NATAL PRESS

Por sua vez, ele lia parágrafos de Anais no piloto automático, sem concentrar realmente no texto. Com o chamado "rabo do olho", prestava atenção aos movimentos dela. Sempre fora fascinado com a forma como ela se movia, como ela segurava com as duas mãos a xícara de café, como se fosse um filhote desprotegido; a maneira como arregalava e cerrava os olhos diante de uma alegria ou contrariedade. Era uma mulher de movimentos contidos, delicados, como uma gueixa morena e pós-moderna. Mas, essa contenção de gestos não chegava à cama... Naquele espaço retangular e místico, ela se tornava polvo, sereia, Medusa, Messalina e ao pensar nisso, tentou se concentrar na leitura para que ela não desconfiasse de seus devaneios.

Contudo, ela sabia muito bem que ele estava lendo mecanicamente, já havia - após tantas leituras, tantos gemidos e sussurros - aprendido a diferenciar as modulações da voz dele. Sabia que ele estava olhando para ela e isso a excitava. Conhecia bem seu corpo e, talvez até mais que sua pele, os efeitos que o homem ao seu lado causava em sua libido. Jamais esquecera a primeira vez que fizeram amor, história que parecia saída de um romance (erótico, claro). Após se conhecerem no sarau, ela telefonou para ele e marcaram um encontro para ela mostrar a ele seus escritos. Escolheu aqueles que jamais mostrara a ninguém e não sabia porque diabos iria mostrar justamente a um desconhecido.

Encontraram-se em um barzinho no centro boêmio da cidade. Ele queria um café, ele pediu uma cerveja. Conversaram sobre a vida, o tempo, os livros que estavam lendo, os casamentos e as separações de cada um. Ele não tirava os olhos das mãos dela, delicadas, como de uma boneca, nervosas, tamborilando na mesa de metal. Ela se fixava na barba mal feita dele e quando ele virava o rosto para chamar o garçom ela se detinha na nuca dele. Apertou as pernas, o que era um sinal inequívoco de seu corpo indicando que estava em vias de se excitar. Cada frase fosse sobre cinema, família, zodíaco ou as taxas de juros do Banco Central pareciam carregar uma eletricidade erótica. Ela se afogueava com a voz dele e as mãos gesticulando como se estivesse regendo uma orquestra. Ele, começava a se abrasar com os olhos dela se apertando como se estivesse tentando ler um texto em letras miúdas, e com os gestos contidos, intimistas. Ele citou um livro de Vargas Llosa (escritor que ela amava e cuja vertente erótica conhecia desde a adolescência) e prometeu emprestar a ela. Era a chance que ela estava esperando. Propôs que fossem ao apartamento dele, ali mesmo no Centro, pegar o livro, já que viajarei depois de amanhã e não sei ao certo quando volto, disse ela. Oh, claro, não se deve deixar para amanhã o que se pode fazer hoje!, Concordou ele, entrando no jogo. Terminaram as bebidas e rumaram para a quitinete dele, duas ruas dali. O lugar era de certa forma arrumado - mais do que ela poderia imaginar tratando-se de um homem sozinho - e de outra, completamente anárquico, com pôsteres colados nas portas em paredes e livros empilhados sobre outros livros, como se brotassem pela casa. Aquilo a atraiu e quando ele propôs abrirem um vinho, ela aceitou na hora. Brindaram e continuaram conversando, sobre tudo e sobre nada. Até que ela pediu para ver um livro de cara preta no alto da estante - parecia de Poe - e subiu no banquinho. Cuidado!, ele disse, mas, ela nem ligou, além de ser ousada, gostou da sensação de atiça-lo subindo os degraus (qual seria o efeito em ele vê-la de baixo para cima?...) quando pegou o livro (não era Poe, mas, um livro sobre a Wicca) distraiu-se olhando outros volumes e o pé deslizou na madeira do tamborete, de maneira que - levando consigo duas dúzias de livros - caiu no chão de forma atabalhoada. Ele, tentando aparar a queda dela, caiu também ao chão. Atônitos, deitados sobre livros e um pouco doloridos, se perguntaram mutuamente se estavam bem. Antes que respondessem, ela aproximou o rosto do dele e o beijou (queria fazer aquilo havia horas, desde que se encontraram no bar...). Aprovou o sabor do beijo dele, a forma de movimentar a língua em sua boca, a rispidez do bigode e da barba, e, excitada com a forma como - mesmo entre os livros abertos - ele a segurava com os braços, pela nuca e pela cintura, começou a desabotoar a blusa. Ele desvencilhou-se também da dele e começou a beijá-la o corpo inteiro, detendo-se nos vãos e fendas, até que ela não aguentou mais e pediu que ele entrasse nela. Fizeram amor rápida e furiosamente, em meio a Saramagos, Jorge Amados e sob as bênçãos de Florbela e Hilda Hilst.

Recordando aquilo tudo, ela sentiu o formigamento no corpo, em especial no meio das pernas, e constatou que estava molhada. Ele, olhando fixamente para ela, também recordou o que acontecera. Despediram-se prometendo um reencontro, que não aconteceu. Ele teve de viajar, a trabalho, durante quase um ano e não se preocuparam em manter contato, por negligência ou esperança que se encontrassem por acaso, em um passe de mágica. Neste tempo, ela se casou. Retornando à cidade, ele soube do novo estado civil dela e terminou por se casar também, com uma namorada da adolescência que também voltara a morar na cidade.

Foi em um lançamento literário, como era para ser, que se reencontraram. Olharam-se, cumprimentaram um ao outro e sentiram, como se ensaiado, a mesma sensação, de um fogo interior. Estavam ambos sozinhos (a esposa dele, trabalhando, o marido dela se entediava em eventos literários) de maneira que combinaram se encontrar.

Daquela vez, ela propôs um restaurante afastado da cidade, em parte por discrição (eram ambos casados), em parte por romantismo. Surpreendeu-se em vê-lo chegar bem arrumado e barbeado. Conversaram como se não tivesse se afastado mais que um final de semana. Riram, contaram histórias picantes, comeram ostras e beberam vinho branco. Por fim, ele revelou que estava morando em uma casa de praia, ali perto. Ela propôs que ele emprestasse alguns livros (momento em que ele não conteve um sorriso malicioso) e foram para lá. Era igualmente organizada e anárquica, mas, com uma decoração mais elaborada e rústica. Ele serviu um licor de pequi e ela pediu para ver a biblioteca dele, ao lado do quarto de dormir. Qual mesmo o livro que você quer emprestado?, ele perguntou. Delta de Vênus, de Anais Nin!, Respondeu ela.

E lá estavam ali de novo, entre livros e aquela eletricidade pelo ar. Ele fechou o livro. O que virá agora?, Pensou ela. Já sei, ele vai me olhar nos olhos, dizer que eu estou linda, que morre de tesão por mim, que eu pareço saída de um romance libertino do século 17, aí ele vai abaixar as alças do meu vestido e como estou sem sutiã, vai beijar meus seios, do jeito que eu gosto, mordiscando os mamilos e puxando-os, de maneira que fiquem um pouco doloridos... depois vai se abaixar, levantar a parte de baixo do meu vestido e vai ver que estou de calcinha preta de renda, que ele adora, vai abaixa-la e vai enfiar-se, boca e nariz, no meio das minhas pernas de maneira que vou senti-las bambas, e depois vai me deitar no chão suavemente, tirar a roupa (ele sabe que eu adoro vê-lo tirando a roupa lentamente), me beijar inteira, inteira, onde homem algum me beija, depois vai deixar que eu faça o mesmo nele, para, por fim, entrar em mim e me dar prazer, um prazer alucinado que eu só sinto com ele... ai meu deus!...

Tenho uma coisa para te dizer, disparou ele, os olhos faiscando: Você está linda!...



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