, sempre super ocupado, e não tinha tempo para conversar com um menino, o que eu era naquela época. E eu não era idiota em procura-lo. Ele estava lá, no Reino Unido, tentando enfrentar a sanha nazista, no começo só, depois ajudado pelos americanos, imprescindíveis na vitória final. Eu, aqui em Natal, acompanhando os acontecimentos, pelo rádio, jornais e revistas, e pela presença dos americanos por aqui. Mas, com essa decisão, para mim sem nexo, arrisquei incomodá-lo.

                Para minha surpresa, agradável surpresa não fossem as circunstâncias, concordou em conversar comigo. A primeira pergunta que fiz, óbvia, foi: como o senhor explica isso; é possível aceitar essa decisão?

                Meu filho, isso é uma loucura. Tenho observado você a algum tempo e vejo que leu meus livros. Leu pelo menos os principais. E você conhece minha opinião. Desde que terminou a guerra, me dediquei em tentar unir a Europa. Um dos meus primeiros discursos, na Suíça, poucos anos depois do fim da guerra, foi sugerindo a criação dos Estados Unidos da Europa, à semelhança dos EUA. Vi com alegria a aproximação da França e Alemanha, com o acordo do Carvão e do Aço, trabalho inteligente iniciado por Robert Schuman e Jean Monnet. Isso ocorreu em 1952 e partiu daí a formação do CEE (Comunidade Econômica Europeia) que evoluiu para o que temos hoje.

                Mas, confesso, isso não me surpreendeu muito. Se você fizer uma análise desapaixonada dos últimos anos do Reino Unido, e do resto da Europa, verá que o padrão dos governos caiu muito. Não gosto de dizer, pois parece que estou me promovendo. Mas, depois do meu governo, só recordo uma pessoa que bem dirigiu os destinos do país, a Primeira Ministra Margareth Thatcher. Os demais, antes e depois dela, diria eu, talvez exagerando, não tinham talento nem competência para a função. Talvez se possa incluir Tony Blair no rol dos aproveitáveis. E não vejo mais ninguém. Se exagero, que me perdoem. Mas, é o que sinto.

                E o futuro, perguntei? À Deus pertence, respondeu, mas isso não o preocupa. Estou aqui, perto dele, e ele anda muito ocupado com outros problemas, que para ele são mais sérios e urgentes, para dar muita bola para isso. Quer acabar com a fome, as guerras, o sofrimento de boa parte da humanidade. Isso lhe toma todo o tempo. Paciência. Sempre há esperança e vamos ver se a Europa e o Reino Unido se resolvem, de uma forma ou de outra. É o que desejo. E como você gosta de dizer, bola pra frente que o Real Madrid não é de nada, com o que concordo, pois torço pela Manchester United.

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O meu bureau nunca teve um pedaço de papel solto em cima dele. Outros acumulam tanto papel, que você não vê nem a mesa. Questão de estilo. Sempre fui assim. Poderia até não ser eficiente, mas quem via minha mesa achava que eu era o tal.

Por todos os lugares que andei era assim. O último foi na UFRN. Quando assumi a função de Pró-Reitor encontrei uma quantidade de processos em andamento. Dei prosseguimento àqueles que julguei necessários. Nesse meio, encontrei uma penca de processos para contrato de professores visitantes, muitos estrangeiros. Estava na moda. Como não julguei que houvesse pressa, os guardei na pasta “assuntos que o tempo resolverá”. E fiquei esperando que os proponentes viessem reclamar a demora. Estive por lá dez anos e nunca apareceu alguém com essa reivindicação.  Tinha mais duas pastas: uma para assuntos resolvidos, outra para assuntos que dependem de um pouco de tempo para resolver e essa, para “assuntos que o tempo resolverá”. Não é invenção minha. Aprendi com um amigo, que garantiu sua utilidade. E que confirmei.

Havia uma quantidade de professores visitantes. Alguns muito contribuíram para a UFRN. Outros, nem tanto. Havia um alemão, na área de engenharia mecânica, que inventou uma máquina que, ao final, parecia um fogareiro daqueles que você comprava na feira do Alecrim por um vintém furado. A mulher jogava tênis, e bem. Quando terminou o contrato e ele foi embora, não deixou saudades, mas os companheiros de tênis dela sentiram sua ausência.

João Rodrigues, da Livraria Internacional, era meu amigo. Aparecia por lá no final do dia, para bater um papo, ver se havia algum livro novo. Ele sempre estava atarefado, e o seu bureau sempre cheio de papéis. Certo dia, o encontrei esbaforido, revirando os papéis que estavam em cima da mesa e perguntei: Perdeu algum documento, o que está procurando? E ele: minha máquina de escrever, está perdida aqui no meio desses papeis. Continuou procurando e achou a máquina. Uma dessas Olivetti pequenas que acho se chamava “Lettera”.

Uma outra estória muito boa aconteceu no Pentágono. Um capitão da Marinha vivia assoberbado, mesa cheia de papeis, e tinha que chegar muito cedo e sempre saía mais tarde que os outros. O vizinho de mesa chegava na hora, saía na hora, e não tinha uma só folha de papel no bureau. Um dia, não resistiu e perguntou o que ele fazia para ser tão eficiente. Respondeu; muito simples; não há uma base que não tenha um Capitão Smith. O que chega na minha mesa, eu despacho: ao Capitão Smith. E o outro, eu sou o Capitão Smith!

É tudo uma questão de eficiência, coisa cada vez mais rara.

Natal, antes e durante a II Guerra, quase até o seu final, só tinha comunicações com o resto do país por meio de cabotagem. Cabotagem, para quem não se lembra, é a ligação feita por navios entre portos nacionais.
 
Naquele tempo, o porto de Natal sempre tinha dois, três navios ancorados e havia uma escala normal. Os navios de passageiros, os famosos Itas da Costeira e os Lloyds, faziam escalas anunciadas, com datas que eram antecipadas e cumpridas, e permitiam que você se programasse. A partir de 1944/1945, caminhões começaram a fazer a ligação de Natal com o Sul. E as mercadorias, que vinham de navio, passaram a ser transportadas por via terrestre, mais baratas e eficientes. A ameaça dos submarinos, que afundaram navios brasileiros, teve forte influencia nessa modificação. Depois da guerra ainda continuaram por algum tempo.
Fiz algumas viagens de navio, a primeira delas de Natal à Recife, num Ita. Depois fui para o Rio (1949) e, quando estudava em Maceió, fiz muitas viagens para lá. Era a forma mais fácil, rápida, confortável e econômica de viajar. Depois surgiram os aviões em maior quantidade e a preços razoáveis.
 
Para ir à Recife, que era mais difícil do que ir à Europa hoje (e era), se tinha três opções: navio, trem e ônibus. A mais rápida e confortável era de navio. Você saía daqui ao anoitecer e amanhecia em Recife. De trem, saía as cinco da manhã e, se estivesse dentro do horário (e nunca estava), você chegava as nove da noite. E ônibus, sem estradas que prestassem, dependia da sorte. A mais famosa viagem terrestre era pela “marineta de Chaveta” (uma espécie de van), que poderia levara de 12 a 24 horas, dependendo e chovia ou não.
 
Fiz essa viagem por todos esses meios. Lembro-me da minha primeira viagem à Recife, de trem, que milagrosamente chegou no horário. Fui com meu pai e minha mãe assistir a formatura de meus tios Protásio e Pelúsio, em 1936. Recordo a macarronada que comemos no vagão restaurante, com queijo do reino ralado e um pãozinho quente com mantegia; nunca esqueci. Fui de navio algumas vezes, a viagem mais confortável e com chegada prevista e obedecida. E fui algumas vezes na marineta de Chaveta. Numa dessas viagens, chovendo, estradas enlameadas e escorregadias, rio Mamanguape cheio que não permitia sua travessia (não existia ponte), fomos por Sapé, o que aumentava as horas de viagem. Levamos umas 12 horas.

O “Rio das Antas” foi um dos últimos navios cargueiros de cabotagem com destino à Natal. Vinha de Porto Alegre, com escala em Santos e no Rio. Muitos comerciantes de Natal tinham mercadorias para receber por esse barco. Nosso escritório de representações tinha vários conhecimentos de mercadorias embarcadas nesse navio (conhecimento era o documento que confirmava o embarque da mercadoria e permitia sua retirada do porto).
 
Esse navio praticamente desapareceu. A última notícia que se teve dele foi a internação em Ilhéus, que não estava em sua rota e onde parou para reparos. Daí em diante, nunca mais houve notícias da continuação de sua viagem e nunca chegou aqui. E virou motivo de piada. Quando você procurava uma mercadoria qualquer e não encontrava, surgia a pergunta: vinha no “Rio das Antas”?
 
Pode-se afirmar, sem dúvidas, que esse navio marcou a vitória dos caminhões sobre os navios, no transporte de mercadorias do Sul para cá. Frete mais barato, entrega de porta a porta, recebimento de indenizações por danos, imediata (era descontado do frete a ser pago) e cada vez mais rápido e seguro, à medida que melhoravam as estradas.


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